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Wednesday, May 21, 2014

Choradinho, lavar roupa suja, coitadismo e outras preferências nacionais.

O Português, já criticava Eça de Queiroz, pela-se pelo sentimento.

 Os fados de antanho e os versos com estórias de faca e alguidar que certos "jograis" levavam de terra em terra para fazer chorar a troco de moedas no tempo dos nossos avós ( e era invariavelmente a menina desonrada que se suicidava, o soldadinho que voltava da guerra para encontrar a mãe finada, o jogador que assassinava a família que tinha perdido às cartas...) foram substituídos, no Portugal de hoje, pelas capas da TV7 Dias e afins, que gritam MISÉRIA! TRAGÉDIA! em letras gordas, pelas entrevistas "sentidas", pelos participantes de reality shows - ou até pelos menores que entram em concursos de cantigas aparentemente inofensivos só para ver o divórcio dos pais, a avozinha doente e as dívidas às Finanças do primo em terceiro grau escarrapachadas em parangonas.

 De pouco serviu o Estado Novo chamar ao Fado "canção dos vencidos" (concorde-se ou não com a ideia). O Português tende inevitavelmente para a lamechice, para o sentimentalismo de pacotilha, para a lagriminha ao canto do olho. Gosta do self made man, das histórias rags to riches; o único sucesso que tolera, que não o ofende, é o do Felizberto Desgraçado, humilde e simplório, emigrante ou pobre menino. 

 Mas se antigamente os protagonistas dos dramas não tinham rosto, assumiam contornos de lenda urbana, hoje são certas "celebridades" ou sub-celebridades" que lhes entram pela televisão dentro, a fornecer a necessária dose de catarse.

 Lá dizia o outro, a televisão traz-nos a casa pessoas que não gostaríamos de encontrar na rua. Por isso vejo pouquíssima. 

 Mas mesmo não vendo, os social media têm artes de me atirar os seus ecos duvidosos.

A entrevista de uma actriz de novelas que deu a conhecer a sua infância novelesca naquele programa que eu nunca tive coragem de ver porque enfim, algo que termina sempre com uma pergunta tão parva como "o que dizem os seus olhos?" e que é por sua vez conduzido por um comunicador que parece que desde pequenino faz gala em capitalizar as suas próprias desgraças privadas não pode ser muito edificante...é mais um exemplo disso.

 Ninguém tem culpa de ter nascido mal, de ter sido alimentado a Nestum e de outras coisas que alegadamente foram ditas (podem seguir o link para comprovar- eu não me dei ao trabalho de ouvir). 
   Mas não há desculpas para o oportunismo da promoção da desgraça, para o attention whoring. Quem precisa de ficar em paz consigo mesmo e com a família em que teve a pouca sorte de vir ao mundo, fala com um terapeuta ou com um Padre - não vem lavar roupa suja em público.
 A discrição, a dignidade, a reserva, o pudor, o sentido de família são, cada vez mais me convenço disso, um apanágio de gente bem educada. Como me disseram sempre em casa, "antes inveja do que pena". 

 Logo, não me admira nada que pessoas que cresceram ao Deus -dará revelem passados sórdidos com toda a sorte de justificações lacrimosas. O que me surpreende - ou nem por isso- é que o público elogie tais actos como corajosos, ou próprios de "uma mulher de classe". Porque quem realmente se poliu e evoluiu, não se presta a papelões. O que me levaria à raridade dos "diamantes em bruto" que podem de facto ser polidos, pois já se sabe que se pode tirar a pessoa do bairro mas nunca o bairro da pessoa.

 Pessoas de classe ficam caladinhas. Poupem-me.



3 comments:

Pandora said...

Olá! Já leio o teu blog há algum tempo mas nunca achei que devesse comentar, ainda que por vezes não concorde em absoluto com as tuas opiniões.
No entanto, ao ler este teu post, não consegui ficar indiferente. Em parte concordo com a tua opinião: é verdade que estas meninas 'projectos de atrizes' e afins têm uma grande necessidade de se expor desta maneira e de outras ainda menos aceitáveis. Porém, na minha opinião, será um grande erro afirmar que "Pessoas de classe ficam caladinhas. Poupem-me.". Na minha opinião, pessoas de classe têm princípios, moral, dignidade e, pelo sentido de família que têm, não escondem, omitem ou fantasiam as suas origens. Por isso não concordo que falar sobre as origens de cada um seja sempre um apelo ao coitadismo. Há é momentos e circunstâncias mais adequadas para o fazer. Aqui não tenho grandes dúvidas que seria essa a intenção, especialmente porque, segundo sei, a atriz aqui em causa não está envolvida em nenhum projecto profissional neste momento e por isso está certamente a precisar de algum protagonismo no seu "meio".

Felicidades

Imperatriz Sissi said...
This comment has been removed by the author.
Imperatriz Sissi said...

Obrigada, Pandora. Eu não defendo que alguém esconda as suas origens mas se isso é irrelevante para o seu trabalho, não há necessidade de revelar detalhes do foro privado. O único momento em que concebo que isso se faça é numa manobra de relações públicas para controlo de danos, em caso de escândalo ( para quem desempenha cargos públicos, por exemplo). Nesta situação é provavelmente como dizes: necessidade de um protagonismo que a longo prazo sai caro.

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