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Monday, April 18, 2016
Tudo o que um homem deveria ser
Este fim de semana pude finalmente apreciar (um pouco à toa, mas pronto) o filme Operação Valquíria sobre os heróis do 20 de Julho, que já estava na minha lista há bastante tempo. Não é tão espectacular como poderia ter sido (o Marechal "Raposa do Deserto" Rommel, o Conde von Lehndorff-Steinort e o Barão von dem Bussche nem aparecem) mas vale a pena. Gostei de ver Tom Cruise como Conde Stauffenberg; tornou o papel seu, embora ache que o verdadeiro Stauffenberg - sem desprimor - conseguia ser ainda mais bem parecido.
E sobretudo, captou-me a atenção a relação do Coronel com a esposa, Nina. Não só pela química, expressa em muito poucas palavras, entre Tom Cruise e a actriz que interpretava a Condessa, mas pela escolha das cenas em que o Coronel abraçava a mulher e brincava com os filhos. A forma cheia de carinho e sentido de protecção como ele a olhava - e o apoio incondicional dela, de uma confiança infinita - comoveram-me mesmo.
Em Operação Valquíria, o herói é tudo o que um homem deveria ser não só perante a sociedade, mas para a sua mulher: forte, corajoso, digno, cheio de nobreza de espírito e sentido de honra e das prioridades, um pilar. Gentil, mas uma fortaleza.
Feliz da mulher que encontra um homem assim, a sério, sério e de honra: para ela, toda as canções de amor tristes sobre encontros e desencontros deixam de fazer qualquer sentido. Nunca olha ansiosa para o telefone, ou para a porta, à espera de notícias ou manifestações de afecto "dele", porque o tem de pedra e cal a seu lado. Ele deu-lhe a sua palavra e palavra dele vale um escrito.
As angústias e inseguranças das mulheres enganadas ou relegadas para segundo plano não lhe roçam a fímbria das vestes, pois sabe que são uma unidade, que se adoram e que se escolheram como únicos ídolos um do outro. Não necessita de cansar a mente a elaborar ardis para levar a melhor, pois os conflitos e problemas são abordados em equipa e à porta fechada: o que ele quer, quer ela e vice versa. Em caso de dúvida, as possibilidades são postas em cima da mesa e analisadas até se chegar a um único e indivisível fito comum. Não existem planos nem objectivos divergentes entre os dois: a vitória de um também pertence ao outro, e qualquer ofensa ou derrota é igualmente partilhada. Não tomam as dores de ninguém antes das dores um do outro. A casa de um casal assim, seja uma cottage ou um palácio, é sempre um castelo inexpugnável.
E é claro que um homem assim só pode dar o seu melhor junto de uma mulher que saiba ser uma suave, mas boa influência; de ser realmente esposa, no mais nobre sentido da palavra: ciente de quem ele é para lhe burilar as qualidades sem o mudar, forte e corajosa, dotada da intuição e boa vontade para ler as mais subtis emoções dele - pois os homens, mesmo os melhores, nem sempre sabem explicar-se à primeira; possuidora de um coração de leão que é capaz não só de amar em mananciais, com todo o espírito de sacrifício que o amor verdadeiro exige, mas de guardar silêncio ou de renunciar quando necessário, de agir com prudência e sensatez, de colocar em tudo, mesmo nas coisas graves, um toque de meiguice; de apoiar incondicionalmente, de esperar o melhor mas estar preparada para enfrentar o pior- se ele é a espada, ela é o escudo. Nina Von Stauffenberg nunca saiu do lado do marido - quando ele ficou gravemente ferido e quando ele aceitou tomar parte numa missão arriscadíssima por um bem maior, mesmo pondo em causa o bem estar da família. O seu heroísmo não foi inferior ao dele. It takes two to tango...
Friday, January 29, 2016
Quando uma mulher quer ser maluca, nem os Nazis a impedem.
Apesar de um certo humor negro - dentro dos limites, vá- não me desagradar, nunca na vida me imaginei a gracejar com o Holocausto. Mas o caso - contado neste artigo fantástico do Expresso- é verídico e não só diz muito da maluquice feminina (que nunca escolheu épocas) como da natureza humana, que é igual a si própria não importa quão negras sejam as circunstâncias.
Pois bem, imaginem-se como judeus em pleno Terceiro Reich. Fugir era dificílimo, a morte quase certa e os poucos amigos que ousassem esconder-vos arriscavam-se eles próprios a ir parar a campos de concentração e extermínio sem tir-te nem guar-te. Que fariam? Eu não sei quanto a vós, mas a não ser que me juntasse a um dos poucos movimentos resistentes (hipótese provável, pois detesto estar parada) ia tentar ser tão invisível quanto pudesse, e muito agradecida por cima.
Pois bem, não foi isso que fez uma tal Erika, vivaça rapariga de 19 anos e a última a ser escondida por um corajoso casal de médicos que sofreu severas consequências à conta disso: farta de estar confinada ao calor, não teve mais nada: decidiu ir para o terraço apanhar banhos de sol como Nosso Senhor a trouxe ao mundo.
E ainda por cima, de modo a ser vista pelos estudantes do liceu em frente, que depois de apreciarem o espectáculo julgaram tratar-se de uma louca suicida e chamaram a polícia. Atrás da polícia veio a Gestapo e se não é uma amiga da família, certificada 100% ariana, vir comprometer a sua reputação de mulher séria dizendo "nein, herr kommandant, quem estava a apanhar banhos de sol era eu!" tinha marchado tudo para Auschwitz naquele dia.
Ora, eu não tenho nada contra as pessoas tomarem banhos de sol como bem entenderem lá na sua privacidade. Se se sentem muito confiantes na sua figura e querem atirar fora a roupa, more power to you. Mas não à vista de todos e com a Gestapo à perna... ainda por cima, arriscando a pele de quem, por amor ao próximo, oferece a sua hospitalidade em circunstâncias tão complicadas. Isto de ser Bom Samaritano é mesmo um grande desafio. Além das conjunturas que apresentam sempre surpresas, ainda é preciso lidar com a potencial doideira de quem está a ser ajudado. Se isto não prova que há doidivanas que põem a vontade de ser exibicionistas acima de tudo, até da sua felicidade e segurança, não sei...
Thursday, January 14, 2016
Às vezes sabe mesmo bem ter razão - até em coisitas.
