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Saturday, April 15, 2017

A "mãe dragão" de Elizabeth Taylor





A belíssima Elizabeth Taylor era conhecida por ter um  temperamento explosivo, que contrastava com o seu famoso bom coração- e que não raramente, a levava a fazer cenas em público com o marido do momento.

Muito provavelmente, a "mulher mais bela do mundo" herdou o mau feitio da sua mãe, Sara, uma ex actriz muito mandona que fazia do marido gato-sapato e que, adivinhando na filha a beleza e o talento, jurou fazer dela uma estrela doesse a quem doesse. E conseguiu, mas a que preço! A pobre Elizabeth sofria com os modos de stage mom da progenitora,ansiava por se libertar da "generala". 




E como tantas raparigas com uma relação próxima, mas complicada, com os pais, a solução que achou foi casar-se cedo- com dezoito anos.




Sara até não estava contra a ideia, mas, dominadora como não conseguia deixar de ser, queria por força arrumar Elizabeth com o bilionário Howard Hughes.

 Porém, encontrou na jovem a mais férrea resistência: não e não! Não me importa quanto dinheiro ele tenha, não quero ter nada a ver com ele! - berrava Elizabeth a plenos pulmões. Afinal, ele tinha 40 anos e era um mulherengo de primeira. E antes que a mãe pudesse fazer grande coisa, trocou-lhe as voltas casando com Nicky Hilton, de 23 anos. À primeira vista, não havia defeito a apontar ao noivo, que era um dos solteiros mais cobiçados de Los Angeles: bonito e herdeiro milionário dos hotéis Hilton, fazia com ela um casal amorosíssimo.





 Mas Sara não gostava dele - algo não lhe cheirava bem. E porque as mães costumam ter alguma razão, mesmo as que são autoritárias e intrometidas, a verdade é que a sogra não se enganou. Nicky saiu um monstro: bêbedo, insensível e pior, horrivelmente violento. A Lua de Mel foi um desastre e o biltre não demorou até sovar a sua bela mulher até a deixar estendida por terra. As tareias eram de tal ordem que a infeliz acabou por perder o seu  primeiro bebé. 


Porém, como tantas esposas ansiosas por provar que não se enganaram, a actriz escondia o pesadelo em que vivia da família e dos amigos. Até ao dia em que o bruto teve de enfrentar a sogra- que chegava para ele, e para dois brutamontes cobardolas como ele se preciso fosse...

Sara e o marido tinham convidado o casal para jantar, 
quando os dois começaram a discutir na cozinha. Nicky desatou aos insultos e safanões e Elizabeth,que não era de se ficar, atirou-lhe um bofetão. Ele ia ripostar com o vigor do costume, quando Sara irrompeu na cozinha e lhe gritou: "você, seu filho da.....ponha-se já fora da minha casa, e não volte!!!".




E lá foi o casamento para as urtigas...Elizabeth Taylor quis o divórcio para ontem, e a vontade de se livrar do mostrengo era tanta que até recusou receber qualquer compensação. "Não preciso de um prémio pelo meu falhanço". Terá dito, como se a culpa lhe assistisse! 

A relação com a Sara continuou sempre a ser complexa, mas a verdade é que, não fosse ela estar  na hora certa para lhe dar coragem, a pobre coitada podia ter ido aturando até ao dia em que um empurrão ou uma sova corresse ainda pior do que o costume. Moral da história: uma mãe estilo "padeira de Aljubarrota" pode ser uma carga de trabalhos, mas nunca a subestimem...as mães exageram às vezes, mas ao fim e ao cabo lá têm os melhores interesses dos filhos em mente. Pena que se exprimam mal.



Sunday, May 8, 2016

Audrey Hepburn faria 84 anos...e o que isso representa


A estrela dos olhos de gazela celebrava o seu aniversário a 4 de Maio. Era, como todos sabemos, um ícone de estilo, de elegância, mas acima de tudo bela -e uma Verdadeira Senhora- por dentro e por fora. 
Curiosamente ontem, sem me lembrar da data, encontrei esta entrevista em que outra musa incontornável de que falámos há pouco, Sophia Loren, partilha as suas recordações dela, descrevendo-a (claro) como "muito discreta".



Os grandes vultos de um passado dourado vão desaparecendo. Ainda temos Raquel Welch, Brigitte Bardot (pouco igual a si mesma) Loren, Lollobrigida, Cardinale e outras. Mas Hepburn, como Elizabeth Taylor ou Lauren Bacall, já não se encontram entre nós e temo que aos poucos, quando todas as elegantes estrelas de décadas idas se tiverem esfumado, reste cada vez menos da magia, graciosidade e delicadeza que cá deixaram. 

A fama imortaliza-as, certo; o exemplo e a inspiração não se desvanecem nunca. Mas enquanto cá estão em pessoa, tenho um pouco a sensação de serem anjos da guarda de um certo comportamento, imagem pública, discurso e forma de estar. São como mães vigilantes que a qualquer momento podem, através de uma qualquer entrevista ou declaração pública, puxar as orelhas à sociedade (recordam-se do chá que Taylor deu, com seráfica paciência e caridade, a Kim Kardashian, sem fazer a tonta sentir que estava a ser condescendente? Já não se fabrica disto!).

Receio bem que em estas, e outras Senhoras (como S.M. Isabel II) deixando este mundo - que seja bem tarde- assistamos à derrocada definitiva da feminilidade e elegância. A não ser que as excepções de hoje, que ainda as vai havendo, saibam velar com bastante vigor e energia, pela beleza e donaire de antigamente. Para o nosso bem e o das gerações futuras...

