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Tuesday, October 20, 2015

A "suave" violência psicológica



Num livro/filme que não aprecio por aí além - graças às liberdades criativas tomadas com factos históricos - mas que tem umas ideias e frases que dão que pensar, há uma cena que me ficou sempre. A mãe de Ana Bolena (que era filha do Duque de Norfolk, logo conhecia os caprichos da corte) avisa o marido, Tomás, de que os favores do Rei não vão durar. Que todos aqueles privilégios desaparecerão tão depressa como surgiram. "Estes aposentos pertenciam ao Duque de Buckingham, o amigo mais íntimo do Rei, que agora tem a cabeça numa estaca". O marido, que era um self made man ambicioso, logo estava deslumbrado com tudo aquilo, responde espantado: "mas ele cometeu Alta Traição". E a sensata mulher (adoro cada cena de Kristin Scott Thomas nesse filme) replica: "E o que é isso? Alta Traição é tudo o que o Rei quiser!"

E há de facto pessoas assim, como o Rei Henrique VIII, com quem nunca se sabe como proceder para não cair no seu desagrado. Tal como nos campos de concentração, não há uma maneira de saber "se fizer assim e não fizer assado, tudo correrá bem". Isto é muito comum nas relações pautadas por qualquer tipo de violência, física ou psicológica. E claro, o Rei Henrique era exactamente assim com todas as suas mulheres. Não só era o marido - era o soberano. E era temperamental. Com um poder quase absoluto.



 Isto para chegar ao que nos traz cá hoje: por vezes tenho receio de que se confundam ideias que defendo aqui - um retomar do papel tradicional e da dignidade da mulher (cujo lugar é onde ela quiser: em casa, no mundo do trabalho ou até fora do feminismo) - com uma mulher que se deixa pisar. Não nos enganemos. 

Acreditar na igualdade de direitos e deveres perante a Lei, mas crer firmemente nas diferenças biológicas e psicológicas entre os sexos, é acreditar que o homem, como mais forte, deve defender com unhas e dentes quem tem a seu lado ou ao seu cuidado. 

Uma coisa é o homem que se faz respeitar, que não é um capacho (e se vamos por aí, há mulheres a exercer violência, principalmente emocional, e não é pouca). Outra é o cobarde, que não em outro nome, que fere, por dentro ou por fora, a mulher por quem diz, ou acha, estar apaixonado. E olhem que apesar do que se possa dizer dos meios mais antiquados, mais "machistas", alguns dos piores agressores são indivíduos muito modernos, todos feministas, todos pelos direitos das mulheres...gente cruel há-a em toda a parte.

 Nestes casos, minhas queridas amigas, recordo o que disse este fim de semana: nunca se pode tolerar a crueldade, seja ela física ou psicológica, e nisto não há excepções. E invoco o exemplo da mulher do ciumento no Decameron: "Nem te aconselharia a um tal atrevimento de me pores as mãos em cima; pela cruz de Cristo, partia-te a cara" (sou contra a violência, mas auto defesa é um dever).




Que volto a dizer, uma mulher tem de ser como as cordas do piano: delicada, mas de aço.

  Hoje vive-se um pouco o pânico, a paranóia, de ver violência na menor altercação. Um murro na mesa? Violência. O homem, para ser meigo, tem de ser um efeminado. Não creio nisso, antes pelo contrário; a tudo se aplica o bom senso e o discernimento. Mas é verdade que se o exagero se instalou, é porque a agressividade e a crueldade começam de facto aos poucos. É uma má palavra aqui, um safanão ali, ditos ácidos à frente dos amigos hoje, uma cena de ciúmes amanhã, um insulto agora outro mais tarde, um abuso mais adiante, um estalo, uma ameaça acolá e às vezes, em casos mais dramáticos, dá em sovas e tareias...ou no piorio que vem nos jornais. Nasce da falta de respeito, da desconsideração pela outra parte, e vai criando raízes. E no caso das mulheres, floresce por uma mistura de tolerância que lhes é inata e síndroma de Estocolmo

O homem que maltrata psicologicamente, o homem que não mede a força, o homem que bebe, o namorado ciumento patológico, o que não se importa de fazer chorar, o que inventa jogos de poder no firme propósito de torturar a cara metade, o que não entende que "não" não é "nim"...para todos há desculpas.