Lembram-se de termos falado no truque de usar blush para ajustar/realçar/fixar a cor do bâton e conseguir o mate perfeito?
Na altura tinha dito que não o inventei, li por aí e aperfeiçoei-o para as minhas necessidades depois de uma data de experiências. Pois bem, vi agora que é um truque careta, vintage (tinha de ser, não é? Nem de propósito...) muito usado pelos maquilhadores e estrelas de cinema durante a década de 1940.
Neste artigo engraçadíssimo da Marie Claire, Ida Gál-Csiszar, química lendária da indústria de cosmética (e responsável pelo formato, cores e fórmula de muita da maquilhagem que usamos actualmente - isso sim, é uma mulher poderosa e de sucesso, a juntar o espírito científico à feminilidade. Tomem, lá esta, feminazis de carteirinha) partilha algumas dicas que recebeu dos maquilhadores da era de ouro de Hollywood. Entre os quais esse, que aprendeu com Robert Salvatore, então maquilhador-chefe da Max Factor. "Continua a ser o melhor truque old-school do ofício: humedecer um pincel, molhá-lo em blush e aplicar nos lábios como se fosse uma base e para delinear os lábios por fora, antes do bâton. Assim o blush serve de "âncora" para a cor, permitindo-lhe durar o dia todo".
A dica é tão boa que Ida, a lançar a sua própria marca de cosmética, Gállany, criou um produto específico para conseguir esse efeito. Vale a pena ler o artigo, que recomenda outras ideias giras, como usar a máscara de pestanas para fazer de eyeliner (maçadora de tirar como é, deve durar de certeza).
Em suma, está legitimado o truque, já vi que o meu raciocínio estava correcto e cada vez mais me convenço de que a avozinha não dizia nenhum disparate quando me recomendava que fosse para cientista ao ver-me misturar cosméticos...ela lá sabia. Só foi uma pena eu não gostar de matemática...às tantas passei ao lado de uma divertida carreira a criar cremes, bâtons e sombras. Paciência, vou partilhando por aqui as minhas "descobertas".
Friday, September 18, 2015
Tendência: bâton castanho (mas pouco)
O bâton castanho, revivalismo dos anos 90, tem estado na ordem do dia a par com o delineador de lábios mais ou menos evidente.
Resisti-lhe bastante porque prefiro cores que iluminem o rosto... e o castanho, se mal escolhido ou mal acompanhado, é um tanto perigoso porque (especialmente em tons muito fechados ou cor de tijolo) costuma dar um ar adoentado e ressaltar olhos cansados, principalmente em louras ou ruivas. Assim, enfermiço:
Neste momento porém, o bâton "castanho" pode ser muita coisa, desde que tenha algum pigmento dessa cor: de um nude profundo ou rico a um acinzentado, passando por um tom chocolate, até ao bourdeaux quase negro.
A escolha vai depender do seu tom de pele. As mais morenas poderão tentar nuances profundas sem risco, já as branquinhas têm muitas opções intermédias por onde escolher.
A vantagem do castanho é que pode parecer edgy, quase vampiresco, mas discreto e distinto ao mesmo tempo. Ou seja, exige reflexão mas empregado adequadamente fica lindo, mesmo em looks mais clássicos do que vanguardistas.
As meninas tradicionais podem usar variantes de nude mais ricas ou inspirar-se nos anos 1940, para um ar retro, em vez de pensar em looks que remetem para o punk ou o gótico (que de qualquer modo, é tendência este Inverno).
Pode usar-se mate ou brilhante - aqui entre nós, acho que resulta melhor num mate aveludado. Nem "brilhento" como no início do milénio, nem um mate seco como nos anos 90 (lembram-se daqueles bâtons da tia, de longa duração, que pareciam cimento? Há quem esteja a ressuscitar essa textura; pessoalmente passo).
Como encontrar o "castanho" certo para si pode ser tão intrincado como descobrir o nude que lhe vai bem, recomendo uma técnica que tenho utilizado com bons resultados. Há uns meses usei-a para obter o nude e os bourdeaux que desejava:
Entretanto, esta semana decidi aplicar o truque conseguir para um castanho suave que me agradasse:
Aqui vai: escolha um bâton (neutro, cor de vinho ou se for ruiva, encarnado) que seja hidratante (pode ter algum brilho) para servir de base. Tendo os lábios delineados e pintados, pegue numa daquelas caixas de sombras com todos os tons do arco íris, que raramente utiliza (todas temos, vá la). Escolha uma cor ou mais para obter a nuance desejada.
Pode experimentar com diferentes castanhos e grenás. Use esponjas de sombra descartáveis ou os dedos para aplicar por cima o castanho/ bourdeaux/etc que quiser, preenchendo todo o contorno até ficar satisfeita com a cor. Além de permitir ajustar o tom ao milímetro, vai durar longas horas.
Assim escusará de investir num bâton passageiro ou de se arrepender com uma má compra, além de conseguir o mais impecável mate aveludado.
Friday, August 7, 2015
Um "capacete dos parvos" faz cá muita falta.
O Almanaque Bertrand de 1942 (que é giríssimo pois dedica vários artigos à "guerra actual", ou seja, à II Grande Guerra) continha um texto muito engraçado sobre as "máscaras dos parvos", de que já falámos em detalhe.
Ou seja, instrumentos de tortura psicológica (e em alguns casos, física) que surgiram na Idade Média mas ficaram muito na moda entre o sec. XVI e XVIII, sobretudo em Inglaterra. Serviam para punir quem bebia demais, quem causava desordens e coisas desse tipo, mas as mais populares eram as mordaças (muito usadas em mulheres escandalosas, atrevidas e linguarudas, embora às vezes também houvesse homens cordilheiros a sofrer esse castigo) e as tais "máscaras dos parvos", umas orelhas de burro que ficavam a matar em quem dava ouvidos a mexericos.
Mas a grande verdade estava no comentário final do artigo, que subscrevo inteiramente:
"Os tempos mudaram e já as mulheres podem falar, intrigar, gritar, vociferar e escandalizar quanto tenham na vontade, sem serem amordaçadas. Não se pode deixar de confessar, porém, que há casos em que é pena todos esses instrumentos estarem inutilizados em museus (...) pois não só nalguns exemplares do sexo fraco mas também do forte assentaria, admiravelmente e a propósito, um destes capacetes".
