Confesso que sempre achei graça à
scene dos campónios Norte-
americanos. Sim, os rednecks e hillbillies,
satirizados em comédias e filmes de terror. Gosto deles, gosto dos
sulistas – then again, eu gosto dos
sulistas em geral e de tudo o que lhes diz respeito, menos no horroroso hábito
do racismo. Quando limitam o seu saudosismo pelos tempos do antebellum a isso mesmo e a bandeirita
da Confederação serve só para enfeitar, por uma questão de tradição, são do
mais adorável que há.
Por alguma razão séries como True Blod, The Walking Dead ou mesmo Bones retratam personagens deste tipo. Gosto da sua música, do
costume enraizado da hospitalidade e do respeito pelos mais velhos, da
valentia, das histórias de hoodoo
e voodoo,
dos mistérios crioulos, do facto de serem gente que se desembaraça no mato sem
problemas, que resolve tudo ao soco ou ao tiro se preciso for mas dali a pouco
já não se passa nada, das Southern belles
e do que elas representam. Gosto que não se importem de ser botas-de-elástico e
tementes a Deus, que sejam sinceros ao ponto de admitir o quão conservadores
são, que mesmo quando são uns brutamontes não procurem passar-se por outra
coisa.
Aprecio a sua candura e autenticidade, a ciência que empregam em serem
encantadores, a forma como dizem “yes, Sir” ou “No, ma´am” a toda a gente,
como conservam as velhas formas de tratamento, como ainda valorizam as antigas
redes de parentesco até à 5ª geração e fazem o mesmo com as amizades.
Admiro aqueles
que perderam tudo o que possuíam na Guerra Civil e souberam reerguer-se, e acho
extraordinária a altivez dos que apesar de terem ficado reduzidos a camponeses
desde essa época nunca esqueceram (o que quando não se traduz em violência
contra inocentes, é uma coisa boa) nem admitiram misturar-se ao white trash, embora materialmente já
nada os distinguisse uns dos outros.
Admiro as suas complexas hierarquias e códigos de honra, na mais arcaica
tradição europeia que por cá se foi extinguindo. E não há nada tão encantador
como o estilo de vida antigo que procuram, contra os sinais dos tempos,
preservar.
É tudo muito confuso, único e estranho para um estrangeiro. Mas se
os Nova Iorquinos são considerados o protótipo da sofisticação e os elementos WASP
(White Anglo Saxon Protestant) das localidades Ivy League caracterizam a nata das tradições do Old Money Americano, é no Sul que
podemos encontrar a mais exótica paleta de representantes da melhor
aristocracia do Velho Mundo, que importaram para o outro lado do Atlântico
aquilo que recordavam da sua pátria e não obstante as contrariedades,
conservaram hermeticamente a sua essência. Quanto aos rednecks, são gente orgulhosa e genuína – quem me dera poder dizer
o mesmo dos “parolos” de cá. Isto para dizer que se algum dia me der para fazer
as malas e virar as costas ao velho e cada vez mais decrépito Continente,
dificilmente me apanharão a viver na Big Apple ou em Los Angeles, que de
repente se tornaram o dolce far niente
para um certo tipo de portugueses citadinos à força de pulso.
Mais rápido me encontrarão num
alpendre florido de magnólias a bebericar ice
tea de pêssego, usando um sundress
e com uma carabina à mão para o que der e vier, feita uma estranha mistura de
dona de plantação com ladies who lunch.