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Wednesday, October 10, 2018

Casamento: a nobre arte do "cá nos havemos de arranjar"


Cindy Crawford e Rande Gerber

 Há tempos reparei em duas frases sobre a vida de casal que me deixaram a pensar. A primeira, do filme "Cavalo de Guerra" traduz algo que decerto passa pela cabeça de muita esposa por este mundo fora (principalmente daquelas que têm a seu lado homens bons mas impulsivos, que às vezes fazem disparates). 



Quando o desastrado marido da personagem de Emily Watson lhe pergunta se ao fim de tantos anos de casados ela não está já fartinha dele, a resposta dela é sublime:
"Posso detestar-te mais, mas nunca hei-de amar-te menos".
 

Ela sabe o homem corajoso e esforçado que ele é - apesar de ter voltado da guerra traumatizado e com uma perna doente, o que o leva a refugiar-se na bebida e a tomar decisões menos benéficas para a família. Conheceu o esplêndido rapaz que ele era antes disso, por quem ela se apaixonou e com quem escolheu casar mesmo quando ele regressou danificado e uma sombra de si próprio. E como é uma mulher forte e sensata, escolhe fixar-se nisso (nesse lado que ela conhece, nesse amor e nas qualidades que ele conserva) em vez de se concentrar nas dificuldades que têm passado juntos.
 Nem sempre se gosta, todos os dias, das pessoas que se ama. Amar-nos uns aos outros mesmo quando não estamos lá muito amáveis (ou estamos mesmo em modo detestável) é parte essencial do tecido de uma família.


A segunda lição veio nada mais nada menos que dos Simpsons- que a brincar, a brincar, nos vão dando dicas para um casamento sólido há mais de vinte anos!

Num daqueles  episódios em que há um flashback para os tempos de namoro da Marge e do Homer, ele fez uma daquelas asneiras monumentais em que é useiro e vezeiro. E apesar de a peripécia ser grave, capaz de deixar qualquer noiva em parafuso e de pé atrás, a boa da Marge decide ir para a frente com o casório, dizendo-lhe:

"Temos uma vida inteira pela frente
 para corrigir esses problemas".


Ora aí está uma grande verdade: bem diz o povo "quem pensa não casa". Eu acrescentaria que não casa quem pensa demasiado. A minha avozinha também repetia sempre "o casamento é uma carta fechada" e "amanhã Deus dará".



 Certamente há defeitos de carácter tais, ou relacionamentos tão tóxicos e incompatíveis, que dificilmente têm remédio por mais que as pessoas até pareçam gostar uma da outra: é o caso da violência, da infidelidade e de outras questões graves. Em situações dessas, mais vale recuar e procurar a  felicidade noutro sítio, especialmente quando só uma das pessoas parece esforçar-se para levar a relação a bom porto. E nem falemos dos casos em que só uma parte está interessada (ou continua a investir porque afinal já desperdiçou não sei quantos anos e mais vale *tentar* casar com o diabo que se conhece do que com o que não se conhece) e a outra vai deixando andar à falta de melhor. Se é assim, direita, volver! Abortar missão e para a frente que atrás vem gente!


Porém, quando não é assim; quando um casal realmente se adora, quando tem aquela cumplicidade e compatibilidade que é difícil de encontrar e se as coisas funcionam APESAR DESSA QUESTÃO INCÓMODA, então trata-se apenas de limar arestas, ao estilo "a mulher educa o marido e vice versa". E isso não se consegue de um dia para o outro... portanto é melhor armar-se de paciência, não encher o sótão de macaquinhos, arranjar um saco cheio de confiança mútua e dar um grande salto de fé, repetindo os mantras "cá nos havemos de arranjar" e "a seu tempo lidamos com isso".



Entrar num casamento conhecendo a jóia que se tem ao lado e os polimentos de que ela necessita é, a meu ver, uma atitude mais madura e bem preparada do que caminhar para o altar aos pulinhos, no impulso da ilusão, apenas para levar um grande balde de água fria pouco depois e desistir à primeira (e inevitável) tempestade. Afinal, não há relação perfeita, por muito maravilhoso que um casal seja e por mais apaixonado que se mantenha.  Porém, a boa notícia é que se vai ter de lidar com a pessoa todos os dias e enfrentar montes de desafios grandes e pequenos, o que fará com que as questões mesquinhas se vão diluindo. Uma vida inteira é muito tempo, e o tempo- mais os afazeres do dia a dia- é um santo remédio.

Alguém muito sábio disse que o amor não é só um sentimento: é uma escolha diária. Mas também é feito de muita paciência e esperança para um permanente "logo se vê".

Tuesday, June 12, 2018

Príncipe Carlos: a nobre arte de...ter compostura à prova de bala. Literalmente.




Por aqui já falei, incontáveis vezes, na importância da nonchalance, de ser blasé, de manifestar uma certa fleuma (ou indiferença elegante e discrição) seja face aos desaires da vida seja perante as grandes alegrias. de não se deixar impressionar por nada (ou pelo menos, de não o demonstrar).

 Bati tantas vezes nessa tecla que agora é difícil seleccionar um ou dois links para posts em que reflicto, em mais detalhe, sobre a necessidade de ter uma cara de paisagem  (também conhecida como "cara número três" ou, mais recentemente e numa versão mais malcriada, "resting bitch face" sempre à mão para nos livrar de embaraços. E se fica difícil controlar os nervos, o medo, o espanto, a raiva ou o entusiasmo, invoque-se prontamente a intercessão de São Clint Eastwood, padroeiro de quem se está marimbando:





Como diz o meu estimado autor Anton Moonen, pessoas mundanas nunca se permitem afectar por coisa alguma, boa ou má; jamais deixam transparecer tristeza, deslumbramento, mágoa, fúria, carência, ou - Deus nos defenda- necessidade de atenção ou pior ainda, de aprovação. 

