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Wednesday, April 16, 2014

Há divas que escrevem, e há senhoras que escrevem por falta do que fazer. Não é a mesma coisa.


Se há algo que me dá alegria, é encontrar um livro de que ando à procura há anos. 
  Noto que compro  menos livros do que no passado- selecciono muito, porque hoje em dia ir a uma livraria já não é um prazer. Não é mesmo seguro entrar numa com o descuido de antigamente, quando uma pessoa estava certa de sair de lá tendo aprendido alguma coisa...

 Eu que toda a vida fui rato de biblioteca, que arranjei uma miopia muito chata por ler demasiado, à velocidade da luz (e às vezes com pouca dita cuja, apesar dos avisos lá em casa) e por fim eu, que morro de medo dos "vermelhos" (long story, não vamos por aí hoje, mas posso adiantar-vos que em pequena julgava que "comunista" era um palavrão...) nunca na vida imaginei citar Mao Tse Tung, esse bochechudo de uma figa, mas face ao panorama "literário" actual, receio bem que a sua frase

"quanto mais livros uma pessoa lê, mais estúpida se torna" corra sérios riscos de não deixar de ser verdade.

Deixem-me explicar, para não ficar aqui nenhum mal entendido. Ler abre a mente - certo. Mas convém que não abra portas que melhor ficariam se as fechássemos deitando fora a chave!

Hoje em dia uma pessoa entra numa livraria destas de centro comercial e o que vê, exposto com grande pompa? Romances escritos por apresentadoras de televisão e pivots de telejornal. Eu cá acredito que os bons jornalistas e os bons escritores nem sempre convivem no mesmo cérebro; um jornalista saberá, por obrigação, escrever correctamente e às vezes nem isso. Mas essencialmente a sua mente (para não falar no seu vocabulário) está, ou deve,  voltada para o rigor informativo, para os factos e - desgraça das desgraças- para um permanente sensacionalismo, o que não condiz com os predicados de riqueza interior, detalhe e imaginação que devem ajudar um romancista no seu trabalho.

Mas vamos considerar que isso nem é o pior porque enfim, há quem tenha jeito para tudo.

 Uma alma que hoje transponha as portas (ou os sensores...) de uma loja-que-vende-livros vê-se bombardeada por "memórias" de ex-alternadeiras a lavar roupa suja, de testemunhos fofinhos de pessoas que sobreviveram a isto ou àquilo, de romances light para desesperadas, e, no canto mais intelectualóide do sítio, de "poesia" ou prosa poética daquela que fala, fala, fala, debita o dicionário mas não diz nadinha, de alguns meninos poseur que se intitulam escritores ou pior, poetas - entre outras publicações potencialmente nocivas para os neurónios. 

 Passa-se os olhos, por desenfado...e a pouco e pouco, os padrões de exigência começam a descer. A apanhar-se vícios. A achar normal tanta patacoada. Percebem o perigo?

Tenho para mim que se uma pessoa quer entreter-se a ler parvoíces, mal por mal os manuais do momento (da dieta da moda, do escapar à crise, etc) são um bocadinho mais inócuos, pois não se fazem passar por literatura.

 Só que isso não é o pior das livrarias: as blasfemas atrevem-se, porque se atrevem, a cometer dois sacrilégios imperdoáveis: descontinuar num ápice qualquer romance novo que jeito tenha (se não o apanharmos logo, esqueçam, são duas edições no máximo e adeus) e pior, muito pior, não ter os clássicos ou os básicos. Cair na asneira de procurar o Oscar Wilde ou Miguel Torga que nos falta, ou que anda desaparecido em combate,  pelas Fnacs da vida... pode ser uma tarefa espinhosa. "Não há! Quer que encomendemos?". Pois claro, o que me está mesmo a apetecer é esperar toda a vida e mais seis meses para obter o livro...

 Por tudo isso, e porque como já tenho dito prefiro autores mortos e comprovados,  hoje faço as minhas compras mais específicas online. Tudo o resto é encontrado em alfarrabistas ou feiras com bancas de livros velhos, sem capas pirosas e brilhantes, sem edições modernaças, sem traduções duvidosas e que cheiram a livro, livro a sério. 


 Ora, no fim de semana passado dei com " Sem Papas na Língua", as memórias de Beatriz Costa, a preço de banana, numa feira destas sem regras. Já me tinha deliciado com "Quando os Vascos eram Santanas" mas nunca tinha deitado a mão ao "Papas". 

E deixem-me dizer-vos, eu que não lido bem com brejeirices, que a nossa Beatrizinha é das poucas brejeiras adoráveis que tenho visto. Porque sabia estar e adequar-se a toda a sorte de gente, o que é uma das minhas qualidades preferidas. 

Self made woman como há poucas, foi artista na altura em que valia a pena sê-lo neste país tão ingrato para o seu ofício. Tinha uma sensibilidade e uma joi de vivre raras, que sabia pôr deliciosamente por escrito. "Saloia" e com orgulho, viajou muito, andou nos círculos mais exclusivos e  privou com a melhor aristocracia europeia, com alguns dos maiores vultos artísticos e intelectuais de sempre ( incluindo algumas das minhas pessoas preferidas, como Mae West, Sophia Loren, Jorge Amado e Carmen Miranda) e com figuras de lenda: Salvador Dali, Che Guevara, Lucky Luciano ou mesmo a Bela Otero, a famosa cocotte da Belle Époque,  que encontrou num café do Mónaco.

 As suas descrições da Lisboa dos anos 30, ou de Londres durante a Guerra, são uma pura maravilha. Mulher extraordinária, que viveu tempos magníficos!

Fosse este outro país, e uma série ou filme com base nas suas memórias estaria nas telas há muito... 

Mas enfim, por cá prefere-se levar aos ecrãs trabalhinhos de ficção de outro género. Daqueles que andam nas livrarias "modernas" a acumular edição sobre edição,  a amolecer cérebros e a pôr caraminholas na cabeça das mulheres. 

Daquelas rascunhadas por pessoas que, para citar um autor mencionado pela própria Beatriz Costa, correspondem a isto:

 "Não era uma escritora. Era uma senhora que não tinha nada que fazer". 





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