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Monday, October 8, 2018

Manners maketh man




Há dias, sem contar, calhou-me ver a comédia de espionagem Kingsman: The Golden Circle, e fiquei encantada. Boa banda sonora, excelente coregografia e fotografia e um elenco com alguns dos meus actores preferidos (como Julianne Moore e Mark Strong). Tudo isso embalado numa história que gira à volta de duas estéticas opostas, mas igualmente icónicas: por um lado, o mais puro estilo Londrino com fatinhos de Savile Row e o bom e velho código de conduta do cavalheiro Old Etonian; por outro, a atmosfera muito americana dos cowboys da velha guarda, gente desempenada e varonil que gosta pouco de disparates. Best of both worlds!



Ora, a personagem de Colin Firth, responsável por transformar num cavalheiro o herói da história, que ao início era um grandessíssimo guna/mitra/gandim (ou chav, como por cá se diz) tem um lema muito verdadeiro, que gosta de recordar - a bem ou a mal -a quem se atravessa no seu caminho:

"Manners Maketh  Man"- as maneiras fazem o Homem.

 A frase "Manners Maketh man",vulgo de moribus facit hominem, terá começado a usar-se no sec. XIV em Inglaterra, sendo a divisa adoptada pelo director dos colégios de Winchester e de Eton. O de Winchester e o New College de Oxford mantêm esse lema ainda hoje, e por boas razões!





 Ou seja, as pessoas são julgadas pela forma como se apresentam e se comportam, gostem ou não. As boas maneiras, as maneiras civilizadas, definem o homem. Traçam a diferença entre o bruto, o troglodita, e o homem de boa sociedade: de princípios, honrado e de confiança, que sabe estar em toda a parte.

 Em última análise, as boas maneiras (a que não são alheios o espírito de sacrifício, o altruismo, a coragem e o auto domínio) separam o cavalheiro bem nascido (ou simplesmente o homem bem formado) do labrego básico que vive de acordo com os instintos e os apetites egoístas, impulsos que sem moderação são sempre nocivos para si próprio e para os outros. Seguir diariamente as regras da civilidade impede as pessoas de cair na selvajaria, na anarquia e no caos.



Essa cultura continua (graças aos Céus e a lembretes constantes) bem viva aqui no Reino Unido. Por cá ouve-se muito dizer "manners cost nothing". É raríssimo ver um homem que não ceda o lugar a uma senhora ou que tente passar à frente de outras pessoas na fila para o autocarro, por muito apressado que esteja. E ai de quem o faça! Já o tenho dito: mais do que serem naturalmente corteses e bem educados, os britânicos lembram-se constantemente de agir como tal e tratam de o recordar uns aos outros, raramente caindo num excesso de informalidade, por um lado, ou no excesso ridículo das maneiras afectadas e pomposas, por outro. Lá têm outros defeitos, como todos os povos, mas gostam das coisas simples e civilizadas...e não nos enganemos, ter maneiras nas mais pequenas coisas (uma delicadeza que ao fim e ao cabo, é mesmo grátis) é o alimento diário da civilização.




Mais o que achei mais importante na mensagem do filme- e que escapa às vezes quando se tenta ensinar alguém a prestar atenção ao seu comportamento- é que ter bons modos não rebaixa ninguém, (algo que muita gente parece julgar, na era em que ser atrevido e "não levar desaforos para casa" é uma atitude muito mais à moda) nem é sinal de fraqueza. Antes pelo contrário.

A personagem de Kingsman faz questão de lembrar (com uma boa tareia, se preciso for) que ser um cavalheiro, ser elegante e civilizado, não é, como tantos brutos pensam e com isso se desculpam para serem uns grosseirões, ser delicado, pouco viril, um "copinho de leite" ou uma "florzinha de estufa". Os grandes generais todos tinham boas maneiras: de Alexandre Magno, que tratou com grande cortesia a família cativa do Rei Dário, ao General "Raposa do Deserto" Rommel, que convidou os inimigos capturados para tomar chá, isto só para citar dois que agora me ocorrem sem pensar muito: quanto mais forte um homem é, mais se pode dar ao luxo de ser cortês. Quanto mais poderoso, mais se pode dar ao luxo de ser magnânimo.

As maneiras não são só civilização: no tempo que atravessamos, são mesmo um toque de luxo (que volto a lembrar, é grátis).



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