Mais: pessoas que têm "mundo" e que estão realmente seguras do seu lugar nele, beberam serenidade no biberon junto com carradas de chá, por isso nunca se deixam surpreender por nada (ou se deixarem, agem com um "só nos faltava esta, hein?" , com um "senhores, já basta, que isto é ridículo" com um "we are not amused" (estribilho que a Rainha Victória nunca terá dito, mas pegou) ou como se nada tivesse acontecido, se possível.  James Bond, com todos os seus defeitos, é um exemplo impecável dessa fleuma britânica e indiferença Alfa cheia de domínio. Ok, acho que também se pode chamar por James Bond se a coisa estiver mesmo preta.



Se de todo cai mal a atitude de quem se está nas tintas - sei lá, perante um caso muito sério ou muito trágico- pessoas elegantes procuram reagir com grande, enorme, imensa contenção. Face ao cenário mais escabroso, o que há a fazer é revelar um certo enfado ou descaso e demonstrar-se, em suma, sempre no controlo das situações... ou pelo menos, das próprias emoções. Essa tranquilidade é apanágio dos grandes líderes e heróis, das verdadeiras estrelas, das cabeças coroadas, dos verdadeiros Cavalheiros, das Verdadeiras Senhoras e vá, dos homens e mulheres Alfa. Pessoas dessas nunca perdem a cabeça mesmo que eventualmente a percam (em sentido figurativo e literal).



Recordemos Carlos da Maia e João da Ega que, furibundos face às baixarias do Dâmaso e do Eusebiozinho falavam apenas, com parcimónia olímpica, em "rolá-lo aos pontapés Chiado acima e Chiado abaixo", "dar-lhe bengaladas" ou "arrancar-lhe as orelhas". Mestres.
E se quisermos deixar as metáforas de lado, lembremos personagens que perderam a cabeça mas nunca perderam a compostura, como Maria Antonieta ou a Marquesa de Távora. Só não vale inspirar-se em Victória Beckham, que essa até pode ter muito talento para criar roupamas no quesito "resting b** face" ainda tem muito que aprender até parecer natural.



Nervos de aço, sangue de barata, aterrar sempre de pé e aparentar calma de Buda em todas as situações (para não dar prazer à multidão que gosta de se rir das desgraças alheias nem vantagem ao oponente) foram pontos em que tanto a minha avozinha como o resto da família (que descendia sobretudo de militares, o que terá contribuído decerto para isso) sempre insistiram. Por isso tenho -como tantas outras pessoas mais "old school"- dificuldade em simpatizar com a atitude muito em voga, seja nas estrelas de Hollywood, entre políticos mais "modernaços" ou - o pior do piorio - mesmo entre certos elementos mais jovens de Casas Reais- de revelar fraquezas e dar que falar.



Temos assistido a lágrimas em público, gestos estouvados de agarrar criancinhas e dar beijinhos à multidão mais dignos de candidatos às autárquicas do que de Príncipes, caretas, carinhas e bocas, braços no ar, modos de prima donna, desacatos entre parentes para câmara ver, cenas de desrespeito para com os mais velhos, birras, gastos extravagantes próprios de estrelas de rap, you name it.
 Infelizmente, na era das redes sociais o  mundo não caminha para a discrição nem para o mistério que costumava ser a imagem de marca de certas instituições.

Porém, haja esperança, nem tudo está perdido: felizmente para todos nós, volta e meia ainda vai havendo exemplos recentes de fleuma inquebrável, perfeito à vontade em todas as situações, nervos de aço e (isso também dá jeito) reflexos rápidos - e almas iluminadas que se lembram de ir desenterrar exemplos não muito antigos, mas que aconteceram quando a internet ainda não andava para aí a captar tudo.

Como este momento de agilidade à cowboy de George W. Bush, que deixaria Billy the Kid - e Clint eastwood - a impar de orgulho:



Ou mais recentemente, o instante em que se enganaram no vencedor dos óscares e foi uma vergonhaça completa, com toda a gente a passar-se menos Ryan Gosling, que se manteve com um meio sorriso imperturbável, em modo "que é isto?".



No entanto, alguns utilizadores do tumblr foram há dias desenterrar o exemplo dos exemplos de frieza, a quintessência da fleuma britânica, o supra sumo da expressão igualmente britânica "cool as a cucumber"- estar tão fresco como um pepino: nada mais nada menos que Sua Alteza Real, o Príncipe Carlos. 




O Príncipe de Gales tem sido injustamente tratado graças à infelicidade no primeiro casamento, que o tornou impopular junto de boa parte do público. Porém, quem o sabe apreciar elogia-lhe tanto o sentido de estilo (veste impecavelmente, como já vimos) como o cavalheirismo (a sua delicadeza para com a mãe da noiva do filho mais novo, ali sozinha e caída de pára quedas naqueles assados, foi - a par com a cara de Zara Phillips e de Sua Majestade perante todo aquele espectáculo - o ponto positivo do casório do passado 10 de Junho) e o saber estar. Herdou o espírito do Senhor seu pai, o inimitável  Duque de Edimburgo de quem vamos falar em breve, e o estoicismo da mãe, a Rainha Isabel II, e por isso nunca se juntou aos circos que armaram à sua volta...uma forma de estar que a plateia às vezes confunde com frieza de coração.

