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Saturday, December 29, 2018

Leitora detecta serigaitice a metro #1: Oh Margarida Rebelo Pinto, assim também é abuso.


Volta não volta, os seguidores cá do Imperatrix têma  gentileza de me enviar pérolas que vão encontrando (como eu digo sempre, para ter um blog não é preciso imaginação: basta andar atento) e desta feita, a nossa amiga Eva mandou-me esta divertida publicidade ao novo livrinho da menina Margarida Rebelo Pinto.

Ora, eu confesso que não conheço a obra da autora salvo por uma ou outra crónica sua publicada em revistas ou via social media

Folheei um ou dois dos seus livros em casa de uma amiga-de-uma-amiga a tender para o pindérico que tinha a colecção toda (sabem o estilo: suburbana,boa rapariga mas pretensiosita e basicazita,  primeira universitária da família e que adorava dizer que era muito "cosmopolita"- o convívio durou pouco tempo, claro). E foi tudo. 





Fiquei com a ideia que era um Sex and the City à portuguesa, levezinho e forçadito, escrito por uma senhora benzoca em fase de modernice, para as amigas (e para as que, como a minha conhecida, não sendo benzocas gostariam de o ser) e mais nada. Apenas achei piada à parte em que uma senhora de sociedade, tendo perdido tudo, se fazia à vida criando um estupendaço serviço de catering com as receitas da família. You go, mulher independente e batalhadora, que isto de fidalguia sem comedoria é como gaita que não assobia, toda a vida ouvi; e se há uma desculpa menos desprezível para se armar de um arsenal de tupperwares, é essa.

Porém- eu que espanco a cada oportunidade os Chagas Freitas e os Noites Luares da vida que dão combustível aos delírios sórdidos da mulherada carente e desesperada - nunca tive assim coragem de pôr Margarida Rebelo Pinto exactamente no mesmo saco. Sem ter lido quase nada dela, sempre me pareceu que, sem ser uma ingénua Barbara Cartland, era um bocadinho mais comedida, mais bem criada e que escrevia para um público alvo ligeiramente mais sofisticado (ou com pretensões a tal) que não se atrevia a ser, descaradamente, serigaito. 





É claro que a fronteira é muito ténue: às vezes pouca diferença há entre a serigaita assumida e genuína (manicura da esquina que dança kizombas calientes no clube "Fuego Sensual" lá do bairro com o Carlão) e a outra que foi um bocadinho à faculdade e até se formou na área da saúde ou do direito (as advogadas, enfermeiras e psicólogas sérias que me desculpem, mas por algum motivo vejo muita serigaitice nessas áreas) só que também se rebola seminua ao som do Despacito, faz tatuagens quase tão más e cita igualmente a pobre Clarice Lispector quando o último "amigo colorido" lhe dá com os pés. Uma talvez seja mais asneirenta do que a outra, menos culta e menos ambiciosa, talvez se vista (ou dispa) um nadinha de nada pior; mas por vezes  a coisa não varia muito: nem no berço, nem nos memes badalhocos que partilha nos facebooks e instagrams, nem nos dramas.

Ainda assim (que isto uma coisa é o público a que se chega e outra é o público a que se faz, de propósito, por chegar) não via Margarida Rebelo Pinto a descer, de livre vontade, ao patamar das "guerreiras" e das "migas"

O universo de M.R.P. era, parecia-me, mais o da Teresa que ligava à Clarinha, em lágrimas, porque o marido anda com uma pindérica e ai minha querida agora o que é que eu faço, e não tanto o da Sheila Priscila que no intervalo da Casa dos Segredos tecla furiosamente à Xana Marisa, quase partindo as garras de gel no processo, "ai miga, minha vaca, o cabr*o do Carlão engravidou a outra, logo agora que estava quase a assumir-me". ´Tão a ver a nuance, sei lá?




Eis que me enganei - ou que a editora, querendo aumentar as vendas a todo o custo, enfiou um "guerreira" na promoção do livruxo, assim como quem não quer a coisa, como se usar a palavra "guerreira" não fosse uma morte social nem nada. E já agora, porque não acrescentar "há uma guerreira em cada mulher LINDONA", jurar que o livro é "Top" e despedir-se das leitoras com "beijos de luz"? Hein? Perdida por um, perdida por mil!

Ora, cada uma sabe as linhas com que se cose; já se sabe que vender livros em Portugal, light ou não light,  é um bruxedo....e viver da escrita pior ainda. Tiro o meu chapéu à senhora pelo sucesso e pela pachorra olímpica de se dedicar a tal. 

Porém, como dizia um merceeiro muito sábio lá da minha terra e o povo tem sempre carradas de razão, certos fregueses mais vale perdê-los do que tê-los. Honra e proveito não cabem no mesmo saco e quando se trata de marcas, não convém deixar que se desvirtuem. Mal ou bem, se Margarida Rebelo Pinto não quer que a confundam com uma Gabi Pinto qualquer, convém que se sente com quem tem a cargo o marketing das suas obras e lhes lembre que nenhuma senhora que se preze, por mais escandalosa que possa ser a sua vida privada, consente em ser tratada em público por "guerreira"

É que é um atestado de baixaria imediato, uma daquelas coisinhas que fazem parte do dicionário oficial para classificar flausinas baratas, um carimbo de galdéria quase pior que um "tramp stamp" tatuado ao fundo das costas, está a ver?

 Ou se calhar eu estou equivocada e o palavrão não foi usado à socapa nas costas da autora, nem deixado passar por ingenuidade; às tantas Margarida Rebelo Pinto, seja por necessidade de chegar a mais gente, seja num assomo caridoso de fazer das serigaitas assumidas serigaitas ligeiramente mais polidas, decidiu falar numa linguagem que elas apreciem. Risky move, mas sei lá eu...


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