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Thursday, June 26, 2014

A Selecção (porque era esquisito não mencionar o assunto) e a Guerra de Tróia.


Vem isto a propósito de uma excelente crónica lida no Observador . Reza a autora a seguinte grande verdade: 

"Somos uma das grandes nações do futebol, os nossos jogadores estão entre os melhores do mundo… e no entanto não vamos ganhar o Mundial. É o que acontece sempre. Por um lado, ficamos cheios de esperanças (...) Por outro lado, sabemos que estamos destinados a perder".

Ora, nunca é demais recordar que esta pessoa que vos escreve não percebe nada de futebol. Já tentei perceber, mas não percebo. Gostava de me entusiasmar com o desporto rei, porque é sempre uma maçada ver toda a gente aos saltos e eu ficar ali neutra, estilo psicopata da vida isento de emoções humanas a fingir que está muito contente ou muito triste conforme o resultado, mas é o que acontece quase sempre. 

  Que me recorde, só me deixei contagiar num jogo da Académica (posso não morrer de amores por futebol, mas a Briosa faz parte) onde o pai me levou em pequena e que foi impróprio para cardíacos, além de ter uma mulher do Norte a torcer pelo adversário com tantos palavrões que fez rir toda a gente e me deixou ensinada para o resto da vida, o que contribuiu largamente para o pitoresco da experiência; isso, mais o Euro 2004. Para o Euro 2004 tenho desculpa, porque se passava à porta de minha casa e ou me juntava a eles ou estava feita (hei-de ter aí um retrato com a cara pintada e tudo ao lado de uns adeptos franceses que até trouxeram um galo!).

 Mas depois disso deito o olho a uns joguitos de rugby com os homens cá de casa e já não é mau. Se o futebol pode ter algum encanto em termos de estratégia (e eu, filha, neta, bisneta e vai-por-aí-fora de militares, sempre gostei de estratégia, mas já lá vamos) a verdade é que eu não consigo acompanhar as regras. 

   Depois é um jogo muito não me toques, tudo é falta, ai-que-me-tocou-no-menisco-que-tragédia,  com especial predominância de rapazes bons atletas mas simplórios de brinco na orelha, penteados à kizombeiro e hábitos a condizer. 
 Se no rugby são uns brutos, mas vá, uns brutos minimamente bem criados (alguns, pelo menos) no futebol há toda uma cultura do "gladiador premiado" com que não me identifico.

E por fim, a degradação de símbolos nacionais sem direito a punição faz-me espécie. Está certo que não gosto muito da bandeira verde e encarnada, mas é a que temos e não é para deixar a apodrecer à janela, em cima das antenas ou pendurada em estendais.

  Mas até fazia vista grossa a isso tudo, não fossem dois detalhes : primeiro, tal como a crónica do Observador aponta e muito bem, quer a Selecção ganhe ou perca o País continua exactamente na mesma. Cada português à beira de um faniquito, a gritar pelo Ronaldo, não acrescenta um cêntimo à sua conta bancária, não tem melhores condições de vida, não arranja um emprego decente nem deixa de se angustiar com o futuro dos filhos ainda que se ganhe o Mundial com um resultado estrondoso e nunca visto. O Ronaldo volta para a sua vidinha de grandes bólides e fatiotas de gosto duvidoso, os adeptos voltam a maçar-se com pagar as contas. No fim do jogo, o encanto quebra-se e as carruagens voltam a ser abóboras.

 Depois, o sermão é sempre o mesmo de cada vez que se joga um Europeu ou um Mundial: que não temos uma equipa capaz de jogar como tal (ao fim destes anos todos ainda não se resolveu o problema? Tenho para mim que um Sargento do exército punha esses marotos na linha, e que um General era capaz de alinhavar uma estratégia que se visse; basta ler Maquiavel e Sun Tsu, ora essa) que o Ronaldo é um mercenário que só joga bem nos clubes onde lhe pagam rios de dinheiro e que pela Selecção é só para enfeitar.

