Recomenda-se:

Netscope

Thursday, June 19, 2014

Intrigas palacianas a nível microcósmico. De salãozinho.


Maquiavel não sabe do que se livrou!

Julga uma pessoa que viu de tudo e conhece algumas coisas da vida. Se tiver um bocadinho de mundo e considerável independência mental, sabe que para se mover em certos círculos sem consequências, absorvendo só a parte boa,  basta não levar a sociedade demasiado a sério, manter uma distância de segurança e fugir de mexericos; o mesmo vale para a política.

     Pode observar-se, subscrever esta ou aquela ideia, mas a menos que se seja um carreirista de primeira água ou não haja outro remédio, o melhor é deixar as politiquices à distância de um braço. E isto aplica-se a qualquer tipo de organização humana, de maior ou menor monta: panelinhas de beatas nas paróquias, trapalhadas em associações de estudantes - ou outras que me arrepia só de pensar - associações de pais (coisa mais assustadora, não imagino) e assim por diante.

 Intrigas palacianas só têm graça nos livros, e quem quer viver em sossego e preservar a sua reputação é melhor que seja superior a elas e que se ria disso tudo, para não ser contaminado por mexericos, facadinhas e outros disparates que não se adequam a pessoas de bem.
 Quem tiver espírito crítico sabe disto e lida com o assunto com a sobriedade, ou mesmo sobranceria, que o assunto merece. Há que ir ao salão, mas não lhe limpar o pó, penso eu.

 Tudo isso é verdade e muito lindo, toda a vida cri nisto, mas eis que nas últimas duas semanas se me deparou um interessantíssimo estudo antropológico.
 Contei-vos em confidência que precisei de ser assistida por uma manicura, algo que não me agrada porque não gosto lá muito de dependências desse género.

 Eis que se descobre que as manicuras devem ser artífices de uma inteligência sobrenatural, porque a arte de tratar das mãos sem errar tem muito que se lhe diga, infinitos detalhes, aspectos que nem a física quântica explica. Palavra de honra - daqui a nada vão ser precisos doutoramentos para limar, pintar e secar, fora o resto das palhaçadas que fazem e que não passam pela cabeça a uma senhora trazer nos dedos.

 Falando em bom português, o trabalho não saiu lá aquelas coisas e pedi uma segunda opinião, levantando-se um coro de profissionais a dizer que não era assim que se fazia. Tive de ver dois ou três sítios, até que uma amiga que é mais perfeccionista com isso do que eu sou com os tecidos me recomendou a sua, garantindo que era um prodígio de simetria.
   
 No meio disto tudo não imaginam as sensibilidades que tive de ter o cuidado de não ferir, os motins que se passam nos salões, as rivalidades e politiquices que fiquei a conhecer. Acho que me morreu um punhado de neurónios - ouvir falar de unhas horas a fio tem o condão de fazer murchar inteligências, por muito complicada que a arte seja. 

 Estou de tal forma que só pensar no assunto me dá tonturas. É impressionante o nível de detalhe e de conspiração que pode haver na mais fútil e superficial das coisas. Acho que Maquiavel devia ter arranjado as mãos e o cabelo: aposto que O Príncipe ia ter mais uns quantos capítulos. 

De intrigas de salão sempre ouvi falar - agora de salão de cabeleireiro e da unha, confesso que é novidade.

2 comments:

Inês Sousa said...

Vou desde já pedir desculpa a quem possa ler este comentário e não se sentir revista nas minhas palavras. Cabeleireiras e esteticistas são uma classe muito dada às rivalidades e intriguisses. Aqui há uns anos tive de mudar de sitio porque caí na asneira de recorrer ao cabeleireiro que existia na galeria comercial pertencente ao prédio onde resido e aquilo ia dando problemas. Além de cliente eu era vizinha e por isso conhecida, então tinha de aturar todo o tipo de comentários que elas faziam umas das outras. Até que fiquei farta de tanta intriga e como um dos alvos da intriga era e é minha amiga e vizinha acabei mesmo por ter de ir arranjar o cabelo e as unhas para outro lado. Claro que fofoquice e intriguisse habitam em todo o lado e já as encontrei noutros espaços, mas como fico na minha e não sou vizinha de ninguém lá se vai aguentando.

Sandra Marques de Paiva said...

Concordo com a Inês e com o teu texto. Também já tive de mudar de salão pelos mesmo motivos. Primeiro, pq nunca dou confiança suficiente para acharem que sabem alguma coisa sobre a minha vida, muito menos tolero estar num sitio em que sei que mal vire as costas serei motivo de falatório e depois pq à medida que fui frequentando o salão ao longo dos meses achei que o atendimento se tornou mau, tipo, pq já me conhece acha que já não precisa de se esforçar muito. Salões é o que não falta por aí e à medida que me vou fartando, vou mudando antes que alguém já se sinta "à vontade" comigo.

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...