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Monday, April 14, 2014

Sua Majestade dixit: do dever, essa maçada.


"Nowadays people want glamour and tears; the grand performance. I’m not very good at that. I’ve never been. I prefer to keep my feelings to myself…duty first, self second. That was how I was brought up."
                                            Helen Mirren como SM a Rainha Isabel II, em "The Queen"
De vez em quando aparece um filme que tem tudo para eu gostar dele - neste caso, ser realizado por Stephen Frears, protagonizado por uma das actrizes mais elegantes que nos é dado ver, Dame Helen Mirren, a interpretar uma das Senhoras que eu mais admiro, SM a Rainha Isabel II, tudo isto com um óptimo guião acompanhado de um fidelíssimo figurino. O vestido preto de mangas compridas e justas acompanhado de um simples colar de pérolas, as écharpes Hermès de seda colorida e os raincoats para os passeios no campo... básicos que Sua Majestade usa como ninguém, mas que são intemporais e sempre adequados. 
 Mas frequentemente acontece que, por uma série de razões, acabo por só ver esse filme muito tempo depois, e fico a pensar porque é que deixei que tal coisa acontecesse.
 É verdade que apesar do tema ( salvo seja, pois como disse Oscar Wilde e muito bem, "the Queen is not a subject") já ter sido abordado neste cantinho, um post sobre a Rainha anda prometido por aqui há muito.
 Ainda não vai ser desta porque são vários os tópicos que gostaria de cobrir - nomeadamente, o seu papel durante a II Guerra Mundial, quando, como tantas debutantes de boas Casas inglesas durante esses dias difíceis, assumiu tarefas notáveis  (aprender mecânica, por exemplo) para ajudar ao esforço da nação, detalhe que me faz sempre sorrir quando ouço certas alas feministas murmurar sobre o papel "secundário" e o comportamento "arcaico e submisso"  das mulheres em tais Instituições; ou o facto, esquecido por muito boa gente da minha geração deslumbrada pelas toilettes da recém-chegada Duquesa de Cambridge, de a Rainha ser uma mulher bonita e fascinante que vem de uma família de mulheres exactamente assim: a vida romanesca da sua deslumbrante irmã, a Princesa Margarida, ou a capa da Vogue da Princesa Ana em 1973, no tempo em que as capas da Vogue eram assunto sério, são só dois exemplos da História recente. 
Em todo o caso, o que mais me captou a atenção no filme foi a ênfase colocada nas prioridades de Sua Majestade nestes tempos de pão e circo e hedonismo desenfreado que atravessamos (e que se começavam a desenhar à data, não se sabendo que iria ser muito pior). Não se sabe se a Rainha terá dito o citado acima, mas acredito que tenha afirmado, ou pensado, algo semelhante. 
E pessoalmente, não me podia identificar mais com o espanto da Elizabeth II vivida por Helen Mirren.
 Educada para colocar o dever acima da felicidade pessoal e para que esperassem dela e do povo que representa dignidade, sobriedade e contenção, a Soberana viu-se confrontada com a necessidade, estranha para si, estranha para quem foi criado em certos valores, de mostrar emoções em público, de expor assuntos privados. Porque, como é dito na película, e bem, assistimos a uma "mudança de valores" e não havia como combater o entusiasmo das (queiramos ou não chamar-lhes assim) audiências perante as muito públicas fragilidades, gaffes e desgostos da sua nora rebelde, Diana de Gales. Que a plateia - ou o povo-  passasse a admirar folhetins em vez da estoicidade que devia ser apanágio de uma Rainha, ou de resto, de uma Princesa (de uma Senhora, em suma)  era-lhe no mínimo estranho. 
 Mas é o Mundo em que vivemos, e conseguir esse equilíbrio é um trabalho delicado. Quem foi educado para a discrição e a para lidar com as dores em privado tem certas dificuldades em ser compreendido, mesmo em situações muito mais insignificantes, mesmo num círculo social diminuto. Quem cresceu com os valores dos "vícios privados, públicas virtudes" ou (como a avó me fez decorar desde que comecei a ter dentes) foi treinado para guardar para si os infortúnios, as fragilidades e andar de cabeça erguida na rua, perfeitamente composta, nem que esteja o céu a cair, encontra obstáculos em gerar empatia nos outros. A sociedade actual não está pensada para a dignidade. Perdeu o hábito de maquilhar o sofrimento, de se apresentar ao mundo com boa cara, de resolver discretamente os seus assuntos sem dar brado, sem conceder aos outros o prazer de assistir aos seus desaires. 
 A voracidade, a ambição, o alpinismo social, os namoros, casamentos e nascimentos, a simplicidade exagerada, os tombos, a humildade panfletária ou mesmo ser apanhado por papparazzi em trajos menores, tudo isso é mais facilmente perdoado do que a compostura. Porque pode acontecer a qualquer um...já a dignidade não acontece a todos. Só aos melhores. Há uma obsessão por democratizar, por normalizar, por facilitar, pela abertura, pelo aligeirar da Tradição. 
Porque afinal, é muito mais fácil "identificar-se com" do que olhar para cima. E vivemos na era da facilidade - currículos académicos fáceis, diplomas fáceis, fama fácil, fortuna fácil, milagres baratos, contos de fadas em que a heroína não sofre. Hoje em dia ninguém quer saber de dever, de sacrifício, de esforço. O que se quer é a emoção, o romance. Admira-se "quem é como toda a gente" - chora em público, vai-se abaixo em público, discute na praça pública, erra, tropeça - e não quem é melhor do que nós. Admirar e procurar imitar quem se comporta melhor do que nós é uma maçada, não diverte ninguém. Não é um pulinho à Topshop para comprar o vestido esgotadíssimo e normalíssimo da Princesa da moda. Dá trabalho. E não vende jornais. 
 Here they are, now, entertain them - como diria o grande filósofo Kurt Cobain, que não sabendo lidar com o público, acabou por optar por uma mui pública morte. Que o público adorou até às lágrimas, comme il faut.




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