Dolce & Gabbana did it again



Já se sabe que esta Casa, uma das minhas favoritas, se mantém em tudo - das roupas aos anúncios, passando pelos valores da marca - fiel ao seu posicionamento de raiz: o mais puro espírito siciliano, a mulher italiana (representada por beldades míticas como Monica Bellucci) e o imaginário italiano da cinecittà dos anos 50/60

Mas o spot do seu novo perfume, Rosa Excelsa, é como uma coroa do universo Dolce & Gabbana. 



Para começo de conversa, conta com a musa italiana de todas as musas italianas, Sophia Loren, belíssima passe o tempo que passar porque não sabe ser de outra maneira, no papel de uma matriarca que reergue a Casa de família. É emocionante este espírito de clã, sempre presente, e a imagem da grande senhora que tão depressa arregaça as mangas de uma camisa branca e põe as mãos na massa, orientando os ragazzi nas obras, como cozinha um manjar ou recebe os convidados impecavelmente ataviada.


Isto é-me tão familiar, tão verdadeiro. Faz-me lembrar as mulheres belas e fortes com quem cresci. Depois, a presença de pessoas comuns, mas não de uma forma pouco glamourosa, que é parte integrante dos anúncios da marca...e o romance doce e inocente entre os protagonistas mais jovens: os olhares envergonhados, a rosa oferecida, o beija-mão sob a vigilância risonha da avó e da comunidade. Numa época em que tudo tem de ser óbvio, subversivo, provocador, diz muito que uma griffe opte antes pelo romance, pelos valores familiares, pelas raízes, pela feminilidade que só de si é sexy sem precisar de uma sensualidade óbvia. Bravissimo, belissimo!

Wednesday, February 10, 2016

Um tipo feminino em vias de extinção.




Só há dias reparei que o canal FOX Crime está a passar duas das minhas séries preferidas: Poirot e Miss Marple, as muito glamourosas adaptações da obra de Agatha Christie. Que pratinho. 




Apaixonei-me pela série Poirot em pequena (começou em 1989!) porque a avó era fã acérrima e eu fazia-lhe companhia ao serão, já então a pasmar para as roupas e os cenários. Íamos buscar um petisco qualquer e ficávamos na saleta com uma manta sobre os joelhos a observar como o detective belga punha as suas "celulazinhas cinzentas" a analisar, tim tim por tim tim, os enredos mais intrincados. Um dia ainda arranjo todos os episódios e uma valente dose de tempo livre - cada história é looonga - para ver tudo de fio a pavio.



 Por Miss Marple interessei-me mais tarde, mas foi igualmente amor à primeira vista: a simpática solteirona mostra como a intuição feminina, aliada ao simples conhecimento e observação da natureza humana, é o suficiente para uma pessoa não se deixar enganar. E claro, há igualmente uma boa dose de figurinos riquíssimos e grandes actores na série (como Julian Sands, Sophia Myles e Saffron Burrows). 



Mas para uma observadora atenta, os dois programas têm outro aspecto interessante: os cavalheiros e as senhoras. A forma como se vestiam, moviam e comportavam é very british, certo, mas também é um produto do seu tempo.



 Assistindo a Poirot e a Miss Marple podemos contemplar em toda a sua glória a english rose, um tipo feminino em vias de extinção: uma delicada beldade inglesa de pele de porcelana, cabelos naturalmente escuros, acobreados ou louros, olhar misterioso e suave, faces rosadas, uma classe a toda a prova, maneiras impecáveis e modestas. Os ingleses bem se lamentam que o arquétipo tenha quase desaparecido, a favor do estilo stipper chic cheio de extensões no cabelo, saias curtíssimas, bronzeamento artificial alaranjado e quilos de maquilhagem. Sinais dos tempos...

Quem tem juízo e gosto pode sempre inspirar-se no passado. É o que vale.








Tuesday, January 12, 2016

Quando um vestido fala por si


Num oceano de vestidos de suspiro ou minimalistas praticamente todos iguais (como tem vindo a tornar-se norma nas passadeiras encarnadas deste mundo) Lady Gaga, ex-rainha da extravagância, roubou as atenções nos Globos de Ouro com este Versace arrasador.

 Inspirado em Grace Kelly, by the waycomo lembrou e muito bem Raquel Prates no seu blog.

Referências à parte, eis a prova provada de que tanto Gaga como Versace são espampanantes quando querem, mas porque podem, e que rapidamente passam ao estilo mais depurado com  acrobática destreza. É que para fazer um vestido destes, com um corte tão preciso, perfeito sem o mínimo fru-fru, é necessário savoir faire. E já o disse por aqui, Versace escorrega para o exuberante muitas vezes mas basta usar algo feito por esta Casa para ver que quem a gere entende do ofício e sabe enaltecer as curvas femininas como ninguém. Ou não estivéssemos a falar de italianices!

Then again sou suspeita, já que sempre que um vestido deste género aparece num evento, o coração pende-me para ele. Quase todos os meus vestidos formais são algo parecidos com isto, entre a Belle Époque e os anos 50 - verdade seja dita, tenho um de veludo negro parecidíssimo em fila de espera para que a costureira o retoque. E porquê? Ora, talvez porque sou careta ou porque o gosto e os traços italianos estão geneticamente cá e não posso lutar contra isso. Tal como Gaga, aliás, a menina Germanotta, também não pode. Mas sobretudo porque o que é doce nunca amargou. 