Adiante: em 1994, quando o Príncipe visitava Sidney, alguém se lembrou de o tentar assassinar a tiro, não sei porquê. E a reacção do Príncipe foi esta: olhar com ar de caso, como quem nota um mosquito, e compor os botões de punho. Nem James Bond, senhores!!! Ou como alguém disse, zero f***ks given.







Quem é que manda aqui, c´os diabos?  Eis um homem capaz de limpar o chão com o oponente. Mas não é preciso ser príncipe, estrela de Hollywood, cowboy ou presidente dos E.U.A. para dar desprezo nítido e reagir com tranquilidade haja o que houver: é tudo uma questão de orgulho, de não querer fazer figura de urso. Podemos não controlar o que acontece à nossa volta, mas controlar a forma como se reage a isso está inteiramente na mão de cada um.


Monday, March 19, 2018

A nobre arte de... pedir referências antes de se apaixonar, como Cristina da Dinamarca

 Christie Brinkley e Peter Cook

Ontem deparei-me com uma estória rocambolesca de celebridades que me tinha passado ao lado. 

Parece que em 2008, a eterna supermodelo Christie Brinkley (considerada a rapariga ideal no início dos anos 1980 e que não se faz velha nem por nada apesar de já ir nos seus 60 e picos) teve um monumental desgosto com o seu último marido, o arquitecto e alpinista social Peter Cook, que acabou com um longo e escandaloso divórcio em praça pública. Aparentemente eram um casal lindo de morrer, apaixonado e com dois filhos amorosíssimos; mas às escondidas, Peter era um homem sórdido, vicioso sem remédio, com uma fixação por pornografia e por raparigas muito jovens

Peter Cook e a esposa que se seguiu, Suzanne

Quando Christie descobriu que o marido se tinha envolvido com a sua assistente de dezoito anos, tomou a atitude que cabe a qualquer mulher com dois dedos de dignidade e pôs-lhe as malinhas à porta. E o escroque, que não tinha mesmo escrúpulos, agiu como qualquer escroque que se preze: denegriu-a para quem quis ouvir, tentou ficar com a custódia dos filhos mesmo sabendo os lindos comportamentos em que andava metido e não contente com isso - apesar de os advogados que a ex lhe atirou às canelas conseguirem evitar o pior - ainda conseguiu arrancar um par de milhões da fortuna da modelo.




 Ela lá se deu por satisfeita ao livrar-se de tal encosto, em modo "pago para desinfestar a praga" e ele, ainda o divórcio não tinha saído, já estava nos braços da primeira ingénua que conseguiu enganar. Suzanne, uma morena relativamente nova nestas andanças de famosos, ficou tão deslumbrada com a boa figura e carisma de Peter que, sem ao menos olhar às acusações de que o namorado era alvo, sem considerar que se ele fosse assim tão bom não estaria naqueles assados, achou que lhe tinha saído ali a sorte grande. 

E vai de agarrar aquela bela peça com unhas e dentes, de entrar em modo mulher da luta, de se sentar ao lado dele no tribunal, de o apoiar cegamente, muito amiga, muito solícita como todas as desesperadas, a ver se ele a pedia em casamento.




Na sala de audiências, Christie avisou-a mesmo "quando ele a trair a si, eu estarei aqui para a apoiar" mas Suzanne, toda serigaita, ainda foi malcriada e
 gritou-lhe que arranjasse outra cantiga, que o argumento da traição já era velho. Tomou a advertência por coisas de ex ressabiada, mesmo perante provas graves.

O bendito divórcio lá ficou concluido, Christie foi contente e airosa à sua vida e Peter enfim, casou com Suzanne...não tardando a fazer a mesmíssima asneira ou ainda pior (afinal, a nova esposa nem tinha fortuna que ele receasse perder) chegando a envolver-se com mulheres de má vida dentro da própria casa e a filmar a proeza.


Suzanne, claro, ficou de rastos por sua vez, ganhou verguenza na cara e teve o brio de se divorciar, não sem antes pedir repetidas desculpas em público à ex que a tentara avisar- desculpas que Christie graciosamente aceitou... ou por ser mesmo boa pessoa, ou de satisfeita por ver provado que não exagerara uma vírgula.





Isto lembrou-me de outra história curiosa, esta da História inglesa: quando o Rei Henrique VIII perdeu a sua terceira esposa, Jane Seymour, que morreu de parto, ficou devastado. Das suas seis mulheres, ela foi a única a dar-lhe o filho varão que ele tanto desejava e que tinha diplomacia suficiente para lidar com ele. Achando que procurando sozinho não acertava uma, o Rei conformou-se com a ideia de um casamento arranjado e mandou o seu principal ministro, Thomas Cromwell, fazer de Cupido: ordenou-lhe que seleccionasse várias jovens elegíveis da nobreza europeia e enviasse uma embaixada com o pintor da corte, Holbein, para achar a candidata perfeita. 


Cromwell sugeriu a encantadora Cristina da Dinamarca, jovem viúva do Duque de Milão.

 Ora Cristina, que com apenas dezasseis anos tinha tanto de bonita como de esperta, não se deixou deslumbrar pela hipótese de se sentar no Trono inglês: toda a gente sabia que Henrique se tinha divorciado da primeira esposa, mandado decapitar a segunda e sabe Deus qual seria o destino da terceira se não tem morrido antes de o Rei se cansar dela. Não querendo fazer uma desfeita directa ao enviado real, Cristina pensou num subterfúgio: desculpou-se com o facto de estar de luto e posou para o retrato vestida com o balandrau menos atraente e mais largueirão que conseguiu arranjar. 