Em particular, a violência psicológica é subtil e matreira- mas não menos devastadora. Uma mulher de personalidade, forte, com boa auto estima, pode dizer "quando um homem me bate, bate-me uma vez"- e cumpri-lo. A bofetada é assim uma coisa muito eloquente, muito explícita. Não há melhor sinal de alarme para sair porta fora.


 Mas embora não haja dois dramas iguais nem seja a minha especialidade, atrevo-me a dizer que  agressões verbais ou psicológicas têm mais que se lhe diga. Porque afinal, não parece tão mau, não é? Pode ter sido uma má impressão, um dia não. Foi dos ciúmes, ele adora-me e perde a cabeça, é produto do meio/cultura dele, não é defeito é feitio,  é um querido quando não está fora de si, ele é um brincalhão, expressa-se assim e às vezes não vê os limites. E quando se vai a ver, até o amor próprio mais saudável está baralhado, abalado, de pantanas. 

Desculpa-se o indesculpável para manter...já nem se sabe o quê. À espera que tudo volte ao que era no início, do próximo pedido de desculpas, da próxima reconciliação romântica, dos projectos sonhados em comum. Mas a verdade é que uma vez o comboio descarrilado, é quase impossível- ou porque as estatísticas provam que tende a piorar, ou porque, como um dos homens mais importantes da minha vida costuma dizer "um homem assim não volta a ser como no início, porque o que ele era a princípio não passava de fachada. O que ele mostra agora é o que ele realmente é". 












Friday, May 29, 2015

O complexo Ana Bolena






Após ler este post  cá no blog e de ter estado a ver o filme "The other Boleyn Girl" uma leitora e amiga colocou-me esta questão, que dá que pensar:

"Se bem compreendi é a favor de uma posição mais tradicional das mulheres no jogo da conquista (eu preferia que não fosse um jogo, mas infelizmente muitas vezes é tratado como tal).

Mas hoje, após ter visto o filme "Duas Irmãs, um Rei" (que apesar de ser uma versão muito romantizada da dicotomia Bolena/Henrique VIII, prima pela oposição que deram às duas irmãs, Ana e Maria) fiquei com uma dúvida: até que ponto é que essa posição mais tradicional do papel feminino, ao invés de trazer homens com mais certeza do que querem e que lutam por quem lhes interessa, não poderá atrair meninos mimados que não sabem perder nem a feijões
?

Ana acaba por "enfeitiçar" o Rei mais do que Maria, precisamente porque não se lhe entrega de bandeja. Mostra que é uma mulher segura de si e leva Henrique VIII à exaustão que, como homem apreciador do género feminino que era, ainda ganhava mais ímpeto para não deixar escapar tal preciosidade. Fazia-lhe bem ao ego, pronto..

Contudo a mesma "segurança própria" que Ana transmitia acabou paradoxalmente por ser a sua perdição; porque após ter alcançado uma mulher tão inatingível, Henrique cansa-se depressa, tal qual uma criança que já conseguiu o brinquedo novo.

Até que ponto  o verdadeiro troféu não estará na mulher mais segura de si e não na que se oferece de bandeja? Será a adopção de uma postura oposta à que se assiste com frequência hoje em dia a solução para os dramas dos relacionamentos do "usa e deita fora"...ou na verdade não atrairá os verdadeiros predadores?
"


Ora aí está uma excelente pergunta! Vou tentar responder baseando-me tanto nos exemplos históricos, como no que tenho visto e ouvido de experiências em pleno século XXI.

Antes de mais, é escusado repetir que o livro/filme em causa é assumidamente fantasioso. Tem algumas perspectivas e momentos interessantes, mas inventa detalhes que nunca poderiam ter acontecido e inclui rumores da época como sendo a pura verdade. Acima de tudo, foca-se de facto na atitude de "femme fatale" de Ana (que foi real até certo ponto, embora, se ouvirmos os historiadores, não com as motivações apresentadas no filme) pintando-a como uma viborazinha insuportável, má até para a própria família. Aqui entre nós, eu própria fiquei aliviada quando a Ana de Natalie Portman foi despachada, Credo.


