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Monday, February 26, 2018

Disso de cães em restaurantes (ou das estranhas prioridades lusas).



Eu que para aqui ando exilada na velha Albion divirto-me imenso com as novas que me vão chegando da Pátria: e acho curioso que ande tudo à batatada, a debater apaixonadamente se os amorosos caninos devem ou não entrar em restaurantes. 
Sobre o assunto em si não tenho opinião (parece-me um bocado cruel os pobres bichos olharem para comida apetitosa e não a poderem provar e ainda há as questões de higiene, mas isso até dá um toque medieval à coisa). 

O que me faz pasmar é, mais uma vez, os portugueses porem na ordem do dia questões perfeitamente fúteis e supérfluas, a dar a entender "olhem para o país avançadinho e moderninho que nós somos, que até os gourmets podem trazer os Lulus para a mesa"... em detrimento do essencial e urgente; neste caso, para com os próprios animais. 

Em certas coisas os portugueses são como aquelas senhoras, coitadas, a quem falta educação, gosto e boa figura, que compram a roupa toda na Primark, calçam sapatos sintéticos do piorio e, para parecerem o que não são, rematam o look com uma carteira Louis Vuitton contrafeita ali da feirinha mais próxima. E lá vão por aí fora, achando-se muito chiques quando têm um mau ar que não engana ninguém.

Então vejamos: Portugal é um dos poucos países ditos "civilizados" que se recusa, teimosamente, a tratar a questão dos animais abandonados, silvestres ou de rua, como um assunto de saúde pública que o Estado devia tomar a  peito e resolver de uma malfadada vez por todas. De forma unificada, estruturada, com prazos, a nível nacional. 




Mas não. Os animais abandonados a cada Verão; os cães e gatos comprados (ou pior- adoptados dos canis municipais) e largados na valeta quando já não servem ou cresceram demais; os bichos de estimação que causam incómodo e são negligenciados, deixados à mercê da caridade dos vizinhos; as matilhas de cães vadios e as colónias de gatos... nunca são um problema público, nacional, geral e de todos - se não por amor e piedade para com os animais indefesos, ao menos em nome da saúde pública e da boa imagem do país. 

Ná. Problemas de bicharada, que não vota por isso não interessa, são encarados como meras questões de caridade pessoal, delegadas a cada Município conforme a sua consciência, ou ao cuidado de associações com mais ou menos filiação política e mais ou menos politiquice (o que por sua vez, determina muito o apoio que recebem ou não). No fundo, muito português ainda é um boçal para quem os animais não passam de bestas de carga. Por mais que faça por se refinar, ainda tem muita da brutalidade que Miguel Torga retratava em alguns dos seus contos. E às vezes pior, porque sempre houve camponeses que tratavam bem os seus companheiros de quatro patas...

Tudo bem, poderão dizer-me que tem havido melhorias; mas são poucas, lentas, subtis e insuficientes.

 Cada amigo dos animais, que por sua vez conhece outros amigos dos animais, sabe o flagelo que é acolher mais um enjeitadinho (cabe sempre mais um) porque o foram pôr lá à porta, ou porque o insensível do vizinho quis um cãozinho para o filho pequeno mas agora já não lhe acha graça e não o alimenta nem o leva ao veterinário, ou porque o pobrezinho estava abandonado no meio da estrada e não havia coragem para o deixar em sofrimento. É todos os anos (e ao longo do ano) o mesmo. E quem se preocupa, quem sacrifica o seu conforto e sossego, gastando do seu bolso recursos que por vezes são escassos, ainda é taxado não de civilizado, mas de excêntrico, ou incomodado pela vizinhança embirrenta que quer ver o problema varrido para outra freguesia. 




(E às vezes é mesmo, porque só um excêntrico para ir buscar meios não sei onde e para se preocupar quando mais ninguém se rala). A questão é que se todos fossem civilizados, não haveria necessidade de ninguém ser excêntrico. E de onde vêm os padrões de civilidade? De cima para baixo. De quem governa e faz as leis. Só com boas leis pode haver ética. Só através da prática, da obrigatoriedade, se educa um povo mal acostumado. A consciência, como os músculos, precisa de ser exercitada.

