Recomenda-se:

Netscope

Showing posts with label amor. Show all posts
Showing posts with label amor. Show all posts

Monday, May 23, 2016

Santo Agostinho dixit: tarde te amei, ou carta a um amor quase perdido.



Tenho uma admiração enorme por Santo Agostinho- filósofo, Doutor da Igreja e uma das suas mentes mais brilhantes...mas antes de ganhar juízo, mais pecador do que a pior versão que a tradição, a arte ou a ficção possam pintar de Maria Madalena.

 Agostinho era de tal maneira dissoluto, um libertino de tal ordem, que ter-se tornado numa pessoa íntegra, normal e decente já seria milagre - quanto mais  fazer-se bispo e depois Santo!

  Mas a sua mãe, Santa Mónica, tanto se afligiu, tanto rezou, tantas lágrimas gastou e tantos vestidos terá coçado de joelhos diante do altar em modo turbo de pedi e recebereis, buscai e achareis, batei e a porta se abrirá (já se sabe como são as mães: nunca desistem) que ele, por volta dos trinta, já cansado de má vida e de se desperdiçar em comportamentos auto-destrutivos, se redimiu e converteu. Santo Agostinho é a prova de que toda a gente pode eventualmente ter remédio, até o pior valdevinos. 


Ora, depois de ver os seus erros e de descobrir a fé, o futuro Santo escreveu uma obra autobiográfica extraordinária, Confissões. E nela, reflectiu sobre amor e arrependimento, falou sobre a sua cegueira, analisou como fora possível andar tão perdido quando tinha a verdade e o bom caminho diante dos olhos. 

O texto, que é lindíssimo, refere-se à descoberta espiritual de Santo Agostinho, mas poderia aplicar-se igualmente a outras situações da vida, nomeadamente ao amor romântico: ao amor perdido (ou quase) à conta de muitos erros, ou a um grande amor que sempre esteve à vista mas quase se deixou escapar. E quando surge ou ressurge, por bom que seja, por muito que nunca seja tarde, parece sempre pouco, parece sempre que se deitou fora tempo precioso, parece sempre "tarde demais" - não para viver a relação em pleno, mas no espírito "já podia ser feliz há tanto tempo!":


"Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova… Tarde Te amei! Trinta anos estive longe. Mas durante esse tempo, algo se movia dentro do meu coração… Eu era inquieto, alguém que buscava a felicidade, buscava algo que não achava… Mas tudo mudou, porque Tu me deixaste conhecer-Te. 

Tu estavas dentro de mim e eu fora… “Os homens saem para fazer passeios, a fim de admirar o alto dos montes, o ruído incessante dos mares, o belo e ininterrupto curso dos rios, os majestosos movimentos dos astros. E, no entanto, passam ao largo de si mesmos. Não se arriscam na aventura de um passeio interior”. Durante os anos da minha juventude, pus o meu coração em coisas exteriores que só me faziam afastar cada vez mais d’Aquele a Quem meu coração, sem saber, desejava… Eis que estavas dentro e eu fora! Seguravam-me longe de Ti as coisas que não existiriam senão em Ti. 

Mas Tu chamaste-me, clamaste por mim e o Teu grito rompeu a minha surdez… 
“Fizeste-me entrar em mim mesmo… Para não olhar para dentro de mim, eu tinha-me escondido. Mas Tu arrancaste-me do meu esconderijo e puseste-me diante de mim mesmo, a fim de que eu visse o quão manchado estava”. 


Brilhaste, resplandeceste sobre mim e afugentaste a minha cegueira. 

Exalaste o Teu Perfume e respirei. Agora suspiro por Ti, anseio por Ti! 

Provei-Te, e, agora, tenho fome e sede de Ti. Tocaste-me, e agora ardo pela Tua Paz.

E agora, só a Ti amo! Só a Ti sigo! Só busco a Ti! Só ardo por Ti!…

 Exalaste o Teu Perfume e, respirando-o, suspirei por Ti, desejei-Te e agora, tenho fome e sede de Ti.

 Tarde te amei! Tarde Te amei, ó Beleza tão antiga e tão nova! Tarde demais eu Te amei!"


 Adaptados, estes excertos de Confissões davam uma lindíssima carta de amor e podiam ser a base para muitos votos de casamento. Quantos homens e quantas mulheres, encontrando finalmente o que toda a vida procuraram,  não teriam a dizer isto, sem tirar nem pôr? 

Friday, May 20, 2016

De nobre e de louco, todo o amor verdadeiro tem um pouco


Este meme apareceu-me nos feeds e fez-me lembrar um artigo que li há tempos: quatro comportamentos doentios que os media nos pintam como românticos. Goste-se ou não, é um facto que as grandes canções, poemas, livros e filmes raramente se debruçam sobre histórias de amor que correm bem

Pensemos na lírica trovadoresca, embora não faltem exemplos mais antigos: nas cantigas de amor a mulher adorada é sempre distante e inacessível; nas cantigas de amigo, a donzela apaixonada debate-se invariavelmente com saudades, ânsias e cuidados, desabafando para os pinheiros, a mãe ou as amigas. E se saltarmos rapidamente para o sec. XX, até o clássico Fools rush in, (uma canção que descreve o processo de enamoramento) avisa que só os tolos se arriscam, no melhor modo "quem se aventura a amar, aventura-se a sofrer".


A arte celebra quase sempre o amor que ainda não foi consumado (o processo de conquista, quando tudo é ilusão e ansiedade) o amor atormentado, excessivo e conflituoso do tipo  byroniano e por fim, o amor perdido ou atraiçoado (Taylor Swift, mestra nesses folhetins, é um exemplo pop e bastante actual).

O lado bom, feliz e sereno do amor raramente é pintado, escrito ou cantado. 




 Seja porque nessas alturas de bonança as pessoas andam demasiado entretidas para se lembrarem de produzir alguma coisa, seja porque as emoções mais brandas não são tão fáceis de descrever ou porque - hipótese mais provável- há quem confunda um amor saudável com outra coisa. Com aquela coisa deprimente que é um arrumar-se com quem está à mão à falta de melhor, com um arranjinho para não estar sozinho, com um "amor" de ocasião e de papelão. Resumindo, com os "amores" vulgares, para inglês ver, daqueles que têm um ou outro  "amo-te" dito da boca para fora como um herege a dizer o Credo; relações ligeiras, destituídas de paixão, que só diferem das amizade coloridas por terem a decência do compromisso e da monogamia. 



