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Saturday, March 15, 2014

Ninguém se mete com os pais digitais.


Cuidado. Eles estão armados de chuchas e fraldas malcheirosas e muitos insultos. E não têm medo de sacar dos argumentos da "mal amada, sem coração, encalhada e ressabiada" contra quem cometa o sacrilégio de dizer que se calhar, só se calhar, não tem lá muita graça nem é muito sensato bombardear os amigos do Facebook com todos os instantâneos íntimos da criança que a cegonha lhes trouxe. E se a jornalista (ou blogger) for mulher, pior ainda: de frustrada a desalmada, leva rodas de tudo. 

Foi o que aconteceu com Sofia Anjos, que teve a lata (ou a imprudência) de escrever no Público contra os chatos dos pais digitais. Um ponto pela lata, porque na era do Politicamente Correcto, da Infância Sacrossanta e dos Pequenos Preciosos  Ditadores haver alguém que diga o que pensa é um milagre;  mas apesar de o texto não ser, aos meus olhos pelo menos, especialmente cáustico,  levantou-se uma poeirada de pais em histeria, a acusar a autora de "deitar abaixo o amor sagrado entre pais e filhos". É que - lo and behold!- agora o amor sagrado entre pais e filhos mede-se pela quantidade de status, retratos e posts no Facebook. Se a "audiência" do rebento baixa, o melhor é chamar os Serviços Sociais, porque o menor pode estar a ser negligenciado. 

Mas o fim da picada foi quando se tocou na ferida, com, passo a citar, "Não interessa se são bonitos, feios, se vêm com penugem ou a cabeça torta: querem mostrá-los aos amigos e família. E se há pecado perdoado é o de um pai babado".

 É que se convencionou que "tudo o que é pequenino é lindo" e dizer, olha o desacato, que um pequeno não deve muito à beleza, é caso para lapidação. À moda bíblica.

 Já falei aqui várias vezes sobre a incompatibilidade que surge, amiúde, entre maternidade e bom senso - síndroma que espero (espero mesmo!) que passe longe de mim, caso me calhe a vez de cumprir tal função biológica. Meus senhores e minhas senhoras, é certo que as pessoas da nossa família nos parecem sempre bem, mas há crianças que não são bonitas, ponto final. 

Quando acabam de nascer, então, é uma sorte já aparecerem apresentáveis. Faz parte. Não quer dizer que um bebé que nasceu encarnado como um pimentão e de cabeça amolgada não se torne uma coisa amorosíssima dali a uns meses (tenho casos na família) ou que uma pequenita vulgar não venha a fazer-se uma beldade. Acontece muito, assim como o inverso: há crianças de capa de revista que crescem para ser uns camafeus, basta olhar para algumas ex-mini estrelas de TV ou cinema. E depois há aqueles que continuam a ser trambolhos pela vida fora, ou ainda os que são miniaturas dos pais que já por si não deslumbram ninguém, casos que impõem uma dose especial de noção da realidade a quem educa. 

Há crianças sem grande graça,o mundo não é justo - não temos de lhes dizer isso, convém que não se diga, mas há mais na vida além da formosura e até se ver o que sai dali nada a fazer...a não ser poupar aos amigos o constrangimento da mentira piedosa, a obrigação social do elogio por favor. Pescar elogios é feio em qualquer circunstância; e mesmo no caso de rebentos  particularmente lindos sempre ouvi que não é bom para o carácter da criança elogiá-la a torto e a direito. Mas perdi a conta às mães que me têm vindo dizer " a minha filha há-de ser modelo" só porque a menina gostava dos Morangos com Açúcar, apesar de não ser exactamente telegénica ou fotogénica. Noção, anyone

A diferença aqui, e é grande, é a possibilidade terrível que o Facebook encerra: partilhar os delírios em público. Já não falo de divulgar exageradamente cada passo da gestação- o que sempre foi considerado de mau agouro uma vez que até nascer há que rezar mas é para que corra tudo bem, para não falar em questões de gosto e privacidade.

A autora do texto também tocou noutro ponto sensível: "A minha gordinha já gatinha.” Seca. (...) “Acordei a ouvir que sou a mãe mais bonita do mundo.” E acreditaste?"

Ponto um, há pais cujo organismo está alterado, é um truque da Mãe Natureza - que desenhou as coisas para que cada progenitor se maravilhe com a sua criação como se fosse o primeiro ser humano a pôr descendência no mundo; se não fosse por esse impulso biológico, não faltariam para aí mais crianças ao Deus-dará do que aquelas que já temos. Logo, ai de quem lhes lembre que é um bocadinho ridículo partilhar cada dentinho, penico ou fraldinha, em suma, pequenos detalhes que são únicos para os pais maravilhados, mas banais para o resto do planeta. É daquelas coisas instintivas que só muito bom senso e muito berço (dos pais) podem refrear, como achar que a gritaria das suas crias não incomoda os outros clientes do restaurante.

