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Thursday, March 3, 2016

Dizer a verdade sem ofender, à moda d´Os Maias



A boa literatura é a segunda melhor escola desta vida para ganhar um bocadinho de espírito mundano. Basta prestar atenção às obras imortais  para tirar óptimas lições de bem viver...incluindo algumas que nos livram de apuros sociais.

 Já aqui vimos a fórmula de Jane Austen para mudar de assunto sem parecer malcriada quando alguém menciona uma rapariga ou senhora com quem não se simpatiza nem um bocadinho. 

E n´Os Maias podemos tirar ideias do diálogo abaixo, para quando não nos é permitido responder com sinceridade a perguntas do tipo "gosta do meu vestido/carro/relógio/artigo para o jornal?" (que é medonho mas é da sua chefe super melindrosa...).

De maneira que é jantar de cerimónia. O Castro Gomes não me disse nada; mas que te parece, achas que vá de casaca?...
- Sim, atira-lhe casaca, e uma boa rosa na lapela.
O Dâmaso olhou-o, pensativo.
- A mim tinha-me lembrado o hábito de Cristo.
- O hábito de Cristo... Sim, põe o hábito de Cristo ao pescoço, e põe a rosa na botoeira.
- Será talvez de mais, Carlos!
- Não, fica bem ao teu tipo.

"Fica bem ao seu/teu tipo"ou "vai bem ao seu/teu tipo" é a resposta perfeita, que salvaguarda tudo. Pode ser usada de forma mordaz, de elogio invertido, como o Carlinhos a disse (pois estava arreliado com o arrivista Dâmaso e dava-lhe jeito que ele parecesse ainda mais ridículo do que já era). 

Porém,também pode empregar-se sem maldade alguma, para não cair na complicada indelicadeza de balbuciar "eu não usaria nem que me pagassem, mas não te está mal".

Também serve para dizer a mais pura das verdades sem insultar,como se fosse : com o mau gosto que tu tens, está mesmo perfeito para ti.

Ou ainda, para explicar sem elaborar muito, quando uma toilette, atitude ou frase não faz de facto o nosso estilo, mas naquela pessoa até funciona.

E mais algumas aplicações que agora não me ocorrem: "fica bem ao seu/teu tipo" é um básico. É o creme Nívea, os blue jeans, a vaselina, a camisa branca das frases. Mais prática e versátil não há; convém estar sempre na ponta da língua...




Friday, January 1, 2016

Ai que me deram cabo dos diálogos interiores d´Os Maias



Que raio de ideia a minha começar a primeira manhã do ano a espreitar na RTP a versão de João Botelho de Os Maias. Quem aqui vem muito sabe que Eça, mas em especial o Carlinhos e o João da Ega, estão sempre a surgir a talho de foice, por isso sou suspeitíssima. E já se sabe que nenhuma produção de TV ou cinema consegue jamais estar à altura do modo como imaginamos os livros, por muito que não tome liberdades criativas com o enredo ou os diálogos (a versão brasileira até fez uma Maria Monforte morena e vivinha da silva, a aparecer aos filhos no melhor modo novela mexicana!). Mas pronto, apesar de eu já ter comentado em tempos, em função do que vi no trailer, que a Maria Monforte estava vestida como a Eliza Doolittle quando vendia flores, usava uns vestidos que mais lembravam a descrição das "confecções baratas dos armazéns da América" totalmente contrárias à descrição de "mulher de gosto e de luxo" e caminhava com a passada de um soldado, algo impensável numa Senhora daquele tempo, eu não sou muito exigente. Não espero de tudo o que se faz por aí o rigor de figurino de um E Tudo o Vento Levou, e olhem que quanto a actores sou muito benevolente, até porque não é a minha área: desde que me soe natural, por mim está bem. Logo, qualquer coisa que se faça com Os Maias tem da minha parte infinita condescendência, gosto sempre de ver. Mas...que ferro!!!

Eça de Queiroz será dos nossos grandes autores o mais acessível de representar, talvez mais até que Júlio Dinis. Não há linguagem menos empertigada e arcaica;  mais intemporal, mais corriqueira (apesar de rica) mais ritmada nem mais simples. Não é difícil imaginar os diálogos boémios do João, do Carlos e dos amigos a serem tidos por quaisquer dois rapazes à porta de um bar hoje em dia, com a maior naturalidade. Ou as queixas furiosas da Condessa de Gouvarinho a serem atiradas por qualquer mulher ciumenta: "vai para a outra, para a brasileira!". Pois sim. Eis que os actores declamam solenemente o livro como se, lá por se passar no século XIX, tenha forçosamente de soar a uma época em que as coisas e as pessoas eram a preto e branco e não se mexiam. O Ega bem havia de troçar desses modos postiços...

Depois, sem querer elaborar muito que não estou para isso, haverá autor mais descritivo que Eça de Queiroz? Impossível. Quem não aprecia, de que é que se queixa logo? Das descrições intermináveis, minuciosas, obsessivas mesmo, de ambientes, fatiotas, decorações, cozinhados, sentimentos, objectos. É um pratinho (ou um inferno) para qualquer produtor ou realizador, pois para recriar a ideia não é preciso imaginar grande coisa. Mas nem assim: Afonso da Maia tinha cabelo cortado à escovinha, é o signature look dele...pois aqui aparece de farta cabeleira; depois ele, de uma contenção que roçaria a fleuma se não agisse sempre com o espírito recto e são que Eça tão carinhosamente explica, reage à notícia da desgraça do neto com um drama, uns modos trágicos de Imperador de Carnaval...Afonso que no livro diz duas coisas ao Ega, quase sem poder falar, esmagado com a má nova.

E a Maria Eduarda, "essa senhora que nem brasileira é, é tão portuguesa como tu e eu" que até o Dâmaso, estúpido como um melão (esta expressão não vem nos Maias, é d´O  Crime Padre Amaro, mas seja) diz que "ela fala como a gente, não tem "sutaque" nenhum" zás, tem um "sutaque" brasileiro que baste.


 Depois, a falar em Dâmaso, como é que se lembraram de fazer um mais charmoso que o Carlos da Maia, e quase nada ridículo? Então Carlos, que tinha uma figura de belo cavaleiro da Renascença, um verdadeiro Príncipe, é aqui um homem perfeitamente normal, sem nada que dê nas vistas nem na estatura, nem nos trajes, nem na figura - só lhe faltava o chapéu de coco para ser tão banal que Maria Eduarda não desse por ele nas ruas de Lisboa. Já Dâmaso também é do mais normalinho - razoável nos modos, nem tão gorducho como isso, simpático até. What the hell!

 A única coisa que me pareceu a condizer com o que é descrito no romance foi mesmo o ambiente sinistro das cenas finais do adulteriozinho e do incestozinho, quando Maria Eduarda, à luz da revelação, se afigura a Carlos como algo de predador e de ferino, mas nem por isso menos irresistível. O que é difícil de fazer saiu bem e sem exageros, o que era de caras foi feito à bordoada, ou quê?