A ideia "paixão é boa mas acaba mal, amor verdadeiro é morno mas acaba bem" ou "a paixão é egoísta e violenta, o amor verdadeiro é mansinho e altruísta" é uma grande falácia responsável por dois males: por manter as pessoas presas a paixões disfuncionais, achando que num relacionamento saudável nunca sentirão emoções fortes, e por empurrar outras para relações tíbias e sem profundidade, pensando que só assim estarão livres de sofrimento e de surpresas.

paixão é um ingrediente quotidiano do amor que aumenta a tensão e intensidade das emoções, apenas para encontrar alívio temporário e recomeçar o ciclo. É uma montanha russa sem a qual qualquer ligação se torna uma maçada insuportável.

É verdade que um casal que viva só da paixão anda tão mal como alguém que não consuma fruta, legumes, nem proteínas e se alimente exclusivamente de condimentos, molhos e gulodices; ou seja, falta-lhe substância. É um amor de faca e alguidar que nunca estabiliza. 



Mas um casal que viva só do oposto - do companheirismo, da conversa estimulante, da compatibilidade, do facto de serem muito amiguinhos e de terem bastante em comum...esse é como um asceta que só se alimenta de raízes e legumes, sem sal nem açúcar. Falta-lhe vigor, força, ímpeto; falta-lhe a beleza, a intensidade e o romance, tudo estímulos que por si não fazem uma relação firme mas que são imprescindíveis para lançar raízes profundas e para fomentar o necessário espírito de sacrifício que é inerente ao amor verdadeiro. 

Para amar bem, para  relativizar os defeitos, para se entregar sem reservas e ter aquela devoção que torna as pessoas capazes de dar a vida pelo outro, é preciso estar cego (a) de amor. E sem paixão isso é impossível.

 Não se pode cometer o egoísmo de gostar de alguém pela metade, por simples desejo de segurança, até porque isso falha quase sempre para ambos. Afinal até a pessoa mais pacata, mais inofensiva, de quem se gosta só assim assim (ou seja, pouco o suficiente para nunca perder o controlo das emoções) tem defeitos e comete erros. Suportar os senãos de quem se adora já tem as suas complicações...que fará o resto. Como dizia o outro, "não se dá nada enquanto não se dá tudo".




Um grande amor, um amor verdadeiro e duradouro, tem portanto todas as coisas boas, nobres e elevadas: o respeito, o carinho, a admiração, o deslumbramento, o companheirismo, a paciência, a diversão, a entreajuda, a delicadeza, o estimular das melhores qualidades um do outro, a estabilidade, a fidelidade, o simplificar do que costuma ser complicado, a amizade, a certeza, a honestidade, a adoração, o pacto para toda a vida, o arrimo na saúde e na doença, na pobreza e na riqueza. 

Mas também é  por natureza, e convém que seja  -  na intensidade, na tensão e na intimidade- avassalador, obscuro e despótico; terá a paixão, terá o seu bocado de ciúme, que leva ao desejo de posse e de exclusividade; conta com os seus momentos de exagero, de doidice, de desabafo, de conflito, de pieguice. É o extremo do  "se não ficarmos juntos, morro" que determina quem é "a tal" ou "o tal" de cada um. É o acertar de agulhas, o mostrar do lado negro, o medo de perder o outro, que mostra quem é ou não importante e o que é ou não suportável.

Nem só trevas, montanhas russas e loucuras, nem só racionalidade, florzinhas e unicórnios: um grande amor vive tanto da aventura como da paz. Senão, não é a sério...







Thursday, May 12, 2016

O "desfado" que todas desejam (e todos, eu acho)




Não é cá por ser Moura nem nada, mas gosto de ouvir Ana Moura e gostei de Desfado desde que o apanhei na rádio pela primeira vez. Só que até hoje não tinha meditado na letra e olhem que esta diz mais do que atirar imagens sobre estar triste e alegre, ou acerca de ter ou não a disposição certa para cantar o fado. 



A mim diz, pelo menos. Hoje reparei que a canção fala daquele estado de espírito tão perfeito, tão completo, que dá vontade de chorar porque não resta nada para desejar, e que de tanta felicidade causa uma certa melancolia pois já não se encontra razão para sentir saudade ou gostar de canções tristes. E como lamuriava o outro, "o sofrimento também é voluptuosidade". Por isso existem as lágrimas de alegria, para dar vazão a essas emoções demasiado intensas e inexplicáveis. Há dias falámos disso a propósito da cantiguinha dos Coldplay, e aqui aparece também:

Esperar que um dia eu não espere mais um dia
Por aquele que nunca vem e que aqui esteve presente


Ai se eu pudesse não cantar "ai se eu pudesse"
E lamentasse não ter mais nenhum lamento


Na incerteza que nada mais certo existe
Além da grande incerteza de não estar certa de nada.


Afinal, toda a gente quer que chegue aquele dia em que não é preciso esperar por isto ou aquilo, por fulano ou beltrano. A hora/situação/pessoa tão almejada veio finalmente e é tudo tão belo que quase se torna doloroso, ou parece demasiado bom para ser verdade. E aí pode começar um grande problema: o da auto-sabotagem. Às vezes tem-se medo de se habituar às coisas boas, não vão elas desaparecer de um momento para o outro. Ou é mais fácil continuar no velho costume de sentir ansiedade por isto ou aquilo e inventar razões escusadas para estar hiper vigilante ou para criar discórdias, só para não perder o jeito. Ou ainda, a adrenalina da saudade ou do conflito ser demasiado viciante para que se consiga aproveitar e seguir a corrente. 


Ai que saudade
Que eu tenho de ter saudade
Saudades de ter alguém
Que aqui está e não existe
Sentir-me triste
Só por me sentir tão bem

E alegre sentir-me bem
Só por eu andar tão triste



Há que guardar o Fado para os discos, para as tertúlias, mas não ser fadista com a vida. Porque o destino às vezes até é benevolente, nós é que o afadistamos porque sendo triste e dramático nos soa mais bonito. Ou mais familiar. Old habits die hard, lá dizia o Mick Jagger que também é amigo da Ana Moura e há-de partilhar estas ideias...