É que como já se disse, se numa mulher a indiscrição e a mexeriquice são hábitos feios, num homem cobrem-no de ridículo. Não há maior sinal de fraqueza nem coisa tão efeminada.
Mas tenho para mim que na era das redes sociais, não haveria "capacetes" que bastassem para tanto bisbilhoteiro....
Thursday, August 6, 2015
Roza Shanina, profissão: sniper
Muitas mulheres dizem "tenho cá uma pontaria!" geralmente para se queixarem das suas escolhas menos felizes. Mas no caso de Roza Shanina a frase
aplicava-se literalmente. É que há uma enorme diferença entre ser uma mulher da luta e uma mulher capaz de lutar quando é caso disso.
A II Guerra Mundial deu a inúmeras mulheres de ambos os lados do conflito a oportunidade (já que a necessidade aguça o engenho) de provar o seu valor ao serviço da Pátria, quer nos territórios da espionagem e resistência quer no próprio campo de batalha.
A presença feminina nas forças armadas e de segurança ainda hoje é alvo de ampla controvérsia, pelo menos quanto aos papéis que podem ou não ser desempenhados por mulheres.
Curiosamente, algumas das vozes mais assumidamente machistas consideram esta opção uma forma de as mulheres ganharem realmente respeito em vez de andarem por aí a gritar em topless contra a opressão patriarcal (e há que concordar que a haver total igualdade, é justo que passe por aí; não me consta que as israelitas e as norueguesas fiquem traumatizadas com o serviço militar obrigatório); outras discordam com base no argumento da força física, sustentando, por exemplo, que uma mulher será obrigada a sacar da arma para dominar um oponente mais forte, arriscando-se assim um número de baixas desnecessárias ou abusos.
E por fim há quem defenda uma perspectiva que me parece a mais equilibrada: que tem de haver atenção às diferenças físicas e psicológicas, logo as mulheres devem ser colocadas estrategicamente já que algumas características tipicamente femininas, como a habilidade, astúcia, atenção ao detalhe, agilidade e paciência podem ser muito úteis. Os russos pensavam assim durante a II Grande Guerra, por isso empregaram mais de 2 mil mulheres franco-atiradoras.
Apesar disso Roza Yegorovna Shanina (uma educadora de infância com instrução universitária) encontrou alguma oposição por parte dos recrutadores, cientes da mortandade que se passava na frente de batalha. Mas Roza, querendo vingar a morte dos seus três irmãos, insistiu e em 1942 juntou-se à academia feminina de snipers soviéticas.
Uma vez em acção esta rapariga loura e bonitinha, aparentemente frágil e que ainda não tinha completado 20 anos, abateu mais de 18 soldados nazis em menos de um mês. Roza era corajosa ao ponto da imprudência, recusando ordens para retirar e indo além das suas funções como atiradora: chegou a capturar alemães por suas próprias mãos.
Ferida em combate, regressou rapidamente - foi uma das seis sobreviventes num batalhão de 78 elementos do qual 72 caíram - o que lhe valeu honrarias e uma fama a condizer: chamavam-lhe o Terror invisível da Prússia Oriental! Porém, a sua brilhante carreira duraria menos de um ano: morreu em Janeiro de 1945 durante a ofensiva final contra a Alemanha, pouco antes do fim da guerra, atingida no peito por um estilhaço de artilharia.
Mais de 50 inimigos tinham perecido às suas mãos - um número proporcionalmente extraordinário considerando que por exemplo Chris Kyle, o famoso sniper da ocupação do Iraque, contou estimadamente 255 mortes ao longo de dez anos de serviço.
E nota bene, Roza cumpria este triste dever sem perder um pingo da sua feminilidade e elegância. Reparem na sua compostura, sempre aprumada e com um sorriso gentil. A girl´s gotta do what a girl´s gotta do...
*Fonte via
Wednesday, July 22, 2015
Os heróis de 20 de Julho
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| Conde von Stauffenberg, General von Tresckow e Conde von Heinrich von Lehndorff-Steinort |
Esta semana assinalou-se uma efeméride importante: o atentado para assassinar Hitler a 20 de Julho de 1944, culminar da conspiração falhada que passou à História como Operação Valquíria e visava acabar com a Guerra, derrubar o regime Nazi e fazer a paz com os Aliados .
Curiosamente, não vi nada por aí a lembrar a data, o que pode significar uma de duas coisas: ou a sociedade recorda mais os vencedores do que a coragem e nobreza que é precisa para abrir o caminho para a vitória, ou estas ideias ancestrais andam com baixa cotação...
De qualquer modo, o que é que três oficiais mortos na Alemanha nazi há 71 anos importam para a nossa vida?
Importa o exemplo. A II Guerra Mundial, se trouxe à superfície o pior do ser humano, terá sido igualmente um dos últimos cenários em que um grande número de pessoas agiu com verdadeiro heroísmo. Ou porque a cultura do "eu, eu, eu" ainda vinha longe, ou porque (dirão alguns) face à barbárie não houve outro remédio. Não podemos prever como os homens e mulheres de hoje reagiriam a circunstâncias semelhantes -espero que nunca sejamos obrigados a descobrir - mas as prioridades e valores mudaram tanto que creio que gente deste quilate é muito rara. Apetece afirmar "já não se fazem homens assim!".
| Busto de Stauffenberg (Museu da Resistência, Berlim) |
A conspiração foi encabeçada pelo Conde Claus Von Stauffenberg (reputado Coronel das Forças Armadas Alemãs e pai de cinco filhos), ajudado pelo pai da célebre modelo Veruschka, o Conde Heinrich von Lehndorff-Steinort e pelo General Henning von Tresckow, nobre prussiano responsável pela Resistência Alemã e por delinear o plano, entre outros importantes oficiais.
Os três vinham de famílias da nobreza tradicional alemã; eram casados, profundamente patriotas e Católicos; logo, como bons militares, inicialmente tinham-se deixado seduzir por tudo o que representasse uma Alemanha gloriosa. No entanto, a crueldade contra os judeus, o massacre gratuito de outros inúmeros inocentes e algumas más e descontroladas decisões estratégicas de Hitler causaram a revolta. Von Tresckow teria afirmado, em 1943 "não sei como é que pessoas que se proclamam Cristãs podem apoiar um tal regime".