Vou precisar de reler yet again, passe o pleonasmo, para desfazer esta impressão desconsolada...que má ideia a minha!




Sunday, November 29, 2015

Para os meninos Eça e Bruce, uma salva de palmas...




Esta semana comemoraram-se os aniversários de dois dos meus gurus (salvo seja) e duas pessoas amplamente citadas por aqui: Eça de Queiroz (25 de Novembro) e Bruce Lee (dia 27).

A sabedoria - e estilo, assinale-se - de ambos é uma eterna inspiração para mim, e uma constante referência. 

De Eça (além de apreciar uma prosa inigualável, cheia de detalhes, na qual se descobre sempre algo de novo e imune ao tempo) pode aprender-se que o humor, uma pitada de cinismo e colocar elegância em tudo o que se faz e se passa, até nos aborrecimentos da vida, é meio caminho para fazer a travessia por este mundo com um mínimo de sanidade.


 Quando (nos "Contos" e A Cidade e as Serras) o Jacinto extenuado, desgostoso de perder a bagagem onde levava todo um estilo de vida, apavorado ante a perspectiva de uma longa estadia no meio de nenhures, descobre os rústicos prazeres do campo, se maravilha ante o caldo de galinha com fígado e moela, que "enternecia e rescendia", o simples arroz de favas a acompanhar um frango louro no espeto e "o vinho caindo de alto, da grossa caneca verde, um vinho gostoso, penetrante, vivo, quente, que tinha em si mais alma que muito poema ou livro santo!" isso encerra a lição de sentir a vida, de apreciá-la, de colocar civilização até no cenário mais desanimador. 

Os pais de Eça de Queiroz

E o que dizer das suas respostas certeiras, que encerram uma contenda com mais destreza que qualquer bofetada de luva branca, das suas opiniões sobre as mulheres, algumas infelizmente ainda válidas, do seu gosto apuradíssimo, dos seus conselhos e filosofias de toilette , até no vestir feminino? É um nunca mais acabar de máximas para bem viver. E se me quero rir, basta recordar algumas passagens das Minas de Salomão, do Crime do Padre Amaro ("qual Cristo, qual cabaça!") de A Relíquia, d´O primo Basílio ou do Damasozinho...

O grande romancista (que curiosamente nasceu e morreu em duas paragens associadas à elegância do seu tempo: Póvoa de Varzim e Paris) deixou-nos com apenas 54 primaveras, há 170 anos. Mas se fosse imortal, que não diria dos usos e manias do nosso tempo!


Já com o Pequeno Dragão - artista marcial, filósofo, actor, professor e argumentista - há mais do que pasmar para a sua destreza nas artes de combate, embora muita gente concorde comigo que nunca houve outro como Bruce Lee, nem haverá. Muito jovem - morreu com 32 anos, faria 75 se estivesse entre nós - bem parecido, carismático, não se limitava a ser uma estrela de cinema. 

Pegava nas técnicas que considerava mais eficazes, espremia-lhes o sumo e combinava-as para seu proveito. Excluía tudo o que era supérfluo ou acessório. Acreditava no velho princípio oriental que reza que nenhum homem está derrotado até a sua confiança cair por terra. Em sentir, em vez de pensar demasiado, e agir de acordo com o adversário ou a circunstância. No esforço posto em cada objectivo e em rezar para ultrapassar os obstáculos, em vez de esperar uma vida fácil. Em ser como a água, fluindo e adaptando-se ao invés de choramingar quando as coisas não são como gostaríamos que fossem.

Partiram cedo porque ensinaram muitíssimo em pouquíssimo tempo. Obrigada, cavalheiros. Sem vós, nada seria o mesmo.




Monday, September 28, 2015

Eça de Queiroz dixit #6: "a toilette, como a nobreza - obriga"


Num dos meus textos preferidos, que continua surpreendentemente actual em alguns aspectos (e a que voltaremos em breve a propósito de outro assunto) Eça de Queiroz dizia uma frase muito sábia. "Ora a toilette, como a nobreza - obriga". 

Uma coisa que sempre me cativou em Eça era a forma como relacionava certos detalhes do físico e da apresentação com as disposições interiores ou os traços de carácter. É algo que as pessoas observadoras fazem, uma táctica que acompanhada de um instinto apurado raramente engana, como já discutimos....

Voltemos então à ideia de a toilette "obrigar". Nestes tempos tão informais, tão à vontade, em que até os mais restritos dress codes são atropelados sem tir-te 
nem guar-te (o que tem a consequência de ninguém saber ao certo como agir), em que tanta gente  faz questão de dizer "eu uso o que me apetece" por muito desrespeitoso, inestético, imoral ou inimigo da auto confiança que isso seja, talvez essa noção passe mais despercebida. Mas é verdade: a toilette obriga de facto! Para o bem e para o mal...

 Muitos actores, quando interpretam personagens de época, dizem que o figurino é meio caminho andado para entrar na personagem. Uma actriz que tenha de usar espartilhos,  anquinhas e roupas pesadas é forçada a mover-se de outro modo. A postura do corpo altera-se inconscientemente. 


Rodagem das cenas do barbecue em "Gone wind the wind"

Recordo-me de ver um documentário sobre a produção de E tudo o vento levou que contava como uma das actrizes ficou chocada ao notar que os vestidos de crinolina de toda a gente (até das figurantes, que só apareciam ao longe) tinham saiotes com metros e metros de renda verdadeira. Ela tinha participado em vários filmes do género e sabia como esses pormenores - invisíveis para o espectador - ficavam caríssimos. Espantada com tanta extravagância, foi perguntar ao realizador o motivo daquilo. E ele respondeu-lhe "descansa, eu sei o que faço. Fica caro, é certo; não se vê, é verdade; mas tu sabes que a renda lá está, e é isso que importa".

 Igual rigor teve Peter Jackson na produção de O Senhor dos Anéis, ao exigir detalhes como cotas de malha tecidas à mão e os capacetes de alguns dos Orcs que obrigavam os actores a olhar para baixo, dando-lhes um aspecto atarracado e assustador sem que precisassem de fazer por isso.



 Mas como todos encarnam de certa forma personagens (o advogado, a professora, a chefe de departamento, o marido, etc) e têm uma imagem a gerir na vida quotidiana, este conceito não deixa de se aplicar. O que se veste condiciona a postura, os gestos, a expressão, o porte.

Em todos os contextos das nossas idas e vindas diárias - formais, casuais, de lazer, profissionais - a toilette obriga. Gostemos ou não. Resta saber se é adequada, se está programada para obrigar na direcção certa. 