                                          

Sobre esse assunto, já falámos em posts como este. Sabemos hoje, graças a estudiosos isentos, que Ana não teria pensado em seduzir Henrique VIII de forma calculista, antes pelo contrário. Não direi que foi uma pobre vítima sem ambição alguma, como sustentam  historiadoras feministas, mas uma coisa é certa: não estava nos seus planos tornar-se amante do Rei e até este falar em divórcio, não é de crer que ser Rainha lhe passasse pela cabeça. Ana dançou conforme a música e apesar de ter um mau feio historicamente comprovado, será justo dizer que Henrique a venceu pelo cansaço e que ela  tentou tirar 
 o melhor partido possível de uma situação inevitável.

Sigamos a lógica: Ana tinha visto o mau exemplo da irmã: primeiro em França, onde teve vários casos amorosos e partilhou o leito real com Francisco I (que se referia à desmiolada Maria como " a égua inglesa" e "una grandissima ribalda, infame sopra tutte"" [uma grandessíssima galdéria, a mais infame de todas"]) e no regresso a Inglaterra, onde caiu rapidamente nos braços de Henrique VIII para ser posta de parte, como outras, pouco depois. 


Maria era uma rapariga demasiado sincera para seu próprio bem, e irreflectida; nota-se pelo casamento pouco vantajoso (embora feliz) que veio a fazer mais tarde, à revelia de todos, o que motivou que Ana se zangasse muito com ela e que os pais a deserdassem.

É natural que, sendo a mais ajuizada e inteligente das irmãs, Ana não quisesse o mesmo destino de Maria. O seu objectivo era, como o das raparigas do seu tempo e condição, fazer um bom casamento.

Apaixonou-se pelo filho do Conde de Northumberland, Henry Percy, que a adorava, e teriam casado se não fosse Henrique (provavelmente, já interessado em Ana) impedir o enlace com desculpas burocráticas.

   Feito isto- e sendo o Rei bem casado com a magnífica Catarina de Aragão sem perspectivas de conseguir um divórcio - seguiu-se um "namoro" de sete anos entre ele e Ana. 


Sabe-se que o sex appeal e inteligência da jovem Bolena  o encantaram e que a heróica resistência que ela lhe opôs lhe acicataram a paixão. Mas em boa verdade, Ana não podia fazer outra coisa: no momento em que cedesse, não só ele se desinteressaria logo (o que, dado que toda a gente falava no caso, a lançaria no ridículo) como ia complicar as hipóteses de fazer outro casamento honrado. A única chance seria exilar-se, mas podemos adivinhar que Henrique, ferido nos brios, não a deixaria partir sem represálias.

Quando finalmente Henrique ficou livre e coroou Ana,  viu-se defraudado não só pela falta de herdeiros (que pelos vistos, dizem hoje os especialistas em genética, seria mais "culpa" dele do que das suas mulheres) mas porque se tinha apaixonado por uma fantasia.

   Era um homem de birras, acentuadamente caprichoso mesmo dentro do seu género. Aliás, um dos meus pontos preferidos no filme, e verosímil, é quando a mãe de Ana, conhecendo o carácter voluntarioso da filha, a avisa " olhe que a arte de ser mulher é conseguir o que queremos deixando os homens acreditar que eles é que mandam!".


 Ora, Ana fez precisamente o contrário: confiava, como tudo indicara até ali, que Henrique a conhecia bem e que apreciava a sua personalidade forte. Esqueceu-se de que tudo o que encantava Henrique numa amante - o picante de ela o contrariar, a língua afiada, a forma indomável e inatingível de ser - não lhe dava jeito numa esposa. Ele era um homem generoso e fácil de levar quando lhe faziam as vontadinhas todas (Jane Seymor e Ana de Cleves provaram essa realidade) mas diabólico quando ofendido no orgulho


Nem Ana nem Henrique se deram realmente a conhecer antes de casar - ambos compraram a ideia romântica que tinham um do outro. E o resultado foi o desastre que se sabe.