Tuesday, May 10, 2016

Chris Hemsworth: é de homem! #2


Já se sabe que o Homem a sério, o Homem Alfa, o que toda a mulher pediu a Deus mesmo que não admita, é sempre desembaraçado seja em batalha, face a um carro avariado ou na cozinha (reflexo de caçador ou de soldado que sabe sobreviver na selva); vai atrás do que quer, não se acanha numa emergência, em caso de uma dita cuja a sua resposta é "eu trato disso" e tão depressa levanta halteres como é um querido com as crianças



E a actriz espanhola Elsa Pataky sabe disso porque nesse quesito lhe saiu a sorte grande: afinal, é muito bem casada com o arquétipo da masculinidade, o Thor, ou vá, Chris Hemsworth, Thor no cinema, que lhe deu três bebés amorosos e que em tudo prova ser um homem de família. Veja-se esta imagem mais linda:



Ora, há dias Elsa mostrou ao mundo via Instagram como está orgulhosa do marido que lhe coube, e por boas razões: a filha do casal, India Rose, fez anos e por qualquer motivo, a padaria recusou desencantar um bolo-dinossauro à última hora. Não tinham tempo nem para atender o Thor, que não está acima dos meros mortais quando o assunto é bolos. De modo que Thor arregaçou as mangas, trocou o martelo pela batedeira e deu uso aos músculos para literalmente pôr as mãos na massa. O resultado foi um dinossauro de chocolate bastante sofrível, que passe o trocadilho até envolveu pintarolas, fazendo a alegria da pequena aniversariante e derretendo a esposa felizarda:



Homem que é homem salva sempre o dia, ou pelo menos tenta. E faz a sua mulher dizer "meu herói" até nas mais ínfimas coisinhas...







Wednesday, May 4, 2016

A tradição irlandesa de pedir um homem em casamento


Como este ano foi bissexto, falou-se bastante na antiga tradição irlandesa que permitia que as mulheres, a cada quatro anos, virassem os bons hábitos ao contrário e pedissem em casamento os namorados que nunca mais se decidiam. O meu lado de irish lass não concorda nada com uma tradição tão descaradona assim à mulher da luta, mas enfim. Por algum motivo seria a cada quatro anos...

Diz-se que o costume nasceu no sec. V, quando Santa Brígida se queixou a S. Patrício que havia demasiadas mulheres na ilha a ficar solteiras à conta de marmanjos que iam adiando, adiando, adiando...e não se descosiam (ou cá entre nós, que não eram bons rapazes, que as tomavam por garantidas ou simplesmente, não gostavam delas o suficiente para dar o nó). Por outro lado, também há muito quem defenda que na verdade Santa Brígida não existiu, que é meramente uma cristianização da deusa céltica Brigid; outros ainda sustentam que ela era uma druidesa que se converteu ao Cristianismo e já se sabe que os druidas tinham umas ideias esquisitas, logo tudo é possível.


O certo é que a pouco cavalheiresca tradição foi ficando e acabou estabelecido que, caso o homem recusasse o pedido, teria de pagar uma pequena multa em presentes (como luvas ou um vestidos de seda) para adoçar o golpe e a vergonhaça à menina que levasse um "não".

E se ao longo dos séculos houve casamentos que resultaram felizes apesar desse começo nada elogioso, também tem havido algumas cenas caricatas- como esta rapariga tão bonitinha que bem escusava de se rebaixar a tal papelão:



Apre, antes ficar solteirona numa casa cheia de gatos. Ou vá, esperar por um homem a sério que estivesse mesmo interessado nela. Nenhuma mulher merece! Rapariga alguma devia ter de pedir o namorado em casamento a não ser que, vá, tivesse tratado o rapaz muito mal, estilo Penny e Leonard do Big Bang Theory.



Mas o uso lá se mantém até hoje, apesar de, com tanta igualdade *e lata*, já haver mulheres que, com ano bissexto ou sem ano bissexto, não só tomam toda a iniciativa e mais alguma em vez de se deixarem cortejar, como pagam o seu próprio anel de noivado, outras que praticamente arrastam o homem até ao altar e demais atitudes  nada românticas que quase sempre dão mal resultado.




Esta semana está disponível no canal Hollywood um filme sobre o tema, com a bonita Amy Adams (filme que os irlandeses detestaram, mas pronto). Ela viaja até à Irlanda para aproveitar a tradição de 29 de Fevereiro, mas *SPOILER ALERT* pelo caminho encontra um irish lad todo Alfa que lhe põe as ideias no lugar, dizendo-lhe "este é um costume parvo em que mulheres desesperadas fazem a proposta a homens que não se querem casar".


 E depois mostra-lhe como um homem verdadeiro age. E acaba por pedi-la em casamento, com o anel de noivado da mãe dele e tudo, como manda Deus e o figurino. Santa Brígida que me desculpe, mas as moças casadoiras farão melhor serviço a si próprias se se pegarem com fé a Santo António... o nosso santinho tão português lá dá o jeito de o caramelo desatar a língua ou desencanta outro pretendente mais capaz. Já Santa Brígida só dá o mote, em modo "olhe minha filha, desembrulhe-se".






Thursday, April 21, 2016

Prince e Vanity: amor além túmulo?


Depois de nos levar David Bowie, 2016 prega-nos a partida de ficarmos sem Prince. Nunca fui uma fã acérrima, mas gostava da sua música e não consigo ficar parada ao ouvir Kiss ou Get Off.

Mas curioso é que em Fevereiro estive para dedicar um post à morte da bela Vanity, ex namorada/protegida do cantor. Por algum motivo, não cheguei a fazê-lo. Em boa verdade, só conhecia Vanity por me lembrar de há muitos  anos ter lido algo sobre a sua tumultuosa história de amor com Prince numa revista.

Prince ter-se-á encantado com a modelo aspirante a artista por a considerar o reflexo feminino dele próprio. Por isso chamou-lhe "Vaidade" e tornou-a na líder de uma girlsband que faria corar as Pussycat Dolls. O efeito da fama em Vanity foi devastador: mais tarde, convertida ao Cristianismo, arrependida dos seus erros (recusou mesmo receber quaisquer royalties vindos dessa fase conturbada) e com a saúde arruinada pelas drogas, ela confessaria que a vaidade - ou o seu alter ego- quase a tinha destruído. Morreu aos 57 anos, de falha renal causada pelos excessos da sua vida passada. Ainda assim, teve mais vinte anos de vida além do que os médicos tinham previsto...