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| Lehndorff-Steinort e Stauffenberg com os filhos |
Stauffenberg, apesar de nos primeiros tempos admirar o poderio marcial de Hitler, sentia-se repugnado pela maior parte das suas ideologias e nunca se tornara membro do Partido Nazi; de resto, o tratamento dos judeus ofendia a sua consciência Católica. Durante a invasão da União Soviética, assistiu a crimes tão horrendos que decidiu juntar-se à Resistência (Widerstand) que operava dentro das Forças Armadas- a única organização capaz de fazer frente às SD, Gestapo e SS. E foi já como resistente que se tornou um herói de guerra, tendo perdido um olho, a mão direita e vários dedos da esquerda na campanha do Afrika Korps.
Também Lehndorff-Steinort foi convencido a resistir por von Tresckow durante a Operação Barbarossa em 1941 - tarefa fácil depois de testemunhar o massacre da população judaica na Bielorrússia.
Todos sabiam que arriscavam muitíssimo, pois Alta Traição era punida com a morte: Claus Von Stauffenberg disse à família "se eu conseguir, cometerei Alta Traição, se não conseguir estou a trair a minha consciência" e comentou com um jovem conspirador, o Barão von dem Bussche, "estou a cometer Alta Traição com todos os meios ao meu dispor...de acordo com a lei natural, para defender a vida de milhões ".
Depois de um plano falhado, o Conde von Stauffenberg decidiu matar Hitler pessoalmente. Como o resto do grupo, estava ciente de que as possibilidades de sucesso eram muito remotas e que o mais certo era a tentativa custar-lhes a vida. Mas o General von Tresckow animou-o: "mesmo que falhemos, temos de agir. É a única forma de mostrar ao mundo que a Alemanha e o nazismo não são uma e a mesma coisa".
Após várias tentativas abortadas de atacar Hitler, Himmler e Göring no mesmo local, o atentado foi levado a cabo na Toca do Lobo, o primeiro quartel - general de Hitler na Frente Oriental. Porém, houve dificuldades para armar e colocar as duas bombas planeadas (montadas como bombas britânicas, para desviar as atenções) tanto por causa das limitações físicas de von Stauffenberg, como por questões de localização (houve mudanças de planos no local das reuniões e pessoas a entrar e a sair, que obrigaram a agir apressadamente). A segunda bomba, escondida numa pasta sob uma mesa de carvalho, foi movida, sem querer, pelo Coronel Heinz Brandt, que não sabia do que se tratava e assim salvou a vida de Hitler...
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| A "Toca do Lobo" depois do atentado |
Quando se deu a explosão, o Conde - que conseguiu escapar - julgou que ninguém tinha sobrevivido. Mas cedo Goebbels e logo a seguir, o próprio Hitler, anunciaram na rádio que, apesar de haver vários mortos e feridos, o golpe tinha falhado. Os conspiradores sabiam que tudo estava perdido para eles: no covil destruído, o führer pôs-se a gritar "eu sou imortal" e a planear a sua vingança.
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| O Conde von Stauffenberg com a sua mulher, Nina; com o pai e irmãos (os gémeos Berthold e Alexander); junto dos filhos, a recuperar dos ferimentos de batalha. |
Stauffenberg, de 36 anos, foi fuzilado a 21 de Julho com outros companheiros e, apesar de enterrado com as suas medalhas e todas as honras militares, Hitler ordenou mais tarde que fosse exumado e cremado. Toda a família foi cruelmente perseguida: a esposa, grávida, foi presa e os filhos internados em orfanatos sob outro nome, mas o seu irmão mais velho, Berthold, de 39 anos e também envolvido, teve pior sorte: seria lentamente garrotado em Agosto desse ano (Hitler fez questão de mandar filmar a horrenda execução, para a apreciar nas horas vagas).
O Conde von Lehndorff-Steinort foi enforcado a 4 de Setembro, com apenas 35 anos de idade. A sua mulher e quatro filhas tiveram os bens confiscados e passaram o resto da guerra em campos de trabalho. Também o famoso Marechal-de-Campo Rommel, a Raposa do Deserto, foi implicado. Devido à sua popularidade como herói de guerra, Hitler quis conservar-lhe a reputação intacta e deu-lhe a hipótese de se suicidar discretamente, aparentando morte por causas naturais. Rommel aceitou, para salvar a sua família. Ao todo, cerca de 5000 pessoas foram presas e 200 executadas.
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| Henning von Tresckow e a mulher, Erika, que participou na conspiração |
Suicidou-se a 21 de Julho, deixando as palavras: " O mundo condena-nos agora, mas sei que fizemos o que estava certo. Hitler é o arqui-inimigo não só da Alemanha, mas do mundo. Dentro de horas, estarei perante Deus a contar-lhe o que fiz; Ele prometeu que pouparia Sodoma se houvesse dez justos na cidade, por isso espero que não destrua a Alemanha. Nenhum de nós pode queixar-se de morrer, pois quem se juntasse a nós sabia que vestia a túnica de Nessus...a moral de um homem só vale quando ele está disposto a dar a vida por essas convicções".
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| Tom Cruise como Stauffenberg no filme Operação Valquíria (2008) |
Há dias falávamos de como sem bússula moral, um povo fica sujeito a todos os males. E os conspiradores da Operação Valquíria sabiam disso: fossem bem sucedidos, não só teriam salvo incontáveis vidas como poupariam à sua pátria uma derrota militar humilhante, com uma saída honrosa do conflito. Onde não há ética nem nobreza de princípios, não pode nascer nada de bom. S. João Crisóstomo disse "não é possível que a paz subsista se a virtude não prosperar". Às vezes é preciso que a virtude prospere mesmo nos terrenos mais acidentados, quando ninguém vê mal nos piores males.
Tuesday, July 21, 2015
As coisas que eu ouço: ah noiva valente!
Esta história passou-se numa certa paróquia há mais de 70 anos, e quem ma contou não mente...
Uma noiva de família muito Católica, querendo preparar-se mental e espiritualmente para receber esse Sacramento, tomou a decisão invulgar de entrar na Igreja antes do noivo - não por estar com muita pressa, mas para rezar um bocadinho antes de dar o grande passo.
Entretanto o futuro marido, que até ali nunca lhe tinha dado desilusões e parecia ser um doce de pessoa, chegou também e vendo-a ajoelhada num dos últimos bancos, sem mais aquelas
sussurrou-lhe ao ouvido "reza, reza, que é a última vez que aqui entras".