Não satisfeita em esconder as suas formas, completou a toilette enfiando um toucado nada favorecedor pela cabeça abaixo, sem deixar uma só madeixa de cabelo à vista. Mesmo assim, o truque falhou: o Rei adorou os primeiros esboços do retrato e Cristina teve mesmo de recusar a proposta, alegadamente brincando "eu casaria com o Rei de Inglaterra de bom grado...se tivesse duas cabeças!". E de facto não se enganou: o génio violento do seu pretendente não demoraria a fazer das suas: insatisfeito com a noiva que Cromwell lhe desencantara entretanto, Anna de Cleves, divorciou-se dela e mandou o infeliz ministro-alcoviteiro para o cadafalso.

Se Cristina tem cedido à vaidade e à lisonja e ignorado a má reputação de Henrique, pensando "comigo não vai ser assim"...sabe-se lá o que teria sido dela.



Estas duas historietas, uma recente e outra antiga, provam dois factos úteis: primeiro, é certo que o passado de um cavalheiro, embora deva ser tomado em consideração, nem sempre é determinante per se para avaliar se ele dará um bom marido; os homens tendem a comportar-se de modos muito distintos com mulheres diferentes, a distinguir diversão de amor e a atravessar fases estouvadas da vida que arquivam sem olhar para trás (o comportamento feminino, dizem, tem mais tendência a andar em círculos, enquanto o do homem vai a direito e separa mais as águas).

Há mesmo alguns que são capazes de descartarem uma correnteza de mulheres como se fossem lenços de papel, indiferentes aos sentimentos de todas, insensíveis a lágrimas e a fúrias de fêmea rejeitada, nunca se comprometendo verdadeiramente... apenas para logo a seguir se fixarem numa só com paixão avassaladora e casarem, reformando-se por completo, sendo capazes de morrer ou matar por aquela mulher como se não houvesse mais mulheres ao cimo da Terra. 

Em última análise, os ex são como os tarecos na Feira da ladra: o lixo de umas pode ser o tesouro das outras. Certas pessoas são simplesmente incompatíveis entre si, logo o que está para trás pode não ter peso no futuro.




No entanto, face a rumores alarmantes e a alegações de comportamentos mais... fora do vulgar, é preciso averiguar e, caso seja verdade, ver se esse passado é muito recente mas principalmente, se envolve um historial de traição, vigarice ou violência.

Isto porque se as rapaziadas de solteiro, por muito que sejam terríveis, podem ter remédio, a infidelidade  assenta num princípio de total desrespeito: pela outra parte que alegadamente se ama, pelos seus votos, pela palavra dada. Um D. Juan, solteirão convicto, até pode redimir-se quando encontra o que sempre lhe faltou; mas um traidor é  sempre um traidor, especialmente se tem fama de ser um infiel compulsivo. Pode ter a seu lado a mulher mais perfeita, mais linda, mais atenciosa em todos os aspectos e não lhe faltar nada, que mesmo assim saltará à primeira oportunidade de juntar mais um cromo à sua colecção. O mesmo vale para tendências violentas ou sociopatas.





Segundo, apesar de palavras de ex namorada ou ex mulher (e quem diz palavras, diz aquilo que se sabe de fonte limpa da relação anterior) deverem sempre ser tomadas com desconfiança porque em geral a verdade vem tingida pelo ressentimento ou pelos ciúmes, não é de desprezar o provérbio urbano: "quando um homem diz que a ex é doida, sem assumir qualquer parte de culpa, quase sempre foi ele que deu com ela em doida".

Perante esse género de "avisos" há que considerar duas coisas: a índole da ex e a natureza das acusações dela. 



Se a ex em causa é uma mulher de conduta, meio e ar duvidosos; se a relação entre os dois foi tratada com pouca seriedade desde o início e se ela acusa o ex de bruto e de estúpido, ou de outras coisas triviais, não vale a pena fazer caso. Especialmente se foi ela a rejeitada ou se ficou com alguma pedra no sapato...  Pode realmente dar-se o caso de o rapaz não ser o mais meigo e atencioso dos homens, mas o mais certo é simplesmente ele não ter sido, por motivos óbvios, carinhoso com ela.




Porém, se uma ex que corresponda ao perfil acima descrito acusa o antigo companheiro de infidelidade ou de violência, convém verificar pelo sim, pelo não, fazendo um background check junto de amigos comuns que sejam imparciais, avaliando a pegada digital do moço, etc. Quase sempre essas estórias se sabem- a má reputação corre rápido. O mais certo é ser o ressabiamento feminino a falar e não haver causa para preocupação, especialmente se a criatura tem fama de ser  descontrolada dos nervos, paranóica, mentirosa ou dada ao melodrama; mulheres mal comportadas adoram fazer-se de vítimas. Mas nunca é de ficar descansada, pensando "eu sou tão superior a ela que comigo ele nunca agiria assim". Mais vale prevenir do que ver-se obrigada a ter de dar razão a uma maluca.




Agora, se uma ex respeitável, bem ajustada, sem nada que se lhe aponte e que até tem uma data de pretendentes (ou que já refez a sua vida e anda toda contente) vem avisar de coisas preocupantes, ou fez saber factos graves na altura em que  a separação aconteceu e isso entretanto lhe chegou aos da nova candidata, convém não descartar a hipótese de ela ter razão; uma parte dela até pode tirar certa satisfação em castigar o ex-que-veio-do-inferno (quem nunca?) e a solidariedade feminina ser só parcial, mas frequentemente, onde há fumo há fogo. 