Um modelo sheath admiravelmente executado, num bom tecido, com um belo decote (neste caso, shoulder to shoulder), mais feitio menos feitio na saia, mais manga menos manga, não só realça as formas sem desconforto - mais ergonomicamente correcto, não há-  sem cair na vulgaridade, como dispensa grandes fantasias. Funciona bem em seda, veludo, brocado, liso, estampado. 

Depende da boa estrutura e da boa caída, não de uma aplicação estapafúrdia, de uma cauda ou de cristaizinhos bordados que muitas vezes não se seguram como devem. Hoje em dia, finados os tempos da verdadeira haute couture, o que mais se vê são vestidos caríssimos mas banalíssimos ou não tão bem executados como isso. Um destes não precisa de se ater à originalidade; só de destacar a mulher que o usa, e de chamar a atenção para os seus mais belos atributos: o rosto, a pele, a decolletage, a cintura, a curva dos rins.

Melhor ainda, é quase impossível errar no styling de um vestido destes. Noutros os acessórios, as jóias, os penteados tornam-se um assunto muito relevante, já que a toilette é às vezes tão sem graça. Mas um assim fala quase por si mesmo, praticamente dispensa as jóias e a maquilhagem ou o penteado são um extra (lembram-se de Angelina Jolie em O Turista?). E por fim, é um modelo feito para a mulher, para a figura feminina, criado nos bons tempos em que as mulheres queriam e sabiam agradar e estavam cientes de que a beleza é uma arma e consumada arte. Logo, desde que ajustado à medida e usado por quem tenha o mínimo de curvas, acaba por ser democrático para a maioria das figuras, altas ou baixas, magras ou mais cheias. 

A mulher que opta por ele não está desesperada por ser "diferente", por ofuscar as demais, por dar nas vistas; preocupa-se em sentir-se bem na sua pele, em estar apropriada e em passar um bom serão. O resto vem por si mesmo, pois lá dizia Chanel "quando uma mulher está mal vestida, reparam no vestido; quando está bem vestida, reparam na mulher".



Sunday, December 20, 2015

Quando a beleza é quase demasiada


Por mero acaso encontrei esta imagem de Liz Taylor que desconhecia de todo, e fiquei perfeitamente fascinada. Não consegui confirmar o contexto, mas é quase certo que se trata de uma prova de figurino para a produção de Cleópatra. E nada mais normal que se inspirassem numa das maiores beldades do Mundo Antigo (ou pelo menos, aquela cujo lindíssimo rosto conhecemos melhor) para ataviar de acordo uma das caras mais lindas (senão a mais linda) a agraciar as telas.

Os dois rostos juntos, é quase beleza a mais. Porque a beleza comove e às vezes ofusca.

Nefertiti, esposa de Aquenaton, era tão encantadora que o seu nome significava "a Bela chegou". Por ser assim chamada, alguns defendem que não era egípcia mas turca, enviada ao Faraó como um presente. Não me surpreendia que fosse verdade, já que nas belezas nascidas por essas bandas (quer no feminino, quer no masculino)  não há meio termo: a mistura entre os traços orientais e europeus  torna-as arrasadoras.

Quando o busto de Nefertiti foi encontrado em 1912, julgava-se que o olho esquerdo da escultura teria sido danificado pelo tempo, mas concluiu-se que nunca fora colocado para começar: o mais provável era que temessem terminar o trabalho, para que as deusas não se enciumassem com a perfeição da Rainha. O seu tipo de beleza transcende épocas, modas e padrões efémeros: tal como o de Simonetta Vespucci, por exemplo, era belo na sua época, continua a sê-lo hoje e o mais certo é continuar a espantar as gerações vindouras.


 Já de Elizabeth Taylor - bela por fora e por dentro - basta dizer que interpretou Helena de Tróia  (acima).

 Pode partilhar o pódio dos palminhos de cara mais adoráveis e das figuras de ampulheta mais incríveis com ícones como Brigitte Bardot, Ava Gardner, Grace Kelly, Vivien Leigh,  Sophia Loren e Marilyn Monroe, fora outras (Páris, se fosse chamado a novo julgamento, cortaria os pulsos antes de escolher a quem dar a maçã).

 Mas embora nem todos concordem, muitos estudiosos da matéria defendem que a beleza de Liz (embora fosse discreta por vezes, salvo pelo violeta dos olhos) transcendia a formosura comum, por ser absolutamente simétrica.



 A beleza é sempre composta de vários aspectos: exotismo, contraste, harmonia, simetria, perfeição e das pequenas falhas que a tornam mais apelativa, para não falar em certos exageros de traços que mais um bocadinho e beirariam o feio, mas por isso mesmo se tornam marcantes e lindos. Isto sem falar no carisma e no olho de quem vê, pelo que é impossível definir uma "beleza universal", mas apenas um conjunto de características geralmente apelativas. No entanto, Elisabeth Taylor andaria muito perto. Vale a pena ler na íntegra este inspirado texto sobre ela, de que reproduzo um bocadinho em tradução livre:

"Os rostos considerados lindos são feitos normalmente de feições pouco certas, mas dispostas de tal maneira que se tornam belas, como Marilyn Monroe; ou de traços bastante comuns, sem nada de especial, que fazem um rosto deslumbrante como o de Greta Garbo; ou ainda de características estranhas, marcantes, como Angelina Jolie - mas não consigo pensar em ninguém que tenha feições imaculadas, extraordinariamente belas que se juntaram para formar uma face ainda mais extrordinariamente bela, como Elizabeth Taylor. Não tem tudo a ver com os traços; a simetria é muito importante. Miguel Ângelo não conseguiria inventar uma cara tão perfeita se tentasse".