Não sei se o que lhe terá dado tal assomo de sinceridade: teria apanhado uma forte intoxicação na despedida de solteiro e ainda estava sob o efeito dos vapores? Teria andado a fingir-se de santo durante o namoro e agora, achando-se seguro, revelava a sua verdadeira face (ou seja, daqueles que não crêem nem deixam crer) ? Ou alguma coisa mais sinistra?
O certo é que a rapariga ouviu e calou. Terminou a sua meditação, dirigiu-se ao altar e a cerimónia começou sem novidade, com a Igreja a abarrotar de ilustres convidados, até que o Padre lhe perguntou como era suposto "fulana de tal, aceita sicrano por marido, etc"?.
Resposta dela, alta e clara: Não!
O sacerdote, assarapantado, insistiu: desculpe, menina?
E a noiva tornou: disse que não caso com este cavalheiro, porque eu estava ali ajoelhada a rezar e ele disse-me "reza, reza, que é a última vez que aqui entras".
E assim se desmanchou o casório ali mesmo, envergonhando o fingido diante de toda a assistência. Houve escândalo, mas toda a gente louvou a sua coragem...
Admirável sangue frio! Extraordinária dignidade feminina! Senão, reparem: decerto ela gostaria do rapaz, ou não estaria para casar com ele; depois havia toda uma maçada de sonhos desfeitos, de tempo perdido, de preparativos inutilizados, para não falar nos mexericos que se hoje não seriam agradáveis, naquele tempo eram muito piores.
Quantas, mesmo agora, recuariam ao descobrir que o noivo não era a pessoa que demonstrara ser? Conheço muitas que são tão inseguras, andam tão desesperadas (e em alguns casos, são tão gananciosas) que casariam com o próprio diabo desde que o diabo as carregasse...(e se as carregasse em grande estilo, melhor ainda).
Neste caso específico, a noiva rompeu porque ele, sabendo-a religiosa, fingira ser outro tanto, ou pelo menos respeitar as crenças dela, para afinal revelar valores totalmente opostos; pior ainda, mostrava ser um déspota, no mínimo. No entanto, há os que, com o mesmo descaramento e maior antecedência, apresentam claramente defeitos sem remédio: uns são infiéis, outros forretas, outros perdulários, estroinas, agressivos ou ciumentos patológicos...e elas, ou por amor, ou por tolice, ou por receio de ficarem para tias, vão pensando "pode ser que depois de casado não seja assim!".
Ora, se um defeito é insuportável, irreconciliável, não se deve esperar que melhore. Se é coisa com que se possa lidar, bom (e cada uma tem o seu ponto de ruptura; o que é tolerável para uma mulher, pode ser o fim do mundo para outra); ninguém é perfeito. Se é algo mais grave...há que pensar na sábia frase de S. Tomás de Aquino: parvus error in principio magnus erit in fine.
Um pequeno erro no princípio será um grande erro no fim...
Sunday, July 19, 2015
Rosie the Riveter: símbolo feminista...mas pouco.
O poster "We can do it!", criado em 1943 para elevar a moral dos trabalhadores durante a II Guerra Mundial, pouco foi visto durante essa altura...
mas tornou-se famosíssimo ao ser redescoberto na década de 80 e desde então, tem sido usado para promover o feminismo e outras agendas políticas.
A estampa de propaganda de guerra foi inspirada na imagem de uma bonita operária de 17 anos, Geraldine Doyle, captada por um fotógrafo da United Press durante o seu turno. Geraldine, que acabara o liceu, tinha-se juntado ao esforço de guerra comovida por perder vários amigos da sua idade; era nova na fábrica e estava encantadora com o seu macacão de trabalho e uma bandana encarnada no cabelo...
O artista J. Howard Miller viu o retrato, inspirou-se, lá inventou aquela pose de braço erguido e criou então a célebre personagem Rosie the Riveter. Mas o mais engraçado é que Geraldine não sonhava nada disso, nem o soube por décadas: era uma violoncelista dedicada e quando ouviu que a trabalhadora que viera substituir tinha lesionado gravemente um braço ao operar a maquinaria de prensar metal, despediu-se sem pensar duas vezes. Pela altura em que o cartaz saiu, um ano depois, estava bem casada com um dentista e transformada na mais típica dona de casa americana...
Ou seja, a modelo que se tornou um símbolo das mulheres reivindicativas, independentes e modernas (com tudo o que isso tem de mau e de bom) era do mais tradicional que podia haver. Ficou muito surpreendida quando lhe disseram, 40 anos depois, que tinha sido a inspiração para a famosa Rosie!
Claro que não se fala muito da história verdadeira, para não dar cabo do mito de Rosie, o mulherão de faca na liga.
E que nos diz isto? Talvez mostre como é redutor etiquetar as mulheres ou as suas opções com base em qualquer agenda ou ideologia. As mulheres fazem o que têm a fazer quando é preciso fazê-lo e mais nada; podem ser fortes num dia e delicadas no outro que isso não tira nem põe. Geraldine estava a desempenhar o trabalho que lhe pareceu conveniente numa determinada altura da sua vida e num momento muito delicado da História. Tornou-se um símbolo casualmente, por ser bonita. Depois viu que nada aquilo era para ela e quis levar uma existência mais recatada, a criar os filhos, fazer bolos e tocar violoncelo.
O que não faz dela menos poderosa - qualquer esposa e mãe saberá que essa é uma tarefa tão exigente como montar mísseis.
Tuesday, July 7, 2015
Hotel da Estrela: um retiro encantador no coração de Lisboa
Quem por aqui passa já conhece o meu fraquinho pelos ambientes de outros tempos. E quando se trata de me deslocar, prefiro instalar-me num local com carácter- se possível, com história. Ou neste caso, com diferentes histórias e uma atmosfera diferente. Que transmita uma sensação acolhedora, familiar, tranquila e com um toque de mistério.
O Hotel da Estrela (cujo edifício começou por ser, no sec. XIX, a residência dos Condes de Paraty, e mais tarde foi convertido em escola) é um desses lugares especiais.