Dito isto, voltemos à realidade do século XXI: felizmente, Henriques VIII há poucos; ou se existem homens com esse tipo de carácter, não haverá muitos com o mesmo tipo de poder material sobre a mulher que querem conquistar. A dinâmica actual é sobretudo no território das emoções.

Uma mulher com uma forma tradicional de estar (misteriosa, discreta, subtil e pouco disponível, que como se diz na gíria, "dê luta") vai, pela lógica, atrair pretendentes com uma atitude masculina tradicional, até porque - isso é certinho - afastará à partida homens ou rapazes que tenham uma personalidade mais "feminina", uma forma mais "moderna" e passiva de estar; esses 
desencorajam-se rapidamente; preferem as conquistas fáceis e as raparigas que tomam a iniciativa.

 E ainda bem que assim é, porque se faz uma filtragem prévia: uma rapariga muito feminina nunca se poderá entender com um "homem beta", que tem por norma uma perspectiva algo flexível das relações amorosas.



Todavia, é preciso ver que nenhum relacionamento é um romance histórico, por muito romântico que seja ver um homem com uma atitude dominante, a fazer tudo como manda a tradição e a cobrir a amada de atenções
  Um homem poderoso e dominante, emocional e materialmente, tentará ganhar terreno multiplicando as manifestações de apreço (presentes, mensagens apaixonadas, saídas luxuosas) mostrando que nunca se esforçou tanto por uma rapariga, o que a faz sentir-se lisonjeada e especial; por seu turno, ela vai manter o seu ascendente sendo meiga mas evasiva, o que o faz também sentir-se especial por conquistar uma fortaleza inexpugnável - exactamente como Ana e Henrique!

A grande questão aqui é que, para evitar desgostos, nem um homem pode depender só da sua imagem poderosa, nem uma mulher da sua beleza e aura de mistério. 


Acima de tudo, é preciso haver honestidade de parte a parte. Uma mulher tem de ter respeito por si mesma, como Ana, mas ser um bocadinho mais como Maria Bolena de vez em quando; não no sentido de facilitar a conquista em demasia, mas no aspecto de ser bondosa, sincera e um pouco espontânea. Não há mal em demonstrar que se gosta de alguém, quando essa pessoa se está claramente a esforçar  e já o deixou claro por sua vez. 

Por seu turno, cabe ao homem deixar espaço para a reflexão, afrouxar um pouco a "marcação cerrada" e não pressionar exageradamente, querendo de um momento para o outro inclui-la na sua vida (o que é bom, se for doseado) sem saber ao certo se a personalidade dela lhe convém e sem mostrar que  tem alma e defeitos como toda a gente. 

Convém que a mulher se apaixone por ele não pelo poder e confiança que exala, mas porque o acha atraente, e acima de tudo porque gosta daquilo que ele é por dentro. E convém que o homem veja não só a beleza do corpo, mas a da alma. Se Ana tivesse visto o homem e não o Rei, talvez tivesse fugido a tempo; se Henrique tivesse visto a mulher e não a sedutora, talvez continuasse casado com Catarina, que era de facto o tipo de esposa que lhe convinha: doce, paciente e calma.

Se não saírem dessa dança de domínio, se não se mostrarem tal como são, se houver sedução apenas e nenhuma amizade, nenhum respeito e consideração pelos sentimentos um do outro, um braço de ferro constante, então o relacionamento terá como base apenas a atracção, que nunca é um alicerce sólido. A mulher será de facto um troféu, o homem um tirano e a relação um tabuleiro de xadrez. O jogo da sedução tem a sua graça, é necessário, mas não basta para construir a felicidade a longo prazo.
















Monday, February 2, 2015

O complexo Catarina de Aragão


Por aqui, defendo muitas vezes aquilo que me foi pintado como modelo de mulher ideal: educada, culta, discreta, bonita,  feminina mas com ânimo varonil para as adversidades, paciente, modesta, com classe mesmo nas situações mais dolorosas...

