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Thursday, November 20, 2014

14 factos da vida que só quem cresceu no campo compreende.



Há alegrias e particularidades que só quem nunca morou num apartamento e/ou passou a vida em casa dos avós que era no campo, ou teve uma casa/quinta/cottage no dito onde estava 50% do tempo, é que pode entender.

 Se boa parte da vossa existência foi gasta entre montanhas e árvores e não fazem a menor ideia do que era "ir chamar o Carlitos do 5º C" para brincar, este texto é para vós. 

(E por mais que sentíssemos uma certa invejinha do Carlitos do 5º C e sua pandilha, os meninos da cidade não sabem o que perderam - é que crescer no mato é uma preparação para a vida!).



1- Até hoje, vocês têm certa dificuldade ao organizar-se em espaços pequenos. Quem toda a vida viveu com caves para isto, alpendres para aquilo, casinhotas para fornos a lenha,  para guardar ferramentas e por aí fora tem sérios problemas em conformar-se com a dura realidade de "apartamentos de luxo" aburguesados com 3 quartos com armários pequenininhos ou cozinhas que não dão para trinchar um frango -  quanto mais para projectos algo ambiciosos, como fazer uma fornada de bolos.



2 - Aprenderam muito cedo a saber estar  e brincar sozinhos (a vossa avó ficava aflitíssima porque isolavam a ler debaixo de uma árvore ou atrás das couves e ninguém dava convosco) por isso não se tornaram pessoas maçadoras e dependentes que precisam constantemente da validação alheia, de preencher o silêncio com conversas de chacha,de publicar de 5 em 5 minutos coisinhas nas redes sociais, ou...gente carente, sabem.



3- Quando não estavam sozinhos, havia os irmãos e os primos...o que vos fez interiorizar de pequeninos que blood is thicker than water ou seja, a família vem primeiro. Os primos tornaram-se os vossos melhores amigos e vão continuar a sê-lo por toda a vida, até porque se se armarem em Judas o assunto resolve-se ao calduço e à bolachada e não deixam de ser família lá por causa disso.
  Depois, há sempre ziliões de primos numa rede intrincadíssima, até aqueles que legalmente já não contam porque são em 6º, 7º ou 8º grau, mas que os avós e o ADN insistem que são primos (o cabelo laranja -vivo do Manel da Azenha de baixo não engana ninguém e a Dona Maria, aquela velhinha simpática que mora na quinta não sei de onde, é tudo tio e primo porque a trisavó dela casou com um irmão do nosso bisavô) e acabamos por ter de engolir a explicação e tratá-los de parentes. Quanto mais não seja, a ver se desistem de nos fazer entender a genealogia toda. A desvantagem é que se corre o risco de vir a implicar com algum primo nosso, mas isso acaba por passar ou, caso algum seja mesmo uma desgraça pegada, faz-se como dizia a Nelly do Monte dos Vendavais: é só não nos darmos com eles e pronto. Mais um menos um...



4 - Aprende-se (e sem pôr os pés nesses workshops zen de banha da cobra!) a ter paciência e a respeitar o ritmo alheio, dando o nosso melhor para não comprometer o processo: as cerejas amadurecem quando Deus quer (e se não chover muito) e não quando nos apetece. Galinhas stressadas não põem ovos, por isso nada de correr atrás delas (aqui prevariquei algumas vezes, confesso). Também nos ensina que nada é grátis nesta vida: quem quer ovos, vai buscá-los. Mas era engraçadíssimo ir ao ninho e descobrir um monte deles! (Qual coelhinho da Páscoa, qual carapuça). E como é impossível não amar os animais e a vida no campo nem sempre é tudo rosas, por vezes fazem-se protestos à custa de travessura, vulgo encharcar com a mangueira um velhote malvado que tinha o mau hábito de bater no burro quando o obrigava a levar cargas ladeira acima. Isso valeu-nos umas quantas queixas lá em casa mas como simpatizavam com a causa, não tivemos castigo.



