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Wednesday, December 13, 2017

O mundo é uma grande passerelle (ideia de styling inesperada da semana).



Há dias vi uma passageira no aeroporto que me fez recordar uma frase de Victoria Beckham: "costumo inspirar-me nas pessoas que vejo na rua. Há sempre alguém que se lembra de usar coisas que nunca me passariam pela cabeça, mas que funcionam".

A rapariga usava um fato de treino de algodão cinzento (com a tendência do athleisure os fatos de treino, mesmo os de veludo Juicy Couture que toda a gente julgava terem ficado sepultados lá no início dos anos 2000, ressuscitaram para andar na rua e sobretudo, nos aeroportos, de há algum tempo a esta parte) ténis brancos minimalistas e, surpresa das surpresas, um casaco de peles clássico, estilo avó, bem fofo, nos mesmos tons, casualmente atirado por cima de tudo.

E não é que estava interessante?

 A mim nunca me ocorreria (e creio que nunca ocorrerá) andar de fato de treino na rua. Fato de treino verdadeiro, vá- nada contra as track pants inspiradas neles, mas roupa de ginásio em público acho um bocado too much.

 E embora faça trinta por uma linha com os meus casacos de peles vintage e costume vesti-los sobre roupa casual (sempre o fiz, mas em Londres isso é mesmo um hábito de todo o mundo) não me lembraria de o usar sobre alguma coisa TÃO CASUAL como um track suit.

No entanto, na passageira resultava. E esta? Lá fiz uma nota mental. Não vestiria a mesma coisa, tal e qual, mas não se me dá de tentar uma silhueta semelhante com peças um pouco menos óbvias (calças com o mesmo formato mas de outro tecido, por exemplo).

 Por mais que se esteja por dentro das revistas, portais, social media  e blogs de moda, por muito que acompanhemos as tendências e os desfiles e por mais próxima que uma pessoa, profissionalmente falando, esteja das novidades em primeira mão (contactando com stylists, designers, criativos, buyers e retalhistas) a forma como o consumidor final usa as peças tem sempre alguma coisa de pessoal e inovador.
Mesmo na era da globalização, em que basta uma carteira em veludo azul da Gucci viralizar no Instagram para esgotar nas lojas (verídico) cada pessoa tem as suas influências e referências, as suas fontes, os seus pontos de consumo e é condicionada por factores diferentes: geográficos, económicos, sociais, religiosos, físicos...

Ou seja, cada vez mais as peças e as griffes são transversais no que respeita ao perfil do consumidor, mas a forma como são interpretadas e utilizadas varia imenso: não é por acaso que  as marcas põem "caçadores de tendências" a observar o que se passa em termos sociais e o que as pessoas usam na rua para inspirar os seus produtos, em vez de simplesmente inventar coisas novas e rezar para que o público as adopte. A jogada inverteu-se e há que ter em conta um público alvo cada vez mais difícil de categorizar, que compra nos mesmos sítios mas emprega as peças à sua maneira.

Uma advogada de 40 anos do Porto e uma barmaid de 20 que mora em Barcelona podem gostar das mesmas calças pretas skinny da Zara e até vestir o mesmo tamanho,
porém vão provavelmente usá-las de forma diversa.

Uma estudante chinesa de 19 anos filha de funcionários do governo e uma empresária texana de 50  poderão comprar a mesma carteira Fendi, mas dificilmente a combinarão do mesmo modo.

Pela mesma ordem de ideias uma blogger portuguesa, uma condessa italiana e uma modelo nova iorquina poderão comprar tanto o mesmo saco a tiracolo Louis Vuitton como o mesmo vestido na ASOS: há uma maior homogeneização (e disseminação) nos artigos em si, mas também uma grande diversificação no que se faz com eles.

 Basta passar por Oxford Street para ver grupos de mulheres árabes a devassar a Primark com o mesmo entusiasmo com que, momentos antes, atacaram os balcões de luxo do Selfridges (invariavelmente acompanhadas de um marido, pai ou irmão cioso, mas dotado de uma pachorra quase inimaginável num homem ocidental). Provavelmente estas senhoras do Golfo compram muitas das mesmas coisas que fazem as delícias das clientes portuguesas ou inglesas - mas só é preciso olhar para elas e ver que o uso que lhes darão será adaptado ao seu look pessoal e estilo de vida.

Tudo isto faz com que andar numa grande cidade seja como assistir a um desfile cheio de pormenores - e rico em inspiração. Shakespeare disse que todo o mundo é um palco, mas quer-me parecer que também é uma grande passerelle. E quem andar de olhos abertos, facilmente tira ideias engraçadas para brincar com o que houver no closet. Desconfio que os meus casacos de peles andarão bem mais ocupados neste Inverno...