Porém, neste mundo nada é grátis e mesmo hoje, uma mulher que assim seja corre vários riscos. E um deles - um preço elevado em cima do esforço que comporta portar-se bem - é vir a sofrer do complexo Catarina de Aragão, a sábia, piedosa e tolerante primeira mulher de Henrique VIII.

Não confundamos uma mulher que sofre do complexo Catarina de Aragão com uma mulher-tapete. Não é a mesma coisa.

Uma mulher com complexo Catarina de Aragão é aquela de quem um homem se orgulha, que pode levar a toda a parte, que apresenta aos pais, em quem tem a maior confiança porque sabe que ela estará impecável, que zelará pela imagem de ambos, que terá sempre à mão o remédio para tudo - o itinerário, as aspirinas, you name it - que sabe receber, conversar, que impressionará favoravelmente os superiores dele, que nunca desce do salto, que lida habilmente com provocações ou situações embaraçosas sem fazer barulho, que tem sempre paciência para as suas tolices, que dá a outra face ou faz vista grossa, que jamais o censurará ou contrariará em público ainda que lhe apeteça deitar a casa abaixo. É uma Jackie (mesmo que em privado possa ser uma Marilyn) uma Bree das Donas de Casa Desesperadas, uma mulher de Stepford com um bocadinho mais de espírito que sabe exactamente quando se manifestar e quando entrar em modo sit there and look pretty. Se se irritar - ou antes, se manifestar a sua irritação - só ele o saberá. 

É o tipo de mulher que parece delicada mas tem uma força de aço - Catarina de Aragão fez valer os seus direitos perante o sogro em condições deploráveis e mais tarde, defendeu a sua causa valentemente. Mas foi aí que se estragou tudo. Uma Catarina é a mulher de quem um homem diz "é uma santa, não sei como me atura"...depois de contabilizar os inúmeros disparates que tem feito. Quando e se puser a mão na consciência.

Afinal, uma Catarina de Aragão é do mais conveniente que pode haver - perfeita! O protótipo da grande mulher que costuma estar por trás de um grande homem - e se calhar, com o fardo das suas próprias conquistas para carregar também, não se enganem. Mas sofre bastante.

Primeiro, porque tudo lhe é exigido. Das outras não se espera muito e às outras tudo se tolera- um comportamento menos recomendável, uma toilette menos adequada -mas ela, não. Ela tem de ser imaculada.

Depois, se ela cede à sua humanidade e por acaso recorda a um homem que pisou o risco, que ela é uma mulher, não uma santa de altar, o cavalheiro fica surpreendido, chocado mesmo. É que está tão acostumado a vê-la imperturbável, disciplinada, calmíssima, que não suporta ver o quadro estragado.

Moral da história- As Catherines Howards são um péssimo modelo e as Anas Bolenas deste mundo ficam sem a cabeça -  mas as Catarinas de Aragão têm uma cruz pesada a carregar. 



