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Tuesday, November 11, 2014

Ofensa em pó: you´re so vain.


Qualquer pessoa que tenha a sorte de se destacar (ou a pouca sorte, que isto é como na fábula chinesa, nunca se sabe ao certo se os favores ou partidas da Fortuna podem esconder outra coisa) arranja logo uma data de detractores.

Lá diz o tio Eça que uma pessoa deve ter apenas os inimigos necessários para confirmar uma superioridade, e o velho adágio que só os medíocres não têm antagonistas.

É preciso estar muito mal na vida para não ser invejado nem sofrer as implicâncias de ninguém - e olhem que é difícil, porque existem sempre os que não podem ver uma camisa lavada a um pobre. Por isso, se um ser irritante implica freneticamente convosco, sintam-se afortunados: há alguém que acha que a vossa vida parece glamourosa que chegue para se sentir incomodado (a) com isso.

 Só os medíocres são 100% populares, porque não ameaçam quem quer que seja e acabam por ser úteis: podem fazer de fantoches se colocados em posições de poder,servir os interesses deste ou daquele sem ofuscar e ser convenientemente retirados do caminho no momento certo.

 De resto, é inevitável não agradar a todos. Não é nada de pessoal e muitas vezes, isso não diz o que quer que seja do carácter de cada um. Se calha alguém ter algo ou estar numa posição que outros ambicionam, zás - de nada vale ser uma pessoa bondosa e honesta, comportar-se modestamente, ter um prémio de virtude ou até responder ao mal com o bem, na tentativa de mostrar que não é assim: simplesmente há casos em que não podem estar todos contentes e temos de saber viver com isso, evitando o mais possível picardias ridículas e deixando as atitudes feias com quem as pratica.

 Porém, às vezes não é fácil, e para uma mulher é particularmente complicado. Se uma mulher sobressai - ou pela carreira, ou pelo talento, ou pela beleza, ou pela cara metade que tem a seu lado ou por uma combinação de factores - há três insultos possíveis. Ou uma mistura dos três.

a) É uma sedutora implacável, uma Dalila perversa.

b) É uma megera, uma virago crudelíssima.

Mas se nada disto for plausível porque a pessoa em causa é discreta, não responde a provocações e não faz maldades que se vejam, never fear. Há sempre o bom, velho, instantâneo e superficial insulto da vaidade, especialmente se a rapariga em causa for direitinha e arranjadinha:

c) É uma peneirenta muito cheia de si mesma, que não gosta de ninguém a não ser dela própria. 

Touché, basta abrir o pacote e juntar água, nunca falha. 

É que chamar vaidoso a alguém não exige conhecer o carácter do alvo, nem o seu percurso, nem sequer os seus pecadilhos ou a ausência deles. A vaidade em excesso não deixa de ser um pecado e se o alvo do insulto tem boa apresentação,  quem ofende não cai numa mentira completa - afinal, está à vista. Depois é só inventar um bocadinho, esticar dali, acrescentar um ponto acoli, e uma mulher que apenas se preocupa com a cara que mostra ao mundo é pintada como um Narciso de saias. Uma egocêntrica de primeira, uma egoísta, uma Rainha do Gelo que nem sequer se rebaixa a retribuir as baixarias - passe o pleonasmo - porque está demasiado ocupada a olhar para o espelho.

 Se calhar, se se desse à canseira de descer dos saltos para devolver a gentileza, uma mulher vaidosa recorria àquele insulto que agora dizem que havia de ser abolido: you basic b****!

Porque realmente, chamar vaidoso a alguém é um insulto mesmo básico, a tender para o infantil. Mas fazer isso seria básico demais.

E no fim das contas, há coisas piores que se podem atirar a alguém. Ser insultado de vaidoso é tão insignificante que nem vale uma pessoa interromper-se.





2 comments:

Bia Fernandes said...

Gosta tanto tanto tanto dos teus pontos vista e da forma como os exploras Sissi :D é que estou a ler os teus posts e penso: " carago que esta soberana acerta todas! "... E acertas mesmo. É por isso que o teu blog é dos meus favoritos! Mil beijinhos *

Imperatriz Sissi said...

Muito obrigada, Bia :D
Fico muito contente. Outros mil.

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