 Roupas de qualidade, bem cortadas, de materiais fiáveis, confortáveis mas não relaxadas em demasia, que caiam como uma luva, não só dão confiança a quem as usa e agradam a quem vê como condicionam a forma de estar, de se mover, de interagir. Todos já reparámos em certas mulheres que andam na rua com sapatos que claramente magoam. Podem estar muito bem vestidas e até ser bonitas, mas parecem hesitantes, em sofrimento.



E que dizer de quando se usa uma peça luxuosa, bem acabada? As etiquetas só nós sabemos que estão lá (ou convém que sim!) mas o toque da caxemira, da seda ou pele modelada por mãos hábeis, é insuperável. Confere mesmo uma sensação de certo poder e convida aos movimentos graciosos, à confiança inabalável, ao à vontade que não é excessivo.

 Um homem que invariavelmente opte por roupa muito descontraída, mesmo quando a ocasião pede outra coisa, não só pode pecar por inadequação em público, como começa a ganhar vícios: com o hábito dos ténis, inclina o corpo para a frente em vez de endireitar as costas; desabituado de apertar botões, de se mover a contar com eles, mexe-se como se andasse sempre de pijama. O mesmo vale para uma mulher que opte todos os dias por roupas muito "moles", como calças largas, túnicas e sabrinas. Como sabe que pode
 sentar-se, erguer-se, amarrotar-se sem cuidado e que a roupa até nem precisa de ser passada a ferro, desleixa-se como uma criancinha. Ganha um ar "enfarruscado" e quando precisa de usar um vestido, uns stilettos, caminha como se usasse ténis, senta-se como se estivesse de calças (o que não devia acontecer mesmo quando se usa calças, mas sabem como é...). 



 Façamos uma ressalva: toda a roupa deve ser confortável, mesmo a mais formal. É impossível estar bem com uma toilette que pique, magoe, aperte. Mas não demasiado confortável. Se é tão agradável e relaxada como um pijama, vai transmitir uma sensação de preguiça (e relaxaria) a quem a usa.

 E no outro extremo, há quem faça por estar sempre exageradamente composto (a), o que além de arriscar cair no poseur, no overdressed e no ridículo, também obriga a certos gestos.

 Um homem sempre espartilhado em gravatas, mesmo quando isso seja dispensável, pode dar a ideia de que engoliu um cabo de vassoura; e uma senhora penteada como para um evento formal todos os dias que Deus deita ao mundo, inevitavelmente empoleirada nuns saltos altíssimos e vestindo roupas que não convém amarrotar de maneira alguma, ganha ares de catatua, de quem nunca está à vontade.



 Depois, não esqueçamos as toilettes que além de vulgares, convidam à vulgaridade nos movimentos: os malfadados vestidinhos de lycra, os grandes sapatões de stripper, os decotes monumentais que não seguram nada, as leggings que revelam o que não devem mas se vestem de olhos fechados...decerto não lembram uma mulher de manter uma postura de bailarina ou de senhora de boa sociedade.

 Há que pensar nisto, para escolher trajes que condicionem o porte na direcção que se pretende. A roupa deve adaptar-se ao corpo e não o contrário, é certo - mas também não convém que leve o corpo, e quem o veste, por maus caminhos.






Monday, June 29, 2015

Bovarismo: um achaque que as mulheres têm de combater


O "bovarismo" - termo introduzido em finais do século XIX por Jules de Gaultier - refere-se a uma certa condição psicológica semelhante à mitomania, que faz as pessoas comportarem-se como a tonta personagem de Flaubert. Não necessariamente enganando a cara metade, atenção, mas sendo ocas e megalómanas como ela.

Eu gostei de Madame Bovary - o livro é tão bom, tão bom que me deu vontade de bater na protagonista. Quando Eça de Queiroz escreveu O primo Basílio
diz-se que foi influenciado por Flaubert; mas sempre achei que a maior influência se limitou à ideia da mulher tonta, ociosa e adúltera que é castigada no fim. Senti que as personagens sofrem do mesmo mal, mas são duas mulheres totalmente diferentes e que embora tendo o mesmo mote, ambos os romances mostram um ambiente muito diverso

 Primeiro, porque o retrato social em O primo Basílio é muito mais amplo e completo, quase com vários núcleos de personagens; poder-se-iam fazer spin offs com a Juliana, o Visconde Reinaldo ou a Tia Vitória e ter pano para mangas; segundo, porque é um romance muito mais vivo e com uma série de comic reliefs (a meu ver, superior para não dizer mais agradável de ler, mas deixo isso para os especialistas). E terceiro...porque se a Luizinha não é um prodígio de sensatez (além de ingénua, tem mau feitio e é um bocado malcriada; sempre me fez confusão que nem "não, obrigada" dizia às pobres criadas; era não e pronto, fora o resto) Emma é um verdadeiro cepo.




Aqui há tempos, como vos disse, sentei-me a reler Madame Bovary mesmo a sério e senhoras, que raiva! Que mulher estúpida, frívola, egoísta, sem dignidade, cheia de si! Luiza tem ao menos a desculpa de estar sossegada em casa e vir Basílio, um antigo namorado, desinquietá-la; a má influência de Leopoldina também não ajuda. Não tem ainda filhos que a ocupem; estima o marido e apesar de sonhar com uma vida mais glamourosa, não está de todo descontente nem é uma má gestora do lar. O adultério acaba por acontecer em modo a ocasião faz o ladrão, por uma certa ingenuidade.

Já Emma tem uma maldadezinha mais consciente; não casa obrigada, mas detesta injustamente o pobre marido que lhe faz todas as vontades (ele também merecia chicote por ser um verdadeiro palerma, assinale-se); 
considera-se superior a ele em tudo; não tendo grandes predicados que a recomendem, acha-se merecedora das maiores glórias e prestígio social; não precisa que os amantes a requestem, ela própria trata disso e procede como uma verdadeira mulher da luta. 



 É mãe, mas não quer saber da criança para nada; endivida-se não só por vaidade, mas numa tentativa histérica e desesperada de conservar os homens com quem se envolve; e até quando é convidada para um baile de boa sociedade - vida a que se acha com direito por puro sense of entitlement - faz uma triste figura. É incapaz de se comportar de acordo e ainda acha muito injusto não voltar a ser convidada. Em resumo, Madame Bovary precisava de uma vassoura na mão de manhã à noite (já que não sabia fazer mais nada) e de um homem capaz de lhe pôr juízo. À falta de uma coisa e de outra, desgraça-se.

  Porém, desenganemo-nos: o bovarismo não ficou no sec. XIX, soterrado pelas ocupações da mulher moderna, independente, com uma vida fora das portas de casa: em pleno sec. XXI muitas jovens e senhoras sofrem da "ilusão da experiência", como dizia Joseph Duhr, "julgando-se por isso superiores às das gerações passadas". "Ilusão de solidez e de força, de experiência e prudência, são o alimento de uma presunção à qual a natureza, mesmo bem guiada, é excessivamente impelida. O espírito romântico compraz-se no sentimento, na emoção; um bovarismo sem consistência toma o lugar da prática das virtudes".