Convém não esquecer que há maus rapazes que têm redenção, mas apenas quando agem por imaturidade ou ainda não encontraram a mulher certa. Esses são felizes excepções. 

Quando a ruindade é de raiz, e é-o amiúde, o único remédio é ler os sinais - venham de onde vierem - e se batem certo, fugir a tempo.

 Afinal, nem é tão estranho como isso dar algum crédito às "referências" do cavalheiro: a maioria das mulheres já teve um ex a quem gostaria de ter carimbado na testa um aviso "senhoras, cuidado que este é artista" para governo das ingénuas que se sigam... 

Friday, December 8, 2017

Dica para bem viver: a táctica da "Música no Coração"



Há uns anos passei um período mais conturbado e (eu que costumo levar tudo com bom humor e nunca gosto de dar parte de fraca) sentia, verdadeiramente, os meus nervos esfrangalhados e os meus pobres neurónios à beira do chilique. Enfim, coisas que sucedem quando damos atenção a pessoas/situações malucas. 

Na altura tive de arranjar remédio... e isso incluiu inventar uns mecanismos de defesa, ou estratégias mentais, para lidar com aqueles momentos de ansiedade. Um deles pode parecer óbvio (e bastante tonto)  mas ajudou-me tanto que ainda hoje emprego essa técnica quando me sinto nervosa, negativa, receosa ou coisa que o valha.

Era assim: sempre que os meus pensamentos iam numa direcção desagradável, que qualquer memória involuntária me assaltava e me deixava maldisposta, eu tentava concentrar-me imediatamente numa das minhas coisas favoritas- tal e qual como a Maria do filme "Sound of Music".




O conteúdo da mentalização não era muito importante per se, desde que me ocorresse instantaneamente e fosse algo de concreto: uma imagem tão fofinha, divertida ou entusiasmante que conseguisse inverter automaticamente as vibrações negativas em crescendo. Podia ser uma recordação (geralmente, alguma daquelas peripécias de infância que nos fazem rir, mesmo sem querer, quando as contamos) algo do dia a dia (as gracinhas dos meus gatos, por exemplo) ou um objectivo (uns sapatos de designer que tencionava comprar, um vestido bonito que tinha de ir buscar à costureira, qualquer coisa).




Posso dizer que isto me salvou de me afogar em sentimentos deprimentes. Por isso, ganhei o hábito de ter alguns álbuns no Pinterest (e no meu telefone) cheios de imagens que me fazem feliz: seja de gatinhos, bebés giros,  corujinhas fofas, raposinhas com caudas felpudas e poneizinhos, seja de penteados e maquilhagens que tenciono experimentar ou de carteiras Chanel, vestidos Dolce & Gabbana ou viagens que estão na minha lista. 





Quando não tenho nada que fazer (ou se sinto que tenho algumas tarefas stressantes pela frente e que estou a entrar em modo "atrofiadinha" e "cara de tacho") detenho-me por uns momentos a olhar para essas figuras, só porque sim, e sinto o meu espírito a levantar-se de imediato, interrompendo o ciclo de aflição e desligando o complicómetro.

É como fazer um reset aos pensamentos, tendo uma tela neutra para nos organizarmos melhor.

Se andam à beira do colapso, experimentem, que funciona. Afinal, a Maria é que sabia.

Thursday, September 14, 2017

Taylor Swift: e a nobre arte do Shake it off, era só conversa?




Taylor Swift ( que até respeito mais que qualquer outra "estrelinha" do momento, por ser uma rapariga de classe apesar de muito namoradeira e por ter umas canções aceitáveis) lançou, com estrondo, o seu novo single, Look What you made me do:



E- tal como o público esperava- a cantilena e o respectivo videoclip  são um ode a todas as celebridades com quem a cantora tem tido "guerrinhas" ultimamente e à forma como é retratada pelos média ( uma víbora manipuladora que passa por santa mas que se vinga destruindo os ex namorados nas suas músicas e uma "mean girl" control freak, sedenta de poder, com um esquadrão de amigas bonitas e fúteis).


Este número de Swift (zangar-se com alguém e alfinetar a criatura no próximo hit que lança) começa a ganhar mofo. E a perder o sentido à medida que ela vai ficando mais velha.




Ao ouvir a canção, recordei-me de uma situação que se passou comigo.


Há uns anos (quando eu ainda levava certas coisas e certas personagens demasiado a sério) tive sérias razões para ganhar aversão figadal a uma pessoa.

Digamos que a criatura (Deus lhe valha, era tão desinfeliz que merecia mais pena que outra coisa...) teve o atrevimento não só de tentar pregar-me uma partida, a mim que estava contentinha da vida e quieta no meu canto sem fazer mal a uma mosca (e nem andava a fazer assim muita troça das pessoas nem nada, juro). 

E ainda por cima, uma partida que representava tudo aquilo que mais desprezo neste mundo!

Agora olho para trás e vejo que era caso para um par de calduços e rir do assunto; mas na altura doeu e pior, o incómodo não desaparecia. A raiva é como o amor: consome, gasta energia, uma pessoa deita-se e acorda a pensar nisso.



Fiquei muito magoada, pois quem não se sente não é filho de boa gente... e não me orgulho de dizer que congeminei umas quantas artimanhas para expor a pessoa ao devido ridículo (esperem lá- orgulho pois. Soube-me bem e foi mais que merecido!).