Saturday, October 31, 2015

A cortesia


Em Abril de 1958, a revista "A Família" - de que arranjei alguns exemplares com artigos interessantíssimos - teve um número em que a cortesia era o tema dominante. 

Hoje seria difícil ver tal assunto na imprensa a ocupar uma edição quase inteira: com o aligeirar de costumes, a disciplina tornou-se menos rígida; instalou-se um excessivo à vontade que roça a grosseria, um exagero de familiaridade, por vezes... e à custa de atropelar costumes, tradições, etiqueta, protocolo, dress codes, por vezes ninguém sabe ao certo como proceder.

Porém, não confundamos etiqueta (uma série de regras que é útil e aconselhável não ignorar) com afabilidade, gentileza. Essa é acessível até à pessoa mais arredada dos círculos mundanos e faz bem à alma. S. Francisco de Assis chamava à cortesia "a irmã da Caridade, que apaga o ódio e acende o amor".  E é verdade -basta pensar nos milhões investidos todos os anos pelos grandes grupos empresariais em Relações Públicas.

À conta de confundir cortesia com regras de etiqueta há mesmo quem ache - erradamente - que ser cortês é algo arcaico , hipocrisia ou mesmo sinal de afectação, de "peneiras". Uma tolice - ou desculpa conveniente para a má criação - pois trata-se somente de procurar agir com delicadeza, sem servilismo nem impertinência, sem timidez nem atrevimento, de não incomodar (por palavras ou actos) os outros, de lhes facilitar a vida, de lhes tornar cada dia menos complicado e se possível, mais agradável. Digo muitas vezes que se todos fizéssemos esse esforço uns pelos outros, este planeta era bem menos espinhoso para se viver.

Voltemos à revista, que advertia, por exemplo, as jovens contra as tais "peneiras":

"Muitas reservas e ares de ofendida não ficam bem a uma rapariga de bem. Pode-se ser uma rapariga virtuosa e educada sem perder o sorriso, a cortesia, a cordialidade". Igualmente, a um moço ou cavalheiro, é desnecessário dar-se grandes ares, endireitar-se muito - ou pelo contrário, sorrir de orelha a orelha ou cumprimentar até as panelas da cozinha- para mostrar que se é um Senhor. O porte desempenado, a amabilidade, um sorriso que pode ser tímido bastam para pôr os outros à vontade, sem fazer "figuras".

 Depois a publicação continuava, mencionando como o Portugal de então levava o "Oscar" de nação mais cortês da Europa (bons tempos!). Um jornalista italiano, Giancarlo Bertieri Bonfanti, dissera então do nosso país:

"A cortesia, qualidade que infelizmente escasseia em toda a Europa, é uma segunda natureza dos portugueses...; não a cortesia servil de alguns portos do Mediterrâneo. O português  é cortês mas não conhece o servilismo; embora sem sombra de arrogância, há nele uma dignidade naturalíssima, à qual nada concede além da gentileza".


Uma característica de elegância que tristemente se vai desvanecendo. Resta dizer do nosso povo o que André de Fouquières, escritor francês, disse do seu ao notar a decadência de costumes: "nós fomos o povo mais cortês da Terra. 
Praza a Deus que tornemos a sê-lo".




Wednesday, October 14, 2015

O mal da "toleima" (e o que "eles" pensam disso)


Numa revista juvenil do início dos anos 1950, encontrei este engraçado texto: "O que eles pensam da toleima". O termo, aqui empregue no sentido de garridice, fez-me sorrir, pois era usado pelas minhas avós a torto e a direito. Uma rapariga ser "atoleimada" era um mal a combater a todo o custo. Nenhuma menina de juízo devia encorajar namoricos com um rapaz "atoleimado" (em boa verdade, pronunciava-se "atolaimado"). Quando éramos pequenos, se a avó achava que aquela menina ou menino não era boa companhia, zás: "parece que é atoleimado!". E pimba, estava apresentado e avaliado...

Depois, a "toleima" era palavra muito abrangente: podia significar frivolidade, mania de contar mentiras, atrevimento, hiperactividade, atitudes barulhentas, risotas excessivas ou em suma, o terrível mal da "falta de propósito". Não ter propósito era uma coisa muito feia...

A ideia ficou-me e ainda hoje repito muito a frase: "gosto pouco de gente atolaimada...".



Dizia então o texto, escrito pela mão de um rapaz chamado Ruy, a respeito das mocinhas que se tornavam ridículas com excesso de maquilhagem, de arrebiques ou de modos dengosos:

"Gosto de ver uma rapariga bem vestida, bem maquilhada, um tudo nada coquette. Não sou contra o bâton, nem contra o rouge...oh escândalo imenso! Serei eu pela vaidade? Por aquela vaidade natural (...) mas que é profunda inimiga do ridículo e do exagero?

 Os homens apreciam as mulheres bonitas e é natural que elas façam por parecerem assim (...). Muitos gostam que as raparigas se enfeitem para que, juntando à graça e à candura que as envolve um pouco de cor e arranjo exterior, assim se complete o encanto que os encanta.