Junto à Basílica e Jardim da Estrela e ao bairro de Campo de Ourique, a 10 minutos do bulício do Chiado e da Avenida da Liberdade - ideal para quem viaja em passeio, lazer ou negócios, portanto - o Hotel da Estrela oferece, porém, a ideia de um retiro perfeito.
| Como precisei de usar um vestido de noite durante a estadia, não resisti a captar a atmosfera para partilhar convosco! |
Sabem os romances vitorianos em que um cavalheiro vê passar uma perturbante desconhecida, perde-a de vista e depois indaga onde ela mora, sem sucesso, pois está escondida numa qualquer casa encantadora na grande cidade? Pedro da Maia às voltas, em busca de Maria Eduarda? Foi essa romântica sensação que tive ao chegar. Uma mulher enigmática podia refugiar-se ali dos olhares dos admiradores, esperando o amor de quem se desencontrara em Paris ou no Cairo. Ou, numa perspectiva mais actual e optimista, um casal poderá escolher o Hotel da Estrela para um passeio elegante e cheio de significado.
Membro da Small Luxury Hotels of the World, este pequeno hotel de charme oferece essa atmosfera intimista na dose certa, colorida por toda uma envolvente retro que evoca as escolas de outros tempos.
O conceito está presente desde os quartos e corredores, sarapintados de rabiscos a giz, até ao restaurante (que se chama, precisamente, a Cantina da Estrela; recomenda-se o pequeno almoço, com doces tradicionais e vista para o delicioso jardim) onde não faltam sequer os bengaleiros em fila.
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| O bonito jardim, com vista para a Basílica. |
A suite, muito espaçosa, combina habilmente o design contemporâneo e a cama Hästens - considerada a melhor do mundo - com a iconografia da nossa infância. Só a atenção ao detalhe vale uma visita. De notar também os produtos de toilette da Real Saboaria, sempre um agrado para os sentidos presente nos hotéis do grupo.
Quem estudou em edifícios antigos antes de começarem a substituir todos os adereços por versões modernas e eficientes (mas também assépticas e sem metade da magia) encontrará aqui um regresso às ardósias, ao giz, às secretárias de madeira, aos mapas e transferidores de pinho, aos livros que cheiravam a biblioteca... enfim, à boa antiga portuguesa, mas sem réguas nem palmatórias assustadoras. Afinal, é para isso que as memórias servem: para conservar os aspectos belos e que nos fazem sentir bem. Não há nada de melancólico no Hotel da Estrela. Só o charme e elegância de tempos idos, adaptado ao conforto e exigência do sec. XXI.
de Lisboa). Por isso decidimos ligá-lo a esse imaginário que nos diz tanto a todos, a Escola. Mais que uma estadia num hotel, os nossos hóspedes serão transportados para um universo que lhes foi em tempos familiar… Estando ao lado da Escola de Turismo, alguns dos nossos colaboradores são alunos dessa escola, trabalhando no hotel como forma de enriquecer a sua formação, da qual cada hóspede faz também parte.
O Hotel da Estrela tem um tema que traz de volta o espírito das escolas antigas, oferecendo uma experiência de estadia verdadeiramente original. O hotel, que em tempos foi uma escola, fica situado ao lado de duas das mais emblemáticas escolas de Lisboa, o Liceu Pedro Nunes e a antiga Escola Machado de Castro (actualmente Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa). Por isso decidimos ligá-lo a esse imaginário que nos diz tanto a todos, a Escola. Mais que uma estadia num hotel, os nossos hóspedes serão transportados para um universo que lhes foi em tempos familiar… Estando ao lado da Escola de Turismo, alguns dos nossos colaboradores são alunos dessa escola, trabalhando no hotel como forma de enriquecer a sua formação, da qual cada hóspede faz também parte.
O Hotel da Estrela tem um tema que traz de volta o espírito das escolas antigas, oferecendo uma experiência de estadia verdadeiramente original. O hotel, que em tempos foi uma escola, fica situado ao lado de duas das mais emblemáticas escolas de Lisboa, o Liceu Pedro Nunes e a antiga Escola Machado de Castro (actualmente Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa). Por isso decidimos ligá-lo a esse imaginário que nos diz tanto a todos, a Escola. Mais que uma estadia num hotel, os nossos hóspedes serão transportados para um universo que lhes foi em tempos familiar… Estando ao lado da Escola de Turismo, alguns dos nossos colaboradores são alunos dessa escola, trabalhando no hotel como forma de enriquecer a sua formação, da qual cada hóspede faz também parte.
Sunday, July 5, 2015
As mulheres de 1947 x as de hoje: será que as coisas mudaram assim tanto?
Em 1947, uma jornalista entrevistava o Dr. António Emílio de Magalhães, (médico, sociólogo, filantropo e um dos fundadores da Liga Portuguesa de Profilaxia Social) para a revista de que temos aqui falado, numa rubrica dedicada a saber a opinião masculina sobre o papel da mulher na sociedade.
Eis mais uma diferença que noto entre as revistas femininas de antigamente e as actuais: preocupavam-se em saber a opinião "deles" sobre nós. Não deixava de ser sensato ouvir os homens e assumir que eles eram, afinal, parte interessada...tal como são hoje. No entanto, as publicações de agora parecem, na maioria, preocupar-se com isso apenas quando se trata de conselhos de alcova. É como se fosse ofensivo pensar que os homens possam ter voto na matéria em qualquer outro ângulo da vida feminina, porque afinal, já sabemos fazer tudo o resto sozinhas sem dar cavaco a ninguém. O que me leva a pensar cá com os meus botões "depois não se admirem se as mulheres, não se preocupando em agradar senão nesse aspecto, sejam vistas por alguns apenas nesse sentido..."
Voltemos ao entrevistado: à data, a organização que co-fundara ocupava-se em combater os males de saúde pública e as chagas sociais mais preocupantes (como o hábito de andar descalço, a sífilis e a tuberculose) recorrendo, entre outros métodos, a campanhas de comunicação bastante inovadoras.
O bom doutor dedicava-se a várias causas nobres: os sem abrigo, as crianças e jovens em risco, as mulheres de rua, a criação de sanatórios...e apesar de se declarar celibatário (embora não recomendasse tal receita) tinha ideias bastante interessantes sobre a intervenção feminina na vida pública e no mercado de trabalho. É preciso notar que a sua organização se bateu ainda pelos direitos das profissionais da altura, movendo influências pelo "casamento das telefonistas e enfermeiras" já que era suposto apenas as solteiras trabalharem!