 Se pensarmos nas mulheres que conhecemos - mesmo com carreiras, com ambições intelectuais (e às vezes, essas são as piores) e/ou casadas e mães - quantas não sofrem de bovarismo? De um bovarismo suportado pelos próprios homens, pela sociedade e pelos média, atenção. 



A Bovary dos nossos dias é pior do que a original, mesmo quando não comete adultério, porque desenvolve o bovarismo mesmo tendo, ao contrário de Luiza e Emma, mais que fazer. A sua educação, diferente de uma Luiza de Brito ou de uma Emma Bovary, não se ficou pela música, pelos bordados, pelas línguas - mas preparando-a para o mundo lá fora (que não mudou tanto como parece)  descuidou completamente o equilíbrio interior. Resultado: esta Bovary é pior porque se julga mais esperta, mais preparada, imune a tudo e mais capaz de se defender. É tão arrogante e ingénua como a outra, mas achando-se "poderosa" e "lutadora".

 Para começar nega, com a ilusão da total igualdade psicológica, a existência de características femininas como a sensibilidade e o pudor. Julga-se (ou sente-se na obrigação de ser) tão desinibida como uma cortesã só porque devorou todos os complicados conselhos de alcova das revistas. E às vezes a realidade é bem diferente, quanto mais não seja porque não se pode grande coisa contra a inerente reserva feminina (seja ela cultural ou biológica) que necessita de certas condições para se deixar cair e porque os próprios homens, esperando que a mulher seja totalmente desembaraçada, não sabem como se comportar nem são capazes de guiar a dança. Muitas tratam o marido com mais desprezo que Emma Bovary, se possível...achando que elas é que sabem tudo e dispõem de tudo. Idealizam qualquer relação antes do seu começo. Depois, ai Jesus - é divãs de especialistas, queixas de íntimas incompatibilidades, quando os casamentos não falham mesmo por não corresponderem ao ideal.




Outras, julgando-se muito modernas, querem ter casos de uma noite, ligações casuais e fugazes - mas ficam frustradíssimas no seu romantismo e vaidade quando são tratadas de acordo com esse estatuto na manhã seguinte. Poucas serão as que não sonham que as achem tão lindas, tão irresistíveis que as peçam em casamento logo ao pequeno almoço. E depois choram, coroa máxima da sua tolice!



 Não esqueçamos as que - tão espertas, tão cultas - perdem imediatamente a cabeça mal estranhos lhes dirigem elogios baratos ou frases xaropentas românticas nas redes sociais. Ou que, assim que terminam um relacionamento (ou casamento, mesmo) se banalizam em "girls nights" bastante vulgares, com comportamentos impróprios para a sua idade e estatuto, com medo de ficar sozinhas ou para - vulgaridade das vulgaridades - "mostrar ao ex o que ele está a perder".

 E já que falámos de leituras, que dizer dos livros? Nem Luiza nem Emma se divertiam a ler romances light cheios de palavrões, nem coisas do estilo As 50 Sombras como muitas psicólogas, advogadas e jornalistas que se ufanam muito da sua instrução, cultura e independência! E quando a isso se mistura a vaidade intelectual, pior se torna...


Tudo isto sem mencionar as que de facto se "portam mal" como a Bovary e a Luiza...

 O bovarismo não afecta só as mulheres, atenção - transcende sexo, época, idade e estatuto social. Mas não deixa de ser um mal muito feminino. Ou que ataca muito no feminino, já que "vaidade, teu nome é mulher". 

O grande problema é que apesar de tudo, no século XIX as mulheres tinham mais atenuantes para a tonteria e horizontes menos largos que as de hoje. Actualmente, algumas parecem ter varrido para debaixo do tapete a ideia "com o poder, vem a responsabilidade". E esquecido que a temperança, a dignidade e a classe são o único santo remédio contra isso, além de caberem em toda a parte.






Monday, June 15, 2015

Eça de Queiroz dixit #5: o dever moral de estar atento



"Para fazer Acácios e Julianas basta uma atenção imparcial,
 e uma perseverança lúcida"

                                               (Eça de Queiroz em carta a Guerra Junqueiro, 1878)


Digo muitas vezes que é uma pena que Eça não ande entre nós, com acesso à blogosfera

O grande romancista pasmaria com a abundância de espécimes mesmo a
 pedi-las, prontinhos a ter o tipo traçado, caricaturado e criticado. Também sempre achei que para escrever, a imaginação pode ser importante, mas... nada faz tanta falta como o poder de observação. 

É  que as fontes de inspiração são tantas, os figurões tão escabrosos ou cómicos, há por aí episódios tão caricatos que mais vale ter espírito de jornalista e registar o que se vê e ouve do que inventar grande coisa...e às vezes nem é preciso sair de casa; com as redes sociais as pessoas revelam-se de cada maneira que mais parecem personagens do Decameron, quanto mais de O Primo Basílio

Claro que nem todos temos o formoso talento de um Eça, mas cabe a cada um o dever moral de dar bengaladas naquilo que é pernicioso, inestético, escandaloso, ridículo...é que se ninguém notar essas coisas, se não lhes der nome, se não houver um "já viram bem isto?" para alertar consciências...olhem que não sei. Claro que com esse dever moral vem também a obrigação de ter delicadeza e caso ser subtil não baste, usar de capacidade de encaixe e sentido de humor, já que quem diz o que quer, pode ouvir o que não quer. Eça tinha disso às carradas, claro.
 Isso e um monóculo super atento...

Sunday, May 3, 2015

A importância do vestir honesto, segundo Eça de Queiroz


"De resto, pelo que tinha visto, as mulheres em Lisboa cada dia se vestiam pior! Era atroz! Não dizia por ela; até aquele vestido tinha chique, era simples, era honesto. 
Mas em geral era um horror. Em Paris! Que deliciosas, que frescas as toilettes daquele verão!"
  in O Primo Basílio


Um termo que uso muito (roubado a Eça de Queiroz, nem mais) para elogiar toilettes é "honesto".

Um vestido ou outfit "honesto" tem bom ar, é correcto (em termos de proporções e relativamente ao propósito ou ocasião) de qualidade (nos tecidos, no corte) e com o equilíbrio necessário entre impacto e discrição para se tornar elegante. É - para usar outro termo queirosiano - "fresco" à vista, ou como se diz actualmente, clean. Não cansa os olhos com demasiada informação nem dá um aspecto adoentado e macilento a quem o usa.

Logicamente, um traje demasiado revelador ou espampanante, mesmo que seja interessante do ponto de vista criativo, não  se pode descrever como honesto...nem na perspectiva atrás descrita, nem no quesito do decoro (pois é quase impossível revelar muita pele e estar elegante). 