 Ora, eu não se se isto é verdade mas a ser, eu que não entendo nadinha de futebol mas de imagem percebo qualquer coisa, resolvo já o molho de brócolos: se o rapaz tem medo de magoar os delicados musculozinhos e pezinhos de ouro porque ainda tem muito para dar ao futebol e muitos contratos milionários para fechar MAS não podemos prescindir dele (já lá vamos) então conceda-se-lhe o papel decorativo que ele quer, só para meter medo à equipa adversária e dizer que temos o grande Ronaldo a alinhar connosco, e parem de exigir tanto do (sem ofensa) puro sangue premiado.

  Porque isto parece a Guerra de Tróia, é básico-básico, elementar meus caros: o Aquiles era igualzinho ao Ronaldo, se esquecermos que um era filho de um rei e de uma deusa e outro filho de um senhor jardineiro e da Senhora Dolores, que um era louro e outro é moreno.



Fora isso, as façanhas são semelhantes, embora eu não esteja bem certa de como o Ronaldo se ia comportar face ao inimigo de elmo na cabeça e escudo ao braço; são trabalhos diferentes, porque em batalha não há a desculpa do menisco ou das luxações, mas usemos a imaginação aqui. 
 O Aquiles, menino de ouro dos gregos, com a sua flamejante armadura cuja mera vista punha o exército inimigo em debandada, não era mau rapaz mas  muito dado a birras, perito em amuar por caprichos. Se não lhe davam o que ele queria - a princesa cativa, o amiguinho, qualquer coisa - não saía da tenda e pronto.

 Agamémnon, chefe das fileiras gregas, arrepelava-se e desesperava-se. E qual era o remédio? Era deixá-lo e não depender dele, porque quando estava para aí virado fazia o que sabia fazer melhor e causava o terror e a mortandade entre os troianos, mas se virava do avesso só contando com a estratégia e mente brilhante do Ulisses para fazer alguma coisa; havia mais guerreiros além de Aquiles, que servia sobretudo para dar coragem aos outros, meter medo e fazer vista.
 Foi a inteligência de Ulisses que ganhou a guerra e conquistou Tróia. Aquiles lá ficou, espetado no dourado calcanhar.

 Fica claro que a Selecção precisa é de um Ulisses. Mas se os responsáveis não lhes dá para ler os clássicos e tirar ideias, vale a pena os portugueses queixarem-se mais por causa do mesmo? É que se torna repetitivo.



5 comments:

Ulisses L said...

Tens que compreender que esta malta do futebol não lê os clássicos! São maçadores e têm palavras esquisitas!

Tás a imaginar o Paulo Bento a ler a Ilíada? tinha um derrame antes de chegar ao fim...

Por isso é que não percebe que se deveria portar como um Agamémnon e arranjar um Ulisses dentro do campo, porque só assim o Aquiles pode brilhar! Porque o Aquiles podia ser o melhor, mas também caiu!

:)

Sérgio S said...

No meu caso que vejo regularmente os jogos posso dizer o seguinte. Existem dois e apenas dois países no mundo que sendo pequenos conseguem ter regularmente equipas competitivas. Portugal e a Holanda, sendo que no nosso caso o regularmente só surgiu nas duas ultimas décadas. Se fossemos competitivos em muitas outras áreas tal como somos no futebol eramos um dos países mais ricos da Europa. Aliás, se fores a ver o período que mencionem fomos sistematicamente melhores que uma série de países muito maiores que nós e onde o futebol é também desporto nacional, a começar pelos ingleses.

Sandra Marques de Paiva said...

mais uma vez obrigo-me a concordar. Xiça :p

Imperatriz Sissi said...

@Ulisses, talvez alguém lhe oferecesse uma versão para crianças! Li uma em pequena...
@Sérgio- não duvido nada, com a atenção que se dá ao futebol cá no burgo. Mas que ouço sempre a mesma missa, isso ouço...
@Sandra - haja paciência para o disco riscado...

Olinda Melo said...

:)))

E não é que é mesmo?

Mais uma crónica deliciosa e com grandes verdades.

:)

Bj

Olinda

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