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Thursday, May 29, 2014

Querer ser chic à força. Como Evita, mas com menos resultado...


Há dias estava a passar os olhos por uma biografia de Evita Perón-assaz tendenciosa, convenhamos, porque se a senhora não era uma santa nem muito distinta também não seria exactamente um diabo de saias - e chamou-me a atenção o pormenor da rainha-sem-trono da Argentina fazer questão de exibir as suas magníficas peles fizesse chuva, sol ou um calor das Arábias, o que incendiava ainda mais os comentários sobre o seu arrivismo.

 Eva era uma mulher bonita, carismática e com um instinto de estilo que não era de desprezar, mas o seu background humilde, alpinismo social e gosto questionável (embora inegavelmente glamouroso) nunca lhe granjearam a aceitação nem o respeito da boa sociedade.

 Embora usasse Christian Dior (o couturier afirmava que Evita era "a única Rainha que tinha vestido") a jovem Primeira-Dama fazia escolhas que escandalizavam a ala mais patrícia dos círculos influentes do seu país. Numa das suas primeiras aparições oficiais, sentou-se ao lado do Bispo usando um decotado vestido de uma alça só - com o ombro nu junto do representante da Igreja...


 A imprensa adorou, o povo delirou, mas as pessoas que no fundo Eva tentava tenazmente conquistar (por mais que dissesse o contrário) viam nestes espalhafatos, nesta ostentação, mais motivos para ridicularizar "essa mulher" - nome com que a mimoseavam em privado.

 A modéstia e a discrição podem não causar muito impacto, não fazer muito barulho, mas brilham sempre pelas melhores razões e junto das pessoas que a sabem apreciar. 

 Sendo certo que nunca se pode agradar a todos, quem procura elevar-se fará sempre melhor se fizer por se adaptar às circunstâncias: qualquer coisa, por muito cara, bonita ou de boa qualidade que seja pode parecer ridícula se usada fora do contexto.

 É de tão mau gosto ir a uma reunião formal de jeans e ténis como apresentar-se para fazer solidariedade num bairro da lata com uma toilette demasiado luxuosa; tão malcriado não ter maneiras à mesa numa circunstância que exige reserva como ir a um piquenique e reclamar que não se bebe por copos de plástico, ou não adequar a linguagem, tal como a fatiota, ao interlocutor. Quem sabe estar, está bem em toda a parte e com toda a sorte de gente, não embaraçando ninguém.

 Mas há pessoas que - tal como a Evita, mas com menos resultado - fazem tudo para passarem pelo que não são. Têm assim uma ideia muito vaga do que admiram, do que querem a todo o custo imitar, e fazem tentativas de subir na escala social (ou de impressionar, simplesmente)  usando esses métodos de forma totalmente postiça. Claro que se nota, e é nos pequenos nadas que o verniz estala.

 Ouvi várias estórias de uma rapariga cá do burgo, do mais simplório que se pode,  que queria por força casar com um rapaz rico, que era coisa que ela não sabia exactamente o que vinha a ser, mas enfim; para isso arranjava todo o tipo de golpadas e mentirolas, o que acabava por ter graça pois era muito desastrada. Ora, uma delas passava por contar que "vivia numa quinta com piscina" que, vinha-se a saber, era uma casa na aldeia que incluía um quintal com um tanque. Ora, não tem mal nenhum ter uma casinhota com um tanque. Quem tem família no campo guardará decerto boas recordações do potencial dos tanques usados como piscina, mas lá está... a falta de noção dá nisso e a história não teve um final nada feliz.

 Também conheci caramelos que não queriam por nada que se chamasse "cottage" à sua casa na aldeia, porque havia por força de ser uma quinta, e queriam tanto imitar a gente bem que usavam blazer até para uma patuscada a assar chouriços e sardinhas...porque naquela mente estreita, é assim que uma pessoa chic se veste- como se gente decente não tenha camisolas de lã à escocesa, ou pólos, ou mesmo hoodies para usar e pôr a lavar depressa depois de se encherem de fumo. Nunca descontraíam, porque na sua cabecinha as pessoas que querem imitar nunca relaxam, estão sempre em pose como nas capas das revistas. É o mal de tudo o que é demasiado recente, ou inexistente, ou falso, ou pouco genuíno. Lata polida a imitar prata, e mal...

 Há os Dâmasos da vida e as Evitas da vida, e depois há aqueles que nem para Dâmaso servem. Mas sempre nos fazem rir, desde que observados a uma certa distância...
  



1 comment:

Sérgio S said...

Eu sou uma versão pobretana dos ricos: já que não posso ter uma piscina só para mim, tenho uma piscina a dividir a meias com todos os condóminos do prédio onde vivo. Infelizmente como no prédio só vivem praticamente velhotes... Não dá para espreitar grande coisa... Já agora, será que o lagar de casa dos meus avós também pode ser considerado piscina?

Estes dias fui a uma reunião todo de gravatinha e camisa com botões de punho, etc. Quando lá cheguei estavam todos de jeans e t-shirts cor-de-rosa. Pelos vistos era dia não sei do que e era suposto ir toda a gente trabalhar assim vestido... Opsss... Esqueceram-se de me avisar... Lol... Aquilo sim, foi estar fora do contexto...

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