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Friday, November 21, 2014

Vamos lá falar de brinquedos, meninas e senhoras, que isto é sério.


Porque estamos quase no Natal mas parece que os brinquedos e os desenhos animados se tornaram de repente uma coisa muito séria no que concerne à discussão (quase sempre disparatada) dos papéis de género, senti que tinha de vos falar disto.

É uma pena que um brinquedo tão positivo como Goldie Blox tenha escolhido uma forma tão desagradável de publicidade para se afirmar. Ora vejam:



Confesso que fiquei enjoada quando vi o anúncio, tão feminazi me pareceu. Mas fiquei curiosa e quis saber mais sobre o dito brinquedo. Goldie Blox é uma espécie de Lego/Megano...para raparigas. A sua criadora, Deborah, tornou-se engenheira  - um território que ainda vai sendo sobretudo masculino - e sentiu que as meninas são, desde muito novas, menos estimuladas para as ciências, e que parte dessa falta de estímulo afecta a sua noção espacial, levando-as a afastar-se desta área de estudos. Há dias, algumas mães feministas foram aos arames porque num livro "Barbie torna-se engenheira" a Barbie engenheira pediu ajuda aos colegas, que calhava serem dois rapazes. Penso que foi mera coincidência: pessoalmente, trabalhei com várias mulheres engenheiras e não caíram os parentes na lama a ninguém por pedirem ajuda aos engenheiros, ou eles a elas. Mas de volta ao brinquedo.



Depois de criar um protótipo e testá-lo junto de meninas pequenas, Debbie descobriu que as raparigas se sentiam "aborrecidas" ao brincar com jogos de construção, que lhes fazia falta uma componente verbal para tornar o brinquedo apelativo. Por isso, adicionou um livro de modo a que, através da história, as pequenas vão construindo maquinetas para ajudar a heroína a ultrapassar obstáculos. Depois de alguma resistência inicial, Goldie Blox esta a ser um êxito. 




 Bom, eu não sei se brincaria com Goldie Blox. Talvez achasse a ideia aborrecida, talvez nunca tenha sentido a falta porque tinha um irmão e primos que brincavam com Lego e sempre me associei a eles. Um dos meus brinquedos favoritos era um estojo de química e curiosidade das curiosidades, nos testes psicotécnicos até me disseram que tinha jeito para a engenharia e para resolver coisas complicadas - estranho porque gostava de ciências mas o-d-i-a-v-a matemática. Não creio que qualquer brinquedo pudesse ter mudado isso, mas a ideia é boa - why not? - e sinceramente, Deborah é adorável, conseguia vender-me qualquer coisa e eu não sou pessoa fácil de convencer.



 Ela própria diz que pretende apenas apresentar uma alternativa, mostrar mais uma coisa que as raparigas conseguem fazer: não percebo então a mensagem "esborrachem as vossas bonecas bonitinhas". Schock value? Vontade de agradar ao público feminista, que cada vez mais é um lobby a não desprezar? Má estratégia de comunicação?


 Escapa-me. Mas falo-vos disto porquê? Porque a Lammily, a boneca "beleza real" que mencionei aqui, já está disponível no mercado. É óbvio que uma ideia tão politicamente correcta TINHA de pegar, nem as mulheres chatas e reboludas ficavam descansadas se assim não fosse.

 E para provar que o que é mau e feio pode sempre piorar, a boneca até tem uns stickers para pôr e tirar tatuagens (isso ainda era como o outro) verrugas, acne, estrias, cicatrizes e...celulite.


 Uns adesivos a simular doi-dóis até podem ser divertidos para brincar aos médicos, admito, mas o resto é simplesmente ridículo: como se já não bastasse a infeliz da boneca ser mal feita, sem pescoço, a tender para o pançudo e ter uns trapos assim à Silvana Carina das leggings, ainda mais esta. É que já não há coisas feias que bastem nesta vida...

Ora, a Barbie até pode ser uma boneca tonta e não ter as proporções correctas porque é, afinal, um brinquedo,um exagero, uma caricatura daquilo que compreendemos como uma mulher bonita desde que o Mundo é Mundo (porque se os padrões corporais foram variando ao longo dos séculos, de rosto já não se pode dizer tanto: há uma certa semelhança entre a Barbie e a Vénus de Botticelli, para citar um só exemplo). 



Quanto à Barbie ser "loura demais" e por isso irrealista, isso nem sequer é argumento - fazem-se Barbies e amigas de todas as cores desde os anos 1960. As minhas preferidas eram as suas amigas Midge (a ruiva) e Theresa (a morena de lábios à angelina Jolie).


Duas das minhas bonecas preferidas: a Midge e
 a 1ª versão da Bela Adormecida


 Mas mais importante, a Barbie, com todo o seu cor-de-rosa, tem uma mensagem positiva que a Lammily jamais passará: "You can be anything!". .

 E eu gostaria que a minha eventual filha ou sobrinha (pois a quem Deus não dá filhas, dá o diabo sobrinhas) crescesse com todas as opções. Espero que ela brinque com Barbies enquanto for pequena e consigo própria quando for grande, como eu fiz - porque uma mulher embonecar-se para enfrentar o Mundo com dignidade não é mais do que brincar às  Barbies e é uma brincadeira exigente, logo é bom treinar desde cedo.

 Espero que ela entenda que a celulite, acne e estrias não são o fim do mundo e acontecem até às supermodelos, mas também não são nenhum panfleto para uma pessoa se orgulhar: são problemas de saúde (menores, mas problemas de saúde) que devem ser prevenidos, controlados e tratados.



 Quero que ela saiba que poderá fazer uma tatuagem se isso contribuir para a sua felicidade, mas que se calhar é melhor não; espero que ela cresça sensata que chegue para saber ponderar, porque há vestidos (e mais importante, empregos) que não vão bem com tatuagens.

 E que ela entenda que não terá as medidas da Barbie, mas que com um pouco de sorte genética e bastante esforço e disciplina, pode ser tão bonita como uma - e essa beleza pode vir com as medidas de uma Gisele mas também de uma Penelope Cruz ou Myla Dalbesio - o que importa é que ela não seja preguiçosa nem invejosa, que não vá deitar outras mulheres abaixo por se sentir menos bonita do que elas ou achar que tem direito a palmadinhas nas costas (que é o efeito que bonecas como a Lammily pretendem).

Quero que ela esteja consciente de que poderá ser o que lhe apetecer na vida, desde que use a cabeça - médica, designer de moda, executiva, presidente, cientista ou qualquer outra profissão das mil que a Barbie já teve. Mas que também pode ficar em casa e dedicar-se ao marido e aos filhos (o escândalo!) desde que tenha alguns meios de se bastar a si mesma porque nunca se sabe, desde que ela ame o suficiente esse homem e que ele mereça essa dedicação. Ou trabalhar a partir de casa - e nenhuma dessas opções fará dela menos mulher, ou uma mulher irreal ou incompleta.

 Mais do que tudo, que ela seja bonita por dentro e por fora e que inspire outras mulheres a sê-lo também; que não cresça amarga e complexada que chegue para advogar uma Lammily. Que tenha consciência do seu poder feminino e assim não precise de tirar o tapete aos homens- ou às outras raparigas - para se afirmar neste mundo.E saiba tirar partido da própria beleza para não se sentir ameaçada pela beleza das outras. 

 Se as meninas deste mundo crescerem para serem bonitas, felizes, bem sucedidas e gentis como a Barbie, serão realmente grandes mulheres. Em todo o caso, possam todas as crianças ter sempre Barbies para brincar.



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