Sunday, March 3, 2013

Ana e Maria: as escolhas de uma mulher nunca são fáceis

                
As duas irmãs eram muito bonitas. Ana inteligente, ponderada, astuciosa. Maria alegre, cheia de vida, de cabeça leve. Em França, onde foram educadas, Ana observava e aprendia estilo, maneiras, graça; absorvia os hábitos galantes sem tomar parte neles. A irmã, por seu turno, vivia as experiências ao máximo, conquistando uma reputação de "mulher fácil" na corte francesa. Terá tido vários casos amorosos, partilhando mesmo o leito real. O monarca, Francisco I, não a tinha em grande conta: referia-se a ela como "a minha égua inglesa" e ""una grandissima ribalda, infame sopra tutte"" (uma grandessíssima galdéria, a mais infame de todas").  Regressadas à pátria, Maria foi conquista fácil para Henrique VIII, rival do rei francês. Henrique  depressa se cansou dela e tratou de a casar com um rico cortesão, Sir William Carey. Ana continuava a observar os desvarios da irmã e a guardar as lições para seu governo. Poucos anos depois, o Rei virou-se para Ana (que hoje, os historiadores acreditam ser a irmã mais nova). E esta, que não queria cair nos mesmos erros, fez o que uma jovem de bem deveria fazer: recusou os avanços do todo poderoso soberano. O resto sabe-se: a relutância da presa acicatou-lhe a determinação, e ele não descansou enquanto não fez dela sua mulher, movendo mundos e fundos para isso. Maria, agora irmã da rainha consorte e cunhada do ex-amante, enviuvou subitamente. E quatro anos depois, enfureceu o cunhado e a irmã ao anunciar o seu casamento de paixão (e obviamente, não autorizado) com William Stafford, um soldado plebeu, sem nome nem fortuna, de condição muito abaixo da sua. 
"Podia ter escolhido um homem de nascimento mais elevado, mas nenhum tão honesto, nem que me amasse tanto; prefiro pedir esmola com ele do que ser a maior rainha da cristandade; e acredito que ele jamais me abandonaria, nem que fosse para se tornar rei". A explicação não convenceu a família: Maria foi banida da corte, os pais
 deserdaram-na, o Duque de Norfolk, seu tio, recusou dar-lhe qualquer ajuda e só  Ana intercedeu por ela, mandando-lhe algum dinheiro,  embora recusasse recebê-la de volta.       As duas irmãs nunca mais se veriam. A paixão de Henrique VIII teve o preço  elevado que todos conhecemos. Maria, essa, herdaria algumas propriedades com a execução dos irmãos e a morte dos pais, que se seguiu cerca de dois anos mais tarde. Morreu na obscuridade, num conforto relativo ao lado do homem que escolheu, longe das pompas da corte, mas (crê-se) apaixonada e feliz. 
 Reviravoltas que nos fazem pensar que uma mulher tem sempre escolhas muito complicadas pela frente -  cálculo ou espontaneidade, viver ou ponderar, amar ou pensar -  e que as recompensas, além de muito relativas, estão onde menos se espera...




Tuesday, April 24, 2012

Ambição: a Rainha dos 9 Dias


A execução de Lady Jane Grey (Paul Delaroche, 1833)

"A ambição é a riqueza dos pobres".
Marcel Pagnol 
                                                         
  "A ambição é o último refúgio do fracasso".
Oscar Wilde


Don´t bite off more than you can chew ,
dizem os ingleses. Em português, a melhor tradução será "não queiras dar um passo maior do que a perna". 
Quando penso em pessoas que procuram ascender vorazmente lembro-me de Lady Jane Grey, a trágica Rainha dos 9 dias.

     Ela uma das mulheres mais cultas do seu tempo, e sobrinha-neta de Henrique VIII: neta da sua irmã bem amada, Mary, e do seu melhor amigo, o Duque de Suffolk. Em testamento, o velho rei determinara a posição de Lady Jane na linha de sucessão: apenas herdaria o trono caso os seus três filhos ( os futuros Edward VI, "Bloody" Mary I e Elizabeth I) morressem sem deixar descendentes. Edward, protestante devoto, reinou perto de sete anos. A sua saúde delicada resultou numa morte prematura - e tornava-o um peão dócil nas mãos dos seus conselheiros. O jovem monarca não pretendia deixar Inglaterra cair novamente em mãos católicas e, influenciado por John Dudley, deserdou a sua irmã mais velha, Mary (por sua vez, neta dos Reis Católicos e filha de Catherine de Aragão). Para o fazer, apoiou-se num dos actos de sucessão assinados pelo seu pai entre os seus sucessivos casamentos e divórcios, que declarava tanto Mary como Elizabeth (filha de Anne Boleyn e protestante convicta) ilegítimas.
 Jane fora entretanto convenientemente casada com Guildford, o filho do conselheiro Dudley, que por sua vez conseguira a proeza inaudita de ser elevado a Duque de Northumberland.
Embora consciente do seu estatuto real e defensora da fé que escolhera, Jane não era ambiciosa - chegou a criticar abertamente a família pelos seus hábitos gastadores e alpinismo social. No entanto, a ganância dos pais e sogros era implacável. Jane casou contrafeita e morto o jovem rei Eduardo, foi pressionada para se assumir como rainha. Terá mesmo dito " quando me apresentaram o trono, eu via por trás dele o cadafalso" e recusado experimentar a coroa. Como Tudor orgulhosa, não quis  tornar o seu marido rei - frustrando os desejos da família presunçosa e arrogante.  Mas as guerras domésticas eram o menor dos seus males. O "reinado" de Lady Jane duraria 9 míseros dias.
 Pouco depois Mary Tudor reclamava o trono e entrava em Londres triunfante. A filha mais velha de Henry VIII detinha a simpatia popular devido aos maus tratos que tanto ela como a mãe tinham sofrido às mãos do Rei. No coração do povo, Catarina de Aragão permanecera sempre como a verdadeira Rainha - e não poderia haver outra sucessora que não a sua filha de sangue.  Após duas tentativas de rebelião por parte dos familiares da "jovem usurpadora"  Mary I foi forçada, por necessidade política, a mandar executar a sua infeliz prima . Lady Jane Grey foi decapitada em privado na Torre de Londres na manhã de 12 de Fevereiro de 1554. Tinha apenas dezasseis ou dezassete anos.