Menos de três meses depois, Prince - precisamente com a mesma idade - foi juntar-se-lhe. É uma estranha coincidência, quanto mais não seja porque ambos haviam seguido com as suas vidas; os dois estavam casados com outras pessoas e é de supor que a paixão de outros tempos estaria sepultada - ou bem adormecida - no passado. Mas às vezes não é bem assim. Já o disse, há amores que não matam mas também não morrem. O tempo e a distância não lhes secam as raízes. Talvez Prince e Vanity fossem de facto almas gémeas, mas num sentido obscuro: demasiado semelhantes para fazerem bem uma à outra. 

Sunday, April 17, 2016

As avós avisam: no amor, brincadeira tem hora.





Hoje chegou-me um texto que recomendo mesmo, de um professor de desenvolvimento humano que se especializou em recolher pérolas de sabedoria das pessoas mais velhas.

No artigo, o professor Pillemer detalhou os quatro sinais de alarme a não desprezar no início de uma relação (ou a corrigir com urgência no caso de um relacionamento que, apesar de tudo, já seja firme): violência de qualquer tipo (como já vimos aqui noutro post), ataques de raiva inexplicáveis, desonestidade nas coisas grandes e pequenas e finalmente...constantes provocações, troças e sarcasmos.

Vale a pena ler o texto na íntegra, mas desta feita o que me chamou a atenção foi o último sinal de alarme - talvez porque não recebe tanto destaque nos textos do tipo "se a sua cara metade faz isto, pense duas vezes". É que essa forma de crueldade ou violência psicológica é bastante subtil; passa muitas vezes por brincadeira inocente, por vício de nervos, ou por aquilo que gosto de chamar "complexo de palhacito". 

Arreliar amorosamente o outro faz parte de uma certa cumplicidade ou pode mesmo demonstrar química - principalmente na fase de flirt, quando as coisas ainda não desabrocharam entre os dois. É uma forma de dizer "tu perturbas-me" semelhante à dos rapazitos que puxam as tranças ou pregam partidas à menina de quem gostam.

Porém, se a brincadeira  incomoda, cansa, se é demasiado frequente e/ou os ditos deixam de ter graça para passarem a ferir - pior ainda se as "graçolas" forem proferidas diante de terceiros-cuidado. Exceder-se nas troças é como fazer cócegas a mais: em pequenas doses tem graça, em exagero é tortura.


  Bem dizia uma campanha recente contra a violência no namoro que abordámos aqui: quem te ama, não te humilha.

Conheço imensos casais assim, infelizmente: da mulher que diz, diante dos amigos do marido, que ele não faz nada com jeito ao namorado ciumento que acusa a amada de "galdéria", passando pelos que só estão bem a pôr defeitos e a descobrir as carecas um do outro, em vez de se apoiarem mutuamente. O amor não devia servir para embaraçar as pessoas - muito menos para as deixar inseguras.Onde não há empatia nem respeito pelos mais subtis sentimentos da outra parte, não pode haver amor.

Voltemos ao artigo, e passo a citar: Margaret, de 90 anos, conta que teve de se pôr em campo para dar um basta às provocações que o marido lhe fazia. Conseguiu (adoraria saber como chegou a tal acordo com o brincalhão) mas avisa: "arreliar é muito perigoso. É como bullying. Esse tipo de comportamento jocoso degrada o outro. É suposto ser a brincar, mas é um bom sinal de aviso porque diminui a outra pessoa".

Brincadeiras têm limites- e as avós, que têm sempre razão, sabem bem disso.


Margaret, age 90, had to reach an agreement with her husband to end teasing in their relationship. She told me:
Teasing is very dangerous. Teasing is like bullying. It demeans the other person, that kind of mocking behavior. It’s supposed to be kidding, but it’s a good warning sign, because it really devalues the other person.
- See more at: http://goodmenproject.com/featured-content/hlg-dating-warning-signs-when-seeking-a-partner-dont-be-dumb/#sthash.Gk6q7PCz.dpuf

Friday, April 1, 2016

Das cenas mais românticas que já vi: é de Homem!




Ontem calhou ver este filme baseado no board game Batalha Naval, com alguns actores de que gosto muito. Mas fosse pelo enredo, teria mudado de canal (apesar de não desgostar desse jogo em pequena) com ou sem Liam Neeson e companhia.

O que me prendeu ao écrã foi a cena em que o herói impulsivo, apaixonado à primeira vista por uma rapariga, procura de imediato conquistá-la. Dirige-se a ela como compete a um homem, chega à fala, mas...  a beldade está esfaimada e não dá conversa a ninguém antes de  obter  um burrito de frango fora de horas (adoro ver uma personagem magra e linda com um bom apetite, a quebrar o mito "mulheres bonitas são umas enjoadas"). E ele, determinado, trata de lho arranjar. 



 Sai disparado e uma vez que ninguém lhe vende o petisco, salta pelo telhado de uma loja fechada, arma uma confusão monumental, cai num monte de frascos de ketchup, deixa lá o dinheiro (é um rapaz honesto, claro), e depois, todo coxo, é perseguido pela polícia, causa uma data de estragos e leva uma série de choques eléctricos, mas não desiste e cai aos pés dela com o apetecido burrito, como um cavaleiro medieval depois de uma missão arriscada pela honra da sua dama. Claro que ela casa com ele. Arrisco dizer que nenhuma mulher ficaria indiferente a tanta dedicação, por pouco conveniente que seja ter um namorado que ande por aí a arrombar lojas, mesmo que por uma boa causa.


E digo-vos que esta não só é das cenas mais românticas que já vi num filme, como encerra uma lição valiosa (apesar de um tanto exagerada) sobre a dinâmica homem-mulher. Associa-se muito os gestos românticos a coisas superficiais e um pouco postiças - como surpresas, velas encarnada e flores - que têm o seu lugar, mas não são determinantes. Afinal, qualquer D.Juan das dúzias, empenhado numa conquista pouco sincera, sabe agradar com esses mimos. Ou qualquer namorado pouco apaixonado, preso numa relação daquelas à falta de melhor, compra rosas numa data especial, porque é suposto.

O verdadeiro romantismo e o comportamento varonil são coisas muito diferentes. Fazem parte de toda uma forma de estar e surgem espontaneamente, de acordo com a necessidade.