 Eles sorriem de satisfação e com tolerância quando as coisas são feitas com medida, gosto e bom senso, mas facilmente passam a rir-se com desprezo quando observam o exagero em que vão caindo na maioria das vezes. Gosto, bom gosto na maneira de se vestir, de se arranjar e até no modo de falar-bom uso da inteligência até neste capítulo, que só se ocupa do figurino e da moda. Simplicidade na maneira de ser, mas não cair no desleixo. Ser bela não implica ser tola, e ser tola quase sempre implica diminuição da beleza...".

Fez-me lembrar outro aviso constante da avó: há raparigas tão doidas que até os rapazes se riem delas. E  ser alvo de troça dos rapazes, que supostamente eram mais tolos do que nós trinta vezes (ou que por serem homens, tinham menos obrigação de ter juízo) era o fim do mundo...

Pergunto-me se ainda há muitas avós a dar conselhos destes, ou rapazes que se ocupem a reflectir assim. Acredito que a maioria continua a pensar da mesma maneira, só o escreve menos vezes ou se o faz, é de uma forma mais abrutalhada. As razões para o apontar, essas vão de mal a pior - com tanta moda atoleimada que se vê às vezes!




Sunday, August 2, 2015

Beatriz Costa dixit: que mereciam estes "ricos maridos"?


Já por aqui mencionei várias vezes como gosto dos livros de memórias de Beatriz Costa. A nossa simpática actriz viajou por todo o mundo e privou com as personalidades mais extraordinárias, de Picasso a Lana Turner. Tudo quanto se possa imaginar de gente interessante, de ícones vivos ou mortos, das artes às letras passando por pessoas da melhor sociedade, de todos guardou histórias para contar.

 Apesar de ter aprendido sozinha a ler e escrever aos 13 anos (alfabetização que completaria mais tarde à mesa da Brasileira, com a ajuda de Almada Negreiros e outros grandes vultos) descrevia as suas aventuras com uma graça, uma eloquência e uma vivacidade ímpares. As suas recordações são um verdadeiro estudo de costumes...

 Ora, a dada altura Beatriz passava largas temporadas em Paris e era íntima de Elsa Schiaparelli, em casa de quem se faziam animadas tertúlias. Como ao Sábado a aristocrática designer dava folga ao pessoal doméstico, cada convidado dava a sua colaboração para fazer o jantar e lavar a louça, de modo que havia frango cozinhado por Greta Garbo e copos limpos por Salvador Dali!



 Também se tornou uma fiel cliente da Maison Dior e das Galerias Lafayette, o que fazia com que muitas senhoras brasileiras e portuguesas a maçassem para lhes servir de cicerone para compras na Cidade-Luz. E assim pôde Beatriz Costa aferir um triste facto:

"Nisto de gastar dinheiro, a brasileira é mais arrojada. A mulher portuguesa depende muito do visto conjugal para os seus gostos...conheço senhoras riquíssimas que nunca vestiram um modelo! 
Em compensação, conheço maridos dessas mesmas senhoras que sustentam concubinas que só vestem de Paris e de Roma...".

Que na época uma mulher, se não tivesse muito de seu (ou muita mão nos seus haveres, pois conheço não poucos casos de dotes espatifados pela cara metade) dependesse do marido para pagar os seus arrebiques, vá que não vá. Agora essa dupla punhalada era imperdoável, e o pior é que não é coisa do passado...tenho ouvido muitos episódios aviltantes e recentes a provar o adágio popular "as primeiras são vassouras, as segundas são senhoras". Insulto a dobrar, à fidelidade conjugal e ao armário!

 Como se não bastasse sujarem de lama os vestidos das legítimas, ainda tratam, como uns perfeitos palermas, de garantir que os compram de melhor qualidade às malucas com quem passam o tempo, na maioria dos casos indignas de engraxar os sapatos às mulheres que têm em casa...


Isto enquanto as esposas, coitadas, sabendo ou não, ricas ou não, se privam deste ou daquele pequeno luxo ou conforto pela boa economia do lar. Tal como antigamente...

Se um homem infiel é o piorio do intolerável - ou seja, nenhuma mulher digna tem obrigação de suportar tal humilhação - um que é assim mas não distingue o trigo do jóio e coloca uma doidivanas no mesmo plano (ou até acima) da mulher que leva o seu nome, não sei o que merece.

 Enquanto actualmente a maior parte opta pela tristeza do divórcio (cujas consequências são muito relativizadas) a solução de outros tempos e menos comum agora, para uma senhora de brio, era a separação como mandava a Igreja e a boa sociedade. Sacudia-se a lama das saias e retribuía-se o sofrimento com o desprezo. 


 Algumas iam além disso e desciam a pagar na mesma moeda, como uma certa duquesa encantadora cujo marido trocou o conhaque pela aguardente e só estava contente nas piores companhias femininas: separou-se, manteve os seus privilégios e fez outro tanto. Tomava amantes e despedia-os antes que dessem problemas, dizendo-lhes "se alguma vez nós, mulheres, fôssemos falsas e cruéis para os homens, estaríamos no nosso pleno direito; seria uma mísera compensação da muita perfídia com que os senhores nos tratam...". 

 Não concordo que se proceda assim, mas é compreensível que o abismo atraia o abismo, que asneira atraia asneira. Até S. Gregório Nazianzeno avisava com que cara quereis exigir honestidade de vossas mulheres, se vós próprios viveis na desonestidade? Como lhes pedis o que não lhes dais?". Haja juízo...