 O marido e o sogro tiveram o mesmo destino.

 Se tivessem ficado quietinhos no seu canto, levariam uma vida feliz e privilegiada. Mas insistiram em tentar um movimento perigoso, numa corte onde tão depressa de ganhava a coroa como se perdia a cabeça. Há jogos e lugares para os quais nem toda a gente é feita. Recebê-los legitimamente é um fardo - usurpá-los é uma sentença de morte.

  
As águias deixam que os passarinhos cantem, sem nenhuma preocupação com o seu trinado alegre, certas de que com a sombra das suas asas poderão
 reduzi-los ao silêncio.

William Shakespeare

Acredito que sem projectos, nem sonhos, nada se faz. Para chegar ao meio da montanha é preciso apontar ao topo, e todas essas belas máximas. Ter imaginação, sentido de missão, de propósito, lutar por aquilo que se acredita, esforçar-se para obter o estilo de vida desejado, aplicar dons e aptidões em algo que valha a pena são as mais salutares aspirações humanas. Porém- e já se estava mesmo a ver que havia um "mas" aqui - é preciso ter humildade e bom senso. Podemos ser grandes sonhadores mas a sensatez tem de ser incutida desde o berço, às colheradas. É legítimo ter ambições, desde que acompanhadas de noção do lugar de onde se partiu, dos próprios direitos, fraquezas, talentos e pontos fortes, dos conceitos básicos de educação e bom comportamento.

Por grande e digno que seja o ideal a que se aspira, se aquele que pretende alcançá-lo se vale de meios miseráveis, é sempre um miserável.  
Henri Lacordaire

O perigo está nas pessoas que se acham com direito a tudo e mais alguma coisa, ambiciosas por passatempo, preguiçosas, descaradas e sem noção dos limites. Aquelas que querem fama, prestígio social e "boa vida" sem terem nascido com as condições necessárias, nem vontade de se esforçar. Um exemplo são os jovens que querem ser "actores" mas não são abençoados pelas musas, nem têm consciência do trabalho, estudo e sacrifício que espera um actor que honre a profissão. Cesare Pavese classificou a ambição de "sentimento de inferioridade que origina todos os pecados". Por vezes, quanto mais de baixo se parte, maior a cupidez. A desvantagem inicial é proporcional à avidez e sofreguidão de subir a todo o custo, doa a quem doer.
Talvez a cultura pop actual seja responsável por muitos desastres: coloca-se ênfase no "quem não arrisca, não petisca" na "fama" no "glamour" na ostentação de bens materiais ou notoriedade sem valores (ou valor) subjacentes. Tudo acontece a uma velocidade tão alucinante que obter fortuna através de um golpe baixo, de um crime ,estratagema, burla ou escândalo - mesmo que toda a gente saiba - já não representa o mesmo estigma social. Afinal, amanhã já ninguém se lembra como é que aquele indivíduo ficou rico ou famoso. Nota-se mesmo uma admiração incontida pelos malandros espertalhões. Há apenas 100 anos, era socialmente mais desculpável matar (desde que por um forte motivo) do que roubar. Era preferível viver em genteel poverty, mas com um bom nome, do que sujá-lo em associações indignas. Um cavalheiro ou uma senhora sê-lo-iam sempre, mesmo que a tragédia os atingisse. Um malandro seria sempre um malandro, por mais que a fortuna o bafejasse. Hoje em dia, um figurão que lá tenha chegado através do crime, da prostituição velada ou da sabujice mais reles pode ousar- ou exigir -  ser  respeitado. Vivemos tempos de grande elasticidade moral, ou assim parece.