Um homem a sério age. E quando um homem está mesmo interessado, esforça-se, movido pelo impulso masculino ancestral da conquista. Nenhuma mulher digna devia contentar-se com menos. Não necessariamente com tanto espalhafato, mas deve esperar provas de consideração e entusiasmo.



Está certo que nem sempre agir de modo varonil implica ir buscar sanduíches difíceis de arranjar às duas da manhã, ou comprar presentes caros a despropósito ou se não pode, muito menos aturar mulheres ingratas e ditadoras que pensam que tudo lhes é devido (como temem alguns, quando lhes falam em agir como cavalheiros no jogo amoroso) . Porém, há os mínimos. Reparem: antes ainda de ir buscar o burrito, o herói levantou-se, falou, fez a sua parte de caçador e conquistador. A reserva dela em lhe dar troco só o acicatou mais a provar o que valia.

Regra geral, o homem do nosso tempo está mal habituado: afinal, o que não falta são mulheres que ou por modernice ou por desespero, se oferecem de bandeja, que não dão qualquer trabalho. Para quê maçarem-se por alguém que exige mais deles, que não dá o primeiro passo, que lhes mostra "quem realmente me quer, tem de provar o seu valor e as suas boas intenções"? Muitos, viciosos e amolecidos, darão essa desculpa, ou a desculpa da igualdade, que é basicamente um "elas que se esforcem". 


Não engulam esses argumentos de homens-beta cobardes e preguiçosos: se falam assim é porque não estão realmente interessados, ou não valorizam mulheres sérias nem são selectivos, ou são fracos ou andam equivocados, e isso não convém a uma rapariga de brio.

 Quem é cobardolas ao início, sê-lo-á nas questões sérias e graves. Quem prefere mulheres "desenvoltas" e descaradonas porque assim soma e segue mais facilmente, não hesitará em dar uma facadinha no matrimónio ou no namoro quando a ocasião se apresentar.

 Também muita gente vos dirá - com certa razão - que se forem mulheres tradicionais, altivas, que não privam os rapazes do jogo da conquista nem os obrigam a mostrar o que valem antes de lhes caírem nos braços, se arriscam a ficar sozinhas mais tempo. O que é natural, porque os cavalheiros não andam por aí a pontapé: tal como as mulheres elegantes e bem comportadas, são uma espécie rara.




 Porém, os homens sérios e a sério existem mesmo,  sabem reconhecer uma senhora quando a vêem e não têm medo de se virar do avesso para obter o que desejam. Quem sabe valorizar uma mulher discreta, quem não se importa de ir devagar, de apreciar todos os passos da coquetterie e do jogo de sedução, é porque sabe o que compromisso significa e não se assusta com isso. Quer uma mulher de princípios, digna de confiança, que possa, sem vergonha, apresentar à família.

E não sei o que pensais disto, mas creio que não se perde nada se uns quantos "preguiçosos modernos" desanimarem e voltarem à sua vidinha de relações fáceis e casuais. Desmiolados desses, há aos montes! Uma rapariga "à moda antiga" poderá ter de esperar um pouco, mas nunca vi nenhuma sair defraudada por ser criteriosa na escolha.

As "provas de amor" podem não ser tão espalhafatonas como ir preso por causa de um burrito de última hora, mas são inequívocas e gratificantes. Quem impõe respeito só com a sua presença, pode esperar ser tratada como algo precioso. Mas só um homem verdadeiro pode responder a isso - pois sabe o que é esperado dele.


Thursday, March 31, 2016

É esta realidade deprimente que espera todos os casais?






Qualquer pessoa realista sabe que relações perfeitas não existem. Que o casamento não é um mar de rosas, mas um trabalho de equipa que funciona melhor se cada um puser a felicidade do outro acima da sua. E que o amor é feito de sacrifícios - certo. Mas até o mais conservador dos manuais amorosos antigos fala sempre em manter o namoro vivo, a chama da paixão e o cuidado com o visual, de modo a que marido e mulher jamais se enfadem um do outro.

Então porque carga d´água, em tempos bem menos recatados,  somos constantemente bombardeados com artigos - muitos deles "humorísticos"- em que o casal dá tudo para poder dormir, se habitua de forma pouco glamourosa aos hábitos desagradáveis, em que a mulher tem sempre dores de cabeça e o homem ressona, em que as crianças só atrapalham, em que o homem ganha barriga e a mulher é uma desmazelada, em que, enfim,  a intimidade mata o romance? 


Sabemos que esses pequenos quês existem. Que canseiras e defeitos haverá sempre. Mas sou-vos franca, as mulheres da minha família sempre falaram honestamente nestas coisas e nunca, por nunca ser, me deram a entender que esse é o futuro ou a realidade do casamento. Não me pintaram essa tristeza de mulheres frias como o gelo que se deixam engordar ou de homens insensíveis que só pensam em ver futebol. Nem de crianças que, em vez de selarem o amor do casal, parecem estar plantadas no cenário para estragar tudo. Se tanta gente se identifica com cartoons e textos como este, algo de muito errado se passa. Ou casa por casar, à falta de melhor. Ou então vivi numa redoma dourada até hoje e começo a descobrir um mundo um bocado feio que só me chega através da internet. Serei a única que repara nisto, que acha isto deprimente e que não tem vontade de se rir de tais piadas?

Tuesday, March 22, 2016

Essa tristeza de "que o amor seja eterno enquanto dure"





E assim, quando mais tarde me procure
Quem sabe a morte, angústia de quem vive
Quem sabe a solidão, fim de quem ama

Eu possa me dizer do amor (que tive):
Que não seja imortal, posto que é chama
Mas que seja infinito enquanto dure.


Vinicius de Moraes


O poema é lindo, mas há muito quem o distorça sem remorso para caber na triste realidade das ligações casuais, das relações sem compromisso em modo "test drive" e dos "amorzecos à falta de melhor". Ou ainda, para justificar o fim dos entusiasmos fugazes que passam por "amor" - aqueles que até enganam, que arrancam uns "amo-tes" mas que passado o fogaréu da paixoneta, se vê que não era verdade. Até se podia ter alguma paixão, mera especiaria do amor, mas amor digno desse nome, viste-o

Tais proximidades, em maior ou menor grau, estão para o amor a sério como uma Birkin da Hermès falsa está para uma verdadeira: há imitações reles, umas melhorzinhas e outras que quase enganam os entendidos, mas nenhuma é o real deal.

