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Thursday, May 22, 2014

As coisas que eu ouço: estamos entregues..à peixeirada.


Em pequena contaram-me como durante a II Guerra muitas raparigas, incluindo meninas de famílias com alguns meios, arranjaram temporariamente trabalho em fábricas. Essas novatas, que eram moças delicadas, tinham certa dificuldade em conviver com as "colegas" que nunca tinham feito outra coisa ou que toda a vida tinham trabalhado nos campos e que eram, enfim, pessoas de outro género, com comportamentos menos recomendáveis. Era preciso ter uma certa diplomacia para não se misturar sem ofender.

 À saída então, era um aborrecimento: as meninas de bem tinham de ficar discretamente para trás enquanto as outras, muito barulhentas, seguiam adiante em grandes risotas, a meter-se com os homens que passavam, a contar brejeirices, numa histeria que lhes granjeava ouvir um estribilho muito feio: lá vão as m**** (alguém que enfim, não foi à casinha a tempo) da fábrica!

Hoje ouvi uma que me fez lembrar disto.

 Precisei de adiantar uma data de assuntos, e entre um e outro fiz uma pausa no café do costume.

 Para mal dos meus pecados, tive a infeliz pontaria de me sentar ao lado de quatro franganitas chocas - vulgo quatro rapariguinhas rústicas - que vai-se a ver, eram alunas de Comunicação e Jornalismo. 
 Pois eu não sabia se havia de rir, ou chorar, ou reconhecer que estão explicadas muitas desgraças , muitas tragédias de palmatória que vemos na televisão e na imprensa deste país que teima em ser inclusivo com brutinhos, e em dar diplomas a ursinhos malcriados.

 Pelo que percebi - e não tive outro remédio senão perceber isso, mais quantos detalhes havia na vidinha de tais labregas - duas delas vinham das Ilhas (e sem querer ser indelicada, aqui na cidade dos estudantes sabe-se que socialmente falando o que de lá vem costuma ser muito bom ou muito mau, cale-se Sissi) e outras seriam do Norte, ressalvando que já vi passar à porta do Bolhão muitas peixeiras com mais saber estar.

   Ora, eu nada tenho contra os regionalismos e pronúncia característica de cada um, embora de um jornalista se espere a forma de se expressar mais neutra possível. Mas como não sei se as almas em causa tencionam ser pivots, repórteres ou trabalhar em produção, isso seria irrelevante para o caso.

 Porém, nota bene: uma coisa é o sotaque, outra é a dicção. E elas não falavam: baliam, berravam, cacarejavam, chiavam, roncavam, gargalhavam que nem hienas, faziam os sons mais ensurdecedores e medonhos que imaginar se possa, a pontos de eu (isto num café cheio de gente) não conseguir ouvir mais nada, perder a conta à lista simplicíssima de tarefas que estava a fazer e ser incapaz de escutar os meus próprios pensamentos. Já estive em quintas, circos e zoológicos onde se viam comportamentos mais civilizados.

 Depois, palavrões de fazer corar as internas de uma casa de correcção a torto e a direito, que nem sei como cabiam tantos em cada frase, mais "ya", e "bué", e "tá-se", tudo a condizer com os trapinhos e as unhacas.

 Deitei-lhes uma série de olhares de desprezo, mas deviam achar-se demasiado fixes para que os outros recusassem partilhar pensamentos tão elevados!

 E eu a maldizer a hora em que não segui a carreira académica, só pelo prazer de expulsar tais criaturinhas das minhas aulas. É que quem falasse assim, não viesse adequadamente vestida ou tivesse vá, comportamentos de jornaleira ou de sopeira, levava um zero redondo, nem precisava de me mostrar nada. Ainda vou a tempo, sabe-se lá.


2 comments:

Carla Alexandra Santos said...

Leio, frequentemente, o seu blog e gosto. Porque não um texto sobre a febre das pulseirinhas de elásticos do chinês? Será que sou a única que não gosto?!

Imperatriz Sissi said...

Carla, obrigada! Vou anotar a sugestão. Creio que se refere às "arm parties" - dúxzias de penduricalhos nos pulsos que andam muito na moda de há uns dois anos para cá. Como não sou fã de bijutaria e tralha de plástico faz-me um pouco de confusão, sim!

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