E no entanto, que temos? Leis definitivas, gerais, nacionais, que regulamentem e actualizem com pés e cabeça a adopção responsável, a esterilização, os cuidados de saúde, os centros de acolhimento? Leis que penalizem, mas a sério e a doer, o abandono, os maus tratos e a crueldade, leis que mudem alguma coisa, alguém as vê? Eu não.

Quando me mudei para o Reino Unido, uma das coisas que mais me chamaram a atenção, e que nunca tinha notado de visita, foi a ausência de animais de rua. Os únicos "animais de rua" aqui são os esquilos e as raposas (há outros bicharocos, mas esses não se aventuram tanto em zonas residenciais). 

Não me debrucei sobre como o conseguiram mas ao que ouvi, houve grandes políticas de esterilização, existem incentivos à adopção mas com um grande controlo sobre quem adopta e acima de tudo, há penas e multas bem assustadoras para quem abandona, negligencia e maltrata. Os animais são mimados, tratados, treinados para não incomodar em locais públicos e bem comportados. E decerto - embora não existam países nem sistemas perfeitos - a questão dos bichos não é varrida para debaixo do tapete, nem despachada para a organização ao lado, muito menos vista como um problema de cada um.




Se deixam ou não os cães entrar em restaurantes, não faço ideia e estou com preguiça de procurar. Acredito, no entanto, que essa não tenha sido uma prioridade no assunto da bicharada britânica.

Em suma, a minha preocupação não vai para os cães a quem os donos querem levar ao restaurante, mas para com os cães (e gatos) a quem falta tudo e mais alguma coisa.


Quando vejo estas "novidades" tão acessórias, tão de luxo, estas pretensões a nação sofisticada impostas à pressa sobre uma sociedade mal organizada ao extremo, mal educada para estas questões, perfeitamente abrutalhada e insensível, capaz publicar posts no facebook contra as touradas só porque é fofo para logo a seguir ignorar um gato a esticar o pernil de inanição ou correr a pontapé um pobre cão sarnento, tenho uma imensa vontade de rir de tanta pantominice.

E lá volto eu a Eça de Queiroz, quando comparava o espírito lusitano às aspirações dos selvagens que punham uma casaca sobre a tanga e umas lunetas, julgando assim que passavam por muito europeus e muito civilizados.

Se calhar adoptar o hábito medieval de deixar os cães estar junto à mesa (até podemos ser mais queridos e fazer como os comensais desse tempo, que sempre iam dando qualquer coisa ao bicho) nem destoa nada da mentalidade nacional para com os animais, que não terá mudado assim tanto desde o tempo dos Afonsinhos.  É mais honesto, sinceramente.


6 comments:

Susana said...

Clap clap clap. Uma merecida venia! Partilho e defendo em tudo a sua opinião. Pouco ou nada me incomoda a presença dos animais de estimação nos restaurantes, já a ignorância e negligência generalizada sobre os animais e as suas necessidades básicas, revolta-me profundamente as entranhas. E sobre estas que realmente são importantes ainda pouco foi feito. Beijinhos Susana

Imperatriz Sissi said...

Sim, estou mais preocupada com os que até adoptam um chihuahua para exibir no restaurante e dali a seis meses se fartam do bicho e zumba, rua com ele (e olhe que eu embirro solene~mente com chihuahuas). Beijinho

Kaia Kakós said...

Sissi para presidente JÁ!

Patife said...

Se aceito cadelas na cama, tenho de ser coerente e aceitar cães à mesa. Só por isso. ;)

Imperatriz Sissi said...

@Kaia, sou monárquica mas se voltarmos a ter rei aceito um lugarzinho de consultora em part time :D

@Patife, Credo... O_o

Célia said...

https://shifter.pt/2017/05/lei-animais-portugal/

http://www.cmjornal.pt/sociedade/detalhe/maus-tratos-a-animais-dao-14-multas-por-dia

Vou amiudadas vezes a Londres e se não se vê gatos/cães abandonados pelas ruas, em contrapartida vê-se muitos indigentes a dormir nos vãos das portas. Atrevo-me a contrariar esse retrato negativo, quase diria troglodita, do povo português. A situação dos animais já não é essa, essa crueldade "boçal" não atravessa a sociedade.

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