É que eu tenho uma paciência de chinês, um saco de "dar o desconto" aos outros extremamente elástico e é muito raro zangar-me ou perder as estribeiras. Prezo o auto domínio acima de quase tudo e acho muito feio ser mesquinho. Dou a outra face, que é como quem diz "deito ao desprezo".

 Dizem-me muito que não percebem como tive calma nesta ou naquela situação, que não sabem onde vou buscar o sangue frio e que tenho uma pachorra de Job e tolerância ao intolerável. Mas quando finalmente me zango, quando o saco rebenta (ou até é a primeira vez que pisam o risco mas calha tocarem-me cá nos meus dogmas ou valores de base) o caldo pode entornar-se e aí já não vejo a direito.



Em resumo, eu já tinha desabafado e retaliado, já a estória arrefecera, a poeira baixara e em boa verdade tinha deixado de ser caso para tanto... mas eu continuava a deitar fumo. Insistir na fúria estava a fazer-me mais mal a mim do que à alminha que iniciara a confusão para começo de conversa.

Até que uma grande amiga minha, farta de me aturar e de não reconhecer a minha pessoa naqueles preparos, me disse:

"Por amor de Deus, Sissi!!!! Tente ser mais magnânima! Isto está a tornar-se ridículo!" (ela é inglesa por isso usou o termo "gracious", que acho muito apropriado mas complicado de traduzir).



Foi como uma baldada de água fria bem necessária. É bom termos amigos que nos dêem um puxão de orelhas de vez em quando. Eu que tanto defendo manter a classe acima de tudo estava a ser rancorosa, e pior - a deixar que aquilo me amargurasse. 




Parou ali a brincadeira e passei a não levar as pessoas e os episódios tão a peito.

 A ter uma visão mais "Católica" do assunto, se quiserem.. embora alguns grandes santos se ofendessem e não deixassem créditos por mãos alheias. Por outro lado, os Santos enfureciam-se quando a glória de Deus estava em causa, e não a sua pessoa. Por outro ainda, isto transcende a religião: é algo comum a qualquer filosofia de auto domínio, bem viver e civilidade.

Ofender-se com justiça é legítimo, mas tomarmos como crime de lesa-Majestade qualquer agravo que nos façam é indigno não só de um um cristão, mas de qualquer pessoa de bem. É muita presunção. É acharmo-nos acima de toda e qualquer contrariedade.



 Acima de tudo, é deselegância. E eu não queria resvalar para a deselegância, até porque assim a pessoa malvada ficava mesmo a ganhar.

Por vezes - já o tenho dito - a nossa vitória é maior se aplicarmos às coisas e às pessoas um valente "deixa para lá" ou um "as acções ficam com quem as pratica".

 Ricardo Coração de Leão morreu ferido por uma flecha disparada por engano, perdoou o seu homicida e ainda mandou dar-lhe dinheiro. Soube ser Rei e deu desconto à situação do moço: não  havia glória em esborrachar uma pessoa insignificante por danos que já não se podiam reparar (a sua mãe, Leonor da Aquitânia, é que não esteve pelos ajustes e mandou executar o rapaz da maneira mais horrível, dizem). Quem não vive para as ninharias deste mundo não se pode consumir por causa delas. É isso que distingue as pessoas verdadeiramente inspiradoras!

Mas deixemos Ricardo Coração de Leão e voltemos a Taylor Swift Coração de Cheerleader.




 O grande mote para mais esta "cantiga de maldizer em versão pop" é, claro, ter sido apanhada a mentir (por nada mais nada menos que Kim Kardashian)  quanto a concordar ser mencionada de forma pouco lisonjeira por Kanye West na canção e no controverso videoclip de "Famous". Para muita gente caiu a máscara de rapariga amorosa e alguns amigos e fãs de Taylor alinharam com o "inimigo".



É claro que o escândalo vende e Taylor Swift sabe vender como ninguém. 

É possível que Miss Swift se sinta lesada, que até tenham em certa medida sido injustos com ela e que, para uma rapariga que tenta apresentar-se com certa elegância, seja o fim do mundo ser exposta como mentirosa  por uma figura de moral questionável como Kim Kardashian (por muito relevante que Mrs. Kardashian-West se tenha tornado,  por mais que muita gente jure que ela é boa pessoa e ainda que eu tenha que reconhecer que não lhe falta uma certa compostura na forma como se defende quando é atacada por outras caras conhecidas).



Mas não foi Swift que popularizou o mantra (muito útil, aliás) Shake it off? Não era ela que cantava que haters gonna hate e que os cães ladram mas a Taylor Swift passa com o seu esquadrão de amiguinhas e fantasmas de ex namorados e tudo como dantes no quartel de Abrantes?

Apesar de Taylor Swift ter tantas amigas, faltou-lhe uma amiga verdadeira, franca e sensata como a minha!

E depois, o erro foi dela mesma,  que andou a falar com pessoas com quem tinha razões para não simpatizar (acredite-se ou não que a birra de Kanye nos Grammies foi encenada para tornar Taylor mais famosa) e a associar-se a figuras com quem preferia que não a associassem. Há que aceitar a responsabilidade, rir do assunto e ...shake it off.



Tinha-lhe ficado melhor manter-se nessa onda, eu acho. Uma mulher chega a uma altura na vida em que tem de aprender a tal máxima de deixar as acções com quem as pratica, a dar um deixa para lá, um "Deus te ajude, coitadinho que não sabes o que fazes", a não devolver o carvão que os outros atiram para não ficar toda enfarruscada- a não deixar, enfim, que a raiva a consuma e a procurar a melhor vingança: viver lindamente e arreliar os antagonistas com a sua felicidade. Não há tortura pior.

