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Sunday, March 23, 2014

Deu-me para ser bebé, agora... querem ver? (Das mantinhas)


Cada um tem as suas manias, mas arrisco-me a dizer que poucas coisas encerram tantas particularidades como a maneira individual de dormir. Para essa função tão natural, tão inevitável e comum desde que o mundo é mundo, o ser humano reserva-se as maiores esquisitices. Uns só dormem de janela aberta, outros precisam da ajuda de soporíferos, outros têm de descansar com a cabeça voltada para uma direcção qualquer - podia mesmo falar-vos de uma actriz muito conhecida da nossa praça, não digo nomes porque sou uma pessoa do mais discreto que há e era só o que faltava, que depois de uma festa se virou para os presentes com o ar mais desamparado deste mundo e se mostrou muito espantada por o manager encarregado da organização do evento não lhe ter designado companheira de quarto para essa noite, tendo-lhe sido reservado um quarto single.

Entreolhámo-nos todos e ninguém pensou mais no caso até à manhã seguinte - quando se percebeu que nada havia de pouco decente ou excêntrico no estranho pedido da menina. Tratava-se apenas de um medo horrível do escuro - o que a obrigava  a deslocar-se sempre com dama de companhia (ou a desencantar uma onde fosse possível) fazendo de cada passeio uma festa do pijama. A gaffe da produção teve como resultado a pobre coitada não pregar olho.

Há mesmo quem fique angustiado antes de viajar, porque não consegue conciliar o sono sem ser na sua própria cama, o que sempre me pareceu esquisitíssimo porque poucas coisas são tão agradáveis como as almofadas e os lençóis de um bom hotel, tornados mais macios por tanta lavagem industrial. Se forem de algodãozinho egípcio melhor ainda mas a novidade, a cama pensada e feita por profissionais e o simples facto de estar num sítio diferente - e geralmente com a perspectiva de alguma coisa divertida para o dia seguinte - são mais que suficientes, a meu ver, para convidar a um sono reparador.

Isto SE - e tinha de haver aqui um "se", estava-se mesmo a ver - a cama incluir uma colcha bem fofinha mas mais do que fofinha, espessa e pesada, daquelas de deixar uma pessoa presa lá debaixo. Pronto, aqui está a minha esquisitice. Não tenho problemas se o colchão ou o quarto é mais assim ou mais assado, por uma vez está tudo bem, mas se as mantas forem leves (independentemente da temperatura que estiver) não sou capaz de dormir decentemente. A minha ideia de sono reparador é fazer de mim própria um crepe ou uma múmia. Posso estar a cair de sono - de carro, de comboio, de avião - mas se não me puder embrulhar em alguma coisa, e de tecido consistente, prefiro fazer directa.

Eu explico: é que quando eu era pequena a minha avozinha, sempre com medo das constipações, atabafava-nos ( a mim e às minhas primas) com quantos cobertores havia, e punha mais duas ou três mantas de algodão por cima, rematando o trabalho com uma deliciosa colcha de retalhos, sem se esquecer de "trancar" a cama com não sei quantas almofadas e travesseiros. Sempre que fazíamos sleep overs lá em casa, dormíamos nesta espécie de fortaleza. E eu que não era menina de sestas dormia que nem um anjinho, para terror da mãe que achava que íamos mas era morrer sufocadas. Ficou a mania e em parte por isso, em parte porque gosto de colchas vintage decorativas, já tenho uma bela colecção de cobertas-cobertor em veludo, cetim e pêlo à moda de Dorian Gray, daquelas em cores delicadas e padrões que aparecem nas obras- primas italianas, espalhadas pelo chão:



"As the door closed, Dorian put the key in his pocket and looked round the room. His eye fell on a large, purple satin coverlet heavily embroidered with gold, a splendid piece of late seventeenth-century Venetian work that his grandfather had found in a convent near Bologna (...)"


 Oscar Wilde, Picture of Dorian Gray, cap. X


 E à medida que os hábitos se vão solidificando, já dei por mim a recomendar mantas extra à recepção quando vou a alguma parte. Pelo andar da carruagem, porque não há que fiar nas roupas de cama super leves dos hotéis climatizados, tenho de começar a fazer como os bebés e andar por aí com a minha própria mantinha. Há quem carregue peluches, a mim dá-me para isto. Enfim, o ridículo de cada um é o ridículo de cada um, direito inalienável e inatacável...


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