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Tuesday, June 12, 2018

Príncipe Carlos: a nobre arte de...ter compostura à prova de bala. Literalmente.




Por aqui já falei, incontáveis vezes, na importância da nonchalance, de ser blasé, de manifestar uma certa fleuma (ou indiferença elegante e discrição) seja face aos desaires da vida seja perante as grandes alegrias. de não se deixar impressionar por nada (ou pelo menos, de não o demonstrar).

 Bati tantas vezes nessa tecla que agora é difícil seleccionar um ou dois links para posts em que reflicto, em mais detalhe, sobre a necessidade de ter uma cara de paisagem  (também conhecida como "cara número três" ou, mais recentemente e numa versão mais malcriada, "resting bitch face" sempre à mão para nos livrar de embaraços. E se fica difícil controlar os nervos, o medo, o espanto, a raiva ou o entusiasmo, invoque-se prontamente a intercessão de São Clint Eastwood, padroeiro de quem se está marimbando:





Como diz o meu estimado autor Anton Moonen, pessoas mundanas nunca se permitem afectar por coisa alguma, boa ou má; jamais deixam transparecer tristeza, deslumbramento, mágoa, fúria, carência, ou - Deus nos defenda- necessidade de atenção ou pior ainda, de aprovação. 

Mais: pessoas que têm "mundo" e que estão realmente seguras do seu lugar nele, beberam serenidade no biberon junto com carradas de chá, por isso nunca se deixam surpreender por nada (ou se deixarem, agem com um "só nos faltava esta, hein?" , com um "senhores, já basta, que isto é ridículo" com um "we are not amused" (estribilho que a Rainha Victória nunca terá dito, mas pegou) ou como se nada tivesse acontecido, se possível.  James Bond, com todos os seus defeitos, é um exemplo impecável dessa fleuma britânica e indiferença Alfa cheia de domínio. Ok, acho que também se pode chamar por James Bond se a coisa estiver mesmo preta.



Se de todo cai mal a atitude de quem se está nas tintas - sei lá, perante um caso muito sério ou muito trágico- pessoas elegantes procuram reagir com grande, enorme, imensa contenção. Face ao cenário mais escabroso, o que há a fazer é revelar um certo enfado ou descaso e demonstrar-se, em suma, sempre no controlo das situações... ou pelo menos, das próprias emoções. Essa tranquilidade é apanágio dos grandes líderes e heróis, das verdadeiras estrelas, das cabeças coroadas, dos verdadeiros Cavalheiros, das Verdadeiras Senhoras e vá, dos homens e mulheres Alfa. Pessoas dessas nunca perdem a cabeça mesmo que eventualmente a percam (em sentido figurativo e literal).



Recordemos Carlos da Maia e João da Ega que, furibundos face às baixarias do Dâmaso e do Eusebiozinho falavam apenas, com parcimónia olímpica, em "rolá-lo aos pontapés Chiado acima e Chiado abaixo", "dar-lhe bengaladas" ou "arrancar-lhe as orelhas". Mestres.
E se quisermos deixar as metáforas de lado, lembremos personagens que perderam a cabeça mas nunca perderam a compostura, como Maria Antonieta ou a Marquesa de Távora. Só não vale inspirar-se em Victória Beckham, que essa até pode ter muito talento para criar roupamas no quesito "resting b** face" ainda tem muito que aprender até parecer natural.



Nervos de aço, sangue de barata, aterrar sempre de pé e aparentar calma de Buda em todas as situações (para não dar prazer à multidão que gosta de se rir das desgraças alheias nem vantagem ao oponente) foram pontos em que tanto a minha avozinha como o resto da família (que descendia sobretudo de militares, o que terá contribuído decerto para isso) sempre insistiram. Por isso tenho -como tantas outras pessoas mais "old school"- dificuldade em simpatizar com a atitude muito em voga, seja nas estrelas de Hollywood, entre políticos mais "modernaços" ou - o pior do piorio - mesmo entre certos elementos mais jovens de Casas Reais- de revelar fraquezas e dar que falar.



Temos assistido a lágrimas em público, gestos estouvados de agarrar criancinhas e dar beijinhos à multidão mais dignos de candidatos às autárquicas do que de Príncipes, caretas, carinhas e bocas, braços no ar, modos de prima donna, desacatos entre parentes para câmara ver, cenas de desrespeito para com os mais velhos, birras, gastos extravagantes próprios de estrelas de rap, you name it.
 Infelizmente, na era das redes sociais o  mundo não caminha para a discrição nem para o mistério que costumava ser a imagem de marca de certas instituições.

Porém, haja esperança, nem tudo está perdido: felizmente para todos nós, volta e meia ainda vai havendo exemplos recentes de fleuma inquebrável, perfeito à vontade em todas as situações, nervos de aço e (isso também dá jeito) reflexos rápidos - e almas iluminadas que se lembram de ir desenterrar exemplos não muito antigos, mas que aconteceram quando a internet ainda não andava para aí a captar tudo.

Como este momento de agilidade à cowboy de George W. Bush, que deixaria Billy the Kid - e Clint eastwood - a impar de orgulho:



Ou mais recentemente, o instante em que se enganaram no vencedor dos óscares e foi uma vergonhaça completa, com toda a gente a passar-se menos Ryan Gosling, que se manteve com um meio sorriso imperturbável, em modo "que é isto?".



No entanto, alguns utilizadores do tumblr foram há dias desenterrar o exemplo dos exemplos de frieza, a quintessência da fleuma britânica, o supra sumo da expressão igualmente britânica "cool as a cucumber"- estar tão fresco como um pepino: nada mais nada menos que Sua Alteza Real, o Príncipe Carlos. 




O Príncipe de Gales tem sido injustamente tratado graças à infelicidade no primeiro casamento, que o tornou impopular junto de boa parte do público. Porém, quem o sabe apreciar elogia-lhe tanto o sentido de estilo (veste impecavelmente, como já vimos) como o cavalheirismo (a sua delicadeza para com a mãe da noiva do filho mais novo, ali sozinha e caída de pára quedas naqueles assados, foi - a par com a cara de Zara Phillips e de Sua Majestade perante todo aquele espectáculo - o ponto positivo do casório do passado 10 de Junho) e o saber estar. Herdou o espírito do Senhor seu pai, o inimitável  Duque de Edimburgo de quem vamos falar em breve, e o estoicismo da mãe, a Rainha Isabel II, e por isso nunca se juntou aos circos que armaram à sua volta...uma forma de estar que a plateia às vezes confunde com frieza de coração.

Adiante: em 1994, quando o Príncipe visitava Sidney, alguém se lembrou de o tentar assassinar a tiro, não sei porquê. E a reacção do Príncipe foi esta: olhar com ar de caso, como quem nota um mosquito, e compor os botões de punho. Nem James Bond, senhores!!! Ou como alguém disse, zero f***ks given.







Quem é que manda aqui, c´os diabos?  Eis um homem capaz de limpar o chão com o oponente. Mas não é preciso ser príncipe, estrela de Hollywood, cowboy ou presidente dos E.U.A. para dar desprezo nítido e reagir com tranquilidade haja o que houver: é tudo uma questão de orgulho, de não querer fazer figura de urso. Podemos não controlar o que acontece à nossa volta, mas controlar a forma como se reage a isso está inteiramente na mão de cada um.


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