  Exercitar os olhos para determinar, num relance, a "honestidade" de uma peça é uma boa dica para ajudar a construir um guarda roupa de maior qualidade, confortável, que dure e tenha no seu todo um ar mais "dispendioso" (mesmo que não o seja).  E como nos habituamos a ter esse critério sempre presente? É fácil.




Repare-se sempre:

- Nos tecidos: Nos romances de Eça de Queiroz, há uma constante referência aos tecidos- nomeadamente à seda. E quem podia esquecer o "extraordinário casaco" de peles de João da Ega? Fibras naturais têm sempre mais hipóteses de cair bem. 
Atente-se igualmente à consistência e opacidade  (um tecido com "brilho" sintético nunca é boa ideia). Se se "cola" ao corpo, se é demasiado fino ou pelo contrário, nada maleável, se pica/arranha/faz transpirar...é para esquecer.

- Nos padrões e texturas: cada vez mais há liberdade em termos de estampas, até para as misturar (o que é quase uma arte, e arriscada de dominar às primeiras). Se usados junto ao rosto, padrões demasiado fortes, intrincados (ou simplesmente, de uma cor pouco adequada à pele de quem os veste) podem também "poluir" ou dar um ar cansado ao visual.  

Porém, os clássicos representam sempre menos probabilidade de erro: tartan, windowplane, polka dots, breton stripes...estes podem ser usados mesmo em camisas ou blusas. Já outros, como os florais, chinoiserie, cornucópias... resultam melhor em saias e vestidos. 
Estas são as peças em que as estampas correm menos risco de cansar ou ficar datadas: uma bonita saia lápis floral é sempre um bom investimento; já calças às flores...precisam de estar em voga e de uma silhueta esguia para o resultado não ser desastroso.
 O tigresse é quase considerado um neutro hoje em dia, mas manda o bom senso que se utilize sobretudo em acessórios; o mesmo se aplica à pele de cobra ou crocodilo, que dependem um pouco mais das tendências. Não esqueçamos ainda que ao comprar em marcas acessíveis, peças lisas dão a impressão de maior qualidade: um padrão de ar desbotado ou que não coincida nas costuras denuncia rapidamente um fabrico inferior... 

- Nas aplicações: poucas e estrategicamente colocadas. Uma camisola com aplicações para saídas informais, uns sapatos ou clutch com fantasias para uma festa, uma saia boho de inspiração indiana com contas e bordados para um piquenique...recorde-se, no entanto, que apesar de ser tentador investir menos nestas peças por serem de uso pontual, é muito feio ver aplicações a 
descoser-se ou colocadas sobre um material inferior -nomeadamente, quando se trata de calçado. Botins cheios de tachas e correntes douradas não são a melhor ideia para o quotidiano, principalmente se forem de fabrico duvidoso. Em Os Maias, os sapatos de cetim verde eram o calçado preferido da cortesã Encarnacion, que os usava todos os dias - o que nos diz alguma coisa. Sapatinhos extravagantes são para dias de festa!

- Nos acessórios: menos é mais. Recorde-se o estilo de Maria Eduarda, o protótipo queirosiano de mulher de gosto e de luxo "trazia ordinariamente um vestido escuro e simples: apenas às vezes uma gravata de rica renda antiga, ou um cinto cuja fivela era cravejada de pedras, avivavam este traje sóbrio ,quasi severo".

- Nas cores: as personagens de Eça de Queiroz sabiam usar a cor para criar impacto ou pelo contrário, para expressar dignidade e sobriedade. Lembra-se da toilette "cor de trigo" de Maria Monforte, que lhe dava "o esplendor de uma Ceres"? Ou do outfit de Raquel com "coisas brancas, coisas cor de rosa (...) parecia um moranguinho!"? É sempre bom fazer um estudo dos tons que vão bem ou mal à pele, cabelo, olhos, em suma, ao "tipo" que se tem, principalmente quando se trata de escolher cores vivas ou da moda. 

Estas podem ser aplicadas em acessórios ou numa peça de qualidade, por fantasia (um vestido de noite magenta ou verde esmeralda terá mais utilidade a longo prazo do que um casaco rosa -neón, por exemplo). Porém, é bom lembrar que mais coisa menos coisa, as cores neutras nunca ficam mal a ninguém; um vestido preto (avivado por maquilhagem ou um acessório de cor rica fria ou quente, conforme a coloração de quem veste) dá sempre um aspecto composto; e quando na dúvida, junto ao rosto é boa ideia usar uma cor clara e luminosa (e.g: pérola). É o caso de Maria Eduarda, com os seus vestidos escuros e o seu casaco branco de veludo de génova, que tanto impressiona Carlos da Maia.

- Nas marcas: apesar das flutuações das tendências, certas marcas e designers para todas as bolsas e ocasiões especializaram-se em estilos marcadamente sexy, juvenis e/ou vistosos, que têm a sua graça mas são mais sujeitos a erro (pensemos em Versace, Cavalli, Isabel Marant, Custo Barcelona, Desigual, Bershka, Forever 21, Pimkie, Stradivarius ...).  Outras têm um posicionamento mais sóbrio e clean, sendo inspirações ou opções imediatas para visuais seguros seja no registo formal, profissional ou casual. É o caso de Armani, Chanel, Prada, Carolina Herrera, Yves Saint Laurent, Ralph Lauren, Burberry, Tommy Hilfiger, Karen Millen, Uterque, Lanidor, Sacoor Brothers, Massimo Dutti, Michael Kors, Sfera, Quebramar e de algumas linhas da Zara, Mango ou H&M. Se o objectivo é um look "honesto" a maior parte do guarda roupa deverá vir de marcas mais seguras, usando peças coloridas ou extravagantes como apontamento.

- Na silhueta: Por muito elegante que uma toilette seja, nunca terá boa linha se não estiver de acordo com a figura de quem veste. Ainda que um vestido seja bem acabado, caro e de um design perfeito, não funcionará se estiver demasiado largo/pequeno ou se as proporções estiverem mal pensadas, chamando a atenção para os pontos fracos de quem o usa. A exemplo veja-se Leopoldina que, sem ser uma beleza no sentido tradicional, pasmava Lisboa, que a considerava "uma Vénus" com os vestidos apropriados à sua silhueta "sem largueza de roda, apertados atrás". Ressalve-se que Leopoldina não era nada honesta, mas lá que saberia vestir....

 Usemos o poder de observação queirosiano na hora de escolher as toilettes! Pensar "o primo Basílio ou o Carlos da Maia aprovariam?"é decerto um bom guia da consciência...

Thursday, January 22, 2015

Eça de Queiroz dixit: amigas amigas, cuidados à parte



“(...)o que nas nossas raparigas mais impressiona é a fraqueza moral que 
revelam os modos e os hábitos.” 