Thursday, July 23, 2015

Duas Vénus dos anos 50


A década de 1950 representa, em termos de padrões de beleza, o supra-sumo da feminilidade. Enalteceu a figura feminina que une mais consenso entre homens e mulheres, por um apelo cultural e biológico

E também a mais intemporal: busto e ancas definidos, ombros bem modelados e uma cintura estreita representaram o ideal em muitas épocas e culturas diferentes, talvez por serem simultaneamente o mais próximo do natural e uma hipérbole da silhueta da mulher.

São os famosos "três S":  a tradicional curva da beleza, a curva serpentina do mistério que provoca um efeito devastador quando uma mulher caminha. Ou o velho ditado vitoriano: "a cintura de uma mulher deve ser tão fina que caiba nas mãos do homem que ela ama".

Muitas it girls encarnaram, na época do New Look, esta imagem romântica , de lendas como Brigitte Bardot, Elizabeth Taylor e Marilyn Monroe, passando por celebridades do tempo como Bettie Paige e Mamie Van Doren, sem esquecer as manequins de alta costura como Dovima e Suzie Parker

Porém, eram as pin ups que o representavam de forma mais detalhada, mais tangível: e algumas eram mesmo conhecidas não só pela beleza como um todo, não só pela figura de ampulheta da moda, mas por este ou aquele atributo: era o caso de Betty Brosmer, "a rapariga com a cintura impossível"...


 ...e Vikki Dougan, conhecida como "the back" cujas costas e derrièrre eram tão perfeitos que viriam a inspirar, nos anos 80, a curvilínea Jessica Rabbit.


Vikki desapareceu do olhar público com um rastozinho de escândalo; Betty continua lindíssima e como sempre foi uma mulher de negócios, co-fundou uma bem sucedida e pioneira revista feminina de fitness (a sua cintura era atribuída não só a genética e exercício, mas a uma grande habilidade no corset training). De qualquer modo, ficou o ideal. A curva em S que nunca passará de moda...







Tuesday, July 7, 2015

Hotel da Estrela: um retiro encantador no coração de Lisboa




Quem por aqui passa já conhece o meu fraquinho pelos ambientes de outros tempos. E quando se trata de me deslocar, prefiro instalar-me num local com carácter- se possível, com história. Ou neste caso, com diferentes histórias e uma atmosfera diferente. Que transmita uma sensação acolhedora, familiar, tranquila e com um toque de mistério.

O Hotel da Estrela (cujo edifício começou por ser, no sec. XIX, a residência dos Condes de Paraty, e mais tarde foi convertido em escola) é um desses lugares especiais. 

Junto à Basílica e Jardim da Estrela e ao bairro de Campo de Ourique, a 10 minutos do bulício do Chiado e da Avenida da Liberdade - ideal para quem viaja em passeio, lazer ou negócios, portanto - o Hotel da Estrela oferece, porém, a ideia de um retiro perfeito. 

Como precisei de usar um vestido de noite
 durante a estadia,  não resisti a captar a atmosfera para partilhar convosco!

Sabem os romances vitorianos em que um cavalheiro vê passar uma perturbante desconhecida, perde-a de vista e depois indaga onde ela mora, sem sucesso, pois está escondida numa qualquer casa encantadora na grande cidade? Pedro da Maia às voltas, em busca de Maria Eduarda? Foi essa romântica sensação que tive ao chegar. Uma mulher enigmática podia refugiar-se ali dos olhares dos admiradores, esperando o amor de quem se desencontrara em Paris ou no Cairo. Ou, numa perspectiva mais actual e optimista, um casal poderá escolher o Hotel da Estrela para um passeio elegante e cheio de significado.

Membro da Small Luxury Hotels of the World, este pequeno hotel de charme oferece essa atmosfera intimista na dose certa, colorida por toda uma envolvente retro que evoca as escolas de outros tempos. 


 O conceito está presente desde os quartos e corredores, sarapintados de rabiscos a giz, até ao restaurante (que se chama, precisamente, a Cantina da Estrelarecomenda-se o pequeno almoço, com doces tradicionais e vista para o delicioso jardim) onde não faltam sequer os bengaleiros em fila.



O bonito jardim, com vista para a Basílica.

 A suite, muito espaçosa, combina habilmente o design contemporâneo e a cama Hästens - considerada a melhor do mundo - com a iconografia da nossa infância. Só a atenção ao detalhe vale uma visita. De notar também os produtos de toilette da Real Saboaria, sempre um agrado para os sentidos presente nos hotéis do grupo.


Quem estudou em edifícios antigos antes de começarem a substituir todos os adereços por versões modernas e eficientes (mas também assépticas e sem metade da magia) encontrará aqui um regresso às ardósias, ao giz, às secretárias de madeira, aos mapas e transferidores de pinho, aos livros que cheiravam a biblioteca... enfim, à boa antiga portuguesa, mas sem réguas nem palmatórias assustadoras. Afinal, é para isso que as memórias servem: para conservar os aspectos belos e que nos fazem sentir bem. Não há nada de melancólico no Hotel da Estrela. Só o charme e elegância de tempos idos, adaptado ao conforto e exigência do sec. XXI.


 de Lisboa). Por isso decidimos ligá-lo a esse imaginário que nos diz tanto a todos, a Escola. Mais que uma estadia num hotel, os nossos hóspedes serão transportados para um universo que lhes foi em tempos familiar… Estando ao lado da Escola de Turismo, alguns dos nossos colaboradores são alunos dessa escola, trabalhando no hotel como forma de enriquecer a sua formação, da qual cada hóspede faz também parte.