A exigência de um lugar ao sol é conhecida. O que é menos conhecido é que este se põe mal foi conquistado.
Karl Kraus

   Os malandros não são uma novidade do século XXI. Adulação, ganância, arrivismo, baixos instintos e falta de talento a par com ambição desmedida sempre existiram, embora dessem mais nas vistas e tivessem a vida dificultada: vivia-se numa sociedade estratificada; a instrução formal, os bastidores da política, da finança e das artes eram mais fechados; não havia reality shows, nem youtube, nem redes sociais; ser "cromo" não era um conceito vigente, muito menos aceitável; o ridículo era mais temível e o raio de alcance reduzido. Enfim, para o bem e para o mal existia um filtro que dificultava a mobilidade, a notoriedade e a ascenção vil ou legítima. Nos nossos dias as fronteiras entre o certo e o errado são ténues e as vias de acesso multiplicaram-se. O usurpador ou o vigarista de hoje tem menos trabalho - o que não significa que passe impune.
 Grosso modo, estes figurões dependem de si mesmos e são menos espertos do que se julgam.
 Veja-se o exemplo das cocottes: muitas eram celebradas apesar de vistas como imorais. No entanto, foram pouquíssimas as que não acabaram na miséria. Não é difícil chegar a algum lado - difícil é manter uma posição. Isso exige talento legítimo, uma educação de raiz, inteligência, savoir faire, um valor real. As ambições são belas quando estão de acordo com as qualidades; quando se aproveitam as oportunidades concedidas por mérito; e quando se está mais consciente dos deveres que dos privilégios. O resto resume-se ao estado de "sem noção", ao ridículo e a uma derrocada mais rápida que a subida. É matemático.

                     Aquele que se eleva nas pontas dos pés não está seguro. 

(Lao Tse)


Deixamos de subir alto quando queremos subir de um salto.

(Marquês  de Maricá)

Tuesday, July 12, 2011

Da inocência




A inocência não necessita de muito, reveste-se de simples dignidade e brilha como um escudo polido perante as mais sórdidas acusações. Na semana passada, durante as minhas leituras costumeiras, encontrei um texto que me emocionou. É um excerto do discurso proferido pela Rainha Anne Boleyn ao receber  a sua sentença de morte. Não restem dúvidas que Henrique VIII sabia escolher as mulheres: se a antecessora e rival de Ana Bolena, Catarina de Aragão, defendeu a sua causa em tribunal como a grande senhora que sempre foi, Anne fez justiça ao espírito e intelecto que (acompanhados de sex appeal e beleza enigmática) a tornariam numa das rainhas consortes mais influentes de todos os tempos.

"I do not say I have always shown him that humility which his goodness to me merited. I confess I have had jealous fancies and suspicions of him, which I had not discretion enough, and wisdom, to conceal. But God knows, and is my witness, that I have not sinned against him in any other way. Think not I say this in the hope to prolong my life. God hath taught me how to die, and He will strengthen my faith".

Tentarei expressar a beleza desta singela "confissão" ( o que havia a confessar?) com uma tradução livre.


"Não direi que lhe demonstrasse sempre [ ao Rei] aquela humildade que a sua bondade me merecia. Confesso que tive caprichos de ciúme e suspeitas que não tive discrição e sabedoria suficientes para ocultar. Mas Deus sabe, e é minha testemunha, que eu não pequei contra ele de nenhum outro modo. Considerai que não digo tal na esperança de prolongar a minha vida: Deus ensinou-me como morrer, e Ele fortalecerá a minha fé".






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