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Wednesday, June 4, 2014

Eu tenho medo de...macacos de imitação.



E olhem que pouca coisa me mete medo neste mundo (não tomem isto por gabarolice; ter medo, às vezes, dá jeito e poupa muitos trabalhos).

 Mas as pessoas que obsessivamente copiam outras são do mais sinistro e desviado que há. Para ser macaco de imitação, não basta ter falta de originalidade, de conteúdo ou de maturidade: é preciso não ser muito certo das ideias, ter um bocadinho de maldade nos ossos, ser muito invejoso, não fechar bem a tampa e em alguns casos mais sérios, recusar-se obstinadamente a tomar as gotas.

  Tenho tido o desprazer de conhecer alguns desses espécimes. Por qualquer razão lá na sua cabeça embirram que determinado indivíduo, que quase sempre só conhecem de longe, tem tudo o que elas nunca tiveram e é tudo aquilo que almejavam ser. Um pouco como o Dâmaso quando idolatrava o Carlos da Maia e o copiava em tudo, desde a barbicha ao alfaiate, não olhando à triste figura que fazia nem à cópia reles que resultava dos seus esforços.

 É claro que pessoas assim vêem sempre a vida alheia por óculos cor de rosa: no seu entender o alvo da obsessão não tem desgostos, contrariedades nem dias maus como toda a gente, e os privilégios que a vida lhe concedeu são todos grátis. 

 Ao macaco de imitação nunca ocorre a dignidade, responsabilidades ou o trabalho que o seu alvo tem para manter e luzir aquilo que Deus lhe deu- e como tal, remói-se de inveja.


 Porque o outro é bonito, ou famoso, ou rico, ou bem nascido, ou muito inteligente, ou muito elegante, ou muito qualquer coisa,  o macaquinho critica por um lado ("ai, nunca teve de trabalhar porque o papá deu-lhe tudo; ai,que pessoa fútil; uff, que roupa ridícula") e imita por outro. Na maioria das vezes não imita lá muito bem, porque há coisas que só nascendo de novo e outras que um conhecimento superficial dos factos ou a limitação dos meios não pode colmatar, mas pronto.

E começa o processo de transformação, que não raro é da água para o vinho.  Veste como o alvo. Tenta posar, relacionar-se, pensar e pentear-se como o alvo. Procura aproximar-se dos seus íntimos,  adere às mesmas ideias políticas, conduz um carro igual, adopta os mesmos hobbies, faz por se infiltrar atabalhoadamente nos mesmos círculos. Não lhe basta ser como fulano de tal: a certa altura, começa a querer SER fulano de tal, no melhor modo Mr. Ripley.

 O ideal era torcer o pescoço ao alvo da sua adoração e roubar-lhe  a identidade, mas como isso não é lá muito prático bajula abjectamente caso o ídolo lhe conceda uns minutos de atenção e planeia infâmias pelas costas, chama-lhe nomes feios em privado, torce-se de ressabiado, deseja-lhe uma morte lenta e dolorosa. 

 E em vez de tirar partido das próprias qualidades, resigna-se a ser uma cópia barata. Ora, todos sabemos que uma carteira da feira nunca será uma Birkin, por muito detalhada que a imitação seja. E que um macaco pode mudar de fato, mas não engana ninguém. 

 O Zoo anda a fugir às suas responsabilidades, ou não haverá jaulas para tanta macacada junta?

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