A cantiga Look what you made me do é muito contagiante, admito - mas acho Shake it Off um lema bem melhor para viver bem.





Wednesday, April 20, 2016

Para seu bem...arrelie-se a si mesma (o)!



Há dias conversava com uma amiga sobre a motivação para fazer exercício. E ela, sabendo a minha aversão a partilhar com estranhos o espaço, o esforço, as caretas e outras intimidades associadas ao fitness, dizia-me "não sei como te motivas sozinha!". To each their own: há quem prefira a música alta, o acto de sair de casa para isso, o estímulo alheio e a companhia...e quem escolha a paz, o sossego, o ginásio doméstico e ginasticar às horas/nos preparos que bem lhe apetece. Cada um encontrará a melhor forma de se disciplinar, desde que não arranje desculpas. Mas de uma ou de outra forma, não há personal trainer, por mais experimentado e capaz, que substitua duas nobres artes: a arte do "grão a grão" e a arte de se arreliar a si mesma (o). 

Duas artes, aliás, que se aplicam não só à forma física, mas a todas as áreas da vida. 

Edgar Allan Poe disse que há por aí imensos génios, mas poucos se dão ao trabalho de se estimularem ao seu máximo potencial. E parte desse ficar aquém vem da mania da perfeição, das condições perfeitas ou - no caso do exercício físico- de querer o treino perfeito. Sabem, as pessoas que adiam, adiam, porque se não treinarem duas horas por dia não é um treino bem feito. E nessa espera vai-se a preguiça instalando, os músculos amolecendo, as gordurinhas crescendo...

Mas vejamos isto noutro sector: santos como Santa Teresinha e S.José Maria Escrivá falaram tanto na "preguiça" de rezar - que acomete as almas mais perfeitas - como no pouco fervor que às vezes atinge os maiores devotos. Ambos defendiam que mais vale rezar na mesma, ainda que com pouca concentração ou vontade, mesmo que irradiando menos fé, menos louvor, menos confiança, mas não perder o hábito. Num dia não se está inspirado, mas amanhã será melhor. Na vida espiritual, como na ginástica, nos objectivos profissionais, ou em actividades artísticas como a escrita (que já se sabe, são 50% de inspiração e o resto de *blhec* transpiração) às vezes é preciso insistir, insistir, e fake it ´till you make it.

Voltando ao exercício, mais vale um treino um pouco atabalhoado num dia, com alguma batota, certo, mas que queime algumas calorias e mantenha os músculos acordados. Uma das minhas gurus de exercício preferidas da internet assume não treinar mais do que 20 minutos por dia! A um escritor, mais aproveitam umas linhas rascunhadas com uma prosa menos que sublime, mas duas boas ideias que noutro dia se possam explorar melhor, do que deixar a página totalmente em branco e entrar em "bloqueio de artista". 



E tão importante como o "grão a grão" é então isso de se arreliar/beliscar/desafiar. Ai de quem não se provoca, em modo "que vergonha! Tantas qualidades e para aí alapada no sofá!". Agora está muito na moda o "tu mereces, tu consegues" mas por vezes, dois auto-calduços simbólicos têm bem mais força do que um estímulo positivo e fofinho. Por isso respondi à minha amiga se o espelho não era motivação suficiente. Por muito que se goste de si própria, que se deva ser gentil consigo mesma, convém que o espelho diga das boas e das bonitas...do estilo "sim senhora, mas pode melhorar. Agora vá lá levantar uns pesos, sua valente mandriona, que o colchãozito não morde". E quem diz o espelho diz a roupa que é uma vergonha não cair na perfeição quando bastava um bocadinho de esforço, ou mesmo a inspiração de certa celebridade que tem o mesmo tipo de corpo, ou até não é nada do outro mundo mas treina e se lhe seguisse o exemplo podia estar igual ou bem melhor, ou até o não querer ser como fulana ou beltrana que é uma desarranjada (não acho que as mulheres devam atormentar-se com comparações , mas neste caso pode ser útil).

Em qualquer área da vida, menos palmadinhas nas costas e wishful thinking, e mais sujar as mãozinhas.

Não queiramos ser como uma pessoa que conheci, que se dizia a melhor do mundo mas nunca fazia nada de nada à espera do momento perfeito, das condições ideais. Lá continua gorducha e sem avançar na vida, sempre na mesma mas apregoando ao mundo as qualidades que só o espelho (um espelho muito complacente) lhe reconhece...

Saturday, March 12, 2016

A nobre arte de "o que arde cura, e o que aperta segura".


Já vos contei aqui como aprendi essa bela máxima do "o que arde cura, e o que aperta segura". Mas cada vez a acho mais exacta, o que prova que nem sempre as lições de vida mais valiosas se adquirem quando temos maturidade para isso. Se depois as guardamos para quando são realmente precisas, isso depende de cada um.

Por vezes os remédios mais eficazes ardem ou são amargos: seja o desinfectar de uma ferida com álcool, mertiolato ou vinagre, seja enfrentar as consequências de um mal feito e consertar o que sobrou, o que frequentemente envolve uma catarse bem desagradável e exige carradas de paciência.

E o que segura (ou antes, o que dá segurança e estabilidade) pode apertar um bocadinho.

