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Sunday, April 27, 2014

Sobre as bênçãos disfarçadas.


Não sou muito de citar contos do estilo auto ajuda, mas lembro-me frequentemente daquele provérbio chinês do homem que perdeu o seu cavalo: para um português, o equivalente será Deus escreve direito por linhas tortas.

 Ou seja, nunca sabemos se a Sorte é  presente envenenado e se um aparente azar dos Távoras, uma enorme contrariedade daquelas graves que deitam uma pessoa abaixo e a deixam à beira do colapso não vai, por caminhos caprichosos, conduzir a uma alegria maior que fará esquecer todas as mágoas passadas. 

Acredito no adágio cuidado com o que pedes, podes vir a recebê-lo. O que nos pode escapar são as voltas que são precisas para realizar esse desejo. Sabemos o que queremos, mas o como...é um mistério.

O Universo, esse malandro, move as peças no tabuleiro de uma maneira que só ele entende. Para preparar o terreno para algo muito bom, pode precisar de abrir fundações à marretada, rebentar tudo a dinamite, levar tudo à frente - e fá-lo sem aviso, deixando um Cristão (ou qualquer outro) a perguntar se está o céu a cair, se o mundo está a desabar à sua volta sem uma simples notificação. 

   Num ano apenas, tive provas de que a Sorte pode ser Azar e o Azar pode ser Sorte. Há males que vêm por bem, e bens que nunca haviam de existir.

  Vi celebrar-se um empreendimento muito bom, espectacular mesmo, mas gerido por uma pessoa tão complicada que acabou por trazer pouco mais do que dores de cabeça. Parecia perfeito...mas era como um bolo de aniversário que uma vez, com a melhor das intenções,  comprámos para o meu irmão - coitado.

 Como ele adorava - e adora ainda - carros, encomendou-se um bolo soberbo: grande e em forma de Ferrari. Toda a gente se admirou, porque na altura o conceito de cake art ainda não estava na moda...

Pois bem, a sorte é que o meu irmão nunca gostou de bolos e o desaire não lhe fez mossa (era só para os convidados, mesmo) porque nunca provei nada tão horrível. Não estava estragado ou coisa assim, mas alguém se esqueceu do açúcar e... por dentro e por fora, da massapão ao miolo, aquela porcaria sabia mais ou menos a plasticina (quem nunca provou, acidentalmente ou não, plasticina em pequeno, que atire a primeira pedra...).

 E na outra face da moeda, algo que foi  inacreditavelmente mau, uma versão instantânea do Inferno de Dante (sim, há por aí Infernos de Dante em pó, não imaginam...) provou ser uma bênção disfarçada. Devolveu coisas e trouxe outras melhores. Como um bolo torto que não perde o gosto, ou uma casa velha que se deita abaixo para descobrir um tesouro.

 Já disse por aqui que não compro a teoria de aprender com o sofrimento (acho que isso é um prémio de consolação, algo que se diz porque enfim, é preciso dizer alguma coisa...) mas é verdade que as provações às vezes trazem recompensas.

 No fundo nunca se sabe, logo é preciso serenidade e temperança- aceitar as alegrias com certa calma até se abrir de facto o embrulho, e não se descabelar à primeira contrariedade.

 De qualquer modo, sempre achei muito feio tanto o deslumbramento e a euforia, como o desespero e a histeria...como dizia o avô, que era um grande filósofo, o que é preciso é ter muita calminha. 

1 comment:

AnaRendallTomaz said...

Estava mesmo a precisar de ler isto hoje. Estava a entrar em modo «descabelar»... :*

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