E no entanto, vê-se bem que o pobre poeta estava apenas em modo "quem se aventura a amar, aventura-se a sofrer". É bom ser realista, porque mesmo o amor mais genuíno, se tem a quantidade de paixão necessária para saber a alguma coisa e a dose de sacrifício que é precisa para funcionar, vai fazer rir e chorar, levar ao céu e tornar os envolvidos pessoas melhores, mas passá-los pelas brasas do inferno de vez em quando. Faz parte. 

Mas para desfazer esta ideia desconsolada, deixem-me contrapor a Vinicius de Moraes as palavras do Ven. Fulton Sheen: "como dizia Eurípides, aquele que não ama para sempre não é um verdadeiro amante"


Um amor real, genuíno, puro, não é uma chama: tem labaredas que luzem e queimam, mas não se consome nelas; é como o arbusto ardente de Moisés, que ardia sem desaparecer. O amor verdadeiro é imortal, ou seja, não se fina naturalmente como qualquer ser vivo. É preciso matá-lo de propósito e mesmo assim, só com um grande trabalhão. Pensemos no amor verdadeiro como nos imortais do filme Highlander: eram belos, jovens, fortes para sempre;  em teoria, não podiam morrer. O tempo não os matava, não os debilitava; a doença não os atingia, espadas e pistolas feriam mas o estrago não era grande. Sentiam dor, mas sobreviviam. Para os matar, só cortando-lhes a cabeça à espadeirada e ainda assim, convinha que outro imortal tentasse a tarefa, porque para outra pessoa seria praticamente impossível.

Ou seja, para assassinar um amor desses raros e puros, um dos "imortais" envolvidos tem de o decapitar deliberadamente: ferindo para o debilitar muitas vezes, e com um golpe certeiro depois. Se é amor, não morre de morte morrida; tem de ser morte matada, e olhem lá... 

Do infinito enquanto dure está bem livre. Para correr tudo pelo melhor, é só evitar os homicídios em primeiro grau.



Tuesday, March 8, 2016

The Walking Dead ensina: nunca sejas a rapariga que "está a jeito"


O último episódio de The Walking Dead mostrou um rompimento amoroso aborrecido: o ex-militar Abraham terminou abruptamente a sua relação com a Rosita, que é valente e bonita. Quando a pobre coitada, em lágrimas, insistiu em saber o motivo de uma mudança tão súbita, o grandalhão de cabelo cor de cenoura e bigode à viking foi brutal, mas honesto:

"Julgava que eras a última mulher à face da terra...e agora vi que não és".

É que os dois tinham andado na estrada sem conviver com quase ninguém, a matar zombies e a manter-se vivos como podiam. Mas agora, que estão inseridos numa comunidade maior de sobreviventes, Abraham tem bastante por onde escolher, encontrou uma rapariga que o encanta mais, e...sabem o resto. E a pobrezita lá ficou a chorar, sem lhe ocorrer ao menos dizer "também eu julgava que eras o último mas agora vi que há muito peixe no mar, meu grande estúpido". Sempre salvava a face.

Nota para os fãs da série: isto não vai acabar bem para a rival nem para a Rosita, aposto convosco. 


Mas adiante: o que interessa aqui não é o programa, é a moral da coisa.

A Rosita, que até é uma jovem bastante esperta e desembaraçada, cometeu o erro crasso de muitas mulheres: deixou-se ser a "rapariga que está a jeito" ou à mão. Aquela com quem um homem se envolve à falta de melhor.  Ou com quem até assumiu uma relação mas porque calhou. A rapariga que ele não procurou, que lhe caiu aos pés ao primeiro sorriso, que não lhe deu trabalhinho nenhum a conquistar, que se calhar até andou feita tonta atrás dele ou que lhe facilitou a vida num relacionamento supostamente casual (embora com a ideia desonesta de lhe "deitar o laço"). 

A diferença é que a Rosita tem desculpa: realmente, num cenário apocalíptico não há muito por onde escolher, muito menos machos alfa aptos a sobreviver e a defender a parceira. 


Mas na vida real, não há razão para cair numa falta de dignidade dessas (a não ser a falta de auto estima, ganância, medo de ficar para tia e/ou uma fixação parva e unilateral por um ser de calças tão substituível como qualquer outro). Também não vale usar a desculpa do "amor", porque o amor, se é verdadeiro, tem de ser recíproco e já se sabe: os homens arranjam muitas desculpas para tudo, mas quando estão *realmente* interessados não precisam de grande incentivo.

E claro que é má receita: raramente funciona, pelas razões que já vimos. Os homens, na sua esmagadora maioria, são seres de vontades firmes e de poucas considerações, que preferem pedir perdão que permissão. Podem envolver-se com a Rosita do momento, ser "caçados" por um tempo e arrastados para um "à falta de melhor"...mas nunca será aquela paixão. E no segundo em que lhes aparecer aquela paixão, a mulher dos sonhos deles, aquela por quem suariam as estopinhas sem pensar duas vezes, podem muito bem dizer e fazer como o Abraham. Ou pior, rematar com um horrível "eu nunca andei atrás de ti, antes pelo contrário".

Não se pode fabricar amor onde nunca houve matéria prima para isso- é tão estúpido como querer tirar vinho de bananas. Para cada Rosita, há um homem algures, que faria sei lá o quê  para estar com ela. Um homem disposto a procurá-la, a insistir, a virar-se do avesso como compete a um cavalheiro. Nenhuma mulher devia contentar-se com um Abraham, quanto mais esforçar-se para lhe "conquistar o coração". Mulheres são conquistadas - só assim podem ser tratadas como sonham. Por muitas voltas que o mundo dê. Mesmo durante um apocalipse.

Thursday, February 25, 2016

The first cut is the deepest



É uma das minhas canções preferidas (como se não bastasse ter sido escrita por Cat Stevens, mais tarde foi cantada por Rod Stewart e sai sempre bem, basta ouvir a versão de Sheryl Crow) e mais do que a letra em si, o título sempre me assombrou um pouco. The first cut is the deepest - uma profunda verdade. 


Nada marca tanto como as primeiras impressões. Por isso sempre me pareceu que esta é uma canção muitíssimo inteligente, pois pode ser lida em dois ou três sentidos distintos.

