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Sunday, June 29, 2014

Revistas do antigamente, voltem que estão perdoadas.

Ontem, como vos contei, veio parar-me às mãos um monte de edições da mítica publicação Modas e Bordados - Vida Feminina, a maioria delas dos anos 50 e inícios de 60.

    A revista, que fez as delícias de gerações (existiu entre 1912 e 1977) teve a colaboração de grandes vultos intelectuais e literários, como Florbela Espanca e Maria Lamas (que foi sua directora). Embora ao longo das décadas tenha passado por várias mudanças - consoante os ideais das suas editoras e/ou colaboradoras e as pressões políticas do tempo - a ênfase era sempre colocada num comportamento tradicionalmente feminino e elegante. 

Porém,  há mais em Modas e Bordados do que material para que se reduza a revista a mera relíquia. E se alguns anúncios e artigos nos parecem datados, sobretudo pelos temas (não faltam na blogosfera anedotas retiradas da imprensa feminina de antanho) folheando Modas e Bordados com olhos de ver, a qualidade é surpreendente. E não falo só dos critérios de comportamento e linguagem que me agradam mais que os de hoje (mera opinião pessoal).




Para começar, poucas são as revistas dos nossos dias (nacionais, pelo menos) com um formato tão completo. Certo, havia os moldes e lavores (estes últimos ser-me-iam inúteis em qualquer época porque detesto bordar e não acredito que fosse capaz se tivesse nascido nos anos quarenta, por muito boa vontade que tivesse) as receitas (que continuam a existir nas revistas femininas mais generalistas) mas o português, embora coloquial e familiar, era muitíssimo superior e mais exigente do que aquele que desgraçadamente apanhamos em alguma pretensamente fiável imprensa portuguesa.

 Fica muito claro que Modas e Bordados não esperava pouco das leitoras. 

Depois, além de artigos que defendiam critérios estéticos e de comportamento que fazem bastante falta hoje ("elegante sim, pretensiosa não", por exemplo) e de episódios que actualmente pertencem às revistas cor de rosa, mas focados na boa sociedade portuguesa - os bailes de debutantes, mas também a entrevista às mesmas debutantes que entravam no mercado de trabalho como enfermeiras- e na vida no Ultramar, não faltavam as referências a personagens históricas, a cabeças coroadas com toda a complicada genealogia e contextualização, a excertos de grandes obras, enfim, toda uma ênfase na cultura que deita por terra a impressão de mulher tonta.

   Não estudei o assunto em profundidade (podem ver duas peças detalhadas sobre a revista aqui e aqui) mas fossem quais fossem as ideias de Maria Lamas, feminista e de esquerda, tanto a censura como o posicionamento da revista (dirigida primeiramente a meninas e senhoras de sociedade) obrigavam a uma certa amenidade. Curiosamente, apesar do afastamento da jornalista e de alguma convulsão provocada por coisas que hoje nos fazem sorrir (deu grande escândalo, imagine-se, um anúncio de tampões) seria já em democracia que a revista ia encontrar o seu fim.

 Uma pena, considerando que uma Vogue, uma Vanity Fair, tiveram percurso semelhante e sobreviveram. Fazia falta uma revista feminina portuguesa com tanta tradição, tanta personalidade, tanto encanto.

 E digo-vos que folheando Modas e Bordados com atenção, fico a pensar quem serão realmente as mulheres tolas: seriam as leitoras das revistas de outros tempos, pré emancipação e que não negavam a sua relação com o espanador mas que faziam muitas outras coisas, ou as de hoje em dia que espanejam às escondidas, choram no ombro das amigas porque ele não telefonou tal e qual como as leitoras do consultório sentimental Correio da Joaninha, e compram todas contentes revistas "para a mulher de hoje" que pregam na capa "viva o swing - apimente a sua relação com uma orgia romana" (não estou a exagerar, ou exagero pouco)  como se fosse a coisa mais realista e corriqueira deste mundo? Olhem que não sei não...








4 comments:

Géraldine said...

Na mouche!

Olinda Melo said...

Gostei! :)

bj

Olinda

Inês Sousa said...

vou apenas transcrever a opinião de um dos vendedores da revista aquando do encerramento da mesma "as mulheres vão embrutecer". Não é preciso dizer mais nada.

Carla Isabel Mendes said...

Adorei :)

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