Ponto dois, já mencionei por aqui que certas mães se desleixam, ou sempre foram desleixadas com a sua aparência, e depois usam EM PÚBLICO,  nota bene, a doçura da maternidade como desculpa, com frases melosas (e escusadas) do tipo "eu amo cada estria, cada banha que ganhei, cada olheira de noite mal dormida porque são consequências de trazer a minha princesa ao mundo" ou "já não compro roupa para mim, só para a minha princesa". Poupem-me. A mãe de uma princesa não diria tantos disparates, para começo de conversa. Haja classe em todas as fases da vida, diria eu que tenho a mania de pedir muito.

 Apontar directamente o ridículo alheio é pisar campo minado. E se o ridículo alheio toca à exposição virtual da prole - benzam-se, está o caldo entornadíssimo. Quem se sente enfadado por isso deve dar graças pelo bombardeamento ser só via facebook (o que me levaria à questão de tantos pais recentes se queixarem de que os amigos sem filhos se afastam durante uns meses até a festa da fralda acalmar, mas não vamos por aí). É  a Natureza, são tonterias passageiras de quem está sensível, com as hormonas a fazer aquilo para que estão programadas e não consegue refrear o entusiasmo; logo,  não vale a pena tentar chamar à razão quem não usa a razão por própria iniciativa. Com pais digitais em modo turbo, o melhor mesmo é ignorar, sorrir, dar o desconto. Isso passa-lhes.

9 comments:

Mariana Pardal said...

Muito, muito bom!!

Beijo Molhado said...

Excelente!
(bom senso é o que mais falta à sociedade de hoje! )

Bom fim de semana :)

Sandra Paiva said...

Que texto ó Sissi. Sabes que uma amizade de muitos anos acabou por eu ter dito que a criança era feia todos os dias e que na verdade tinha bem a quem sair!!!! OK, fui totalmente incorreta, mas a mãezinha em questão foi bem pior que eu. Pois eu disse em privado, já ela decidiu escrever um testamento no mural do meu facebook a dizer que eu sou invejosa e ressabiada, que não tinha nada na vida a não ser sapatos e roupa.... Muito bom. E assim se conhecem as pessoas :)

Inês Maria Rocha Gonçalves Moura de Sousa said...

Ao ler o texto da jornalista Sofia Anjos e este texto aqui concluo duas coisas: felizmente nenhum dos meus amigos sofre deste mal (há alguns que gostam de colocar fotos mas nada que se compare ao descrito) , segundo eu tenho a pancada ao contrário: não há fotos do meu rebento em redes sociais, privacidade acima de tudo. Mas reconheço e temo os pais digitais, são pessoas totalmente desprovidas de noção da realidade e de bom senso. Já li por esses blogues fora comentários horripilantes e verdadeiramente insultuosos de pessoas que alegadamente estão a educar seres humanos e a formar-lhes o carácter. Vivemos tempos em que as pessoas perderam muitos dos valores básicos, ou porque se revoltaram contra eles ou porque nem sequer fizeram parte da sua educação; isto aliado à facilidade em expor a vida ao mundo inteiro e temos o resultado à vista. Há que recordar que são crianças não animais de circo a exibir as suas habilidades.

Sérgio S said...

Eu tenho alguma moderação ao abordar este tópico. Já vi pessoas a criticar certos pais por escreverem mensagens ou pequenas frases sobre os filhos, mas depois quando foi a vez de serem eles os pais foi postarem fotos e mais um sem número de spam. Portanto parece que o que aos outros é criticável quando toca aos próprios já é recomendável. Quanto à teoria de que o meu filho é uma obra de arte ao contrário dos outros que são feiosos, já vi de tudo, agora normalmente há um padrão comum: os nossos são sempre mais bonitos... Ahahah... Qual irá ser a opinião da jornalista quando um dia for mãe? Que o filho(a) é feio? Será que vai ficar ofendida se lhe disserem que o filho(a) dela é feio? Claro que vai ficar toda ofendida afinal na cabeça dela terá toda a razão para isso, afinal feios são os outros mas nunca o dela... Aliás, os que dizem que é feio não passarão de ressabiados invejosos, etc, etc, etc... Claro... Como é óbvio... Onde é que já ouvi isto antes... Lol...

Imperatriz Sissi said...

Sandra, assim de repente acho que estou sujeita a ouvir um comentário ridículo desses mais dia menos dia. E a resposta que adivinho dar é tão politicamente incorrecta que receio bem provocar enfartes :D

Imperatriz Sissi said...

Veritas est, Inês. Eu quando vejo pais sensatos e que não perdem a noção do decoro, o sentido de estilo e a sensatez deito as mãos para o céu. Se algum dia me tornar mãe e ficar ridícula, estão autorizadíssimos a dar-me bofetadas e calduços.

Imperatriz Sissi said...

Sérgio, o mais curioso é que a jornalista é mãe, a coluna dela é mesmo a propósito disso. E quem não quer ouvir que o filho é feio, não pesca elogios, não pergunta. Já se sabe que quem feio ama bonito lhe parece...

Imperatriz Sissi said...

Obrigada meninas!

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