Um primeiro amor marca, principalmente se ferir. Há aqueles que deixam profundas cicatrizes, que accionam todo um efeito borboleta que pode ser destruidor. E o primeiro amor não é necessariamente o primeiro namoro ou o primeiro envolvimento sério: pode ser aquele que escapou. E se fez um corte, nunca haverá arranhão igual, por mais fundos que sejam os seguintes.

Depois, em qualquer relacionamento, se há um first cut que abala a confiança total que havia entre duas pessoas, dá-se o efeito do espelho: é possível colá-lo, mas a brecha nunca desaparece.

E, terceiro caso a que se aplica a letra: o first cut duplo. Restaurar um amor, reatar laços, escavar raízes profundas nunca é simples; é sempre um processo agridoce.

 Porém, torna-se mais denso quando se trata de restituir a uma primeira paixão, ao que poderia ter sido, a sua pureza original apesar do tempo, do ressentimento, do ciúme, da separação e dos fantasmas. A ideia é romântica, mas o processo há-de ser no mínimo catártico. Há a necessidade da presença do outro para curar as feridas, mas a visão constante da ausência, do corte e da lâmina. Querer alguém sabendo que o primeiro corte é o mais profundo exige mananciais de compreensão, de perdão, de paciência. Requer um amor que mais do que imenso e imorredouro, é magnânimo, altruísta, forte, teimoso - mas acima de tudo, misericordioso.

I still want you by my side
Just to help me dry the tears that I've cried
And I'm sure gonna give you a try
If you want I'll try to love again,
Baby, I'll try to love again, but I know...
The first cut is the deepest
Baby I know
The first cut is the deepest
But when it comes to bein' lucky, he's cursed
But when it comes to lovin' me, he's worst...


Wednesday, February 24, 2016

A Nobre Arte de saber estar sozinha, parte II: quando elas acham que sabem, mas não é bem assim.


Cá para as minhas bandas há feministas malucas que se entretêm a sujar as paredes. Com dizeres que vão do cómico "aqui vem a caravana feminista" ( era de acrescentar, se não fosse pela parede que não fez mal a ninguém, "então fujamos") ao blasfemo (vi uma a apelar ao aborto que envolvia o nome da Virgem Maria, que chamar-lhes um Torquemada para cima ainda era pouco) a disparates como "não há nada tão sexy como um homem feminista" (eu acho que não há nada tão interesseiro, tão falso e maior turn off, mas isso são opiniões). Entre o "aborto livre e para todas" (sem considerar que nem todas estarão de acordo com isso) a "nem capitalismo, nem machismo" (sem capitalismo também não se vende tinta  na loja da esquina para estragar prédios, é uma verdade) e "vamos todas tornar-nos lésbicas" (de novo, onde fica a liberdade de cada uma?) é um festival de vandalismo próprio de quem anda fora de si e com muito tempo livre nas mãos.

E depois há outros deste género, em modo "não preciso de um homem para nada". 

Vi esse garatujo ontem e não resisti a captar e passar adiante nas redes sociais com a legenda "depois não se queixem", porque obviamente quem dedica o seu tempo a ser amarga e a descarregar isso na propriedade alheia ou em edifícios públicos não pode ter muitos pretendentes. Houve quem percebesse o sarcasmo, houve quem não percebesse e achasse uma frase muito linda (óptima para mandar a algum parvalhão) e houve quem apontasse, com justiça, que estar sozinha não é problema nenhum. E de facto não é.

Aliás, poucas coisas são tão importantes, se uma mulher quer bem viver, como exercer a nobre arte de saber estar sozinha. É um erro aceitar um relacionamento por solidão, pressão social ou pior, por desespero. Só quem está bem sozinha pode seleccionar com critério e construir, quando encontrar alguém que valha a pena, um relacionamento saudável. Toda a rapariga sensata que tenha lido o seu bocado de Jane Austen sabe disso.


Mas há saber estar sozinha, estar bem solteira, e há fingir que sim mas andar pior que um urso, toda ressabiada à conta disso. Há ter uma vida tão preenchida e interessante que o Príncipe Encantado, quando aparece, tem de se desunhar para caber nela, e há comportar-se como uma solteirona amarga que gatafunha em paredes coisas do estilo "raposa que não foi às uvas". Quem escreveu isto parece-me mais zangada e revoltada, vulgo "não tens tempo para mim, então vai para o inferno; os homens são todos umas bestas, mesmo" do que contente e satisfeita, cheia de candidatos mas sem tempo para dar atenção a nenhum deles. Quem esborrata coisas destas não está sozinha por opção, podem crer.

 Olhando bem para a frase, não é que seja uma mentira completa: qualquer mulher ocupada e realizada é a mulher da própria vida. Ou senhora da sua vida. Mas ser isso tudo não implica não saber partilhar, antes pelo contrário. Quem está feliz, quer contagiar tudo à sua volta e acaba inevitavelmente por atrair, se o desejar, o complemento masculino para ocupar o trono que tem ao lado do seu. E quem quer MESMO estar sozinha - muitas grandes mulheres optaram por ficar solteríssimas e foram felizes assim; é uma escolha livre como qualquer outra - nem pensa nisso. Não procura convencer as outras a fazer o mesmo, ao estilo sofrimento adora companhia. Acima de tudo, deixa as paredes em paz...




Wednesday, February 17, 2016

"Isso não é amor, é violência"



Um novo vídeo a alertar contra a violência no namoro anda a correr as redes sociais, e dá que pensar - tal como o aumento das queixas relacionadas. Antigamente podia culpar-se um alegado status quo de misoginia, hoje se calhar podemos deitar as culpas à morte do cavalheirismo, isto sem contar que nem só as meninas são vítimas desse mal. Mas talvez seja mais útil atalhar o problema do que apurar-lhe a raiz com ideias utópicas pelo meio.




 O que me aflige mais no triste fenómeno é a sua subtileza (ou a subtileza com que começa e se instala): repare-se que, afirma o Observador, 22% dos jovens não reconhece que possa estar a ser vítima de violência, e 16% (isto é chocante) considera "normal" forçar o outro a intimidades indesejadas. 

É importante alertar para os sinais, porque poucos agressores entram à bofetada - isso seria horrível, mas um sinal de alerta imediato. A violência é muito mais discreta e consegue ser bastante confusa. Começa, quase sempre, pela "suave" agressão psicológica que não tarda a descontrolar-se.