A repórter Isa de Corsa ia para a reunião com o Dr. Magalhães "alegre e saltitante como um pardal" porque um artigo que escrevera anteriormente sobre a Liga tinha comovido um leitor desconhecido do Rio de Janeiro, que enviara "um cheque de dez contos" (cerca de €400, corrijam-me se estou errada) para o Lar das Raparigas de Rua, uma das obras geridas pelo entrevistado. Eis como o jornalismo no feminino tocava as consciências...
Depois, perguntando-lhe "concorda que a mulher trabalhe fora do lar?" ele deu uma resposta que, embora segundo pensamento de um homem do seu tempo, quer-me parecer que levantaria algumas questões válidas ainda hoje:
"Em princípio, quanto à obreira, e outra que não seja a empregada de escritório, a enfermeira, etc...eu preferia que elas não trabalhassem fora do lar. Mas sabendo que isto não passa de puro idealismo tendo em vista o baixo nível económico do país, tenho não só que concordar como
louvá-las pela heroicidade do seu trabalho - tantas vezes executado em meios mal preparados, que não têm pela dignidade da mulher o devido respeito. Chega a ser necessidade imperiosa ajudar os maridos...e faz pena que algumas sejam tão mal remuneradas, e por vezes por patrões que têm fabulosas fortunas!".
(Nada disto mudou assim tanto desde 1947 - Portugal é um dos países da Europa com maior taxa de mulheres no mercado de trabalho, mas não só por bons motivos - o número elevado deve-se também aos baixos salários que não permitem a uma família sobreviver apenas com uma fonte de rendimento, por muito que isso complique a educação e acompanhamento dos filhos).
"Seria óptimo que assim fosse [as mulheres viverem só para o lar] em determinadas condições isto é, se os maridos ganhassem o suficiente. Mas não vejo a mesma necessidade [de ser só dona de casa] quanto à mulher que se dedica às artes, às ciências, aos problemas pedagógicos e sociais. A mulher que seja inteligente e bondosa pode e deve agir num vasto campo em que útil e brilhantemente se poderá evidenciar"...
Depois, perguntaram-lhe o "palavrão": não concorda que a mulher se intrometa em política?
- "Conforme o que se depreender por política. - respondeu - Se o termo for tomado na acepção vulgar - o de politiquice - de modo algum. A mulher é séria demais para se deixar diminuir ou desprestigiar por essa paixão que nada tem de edificante. Mas se o termo for empregado como sinónimo de arte de unir os povos, de ser útil à pátria, de cuidar da assistência aos cegos, tuberculosos, etc, etc, assim como de agir nos campos da pedagogia, das artes, da protecção à criança, etc, acho muitíssimo bem que a mulher se envolva em política".
Estes aspectos estariam na ordem do dia no pós Guerra (quando as mulheres tinham recentemente montado bombas e pilotado aviões). Porém,são discutidos ainda hoje, com muitas profissionais a dar cartas em áreas tradicionalmente masculinas - como a engenharia - mas ainda em acentuada desvantagem numérica, não se sabe se por uma questão cultural ou aptidão natural. Se por um lado, algumas mulheres se sentem diminuidas ao serem incentivadas a escolher profissões ou especialidades "mais a condizer" com um perfil tradicionalmente feminino, outras defendem que não há necessariamente mal algum em tirar partido da nossa sensibilidade natural, actuando maioritariamente em campos como a educação, a saúde feminina e infantil, a acção social, as artes, etc.
Quanto à política, muito já foi dito aqui sobre o assunto - a história e a actualidade provam que há o muito bom e muito mau! Nisso quer-me parecer que as mulheres são mais de extremos que os homens...
Sobre a dinâmica entre marido e mulher, o médico achava que "o homem superior tem de ser educado para elevar a mulher".
Muito engraçada também era a sua opinião acerca daquilo que era melhor: a mulher "antiga" ou a "moderna"? Quase podia pedi-la emprestada para usar como manifesto aqui do IS...
- "Conforme! Se a mulher antiga é a bota de elástico sem pensar elástico para compreender os problemas modernos, fora com ela! Se a mulher moderna é das frívolas, que se apresentam quase despidas, falam em calão grosseiro, contrário à fina ironia, etc...fora com ela! Mas se a mulher antiga é da categoria de Carolina Michaelis de Vasconcelos e de outras tantas ilustres- venham as antigas! E venham também as modernas que se vistam com elegância e aprumo, que tirem cursos secundários e superiores, que saibam, enfim, ocupar brilhantemente o seu lugar qualquer que ele seja. Resumindo, seria óptimo que a mulher actual fosse um traço de união entre a beleza antiga e a moderna... beleza que eleva o espírito em prol da decência e do progresso e também a que obedece às regras da estética. E é por isso que tudo o que os governantes façam para elevar o nível mental, moral e social das mulheres, nunca será demasiado...".
Tuesday, June 30, 2015
Maria Sticco: se todas tivéssemos tão boa professora!
Esta semana citei Maria Sticco, autora italiana que escreveu um livro fascinante: "O Dever e o Sonho" . Encontrei uma edição de 1943 e fiquei agradavelmente surpreendida ao perceber que se pode obter uma versão recente na Fnac. Como ainda não lhe tive acesso, duvido que a tradução seja tão perfeita como a antiga, pelo que recomendo uma voltinha por alfarrabistas ou mesmo por alguns pontos de venda online.
E porquê? Porque à luz da espiritualidade - mas também de Maquiavel, Catulo, Keats, Safo, Dante e outros poetas e pensadores - esta professora universitária de Milão oferece simultaneamente uma prosa divinal e conselhos de enorme bom senso para lidar com todos os desafios.
E desenganem-se se pensam que são ideias que já não se aplicam...qualquer pessoa sensata (e as mulheres em particular) poderá beneficiar com a sua abordagem ao sofrimento, à harmonia conjugal, às idas e vindas em sociedade, aos deveres e à forma de estar na vida.
Numa época em que tanta gente se deleita a ler ideias de auto ajuda de gurus suspeitos que "sofreram muito na vida" (esta ouvi ontem, a propósito de um português com grande aceitação nas redes sociais) ou porque escrevem frases picantes - e sórdidas - para partilhar em facebooks e afins, mais do que nunca faz falta a pluma de uma verdadeira Senhora (e de uma senhora que realmente sabe escrever) para ensinar alguma coisa de válido.
