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Wednesday, April 30, 2014

Eu nunca li Nicholas Sparks.


Nem Danielle Steele, nem O Diário de Bridget Jones (franquia que merece um valente "Eu embirro com..." aqui no IS, quando eu tiver tempo para elaborar os porquês, que são consideráveis) nem os escritores light portugueses que me matam neurónios só de chegar perto e deixam as mulheres tolas, desesperadas e atrevidas pior do que já são, se é que tal coisa é cientificamente possível ("escritores"esses que já têm sido apupados que chegue por aqui, logo não vou bater mais no ceguinho) nem o Fifty Shades of Grey (Vade Retro Satanás) e basicamente, nada que venha sugerido com insistência em certas revistas femininas.

 Eu diria mesmo: se certas revistas (aquelas cuja capa parece um manual para cortesãs em potência, tantos são os truques mirabolantes que prometem ensinar como se fosse a coisa mais corriqueira do mundo) recomendam um romance-daqueles-escritos-para- agradar-a-mulheres-românticas ou - eu abomino o termo, mas como também não sou fã de eufemismos, cá vai - um livro de g*** ou o respectivo filme de g***, FUJAM. 

Corram a bom correr, procurem as barricadas ou um abrigo anti-atómico, peçam santuário no Templo mais próximo nem que seja uma igreja evangélica daquelas onde se põe o demónio fora aos gritos e se berra "Aleluia Irmão" porque isso pode ser apesar de tudo uma experiência antropologicamente interessante e os danos para a alma não hão-de ser permanentes que a alma é uma coisa com certas capacidades auto-regenerativas; é só fazerem ouvidos moucos e não há-de ser nada, já quanto a neurónios mortos não há remédio.

 Quem lê livros de g*** arrisca transformar-se nisso mesmo, numa g***. E certo, vocês até podem dizer que isso é uma designação carinhosa sem mal nenhum, cada um sabe de si, mas vamos cá ao dicionário:

Significado de Gaja
sf (fem de gajo) pop 1 Mulher reles. 2 Qualquer mulher.
1. [Informal]  Qualquer pessoa cujo nome se desconhece ou quer omitir. = FULANOTIPO
2. [Depreciativo]  Indivíduo considerado de baixa reputação. = ORDINÁRIOSÚCIO
adjectivo e substantivo masculino
3. [Depreciativo]  Que ou quem é trapaceirovelhaco. = ESPERTALHÃOFINÓRIOMALANDRO
   Podemos caracterizar rapidamente essa espécie: uma g*** é uma sujeita desmiolada, por muitos cursos que tenha. Estudou umas coisas porque os pais, coitados, esperavam uma certa afirmação social ao ter uma dótora na família e queriam tirar um retrato baboso na Queima das Fitas para mais tarde recordar, ou porque a rapariga tem aspirações culturais, artísticas ou literárias pouco acompanhadas de talento e agudeza de espírito. 

Pretensões intelectuais baratas são uma coisa terrível em ambos os sexos - pior do que ser ignorante, só ser-se burro como um urso e ter a mania da cultura -  mas numa mulher pior um pouco porque as mulheres não-lá-muito-espertas são mais chatas na forma como se expressam do que os homens pseudo intelectuais que já de si são a coisa mais chata à face da terra: partilham clichés ocos e presumidos nas redes sociais, falam alto no Impressionismo a ver se alguém as ouve, estão sempre prontas para o debate (que é uma forma polida de refilar) e, desgraça das desgraças, mascaram as suas ideias indecentes e  lamechas com princípios modernaços. 

 Uma g*** acha sempre que é como a Samantha do Sexo e a Cidade (uma predadora com alma masculina, muito desprendida, muito confiante) mas depois fica a chorar no ombro das amigas porque o desconhecido que praticamente raptou na noite anterior não lhe telefonou. E chama nomes feios de gado caprino tamanho XL ao homem porque imaginem, quem é que não quereria levar ao altar uma g*** como elas, que faz a papinha toda, que toma a iniciativa toda, que sem o conhecer de lado nenhum o recebeu com vinho e luz de velas e citou frases tão profundas, tão sentidas, como "é muito menos doloroso morrer do que estar vivo com vontade de morrer” (volte Lili Caneças que está perdoadíssima e uma senhora é sempre uma senhora, mesmo quando se atrapalha ao falar em público e ao menos não se põe a escrever romances supostamente muito sérios).

 Incompreensível, não é?

 E por isso a g***, que secretamente já escolheu a quinta para casar com o primeiro que apareça e já tem o vestido guardado no armário mas se faz muito independente, pela-se por Nicholas Sparks e outros que tais, porque nesses folhetins o herói é sempre lindo e romântico e diz coisas parvas mas muito filosóficas, e não desiste do amor por mais idiota que a rapariga seja e por mais que andem à bofetada. 

As relações disfuncionais têm sempre um final feliz e a rapariga rica fica sempre com o rapaz pobre  (o que é  um bocadinho hipócrita já que nestas histórias toda a gente janta nos restaurantes da moda, tem casas com vista para o mar e empregos muito fashion, mas pronto...) porque invariavelmente, nos livros/filmes de g*** o rapaz rico e sofisticado, que não tem culpa de ter nascido assim, coitadito,  ou é mau como as cobras ou desinteressante como uma batata crua.

 O rapaz pobre diz-lhe que a odeia e até lhe dá uns safanões mas isso não é ser mau, é ser romântico porque se apaixonaram à primeira vista e toda a gente sabe que o amor à primeira vista não pode estar errado.
 
Isto para dizer que ontem, num assomo de curiosidade mórbida e porque a história se passa no Sul durante a Segunda Guerra Mundial, lá espreitei o filme The Notebook. Afinal, o que é desastroso em livro, na versão cinematográfica pode escapar com bons actores, fotografia, cenários, banda sonora razoável e companhia limitada. É verdade, escapa. Uma história bonitinha com protagonistas bonitinhos pode consumir-se sem danos de maior, se ignorarmos a maior parte das falas - conversas banais de namorados a pretender rivalizar com, sei lá, Shakespeare: 

Volto a dizer, em filme é sofrível. Mas em papel, nem quero imaginar a chachada completa. Seriously, se querem romantismo desbragado, coisinhas comoventes, histórias-de-amor-que-não-fazem-sentido-nenhum mas resultam, leiam O Noivado do Sepulcro que é mesmo de morte, ou Romeu e Julieta (também se apaixonaram irremediavelmente à primeira vista e não viviam um sem o outro, ora) ou A Dama das Camélias (em que ela escolhe o rapaz pobre, salvo seja). Há que evitar os sucedâneos e mais sucedâneo que folhetins destes, não concebo...







3 comments:

Sandy said...

Já li um livro de Danielle Steele e um de Nicholas Sparks. Não me lembro bem porque já foi há muito tempo, mas fiquei com a sensação que até gostei, pelo menos nesse tipo de leitura. Ás vezes precisamos de leituras light e filmes light e tudo o que seja light, o mundo em si já é tão mau que pelo menos temos essa escapatória de vez em quando... 50 Shades of grey é que já me parece maçador, nunca li e se calhar não vou ler, mas tenho uma amiga que gostou bastante. Já vai dos gostos de cada um :) Beijinho

Ulisses L said...

Eh páh...
...espero bem que não venhas a ler nada meu, senão ainda corro o risco de ser incluído na lista...

:)

Whitesoul said...

Concordo com tudo e o texto até está muito bem, mas depois... bom depois diz que a Lili Caneças é uma senhora.... estragou tudo.

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