5- Marmelos e citrinos caídos da árvore dão excelentes projécteis e armas de auto-defesa. Potencialmente fatais. E quem sabe disto, também sabe que a marmelada e as compotas não são uma coisa sintética que nasce nas prateleiras do supermercado estilo Tulicreme, que as nozes e as romãs mancham horrivelmente as mãos, que os ouriços das castanhas picam que se fartam e que os tremoços não crescem por magia no café da esquina- são um sarilho para descascar porque  lançam um pó que provoca uma alergia horrível, o que por sua vez os torna óptimos para criar "pó de comichão" -  partida que nunca preguei, juro.


LEVE??? ONDE???
6- Aprenderam à vossa custa que as vindimas  não são uma coisa glamourosa e pitoresca como pareciam nos livros da escola, em filmes românticos passados em Itália e em algumas revistas todas pretensiosas de vinhos e gourmet, e sim um suplício que dá cabo das costas. Principalmente se se voluntariaram feitos parvos  a pensar divertir-se com a primalhada e os vossos avós ou tios (ou as pessoas a quem eles encarregaram de vindimar e estar de olho em vocês) levaram a sério o vetusto ditado trabalho de menino é pouco, mas quem o perde é louco



7- Parques de diversões nunca vos pareceram muito impressionantes - nada bate fazer bungee jumping de uma árvore abaixo ou escorregar por uma encosta numa casca de eucalipto  a grande velocidade. Alguns ter-se-ão espatifado de bicicleta numa descida por guiarem  sem mãos levando o Jóli à pendura no cesto, ou galgado plantações de repolhos a cavalo ou de mota, sendo perseguidos pela Ti Maria Cachucha ou o marido e apupados de "ai que desgraçado aquele que me deu cabo dos hortos" em altos brados. What a feeling. Os vossos amigos acham-vos enfatuados, mas não é verdade: é que vocês já viram tudo, enquanto eles se sentem uns ganda malucos por fazerem acrobacias com cordas, capacetes e outros recursos de segurança e sem riscos de baterem contra um obstáculo não identificado. Maçaricos.



8 - Souberam sempre que o peru não é um frango gigante que aparece no Natal, mas um bicho que impõe respeito; por alguma razão se diz "estar chateado que nem um peru". O mesmo vale para os gansos, que não servem só para fazer essa crueldade do foi gras  - se bem que, conhecendo certos gansos como eu conheci, acho que terem acabado em paté foi resultado do mau karma que acumularam: são maus como as cobras. Há quem os treine para guardas mas alguns, como o Alfredo de uma tia minha, não se faz nada deles:  o Alfredo não fazia distinções e atacava toda a gente. Não acabou no prato, morreu de velho, mas estava sempre a ser castigado e nem assim. Se um olhar para vocês, fujam. Aviso feito.



9- Seria impossível tornarem-se uns xoninhas medricas porque primeiro, havia sempre o risco de pisarem ou tocarem os limites/couves/ fruta de algum vizinho mais maldisposto, o que implicava um grande raspanete (convém endurecer cedo!); depois porque se habituaram desde o berço a ouvir estórias de lobisomens e fantasmas ou a dar de caras com cobras, lacraus (nunca gostei muito de lacraus) ou aranhas do tamanho de um punho, sem que isso fosse o fim do mundo; e por fim, a ver caves/adegas escuras com teias de aranha (a de um tio meu é uma gruta verdadeira escavada na pedra, não se pode pedir iniciação melhor) cozinhas de lume/celeiros/sótãos tenebrosos com tranças de cebola penduradas, batatas a grelar e outros mistérios (don´t get me started) e fornos de lenha enfarruscados. Hansel e Gretel who?



