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Sunday, July 6, 2014

Reconciliação, redenção, compreensão...e outras receitas.

Rudolph Valentino e Natacha Rambova


Disse Camus,



e é bem verdade. O afecto verdadeiro, o amor verdadeiro, é uma luta constante. Dá muito trabalho e exige que se perdoe - até o imperdoável - no sentido bíblico do termo: setenta vezes sete. Quem ama verdadeiramente faz como Oseias, um homem puro e orgulhoso que foi homem o suficiente para perdoar e resgatar Gomer, a mulher que não merecia perdão. Mas ele amava-a; isso bastou.

 E num relacionamento que vale a pena, quantas vezes um e outro fazem coisas imperdoáveis! Nem sempre um é Oseias e outro Gomer: revezam-se a fazer asneiras,  e necessário que se revezem também a ter os braços abertos. É preciso perdoar à vez, um dia tu, outro dia eu.

 Mais do que desculpar,que entre duas pessoas muito chegadas às vezes até é escusado (lá dizia o filme xaropento, mas filosófico:  "amar significa nunca ter de pedir desculpa") 
 trata-se de compreensão. De entender profundamente o outro nas suas mínimas particularidades, subtilezas,  nas mais pequenas reacções automáticas e micro expressões, nas suas ínfimas dores, no seu orgulho e na forma como manifesta tudo isso.
 O que para as pessoas de fora parece intransponível, indesculpável, que para os preconceitos do mundo é fracturante, entre duas pessoas que se conhecem muito bem, que cultivaram uma dinâmica e uma linguagem próprias, pode não ser nada de grave desde que ambos estejam conscientes daquilo que é mais importante. Que compreendam que têm tudo a perder porque quem não aprende a dobrar uma vez por outra, quem não tem flexibilidade, acaba por quebrar. É preciso  ser firme e digno, não tolerar faltas de respeito.. ser de aço mas de aço flexível, como as cordas de um piano. E isso exige, mais do que esforço, coragem.

  Há uns anos entrevistei vários casais do antigamente para um suplemento do Dia dos Namorados no jornal onde trabalhava. Recordo-me de um deles, que tinha estado casado durante décadas, apesar de muitas dificuldades: em terra de emigrantes, o noivo tinha sido obrigado a ir para França logo após o casamento. Os filhos tinham ido nascendo com ele cá e ela lá. Depois disso, já reunidos, tinham passado por imensas crises como qualquer casal, mas mantinham-se juntos e dizia a velhinha que continuavam apaixonados. Quando lhe perguntei o segredo de tanta longevidade, ela disse-me o seguinte: muita coragem! Agora está na moda separarem-se por qualquer coisa...antes não era assim. A gente zanga-se, mas dali a nada faz as pazes outra vez!

Que simples eram as coisas no tempo em que não havia outro remédio! Talvez seja necessário agir sempre assim, como se não houvesse alternativa - porque a alternativa raramente é melhor.



1 comment:

Sandra Marques de Paiva said...

Que texto bonito, embora não saiba se concordo inteiramente com ele :)

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