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Friday, May 9, 2014

All the small things.



As coisas pequenas são muito complicadas. O diabo está nas pequeninas coisas  - mas os deuses também. Sendo certo que os aspectos grandes e abrangentes dão o pontapé de saída para que haja um início, um clique, para um projecto começar ou para que as pessoas se juntem, os detalhes insignificantes é que compõem a malha, a parede, os pontos, o tecido dessa ligação - ou o fim dela. Os pormenores determinam se a trama é resistente. Os diamantes podem ser a peça mais pequena de uma jóia, mas deles depende boa parte do seu valor. O número de fios num pano de algodão dita a sua qualidade. As térmitas, minúsculas, minam a madeira aos bocadinhos,e se não houver cautela, podem arruinar mobílias e estruturas. Um pequeno buraco de traça basta para perder um vestido precioso. 

O tamanho e localização de uma casa são decisivos para que nos interessemos por ela, mas as especificidades - a vista de uma sala, os armários, o jardim, a atmosfera de um quarto - é que nos fazem pensar "quero mesmo viver aqui". E se nos desapaixonamos da casa, é geralmente por um conjunto de pequenos incómodos que nos leva a tomar a difícil decisão de passar pelas maçadas de uma mudança: o aquecimento que avaria por mais que se faça, a falta de espaço, o fantasma no andar de cima (já ouvi casos desses!) uma divisão que teima em ganhar humidade, aborrecimentos com a canalização, vizinhança chata que vai acabando com a paciência até que tudo o que nos encantava naquele sítio já não compensa os aborrecimentos com que é preciso lidar. 

 Do mesmo modo, as primeiras impressões de uma pessoa (o aspecto, o perfil, o todo) permitem-nos considerá-la como potencialmente importante na nossa vida, dar-lhe uma hipótese, querer saber mais sobre ela, olhar outra vez; mas precisa-se do detalhe, das minúsculas coisas que tornam alguém único (a inflexão da voz, o olhar, o riso, os instantes partilhados, as piadas privadas, certos traços do rosto, a forma de andar, as frases, o toque) para escolher ficar e entregar-lhe as chaves da nossa existência.

 E tal como com as casas, é preciso um conjunto de pequenos factores (ou um grande factor que arrasta consigo uma miríade de coisinhas, de dores e de dúvidas) para que o entusiasmo arrefeça ou a união se destrua.

Em tudo na vida, raramente uma só uma coisa estraga o conjunto: é preciso algo muito grande, ou muitos pequenos males, muitos pormenores dolorosos e assustadores para que se perca o entusiasmo e se cortem todos os delicados laços que se criaram com pessoas, coisas, lugares ou situações. O acumular é poderoso, para o bem ou para o mal. 

Há toda uma lógica grão a grão, para construir, e de gota de água que faz transbordar o copo, para a extinção.  Por isso é tudo tão complicado.

1 comment:

Olinda Melo said...

O seu texto lembrou-me "O Deus das pequenas coisas", de Arundhati Roy, pela semelhança do título com as "pequenas coisas" de que fala.
Gostei muito da análise que faz e identifiquei-me com muitas passagens.

Bj

Olinda

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