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Saturday, April 26, 2014

Dica aprendam-que-eu-não-duro-sempre do dia: auto preservação.


Uma das piores coisas que se pode fazer, já o tenho dito por aqui, é não ouvir os primeiros alarmes do instinto, por mais patetas ou superficiais que pareçam. 

O instinto é um equipamento inestimável que valeu um cavalo na guerra à Humanidade desde que o Mundo é Mundo. Porém, na era da ciência, da informação facilmente disponível e comprovável e em última análise, da tolerância e da diversidade (que são coisas excelentes mas levadas ao extremo podem conduzir a que se ature, por boa educação, pessoas ou circunstâncias que de outro modo rejeitaríamos) há uma tendência, quase uma cultura, de ignorar os avisos da intuição. 


Numa época em que os perigos são menos devastadores ou pelo menos, frequentes (ou seja, não há tantos salteadores, batalhas campais ou tigres-dentes-de-sabre ao virar da esquina) o ser humano relaxou tanto, civilizou-se tanto que são precisos workshops de defesa pessoal, nos quais uma das primeiras coisas que se aprendem é saber dizer, firmemente e sem embaraço, "NÃO! NÃO! NÃO!".


E no entanto, nessas mesmas acções de sensibilização, artigos ou cursos de defesa pessoal, bate-se sempre na tecla dos pressentimentos. Se tem um mau pressentimento, obedeça-lhe para seu próprio bem.


  O medo de ofender, de parecer antipático, snobe ou pouco razoável sobrepõe-se amiúde à necessidade de auto-preservação. E isto paga-se caro - nos casos mais graves pode ser fatal e nos menos graves, causar danos emocionais ou sociais que demoram imenso a limpar e a curar. 


Insisto muito neste ponto, o que às vezes não cai bem a quem me conhece mal: é legítimo, aconselhável mesmo, ser-se selectivo.


  Há dias falei aqui nos inconvenientes de comprar calçado engraçadinho, vistoso... mas baratuxo. Podemos fazer disto uma parábola fácil de entender, que se aplica lindamente a amizades e relacionamentos mais ou menos próximos. 


 Quando vemos esses sapatos a custo irrisório, estamos cientes de que não são  grande coisa. Quem é conhecedor sabe que não há paralelo entre as marcas de confiança e certas pechinchas, por mais bonitinhas que sejam.


 Além de o material ser melhor e a execução feita para durar, um sapato bom nunca matará os pés, mesmo que seja muito alto. Pode cansar um pouco e não ser pensado para correr a maratona mas dificilmente se torna insuportável, mesmo no dia de estreia. Não causa bolhas e se o danificarmos, pode ser arranjado e fica como novo. 


Com sapatos duvidosos, isso não acontece: por mais que se mande ao sapateiro, por mais que se tente conservá-los ou melhorá-los, pôr um reforço ali, uma palmilha acolá, acabam por se estragar e magoar. 

 Duram pouco, por mais que se faça. Não têm remédio. Desfazem-se nas mãos ou neste caso, nos pés. Mau investimento.

E há alminhas que são exactamente como esses sapatos: até podem parecer interessantes, estão à mão, parece que contribuirão para a nossa felicidade, mas lá por dentro uma pessoa sabe que algo não bate certo, não é da melhor qualidade, que vai trazer problemas. 


As primeiras impressões e evidências raramente enganam; onde há fumo há fogo.




 E se se ignora essa noção, se se mandam os critérios de selecção às urtigas porque "vá-se lá rejeitar alguém  com base em suposições" acaba por se descobrir, às próprias custas, que por mais arranjos, água benta e remedeios que se tentem,  o que nasce torto nunca se endireita.

Por muito idiota que isto pareça, há que escolher companhias que sejam equivalentes aos sapatos Gucci: bonitas por fora mas sobretudo por dentro, de excelente qualidade, que não magoam e são resistentes às  agruras do dia a dia. Que em caso de azar, têm arranjo. 


 A vida é demasiado curta, demasiado preciosa, para ser ocupada com coisas reles, cansativas ou perigosas. Não há que arriscar. O barato sai caro, e o excesso de simpatia também.



1 comment:

Cátia Castro said...

Adoro os seus pontos de vista, recheados de sabedoria e alguma frieza. É, de facto exprime-se de forma racional e é essa racionalidade que me impressiona. O sarcasmo também está patente na maior parte dos textos, eu adoro. Parabéns pelo conteúdo da sua página. (permita-me que a trate na 3ª pessoa, pois com certeza é mais velha que eu).
Um ótimo fim de semana para si.

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