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Thursday, July 3, 2014

Dos namoros surpresa (great expectations)


"Tecedeira, tecedeira, como hei-de viver sem ti?
Não tem que saber, menino - é viver como até aqui".

(Júlio Diniz)


Contava-me uma amiga que queria encontrar-se com o rapaz com quem andava a namoriscar por correspondência *leia-se, via redes sociais que isso das cartas de amor foi chão que deu uvas mas o princípio é o mesmo* mas tinha medo de apanhar uma desilusão. Ou melhor, de sofrer mais uma desilusão.

E fiquei a pensar no poder que as mulheres colocam nos outros para as magoar eventual e hipoteticamente.  Até num estranho que nunca viram mais gordos. 
 A desilusão que pode vir daí é tão grave como constatar que o ídolo do cinema, quando visto na rua como o comum dos mortais, é atarracado e sem grande graça, produto de fumo e espelhos. 
   Ou que aquele bolo novo na pastelaria da moda afinal não presta: desde que não provoque alguma intoxicação, o caso não é grave e no dia seguinte já ninguém se lembra disso nem dos trocos que deitou fora. Ralar-se com um caramelo que nunca se viu, ou que se conhece de ontem, é o mesmo que tratar o bolo novo e insípido como se fosse o copo d´água, ou a última refeição de um condenado.

 Conheço muitas raparigas cuja principal preocupação, antes de um encontro com o novo namorado em potencial, é "espero conquistá-lo" ou "espero que ele goste de mim!" - hello, minhas meninas: nem conhecem o marmanjo e já se estão a esforçar? Em vez de irem com a mente analítica ligada no máximo para perceber se elas gostarão dele, se o rapaz não é um psicopata ou um javali à mesa ou coisa assim, já decidiram na sua cabeça que gostam dele. E que se se portarem bem, vão ser recompensadas com casamento e filhos. Calma: for all you know, o moço pode ser um pesadelo. A pergunta sensata não deve ser, portanto, "será que ele vai gostar de mim?"e sim "será que eu vou gostar dele?".

Mas o hábito de colocar nos outros grandes expectativas não é um exclusivo feminino: conheço vários homens assim. Na mesma semana, um amigo contou-me, todo entusiasmado, que estava interessado numa pessoa que acabava de conhecer. Tinha havido aquele "clic", o que é sempre uma boa notícia, um belo entretém no rame- rame do quotidiano.
 Pois bem: uns dias volvidos, já andava ansioso porque o flirt em causa não lhe respondia, ou respondera mais casualmente, ou falava muito não sei com quem, como se o caso importasse muito para a sua vida. Aquilo que devia ser um divertimento em fase embrionária, que não se sabia se valia a pena, já era motivo para nervos. 

Outro amigo ainda, solteiro em busca de assentar, veio dizer-me que andava ansioso porque de repente as pessoas  com quem costuma trocar mensagens não lhe andavam a responder, que estava com azar, etc. Disse-lhe que se calhar, só se calhar, andava com demasiado tempo livre se precisava de estar sentado à espera que lhe respondessem. Em vez de se focar em si próprio, este rapaz dá todo o poder aos outros; a percepção que tem de si mesmo depende de uma coisa tão tola como a resposta às suas mensagens.

   É preciso romper o hábito de enfeitar mentalmente os outros, principalmente os outros que não têm estatuto oficial na existência de cada um:  já bastam as pessoas realmente significativas, o emprego, as contas para pagar e outras coisas  sérias para causar ansiedade. 

Pessoas que mal se conhecem e que poderão, caso o destino conspire nesse sentido, vir a significar alguma coisa importam, bem vistas as coisas, tanto como um vestido baratinho encomendado pela internet: se não servir é pena, há a maçada da troca ou devolução, mas não vem mal ou mundo por causa disso. O investimento não foi grande - e a expectativa também não era, ou não devia.

 A única cautela, grande, enorme, que se deve ter em casos assim é levar um pau de cabeleira em caso de encontro às cegas. Conheço uma menina que conheceu um amigo-de-uma-data-de-amigos via Facebook e acedeu, algo relutante, a tomar um café com o rapaz. Teve o cuidado de ir acompanhada e o mocinho parecia perfeito. 

 Vários encontros depois começaram a namorar a sério e tudo parecia correr bem, mas
 vai-se a ver e o rapaz saiu maluquinho - clinicamente maluquinho. Não bastava a minha amiga ter levado um pau de cabeleira nos primeiros cafés; devia ter contratado a Mossad e ainda era pouco. Foi um desgosto, certo, e uma carga de trabalhos, mas como a expectativa não era grande - o bom e velho tu és pior do que esperava, e olha que eu não esperava grande coisa! -  ela escapuliu-se e continuou a viver como até ali

Agora imaginem se se tivesse posto com grandes esperanças. Havia de ser bonito...








2 comments:

AC said...

Olá :)
Há algum tempo que a leio. Esta crónica foi lida no momento certo, no entanto, num mundo onde as relações são como comida fast food. Onde o amanhã é tão incerto como o tempo, como poderemos nós não colocar expectativas? Não queremos nós ser amados, e queridos? Está certo, que a cada panela o seu testo e se não for o caramelo do Facebook há-de ser outro. No entanto, todos queremos uma relação de conto de fadas, ainda que gritemos aos quatro ventos que sabemos que isso não existe. Ponderação, a melhor receita para qualquer problema na vida.
Já agora, obrigada por partilhar coisas tão boas connosco, admiro muito a sua escrita e a tão sua forma de ver o mundo.

Um beijinho e um grande bem haja.

Adriana Costa

Carla Isabel Mendes said...

O problema é que só há mesmo psicopatas e javalis , os psicopatas a gente interna no Júlio de Matos e o javali se tiver febra sempre dá para fazer um jantar , os cavalheiros esses já estão em vias de extinção , quanto aos senhores quando sentem um clic um extintor de incêndios resolve o assunto ;)

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