O Hotel da Estrela tem um tema que traz de volta o espírito das escolas antigas, oferecendo uma experiência de estadia verdadeiramente original. O hotel, que em tempos foi uma escola, fica situado ao lado de duas das mais emblemáticas escolas de Lisboa, o Liceu Pedro Nunes e a antiga Escola Machado de Castro (actualmente Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa). Por isso decidimos ligá-lo a esse imaginário que nos diz tanto a todos, a Escola. Mais que uma estadia num hotel, os nossos hóspedes serão transportados para um universo que lhes foi em tempos familiar… Estando ao lado da Escola de Turismo, alguns dos nossos colaboradores são alunos dessa escola, trabalhando no hotel como forma de enriquecer a sua formação, da qual cada hóspede faz também parte.
O Hotel da Estrela tem um tema que traz de volta o espírito das escolas antigas, oferecendo uma experiência de estadia verdadeiramente original. O hotel, que em tempos foi uma escola, fica situado ao lado de duas das mais emblemáticas escolas de Lisboa, o Liceu Pedro Nunes e a antiga Escola Machado de Castro (actualmente Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa). Por isso decidimos ligá-lo a esse imaginário que nos diz tanto a todos, a Escola. Mais que uma estadia num hotel, os nossos hóspedes serão transportados para um universo que lhes foi em tempos familiar… Estando ao lado da Escola de Turismo, alguns dos nossos colaboradores são alunos dessa escola, trabalhando no hotel como forma de enriquecer a sua formação, da qual cada hóspede faz também parte.

Monday, June 29, 2015

As coisas que eu ouço: mais lhe valia estar calado.



Embora as mulheres se queixem muito - e com razão! - das mentiras e omissões masculinas, é verdade que por vezes eles são um pouco trapalhões. Alguns não sabem o que é bom para eles e descaem-se com coisas que enfim...não lhes convêm e eram escusadas.

 É sabido que jamais um homem ganha alguma coisa em ser sincero perante perguntas armadilhadas, do estilo "estas calças fazem-me assim ou assado?". Uma mulher sensata nunca lhes perguntará tal coisa, mas caso se apaixonem por uma rapariga adorável mas pouco sensata e a queiram conservar, digam que não fazem ideia nenhuma, pela vossa rica saúde...

 E depois há outras circunstâncias em que mais vale ser discreto, para não dar má imagem de si próprio.

 A avó contava esta estória passada com uma amiga dela nos anos 50. A menina, muito prendada e bem comportada, tinha-se separado do namorado que adorava (e que se andava a portar mal, armado em James Dean). 
Achou-se, portanto, livre para conversar com outros admiradores.

  Pela velha lei que reza "o pretendente seguinte sai sempre melhor que a encomenda" apareceu-lhe um belo rapaz, bem colocado e muito simpático que lhe fez a corte. Embora na realidade gostasse era do outro, decidiu dar-lhe uma oportunidade, a ver o que saía dali...

 Andaram nisto umas semanas, conversa vem, conversa vai, e ela começava a achar-lhe graça quando ele - fanfarrão como todos os rapazes, e brutamontes como alguns sabem ser - se sai com esta:

"Hoje tive cá um dia mais cansativo...andei com os meus irmãos a arranjar o carro de alto a baixo...a dar-lhe uma pintura e mudar os pneus...mas depois bebemos cinco litros de «vinhaça»!".

Horrorizada com tais hábitos e pior linguagem, a rapariga não quis mais saber do bebedolas e como o ex não lhe largava a porta, furioso e desgostoso (e morriam um pelo outro) voltou para ele, em modo é melhor o diabo que se conhece do que o diabo que não se conhece.

 O pior é que esse também gostava dos copos...de modo que embora não se tivesse arrependido, comentava muitas vezes "vejam só! Não quis casar com o outro porque bebia cinco litros de «vinhaça», e casei com este que bebe cinco litros de «vinhão»".

 Até podia beber, mas tinha a decência de "vícios privados, públicas virtudes"!

Moral da história: a sinceridade masculina é bem vinda, mas às vezes é bom ter um "cala-te boca" porque a palavra dita não volta atrás e há impressões muito difíceis de desfazer...

Monday, June 22, 2015

Quando Christian Dior escrevia para as portuguesas: 14 conselhos de elegância



Modas e Bordados - Vida Feminina 14 de Março de 1954 (nº 2201)

1954 - No auge da fama ( alcançada desde que em 1947 apresentara o seu "New Look" à imprensa) Christian Dior, "o maior costureiro do mundo!" lançou o seu "Pequeno Dicionário de Moda" originalmente sob o título " The Little Dictionary of Fashion: A Guide to Dress Sense for Every Woman". Antes de reunir as suas dicas em livro, o lendário couturier tivera-as publicadas por fascículos na revista britânica Women´s Illustrated.

Por cá, a Modas & Bordados adoptou um formato semelhante entrando em acordo com M. Dior que acedeu a escrever para a revista, num exclusivo para Portugal. O glossário e conselhos eram publicados todas as semanas com as ilustrações de Pierre Simon e imagens do fotógrafo parisiense Leo Bulzkin.