Eça de Queiroz


Por estes dias, reparou-se cá em casa nas imagens que uma conhecida minha da faculdade publicou nas redes sociais. A pessoa em causa é aquilo que se costuma designar, vagamente, por "boa rapariga". Um pouco superficial, mas divertida e simpática. Conheço-a, embora mal, há anos, e é daquelas pessoas com quem não se perde totalmente o contacto, o que me indica que terá a sua dose de lealdade. Nada tenho que lhe apontar, a não ser coisas que não me dizem respeito: ou seja, as suas opções no que toca a companhias e à apresentação. Isto só seriam contas do meu rosário caso decidisse estreitar laços de amizade com ela ("diz-me com quem andas....").

E, por mais injusto que isso possa soar, é a razão por que não me sentiria confortável ao fazê-lo.



Às vezes podemos ter pontos em comum com algumas pessoas, até 
reconhecer-lhes virtudes, mas se o seu barómetro moral (ou tolerância moral) for muito diferente do nosso, é complicado dar-se com elas. Ou seja, se uma pessoa não vê mal nenhum em nada (ou por falta de formação, ou por ingenuidade) a proximidade é mais difícil, ou desaconselhável...ainda que pretendamos ser um bom exemplo para a amiga em causa.

 Aqui há tempos, falei nas amizades a evitar. Esta não será se calhar uma delas, mas é uma amizade a levar com ponderação.

 Como dizia D. Francisco Manuel de Melo, uma mulher que está segura da sua integridade pode achar que não há dano em ser amiga de mulheres que sejam, ou pareçam, menos bem comportadas. Porém, quem vê não distingue e toma tudo por igual.

 Eça de Queiroz foi mais longe ao retratar essa situação em O Primo Basílio, através da amizade entre Luísa e Leopoldina: a preocupação de Jorge, marido de Luísa, que berrava "tudo, menos a Leopoldina!" não se prendia apenas com a reputação da esposa, mas com o receio de que Leopoldina a influenciasse negativamente.


Luísa e Leopoldina na série brasileira "O Primo Basílio" (1988)

 Com a sua visão libertina do mundo, as suas paixões romanescas e as toilettes coleantes, Leopoldina, glamourosa, rebelde e "a mulher mais bem feita de Lisboa" parecia à amiga, que vivia uma vida pouco estimulante entre quatro paredes, entretendo-se com novelas, uma figura desses romances. E embora Luísa tendesse a desculpar as atitudes de Leopoldina  por ter um casamento infeliz "ia atrás da paixão, coitada!" aos poucos ia-se deixando contagiar pelas suas ideias. Começava a não ver mal em certas coisas e a relativizar conceitos morais básicos, como a gravidade do adultério. 

Podemos quase pensar em Luísa e Leopoldina como a Samantha Jones e  a Charlotte York do século XIX - uma abertamente escandalosa, outra aparentemente púdica mas sempre pronta a ouvir as aventuras da companheira. Tal como Leopoldina, Samantha é uma boa amiga à sua maneira: espirituosa, sincera, leal e constante, sempre disposta a ajudar. Tem também a qualidade de assumir as suas acções e as respectivas consequências (a má reputação e estigma social que afecta as duas personagens são uma constante tanto em O Primo Basílio como em O Sexo e a Cidade). Só não será a influência mais aconselhável...



 Obviamente, nem Eça de Queiroz apresenta Leopoldina como única causa da tragédia de Luísa - que é caracterizada ao logo de todo o romance como ociosa e de cabeça leve, cheia de "deixar-se ir" - nem podemos tomar o autor ao pé da letra.

 Luísa e Leopoldina são caricaturas das mulheres daquele tempo e daquele meio, que Eça procurava hiperbolizar para exemplo, mostrando-as sem auto domínio (Leopoldina) ou incapazes de pensar pela própria cabeça (Luísa).

 Esse aspecto fica claro quando Jorge pede ao melhor amigo, Sebastião, que impeça as visitas de Leopoldina na sua ausência:

"Por isso, Sebastião, enquanto eu estiver fora, se te constar que a Leopoldina vem por cá, avisa a Luísa! Porque ela é assim, esquece-se, não reflexiona. É necessário alguém que a advirta, que lhe diga: "Alto lá, isso não pode ser!" Que então cai logo em si, e é a primeira!... Vens por aí, fazes-lhe companhia, fazes-lhe música, e se vires que a Leopoldina aparece ao largo, tu logo: "Minha rica senhora, cuidado, olhe que isso não!" Que ela, sentindo-se apoiada, tem decisão. Se não, acanha-se, deixa-a vir. Sofre com isso, mas não tem coragem de lhe dizer: "Não te quero ver, vai-te!" Não tem coragem para nada; começam as mãos a tremer-lhe, a secar-se-lhe a boca... É mulher, é muito mulher... ".

Tão pouco, em Sexo e a Cidade, Samantha tem culpa ou influência directa nos tropeços de Charlotte e das restantes - mas não digo que, através dos relatos das suas conquistas, não puxem umas pelas outras, nem sempre com bons resultados.

E é claro que as mulheres de hoje serão mais ocupadas (na sua maioria) e menos cabeças de vento (algumas, vá) do que na Lisboa da Belle Époque, e que a vida real não é exactamente O Sexo e a Cidade. Porém, muitas continuam a encher a mente de romances de cordel bem piores que os daquele tempo e o que é mais grave, a tomá-los a sério.

Será que as mentalidades mudaram assim tanto?

Parece-me que qualquer mulher que zele pela sua reputação - e pela firmeza das suas ideias, por muito sensata que seja - deve tomar estas amizades com um grão de sal.

 Em última análise, vícios privados, públicas virtudes: se uma boa amiga tem, digamos, uma cabeça mais aberta, pode dar-se-lhe o desconto, ensinar pelo exemplo, mas o mínimo que se lhe pede é seja discreta e caso isso seja impossível, há que limitar educadamente o convívio.

Parafraseando Eça de Queiroz, "ao menos estão salvas as aparências!".


Sunday, April 27, 2014

Sabem o que seria genial, sabem?

Descobrir-se que o Eça tinha escrito uma data de apontamentos com todas as aventuras da Maria Monforte, nomeadamente o seu passado que no livro é só sugerido em pinceladas largas (já sei que faz parte do mistério da personagem, mas sonhar não paga imposto).

 Assim estilo romance paralelo ou self fan fiction. Se Tolkien o fez, Eça também o pode ter feito (a "Tragédia da Rua das Flores" é muito agradável, mas não conta) e ter perdido o caderno lá pela Terra Santa ou coisa assim.

 A estouvada beldade fatal  é uma das minhas personagens preferidas - tem tudo para uma pessoa antipatizar com ela mas também qualidades redentoras, como a generosidade e a abnegação, que a distinguem das mulheres do seu género. É uma tonta e uma sentimental, merecia chicote, mas eu gostava de ver mais das suas toilettes e namoricos, de saber de onde saíra "assim, tão loira e bela? quem fora a mamã?" e também não se me dava de saber mais detalhes sobre o Tancredo, o belo Príncipe italiano exilado e condenado à morte que lançou a desgraça na Casa dos Maias.

