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Monday, June 23, 2014

Quem ama o torto, perfeito lhe parece.


Alguém no seu perfeito juízo queria que o "Grumpy Cat"  tivesse outra cara?

   Quando gostamos de alguém, gostamos completamente. Tudo nos parece um encanto, até os defeitos.

Um dos gatos cá de casa - todos adoptados, bem entendido - saiu-me melhor que a encomenda, coitadinho. Deixaram-no à beira da estrada e ele (um siamês pequenino, vesgo e magricelas)  ficou, muito compenetrado e com ar de quem sabe o que é bom para ele, à espera de socorro. Levámo-lo connosco com a intenção de arranjar dono que lhe conviesse, pois por cá a lotação estava esgotada, mas rapidamente perdemos a ideia -  o bichinho vinha com todos os achaques, além de ter a cauda e a coluna tortas. E se já é difícil desencantar adopção responsável para gatos abandonados sãos e escorreitos, quanto mais para um com "defeito de fabrico", todo ranhoso ainda por cima.

     O facto de ser um animal super bem disposto e carismático também fez com que ficasse, porque ninguém, nem gatos nem pessoas, se quis separar dele. O Farinelli apadrinhou-o logo e teria um grande desgosto se ele se fosse embora. 
   E um ano depois, graças a muito antibiótico e muita água benta,  o Saca Rolhinhas cá anda, feito menino na mão das bruxas: caminha torto e move-se como uma cobra, mexe a cabeça como o Stevie Wonder quando lhe falamos (o veterinário desconfia de não sei quê a nível neurológico, mas como não o afecta e até lhe dá graça, paciência). Se lhe ralham, fica desnorteado que só visto, triste que dá dó.
 Ainda houve quem me dissesse "mas para que queres um gato todo torto? Ao menos manda cortar-lhe o rabo para ficar mais bonito!" - olhem que grande disparate. O rabo em saca rolhas dá-lhe imensa piada, é o que o torna diferente. Siameses é o que mais há - siameses com um nó na cauda é outra história.

 Faz mais ele com dificuldades de locomoção e nó na cauda do que muito boa gente saudável que conheço, que não ata coisa com coisa e não dá ponto sem nó. Eu não mudava uma vírgula no Saca Rolhinhas.

 E com as pessoas passa-se outro tanto. Já aqui o disse: devemos escolher para estar ao nosso lado não só quem tem as qualidades, valores e gostos compatíveis com os nossos, mas defeitos e ódios de estimação que combinem connosco- que sejamos capazes de apoiar ou pelo menos tolerar.
  É fácil achar graça a alguém - mas se nos desesperamos a tentar mudar isto ou aquilo porque não suportamos essas características, nada feito. Não é necessário que dois amigos ou os elementos de um casal sejam iguais como gotas de água, mas convém que sejam como o mata e o esfola.

 Se gostamos de cada detalhe, cada tolice, cada micro expressão de uma pessoa, se até as suas explosões nos fazem rir e não mudaríamos nadinha nela, isso é muito bom sinal.
  Se aceitamos a cauda torta (ou o feitio torcido) do outro e não trocaríamos a sua companhia por alguém com uma cauda exemplar, está tudo dito.

2 comments:

A Bomboca Mais Gostosa said...

Nem mais. Das qualidades, toda a gente gosta. Dos defeitos, só os especiais. Parabéns e obrigada pelo que fizeste por esse gatinho :)

Liane Carvalho said...

E que lindo e fofo é o teu Saca Rolhinhas! É impossível não gostar dele com aquele bambolear todo lol :) Mais um belíssimo texto! Beijinho

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