Ter um excelente emprego, fama, prestígio ou um negócio de grande sucesso faz pagar as benesses com uma data de prisões: grande nau, grande tormenta. Coco Chanel dizia e muito bem "o dinheiro só tem um som: o da liberdade!". Porém, antes de alcançar essa independência, essa deliciosa liberdade de ir e vir como bem entendesse, de ser dona do seu tempo, Mlle. Chanel passou longas horas no seu atelier a esforçar-se como uma galega, a cumprir prazos, a aturar sabe-se lá que exigências. Depois, qualquer pessoa com um papel relevante na sociedade sabe que tem a responsabilidade de estar à altura do seu bom nome: não goza, como o homem comum, de carta branca para fazer figuras tristes.


 Outro exemplo é a família: poucas coisas são tão maravilhosas como ter um clã que nos ama e protege - e poucas pressupõem tantas dores de cabeça, grilhões e responsabilidades. Quem não está para isso, condena-se a contar só consigo. 

 E no amor? Lá se queixava Caetano Veloso "porque você me deixa tão solto/porque você não cola em mim"? Quem ama segura, agarra, aperta, o que pressupõe deixar-se apertar de volta. Quem ama quer exclusividade e dedicação absoluta, a paz doméstica de todas as certezas...o que nunca pode funcionar de forma unilateral. 

 É utópico, ridículo mesmo, pensar em exigir tal coisa. Qualquer compromisso sentimental é um investimento de alto risco, que nem vale a pena assumir a não ser que se acredite piamente "nunca encontrarei ninguém que me complete mais". É abrir mão de todas as outras liberdades e possibilidades por alguém que vale a pena, ser fiel confiando que o outro fará outro tanto, prescindir de conhecer outras pessoas porque - aqui o raciocínio não é nada altruísta - essa é a única forma de garantir a posse do ser amado. Quem hesita, arrisca-se a perder: não apertou, não segura.

Aceitar que o que cura pode doer e que o que segura pode restringir não é mais que ter maturidade e noção da responsabilidade. Compreender que nada é de graça. Que o que vale a pena, exige trabalho, abnegação, doação de si mesmo (a)...e resistência ao ardor que cura. Quem não possui esse bom senso, sujeita-se a andar sempre com achaques mal curados e a nunca encontrar segurança em parte nenhuma...









Wednesday, February 24, 2016

A Nobre Arte de saber estar sozinha, parte II: quando elas acham que sabem, mas não é bem assim.


Cá para as minhas bandas há feministas malucas que se entretêm a sujar as paredes. Com dizeres que vão do cómico "aqui vem a caravana feminista" ( era de acrescentar, se não fosse pela parede que não fez mal a ninguém, "então fujamos") ao blasfemo (vi uma a apelar ao aborto que envolvia o nome da Virgem Maria, que chamar-lhes um Torquemada para cima ainda era pouco) a disparates como "não há nada tão sexy como um homem feminista" (eu acho que não há nada tão interesseiro, tão falso e maior turn off, mas isso são opiniões). Entre o "aborto livre e para todas" (sem considerar que nem todas estarão de acordo com isso) a "nem capitalismo, nem machismo" (sem capitalismo também não se vende tinta  na loja da esquina para estragar prédios, é uma verdade) e "vamos todas tornar-nos lésbicas" (de novo, onde fica a liberdade de cada uma?) é um festival de vandalismo próprio de quem anda fora de si e com muito tempo livre nas mãos.

E depois há outros deste género, em modo "não preciso de um homem para nada". 

Vi esse garatujo ontem e não resisti a captar e passar adiante nas redes sociais com a legenda "depois não se queixem", porque obviamente quem dedica o seu tempo a ser amarga e a descarregar isso na propriedade alheia ou em edifícios públicos não pode ter muitos pretendentes. Houve quem percebesse o sarcasmo, houve quem não percebesse e achasse uma frase muito linda (óptima para mandar a algum parvalhão) e houve quem apontasse, com justiça, que estar sozinha não é problema nenhum. E de facto não é.

Aliás, poucas coisas são tão importantes, se uma mulher quer bem viver, como exercer a nobre arte de saber estar sozinha. É um erro aceitar um relacionamento por solidão, pressão social ou pior, por desespero. Só quem está bem sozinha pode seleccionar com critério e construir, quando encontrar alguém que valha a pena, um relacionamento saudável. Toda a rapariga sensata que tenha lido o seu bocado de Jane Austen sabe disso.


Mas há saber estar sozinha, estar bem solteira, e há fingir que sim mas andar pior que um urso, toda ressabiada à conta disso. Há ter uma vida tão preenchida e interessante que o Príncipe Encantado, quando aparece, tem de se desunhar para caber nela, e há comportar-se como uma solteirona amarga que gatafunha em paredes coisas do estilo "raposa que não foi às uvas". Quem escreveu isto parece-me mais zangada e revoltada, vulgo "não tens tempo para mim, então vai para o inferno; os homens são todos umas bestas, mesmo" do que contente e satisfeita, cheia de candidatos mas sem tempo para dar atenção a nenhum deles. Quem esborrata coisas destas não está sozinha por opção, podem crer.

 Olhando bem para a frase, não é que seja uma mentira completa: qualquer mulher ocupada e realizada é a mulher da própria vida. Ou senhora da sua vida. Mas ser isso tudo não implica não saber partilhar, antes pelo contrário. Quem está feliz, quer contagiar tudo à sua volta e acaba inevitavelmente por atrair, se o desejar, o complemento masculino para ocupar o trono que tem ao lado do seu. E quem quer MESMO estar sozinha - muitas grandes mulheres optaram por ficar solteríssimas e foram felizes assim; é uma escolha livre como qualquer outra - nem pensa nisso. Não procura convencer as outras a fazer o mesmo, ao estilo sofrimento adora companhia. Acima de tudo, deixa as paredes em paz...




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