 Gostava mesmo que isso acontecesse mas tinha de ser uma coisa autêntica, porque palavra de honra, havia de se fazer auto de fé com as "sequelas" que alguns autores portugueses se lembraram de rascunhar. Respeitinho pelas coisas sagradas é muito lindo.

Saturday, January 4, 2014

Maravilhoso, fantástico, esplêndido.

                                           

"Quando havia passeios projectados, se chovia de repente, que felicidade! O aspecto das senhoras vestidas e de chapéu, olhando por dentro da vidraça com um tédio infeliz, deliciava-a, fazia-a loquaz:
- Ai, minha senhora! É um temporal desfeito! É a cântaros; está para todo o dia! Olha o ferro!"

                     A criada Juliana em "O Primo Basílio", Eça de Queiroz


Olha o ferro, realmente. Se há coisa que me arrelia é haver planos feitos há mais de um mês para os meus escassos dias livres e ter de os cancelar - ou adiar, o que vai dar detestavelmente ao mesmo - por causa desta chuva que Deus a dá. É que enquanto eu estive atafulhada de tarefas e sem poder dar um passo para lado nenhum, o sol brilhou da forma mais tentadora, a fazer pouco de mim. E com a tempestade que caiu esta madrugada, há que dar graças por estar tudo no lugar (é que tenho uma clarabóia perto do quarto que faz um som encantador quando a chuva é mansa, mas quando a tempestade é das grandes parece o fim do mundo). Fico chateada, com certeza que fico chateada. Não é que eu não lide com as contrariedades, que remédio, mas não me apetecia. Deve ser praga de alguma Juliana, com certeza. Que ferro!

Thursday, July 25, 2013

Da forma como uma mulher caminha (Ó Eça, venha cá ver isto!)

Audrey Hepburn e Grace Kelly

"(...)Nada mais significativo que o seu modo de andar; veja-se o andar de uma inglesa, firme, direito, acentuado,  sereno, prático; sente-se a saúde, a personalidade bem afirmada, a coragem, os instintos positivos. Veja-se o andar de uma menina portuguesa, arrastado, incerto, balançado, hesitante, mórbido: 
sente-se a indecisão, a fraqueza e a incoerência."

Eça de Queiroz (sobre as meninas de Lisboa) in Farpas

Se Eça viesse ver as portuguesas a caminhar em 2013, ficaria surpreendido...ou não. A postura correcta e o andar elegante foram dois tópicos que fizeram por me obrigar a absorver desde muito nova (e ainda bem, porque se numas coisas sempre fui muito feminina noutras era uma verdadeira maria rapaz). Livros em cima da cabeça, disciplina militar e uma professora de ballet que impunha respeito ao mais afoito ajudaram a moderar essa má tendência -  afinal, só há uma coisa mais feia do que uma rapariga que se mexe como um torpedo, ou que anda por aí a corcovar: é o terrível hábito de abanar as ancas. Mas já lá vamos. 
    Hoje, poucas coisas são tão importantes para mim, ao apreciar (porque nós, mulheres, temos a tendência inata de nos avaliar umas às outras com mais ou menos simpatia) a beleza e a classe de uma mulher como o seu porte e a forma como se move. E talvez essa postura perfeita me chame tanto a atenção por não ser, infelizmente, a norma, tanto nas mulheres na casa dos 20/30, como nas adolescentes. 
   Creio que o andar incoerente e preguiçoso que tanto irritava Eça foi substituído, no nosso tempo, por por três fenómenos:

- As meninas que caminham como rapazes, mercê do hábito dos ténis;

 As meninas que caminham como rapazes, mercê do hábito dos ténis, mas que decidiram, de repente, usar saltos vertiginosos ou pior ainda, tacões "confortáveis" que permitem, passe a expressão, galopar sobre andas;

- As meninas que usam saltos assassinos mesmo durante durante o dia - lamentavelmente acompanhados dos trapos inenarráveis (hotpants, leggings e por aí fora) - que tenho massacrado muito por aqui. Meninas essas que balançam as ancas e o derrièrre quando andam, numa tentativa pateta de chamar a atenção. Isto mercê das Rihannas, das Beyonces e Shakiras, dos brasileirismos pouco recomendáveis, das kizombadas, latinadas e de outros terrores que se banalizaram. Se no tempo das nossas avós o ideal de beleza era Grace Kelly ou Elizabeth Taylor, hoje os exemplos são outros...
   Diz-se curto e brutalmente lá para as terras dos meus avoengos, Cuannu ‘a fimmina camina e u’ culu ci abballa, si nun è buttana, falla” ...ou seja, "uma mulher que balança o traseiro quando anda, se não é uma prostituta, anda lá perto".  Exagerado, próprio das perspectivas algo machistas de outros tempos, mas com um fundo verdadeiro: a genética feminina, ajudada por um bom par de sapatos, já nos dá todo o requebro necessário; é escusado e ridículo tremelicar por aí, dando uma imagem pouco abonatória a quem passa. 

Dito isto, parece-me que o grande autor se queixava não sabendo que vinha por aí muito pior: o espartilho podia esborrachar a figura grega que ele tanto admirava, sufocar a vivacidade e tornar as mulheres murchas, mas ao menos mantinha as costas direitas e tudo no lugar. Quanto aos saiotes, caudas e criolinas, já nem falo: muito gostaria eu de ler Eça a pronunciar-se sobre os mini calções!







Monday, July 22, 2013

Eu embirro com...Conselheiros Acácios.