Monday, December 11, 2017

Raríssimas: mais tuga é impossível


Uma IPSS que cai em actos de corrupção e roubalheira para benefício de X ou Y não é, infelizmente, raridade nenhuma - muito menos um exclusivo lusitano (aqui no Reino Unido fala-se imenso em estórias desse jaez, até porque as organizações de caridade têm um protagonismo enorme). 

Porém, a vergonhaça da Raríssimas é emblemática, pitoresca mesmo, pela caricatura que traça do parvenu português, da cupidez aldeã, do pato bravo deslumbrado, papalvo e mesquinho, que mal dá um passinho em frente, não só abusa como ainda gosta de se exibir julgando que o tomam por pavão...

Os nossos irmãos brasileiros ( também eles martirizados por vilanias e comportamentos ridículos deste estilo)  têm um ditado rude que podemos aplicar lindamente ao arrivista português: quem nunca comeu melado, quando come se lambuza.




A crer no que vem nas gazetas a senhora presidenta em causa, para além de desonesta, passou a si própria o pior atestado de pelintrice e pinderiquice que se pode, ao querer dar-se ares de grande dama. 

O caso é reles de alto a baixo (até os próprios gastos, como se não bastasse a crueldade de serem feitos à custa das contribuições para os pobres doentinhos, são pindéricos todos os dias: típicos de quem nunca viu meia dúzia de tostões à frente e só come camarão quando o rei faz anos. 200 euros em marisco no cartão da instituição? 200 euros num vestido...ai, o português e o seu amor às marcas de segmento médio...)? É que até para surripiar há que ter um nadinha de brio e ser um bocadinho menos unhas-de-fome. Roubar para poupar 400 euros num ordenado mais que suficiente para fazer face a tais gastos não é só gatunagem: é ser miserável. 



Não me entendam mal; não é que desviar fundos alguma vez seja desculpável, trate-se de uma mega operação à Sócrates ou de uma velhacaria em menor escala como esta. 

Só que aí é que está: há quem roube muito mais, mas pouca gente roubará com tanta deselegância.  Ser ladrão de casaca não é para qualquer um, está visto.

 Depois, é todo o quadro pantomineiro e barato da coisa: o marido e o filho envolvidos na "parada", já com ideias de criar uma dinastia e tudo (nem era folhetim português sem a cunha, essa instituição nacional. Português açambarcador que se preze tem de meter a família toda ao barulho a aproveitar o filão, assim tudo ao molho tipo cortiço, senão não tem piada).



 E de resto a "dótora", ponha-se a devida ênfase no dótora que repito, isto é um "causo" português, lá por ter roçado ombros com Doña Letizia de Espanha e com a  Primeira Dama um par de vezes, já se armava em Rainha do Sabá (ou será do Samoco?) já se achava com direito a fazer-se representar com a dignidade que a sua pessoa exigia (sim, porque todos sabemos que Santa Teresa de Calcutá, para levar a cabo as suas caridades, precisava de torrar o dinheiro dos leprosos no El Corte Inglès). 

Nada me diverte tanto como uma senhora que não sabe o que é uma Senhora verdadeira a tentar fazer-se passar por "Senhora que se dedica a causas". Tenho conhecido bastantes dessas Senhoras verdadeiras, do mais bem nascido e instruído que pode haver; e na sua maioria, pouco lhes bastava para freiras: caridosas até à extravagância, abnegadas como faquires, algumas eram capazes de não comprar uns sapatos decentes para si, para darem o que tinham e não tinham aos seus protegidos. Caridade e vaidade (vaidade extrema, pelo menos)  não costumam caminhar juntas. 

Porém a pérola, a cereja portuguesinha em cima do bolo, o melhor do melhorzinho, é mesmo o relato abaixo, ao melhor estilo "nunca sirvas quem serviu, nem peças a quem pediu" ou "se queres ver o vilão, põe-lhe o chicote na mão". Delicioso:

«Alguns ex-funcionários da Raríssimas dão ainda conta de um ambiente dentro da associação em que todos eram obrigados a demonstrar o seu respeito pela sua presidente. “Sempre que saía ou entrava para o seu gabinete, todos os elementos que estavam na recepção obrigatoriamente e independentemente das vezes que senhora presidente entrasse e saísse, tinham de se levantar das suas cadeiras à sua passagem"».

Nunca conheci uma beata manda chuva da paróquia, nem um Fidel Castro de bairro, que não adorasse o seu cultozinho da personalidade e não o exigisse aos seus subordinados...em cada arrivista há sempre um pouco de mitómano.

De mais a mais, sem conhecer os envolvidos mas armando-me em profiler do FBI, a julgar pelos retratos, os modos da senhora presidenta (grandes gestos, grandes sorrisos e gargalhadas) além de não serem lá muito senhoris não combinam, nem um bocadinho, com a seriedade que uma instituição deste género pede. Olhando para ela, ninguém diria que não estava a divertir-se à grande e à francesa. E não é que estaria?

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