Aqui entre nós, acho que os conselhos cairiam em saco roto para muito mulherio, já que estão mais na moda os livros, revistas e sites que dizem o que as mulheres querem ouvir, e não o que lhes faz falta aprender . Hoje ninguém gosta muito de falar em "deveres"...mas sem o devido equilíbrio entre o sonho e o dever, é impossível ter uma alma saudável. Ou uma vida feliz. É preciso, para realizar os sonhos de forma benéfica, "fazer com que o sonho se transforme em dever, e dar ao dever o encanto do sonho".
O livro é tão cativante que para o citar com justiça o post ficaria enorme, mas deixo alguns excertos curiosos.
Sobre o "profiling" dos habitantes através do aspecto da sua casa:
Receita para conservar a "chama" do amor no casal:
A diferença entre a paixão que destrói e o "amor que salva"
O papel da mulher era, como é fácil de imaginar, uma preocupação sua; a harmonia entre a forma tradicional de estar e a independência, o comportamento senhoril das jovens, a intimidade, o papel das esposas e das mulheres que desejavam uma carreira, a vida doméstica, familiar e espiritual, a vaidade e a beleza, todos esses aspectos são amplamente analisados, e com que lucidez, que mistura de ânimo varonil - que nada tem a ver com masculinizar-se - e graça feminina!
Se o livro é assim, imagino o privilégio que não terá sido assistir às suas aulas. Como fazem falta professoras destas!
Wednesday, June 17, 2015
O amor perfeito nos anos 1940...e a confusão do nosso tempo.
"O verdadeiro amor não admite nenhuma reserva no dom de si e não prevê termo à sua duração. Qualquer advérbio o trairia.... Negar-se-ia a si mesmo se afirmasse "eu amo-te agora", "eu amo-te por algum tempo". Diminuir-se-ia se confessasse "eu amo-te muito". Não. Ele só pode declarar "eu amo-te" englobando neste laconismo toda a intensidade e duração, negando ao mesmo tempo toda a restrição.
O amor é total e por isso quer a intimidade dos espíritos, do coração e dos corpos. Sofre com as omissões, os segredos ciosamente conservados, os recantos sombrios e misteriosos que se escondem no coração. Reclama a plenitude do coração, quer ser amado só, teme todo o rival. Por natureza é ciumento. Aspira à união porque espera realizar o seu sonho - sempre um tanto iludido - de posse total, decisiva e definitiva, da unificação e identificação com o ser amado.
Digamos entretanto que chegado à sua plenitude, quando a fusão se conseguiu, o amor não conhece mais o ciúme; a confiança é absoluta e recíproca.
Tal é a plenitude psicológica do amor e as suas características humanas; tal é o amor integral e perfeito que Deus quis..."
Pierre Dufoyer
Isto retirado de um manual de comportamento (masculino) datado de 1948. Claro que - o próprio autor o diz - o texto descreve o ideal e não necessariamente a realidade daquele tempo.
Porém, o ideal norteia os esforços; por ele se medem as atitudes pois ainda que não se alcance esse padrão em absoluto, tudo o que se pensa, faz e diz procura conformar-se com ele. Uma pessoa é sempre a melhor versão possível dos seus modelos de vida: quem aspira à maior perfeição pode não chegar lá, mas andar perto; e com certeza, não vai agir de forma muito contrária àquilo que admira e defende. É assim com tudo, nas coisas mais simples do quotidiano e nas mais sérias - no posicionamento das marcas, nas dietas, na missão das organizações, nos lemas de vida, na forma de vestir, de pensar, de viver, nos princípios de carreira, na Fé, na forma de estar em família, nas ideias políticas, nas amizades e companhias. Estabelecemos padrões e guiamo-nos por eles.
Quando os padrões descem, a qualidade desce. E quanto menos exigente for o padrão à nossa volta, quanto mais flexíveis e relativos os ideais em que uma pessoa é educada e os que mantém para si, mais fácil é escorregar.
Ora, em 1948 as relações humanas estariam longe de ser perfeitas; mas o padrão de comportamento actual, o "ideal" de hoje - se é que existe - é mais rápido, frenético, efémero, elástico, fluido, descartável, frívolo, egoísta e irreflectido. As aspirações humanas ao amor, à companhia, à exclusividade e estabilidade são imutáveis; as receitas para lá chegar, porém, mudaram, ou foram esquecidas por completo.
Como disse Zygmunt Bauman "vivemos tempos líquidos; nada é para durar". Antigamente procurava-se ir da alma para o corpo; avaliar compatibilidades, apreciar as subtilezas do espírito e os indícios, formar laços sólidos antes de partir para o resto. As mulheres reconheciam a sua vulnerabilidade e tiravam partido dela; os homens faziam gala de a proteger e apreciar; e as fronteiras da lealdade, do compromisso, as nuances da fidelidade estavam bem definidas. Não que isto fosse sempre cumprido ou igual para toda a gente - não era. Mas tentava-se. O próprio comportamento vigente a isso obrigava - os homens apaixonavam-se pelas mulheres totalmente vestidas e à distância; oferecer um retrato a alguém era um passo muito sério, que podia cobrir uma rapariga de ridículo; em tempos mais recuados ainda, chegava-se a namorar pela linguagem dos leques, por carta...as pessoas deixavam de se apaixonar por causa disso? Não.
Agora o comportamento feminino é de tal maneira agressivo que um rapaz estranha se uma jovem não lhe envia, como as outras, selfies reveladoras...ou terá o descaramento de dizer, muito ofendido, a uma paixoneta que não chegou a dar-se "se nos tivéssemos envolvido fisicamente mais cedo, ainda agora estávamos juntos".
Entre o "amor" e um "test drive" a diferença é muito pouca. E isso funciona para quem procura divertir-se, atenção - torna-se é confuso para quem não adere a tais ideias ou para os que procuram outro tipo de relacionamento. Aplicam-se ao amor que se quer para durar as mesmas regras das relações fugazes. É como tentar fazer um bolo com uma receita de canapés!
Pior ainda, mesmo entre as pessoas mais sérias, mais graves ou menos desmioladas, com uma forma de pensar e de estar mais tradicional, esta cultura da "malandrice" e do "logo se vê" também veio baralhar a dinâmica, quanto mais não seja nos aspectos da decisão e da lealdade.
Não nos enganemos: ninguém é perfeito e santinhos há poucos, mas esse "tentar", esse "partir do princípio" faz uma diferença enorme. Ora se faz!
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