É a segunda vez numa semana que o Conselheiro Acácio, esse chato de marca maior do imaginário Queirosiano, é mencionado por aqui. Tenho-me lembrado dele por estes dias, porque para mal dos meus pecados há muitos: gente pouco brilhante, de um convencionalismo tal que só dá nas vistas pela maçada que provoca,  que faz da mediocridade apanágio, que dá mais valor à forma do que ao conteúdo, que adora "meter palha", ouvir-se a si próprio, fazer perder tempo aos outros, que fala, fala, fala (ou escreve, escreve, escreve) sem dizer nadinha que se aproveite e que mete colherada em tudo quanto seja "assunto de interesse público" para não acrescentar uma vírgula que interesse. Alguém disse que Deus deve gostar de medíocres, porque fez imensos - e como os medíocres são uns asnos, uns burros vestidos cujo único talento é dar graxa, acabam sempre por prosperar, se forem espertos e não questionarem o status quo. Claro que um Acácio raramente questiona alguma coisa: faz monte, faz coro, sempre com palavras "bonitas", caras e incompreensíveis, para parecer que o discurso tem alguma qualidade, que é erudito. Não fala, papagueia. Na escola era aquele colega irritante que decorava tudo e dizia a tudo que sim, para agradar, mas que era incapaz de criar fosse o que fosse pela própria cabeça.
 Podia descrever aqui os vários tipos de Acácio que conheço (o acácio político, o acácio doutor, o acácio alpinista, o acácio inócuo, o acácio chico esperto, o acácio malvado e por aí vai) mas essa não é a minha intenção. O acácio, qualquer acácio, é sempre um pseudo: pseudo intelectual, pseudo escritor, pseudo de esquerda, pseudo monárquico, pseudo bem, pseudo rebelde, sempre de acordo com o que lhe dá jeito.  E é muitíssimo dado a salamaleques, coisa que abomino. Talvez soe estranho, já que insisto tanto na tecla das "boas maneiras" e dos valores tradicionais, mas haja tino: uma coisa é a  necessária formalidade que determinadas ocasiões/ambientes/pessoas/circunstâncias exigem; a educação, o respeito que é devido. Outra é a babujice, a pretensão, a vénia, que se manifesta tanto na bajulação que soa a falso, como na moda de escrever textos  supostamente profundos, poluídos por vocabulário bacoco e peneirento. Na China Antiga, media-se a qualidade de um mestre-escola ou escrivão pela capacidade de camuflar ao máximo um texto com metáforas, alegorias, figuras de estilo e lugares comuns, de modo a tornar o conteúdo incompreensível. Também havia vénias para todas as circunstâncias e quanto mais educada uma pessoa era, mais depressa se caracterizava como "humilde" ou "indigna". Era uma forma de mostrar respeito - outra cultura, outro tempo, outro paradigma. Mas nos tempos que correm, dispensa-se tanta "chinesice". Gosto tanto de gente que fala claro, escreve claro e está à vontade em toda a parte, sem servilismo nem atrevimento, que quando vejo alguém assim lhe voto logo a minha simpatia. Uma coisa é ser old fashioned, outra muito diferente é ter mofo e cheirar a naftalina. 


Wednesday, June 19, 2013

Momento Primo Basílio

                                         

 - Basílio de Brito (para quem está esquecido, nesta parte da história ansioso por se livrar da Luizinha): que sugeres que eu faça?

- Visconde Reinaldo: as malas, menino!

E é um óptimo conselho para mim, que já as devia ter feitas e não há sinal de evolução. Para o Visconde Reinaldo falar era fácil: berrava pelo William, e o William fazia tudo. Vão dizer isso a uma dandy de saias do século XXI, salvo seja,  sem ao menos uma Juliana que lhe acuda. Até essa, a pior técnica de superfícies de todos os tempos, me dava jeito agora. Podia roubar-me as cartas à vontade, que eu sou uma pessoa sem segredos e que não cede a chantagens baratas, desde que me deixasse tudo engomado e esmaltado como ela fazia. 

Friday, May 24, 2013

Escolher os inimigos, como se fosse possível


"Um homem deve dar toda importância à escolha 

dos seus

 inimigos: eu não tenho um só que não seja idiota".

            Oscar Wilde

     Esta manhã demos pancada na gente feia que cita o magnífico tio Oscar a esmo, e por causa disso ocorreu-me outra frase sua que tem muito de verdade. Ou teria, se  as  antipatias fossem questão de escolha. Não são: ou porque a citação só se aplica aos homens e as mulheres são aselhas nestas coisas (não me atirem pedras, estou só a pôr essa hipótese) ou a pessoas desbocadas que fazem inimizades por desporto mas que sabem o que é bom para elas, logo escolhem cuidadosamente quem é seguro provocar. Cá eu...nunca provoco ninguém ou antes, muito dificilmente abro hostilidades (embora seja óptima a fechá-las, como já disse). Sou essencialmente dada à paz, embora desconfie bem que seja dona de um dos blogs mais embirrentos que para aí andam, por mais serena e menos explosiva que seja a linguagem aqui utilizada. Palavrinha, cross my heart: sou mesmo dada à paz. O tipo de pessoa sossegada, metida no seu canto, que não faz mal a uma mosca até a mosca se meter comigo. Não me intrometo nos assuntos de pessoa alguma, não cobiço o alheio, detesto a mania de ser competitiva porque sim, não complico, trato toda a gente com respeito e a menos que tenha sido gravemente ofendida não me ouvirão dirigir-me a ninguém em termos desagradáveis. Seria de esperar que me deixassem tranquila, mas vivemos num mundo que é uma selva e há sempre gentinha difícil que quer o lugar/sucesso/qualidades/companhias dos outros, pelo que de antagonistas ninguém está livre. Isso eu percebo: lá dizia Eça de Queirós que todos precisamos dos inimigos necessários para confirmar uma superioridade.

 O que me escapa, o que não entendo mesmo, é o tipo de adversários que me calha, principalmente no que diz respeito às mulheres. Que nunca conheci um que não fosse idiota, é certo - nisso sou, involuntariamente, fiel a Wilde - mas idiota no sentido mau e irritante do termo.

Regra geral, dou-me lindamente com as pessoas do meu sexo: sou uma boa camarada, das que levantam a auto estima às colegas e primam pela solidariedade feminina. Já se sabe que há algumas fêmeas que nos envergonham a todas e quanto a essas, nada feito. Ainda assim, essa parte eu compreendo. O que não me entra é porque é que, sendo eu uma pessoa que selecciona os ambientes e as companhias, raramente me aparecem antagonistas de qualidade. Do tipo que eu possa respeitar e até admirar, quase frenemies, e detestar com sentimentos nobres, do estilo "noutras circunstâncias podíamos ter sido amigas". Do tipo de adversárias que ficam bem no cartaz, que são giras e articuladas, que vestem bem. É que no quesito inimigos, e inimigas mais ainda, nunca me aparece uma alma que se lhe diga benza-te Deus! ou que seja uma honra desfeitear de volta. Qual quê! São sempre os camafeus, os trambolhos, as pindéricas e os saloios que vêm embater na minha realidade ou atravessar-se no meu caminho, seja sob a forma de mulheres da luta ou de gente francamente reles, a quem não abriria a porta nem para mandar engraxar o calçado. Até envergonha uma mulher de bem, que não se mete nessas misturas. Palavra de honra: de cabeçudos carnavelescos a travestis tresloucados, de autênticas múmias desesperadas a pipas com pernas movidas a Duracell, parece que os circos de aberrações não gostam mesmo de mim. Pior ainda, quase todos têm olhos de tubarão, ou seja, um olhar burrinho, inexpressivo, de quem tem ar e vento na cabeça (o que condiz com os disparates que lhes saem pela boca fora, ou pelos facebooks da vida fora...) e sinceramente, acho isso sinistro.
   Que se tenha de lidar com gente que se detesta, é um facto da vida; que além disso seja incomodada por pessoas que desprezo, já é mau demais.
 Resta-me um consolo: já que não posso ser selectiva nos desafectos, ao menos 
agarro-me ao facto de só vilões que nada devem à harmonia estética ou ao gosto se atreverem a chatear-me a molécula. Com os outros está tudo bem, ou lida-se com civilidade.

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