 E nisto (sem querer pôr o pé em searas que não são da minha competência) eu diria que todos os cobardes se parecem. É uma brincadeira de mau gosto aqui, um dito ácido ali, uma cena de ciúmes de bradar aos céus mais adiante para depois evoluir, mas assentando sempre no descaso pelos sentimentos do outro, na indiferença pelo sofrimento que se provoca, no controlo, no desrespeito, na capacidade de ser cruel

O namorado que, "na brincadeira" põe defeitos no intuito de diminuir a auto estima de uma rapariga, não se ensaiará, mais tarde, em abusar noutros sentidos. O que a atormenta com delírios possessivos pode muito bem "perder a cabeça" e passar das palavras aos actos. A namorada "apaixonada demais" que afasta o mais que tudo da família e dos amigos, que controla cada passo dele, corre o risco de escalar para algo muito pior. Não estou a exagerar. Conheço casos. Há raparigas terríveis.




Reconhecer que a pessoa por quem se está apaixonado(a), que se admira e com quem se partilham tantas emoções não é boa rês pode ser uma das coisas mais difíceis em qualquer idade, mas pior um pouco quando se viveu pouco e tudo é cor de rosa. E nisso o vídeo está spot on. "Se te humilha, se ignora a tua vontade e a tua decisão, se te obriga a fazer o que não queres, se te diz que te insulta porque provocas (ou "mereces") se te faz sentir que a culpa é tua...isso não é amor, é violência. Quem te ama, não te agride. Quem te humilha, não te respeita".

Parece simples, mas para quem está envolvido é um novelo. Apontar estas listas de sintomas faz uma diferença enorme, principalmente nas mentes jovens e impressionáveis. Qualquer relação violenta deixa marcas, mas quanto mais cedo suceder, maior a probabilidade de criar um padrão. Sabem as mulheres que parecem ter tendência para os bad boys? Quase sempre houve um primeiro que a fez sentir que as coisas são mesmo assim. 

O amor deve ser paixão - e a paixão é avassaladora, por vezes - mas acima de tudo cuidado, carinho, gentileza, fazer com que as pessoas se sintam bem. Se uma relação não tem esse efeito, se acrescenta mais sofrimento do que paz e alegria, algo está mal. E isso tem muitos nomes, mas "amor" não é um deles.




































































































































































































































































Tuesday, February 16, 2016

"O amor é nobre demais para ser mendigado"




Vi esta frase (que se é daquelas da internet, cai na categoria dos lugares comuns que falam muito claro) neste sensato artigo do tipo "ele (a)  não está assim tão interessado (a)" publicado pelo Observador.

É daquelas verdades que toda a gente devia ter em casa colada no frigorífico. Particularmente as mulheres, que às vezes tendem a teimar no que gostariam que fosse, em vez de verem o que está à frente.

O exemplo mais evidente, mais exagerado e mais triste dessa "mendicidade amorosa", são as desmioladas fazem o pior tipo de Mulher da Luta: as que entram em relações casuais não por diversão (o que seria um pecado individual e mais nada) mas na tentativa patética de conquistar o amor de determinado homem, ou simplesmente, um amor qualquer, oferecendo de bandeja o que devia ser arduamente conquistado. Aquelas que se "apaixonam" unilateralmente, que ouvem "não quero nada sério contigo (ou pior, " nada exclusivo") e em vez de se indignarem com tais propostas, de responderem ofendidas "mas quem julga ele que é?"...  arriscam a ver se funciona, impondo a sua presença, perseguindo depois o homem em causa com chamadas de atenção, convites, frases bonitinhas e outras tentativas humilhantes ou ardilosas de o "caçar". Nem sequer se zangam com as desfeitas nem desistem com as sacudidelas. 
Vê-las ou ver o mendigo mais experiente da cidade é muito semelhante...e constrangedor.




Mas em menor grau, quase toda a gente se ilude uma vez ou outra. Homens e mulheres. Mesmo pessoas sensatas. Ou porque o alvo do afecto enviou sinais confusos, ou porque uma paixão de muitos anos era fantástica ao início, cheia de todos os exageros e manifestações de devoção, mas morreu no ramo e ainda se acredita, em modo velho do Restelo, que possa voltar ao que era. 

É certo que as relações que valem a pena dão trabalho e que até os amores de lenda passam fases menos boas. Mas esse "trabalho" deve ser sempre bilateral, ainda que não em uníssono ou em perfeita sintonia. Se a pessoa não parece interessada, é porque se calhar não está. Se é preciso mendigar atenção ou implorar que a pessoa se comporte como gente, algo está mal. Se algo não cheira bem, se quem está apaixonado não se sente seguro e amplamente correspondido, falta qualquer coisa. O amor entre duas pessoas é sempre cheio de certezas, ainda que sejam certezas parvas. 



Para o bem de todos, qualquer apaixonado deve ser realista - ou mesmo fazer por se "desapaixonar" se concluir que não é correspondido. O amor tem nuances, mas não são assim tantas. É como aquela pergunta "este vestido faz-me parecer gorda/ordinária?" - se a pergunta surgiu, algo está errado.

Há coisas inequívocas mas que podem ficar sepultadas sob os vapores da ilusão. Para não fazer figura de pedinte, urge afastar a fumarada para as ver bem: quem está apaixonado (a) arranja maneira de comunicar e de se manifestar, por mais tímido (a) que seja; quem está apaixonado (a) perde o receio e até o sentido prático, logo não há cá grandes hesitações nem medo do compromisso; quem ama, vai buscar tempo e meios onde for preciso, prescindindo até de comer e de dormir. Quem gosta a sério tem medo de perder, logo não deixa o alvo dos seus afectos livre e solto para eventualmente se comprometer com outra pessoa. O amor vive da exclusividade, das garantias;  é essencialmente nobre, altivo e ciumento. Quer ser especial, quer a posse absoluta.  Ponto. Há que distinguir as jogadas amorosas, que fazem parte do processo de sedução, de evasivas ou do velho "este (a) anda a brincar comigo". Se o "interesse" parece morno, é (ou tornou-se) desinteresse.

E se alguém "não está assim tão interessado" não precisa que o desculpem. Precisa de sair da vida de quem lhe arranja desculpas. Com um prazo de "já ontem era tarde".




Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...