10 - Aprenderam a ser corteses com todo o mundo porque na aldeia todos se cumprimentam, mesmo aquela velhota que vocês nunca viram na vida e que quer logo saber "a menina pertence a quem?" e em Roma sê romano, or else... alguém ia fazer queixa e o mal era vosso. Bom dia, Sra. D. Não sei quantas, boa noite Senhora Felismina da mercearia, bom dia Tia X ou Y *paragem e beijinho obrigatório* , boa tarde, Ti Manel e não faziam mais que a vossa obrigação.
 Claro que agora estranham quando a porteira do prédio onde trabalham ignora o vosso cumprimento, mas se a senhora é malcriada a culpa não é vossa.



11 - Nunca se deixaram enganar: galos e passarinhos não são fofos como nos filmes da Disney (bem, são fofos mas acordam cedíssimo e entendem que devem ir para as janelas acordar quem não tem a vida deles). Também seria impossível endrominar-vos com patranhas do estilo as crianças nascem num repolho,porque toda a vida viram repolhos e a única coisa que de lá saiu foi cozido à portuguesa ou (à falta de couve mais adequada,que isto das couves é uma ciência) um belo caldo verde. Histórias de abelhas também não resultavam, porque para vosso bem ficavam longe das colmeias, principalmente se o vosso cabelo lembrasse remotamente uma flor (não estou a brincar, aconteceu isto a uma senhora da minha família).



12- A experiência mostrou-vos que comer fruta das árvores é um prazer perigoso: ou porque exageravam, a fruta estava quente e ficavam três dias maldispostos, ou porque se arriscavam a cair da mesma nespereira de onde o vosso avô já tinha caído em pequeno e partido a cabeça, olhem lá cuidado com essa árvore. Caiu mas não morreu e vocês graças a Deus também não, por isso não havia razões para quebrar a tradição familiar. Nem que fosse à socapa.



13 - Conheceram as alegrias de nadar no rio ou num grande tanque em pedra com água fresquinha, não necessariamente só no Verão: muitas caças ao girino acabavam com os aventureiros encharcados até aos ossos, a entrar de fininho em casa para não serem vistos naqueles preparos. Depois disso, quaisquer "rebeldias" de juventude pareciam coisa pouca. E por falar em rebeldias, "sair à noite" tinha um significado precoce e mais amplo: podia querer dizer uma expedição nocturna para caçar gambuzinos ou pirilampos, ir aos bolinhos e bolinhós na Véspera de Todos os Santos ou até assistir com respeito silencioso a uma Procissão das velas, que é sempre impressionante de ver.


14 - Se tinham brio e pais vaidosos da vossa aparência que se fizessem obedecer, desenvolveram um tremendo sentido de estilo para escolher roupas para usar no campo sem se sujarem *muito* ou sem parecerem uns farrapeiros, estilo english countryside. Afinal, não há nada mais pindérico do que andar pelas hortas em traje de cidade. 
 Caso contrário sujavam-se mesmo, andavam todos encardidos até serem "caçados" de volta a casa, mas (isto segundo alguns primos meus mais incorrigíveis) há um certo prazer perverso em ficar que nem um índio, ver a cara de choque dos pais e ser recambiado para a banheira com ar de nojo. Um banho perfumado e quentinho sabe  muito melhor depois de brincar na lama gelada, isso é inegável.

1 comment:

Ulisses L said...

Sendo eu um rapaz filho de gente do campo e tendo sido transladado de um meio urbano para o meio do pinhal com 6 anos de idade, voltando apenas à urbe há uma dezena de anos atrás, e sendo obrigatória pelo menos uma visita por ano a casa da avó materna que ficava encravada numa aldeia no meio de uma serra atrás-do-sol-posto-3-dias, percebo bem todos os pontos (e ainda podia acrescentar mais alguns)!
Mas definiste bem sobretudo a parte da genealogia familiar. Ainda hoje, quando passo por lá, descubro que todo o mundo é minha família...
...mas o pior é que aparentemente toda a gente sabe quem eu sou quando eu continuo a não fazer ideia de quem é aquela gente toda!
Mas são família e prontus!

:)

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