Isto diz-nos algo dos hábitos de consumo e aspirações das nossas elegantes naquele tempo - e da relevância que a imprensa lusa tinha então. Assinale-se também o espírito cosmopolita e ambicioso da directora da revista (à época, Etelvina Lopes de Almeida) e da sua equipa. Apontar ao topo, em vez de se ficarem pelas recomendações (válidas sem dúvida, mas menos icónicas) de qualquer boa modista lisboeta...

   Passo a reproduzir excertos de um dos números que tive a sorte de agarrar - e que, com a sua prosa encantadora, são um belo complemento do livro original (disponível na Amazon).

 1- A não ser um perito no assunto, ninguém deve misturar numa toilette mais do que duas cores.

 2- Os vestidos bem cortados têm o menor número possível de "cortes".

3- Não compre muito, mas compre sempre bom.

4- A escolha errada de um tecido pode estragar o efeito do modelo mais interessante.

5- Aprecio a pureza das linhas...e acredite, se a linha de um vestido não for boa, nenhum adorno consegue disfarçá-la!

6- Nenhuma mulher verdadeiramente elegante segue a moda como uma escrava. Não existe uma única «linha» de novidade em cada estação - existem sempre várias!




7- Desde Eva que um decote foi sempre o melhor meio de tornar uma mulher atraente.

8- O vestido elegante é o vestido que assenta bem. Detesto as mulheres que dão a sensação de andarem enfiadas num saco!

9- O comprimento da saia depende da mulher que a usa e acima de tudo, das suas pernas. Têm-se escrito muitas tolices sobre o assunto...

10- Saltos demasiado altos dão um aspecto vulgar e são de péssimo gosto.

11- Em costura a arte "du camuflage" - do disfarce - é muito importante, porque a perfeição é rara neste mundo...

12- A simplicidade, a naturalidade e o bom gosto são os segredos da arte de bem vestir.

13- Uma linda roupa interior é a base da elegância da "toilette".

14 - Uma blusa de jersey preto, de lã muito macia, é a peça mais útil para o vestuário de qualquer mulher...


Conselhos sensatos, intemporais, de uma época em que o luxo andava de mãos dadas com elegância, simplicidade cirúrgica, equilíbrio, rigor e feminilidade. Christian Dior ficaria bem desgostoso se visse os "vestidos saco", o "attention whoring" nas semanas de moda, os "saltos de stripper" e muitas peças mal acabadas dos nossos dias. 

É certo que sem inovação, sem criatividade e alguma adaptação ao esprit du siècle, a moda é uma sensaboria e nenhuma marca sobrevive. Porém, tanto designers como consumidoras perdem por vezes de vista os princípios básicos. A extravagância, o colorido e o impacto visual nunca poderão substituir a elegância das linhas e a exigência nas proporções. 




Friday, June 19, 2015

Um momento de absoluta beleza (que não se repetirá)



Londres, 1956 - no âmbito da Royal Film Performance, o Palácio de Buckingham reuniu três mulheres magníficas - a Rainha Isabel II, Marilyn Monroe e Brigitte Bardot. (Anita Ekberg também lá estava, como outras estrelas, mas três é a conta que Deus fez e juntar BB e Marilyn com a Rainha equivale a uma conjugação astrológica rara e auspiciosa!).


 Sua Majestade e Marilyn, ambas com 30 anos e no auge dos seus encantos; Brigitte muito ingénua como uma debutante. Todas belas e graciosas, como seria de esperar  - Monroe roubou as atenções usando um vestido em tom de ouro que não falhava o protocolo por um triz - com umas spaghetti straps só para não dizer que não levava alças - revelador mas tão lindo, tão admiravelmente feito, moldando-a como uma estátua, que se lhe perdoa tudo.


Eram outros tempos, outro rigor, outra elegância e outro impacto. Vale a pena ver o vídeo do evento - recuperado e recentemente divulgado no Instagram da Casa Real - e a entrevista de Brigitte Bardot sobre o seu encontro com Marilyn no dressing room das senhoras:


 É nestes testemunhos que se percebe a diferença entre uma mulher bonita e um ícone - no verdadeiro sentido do termo, não com o facilitismo barato que lhe atribuem hoje a torto e a direito... 

Brigitte não era só uma beldade capaz de encostar a um cantinho a maioria das celebridades actuais: com toda a sua rebeldia, possuía elegância interior; tanta, de facto,  que apesar da sua aura - e das incontáveis imagens- de sex kitten, nunca foi vulgar. E é essa elegância que fica clara na forma como fala de Marilyn: "nunca me comparei a ela, porque a considerava  tão acima de mim!"


 Havia de ser hoje, na era das provocaçõezinhas virtuais e em que se acha moderno e engraçado chamar "bitch" umas às outras...mas de uma coisa tenho pena: que não existissem selfies nessa altura. Não encontrei um único retrato das duas juntas. Temos de nos contentar com as fotografias oficiais, e muita sorte... 


Friday, February 27, 2015

Um Príncipe Playboy...com pouca sorte

Eva Bartok e o Príncipe Shiv

O Príncipe Shiv de Palitana, filho de um Marajá, era tido como um playboy das dúzias nos anos 1950. Cá entre nós que ninguém nos ouve, acho que para tanto sucesso muito jeito lhe dava ser um príncipe das Mil e Uma Noites, porque embora fosse desempoeirado e vestisse com elegância, não era nenhum Kabir Bedi... 

Talvez o Príncipe possuísse muito encanto pessoal, talvez se iludisse - e a mulheres de cabeça leve, ávidas de estatuto e diamantes, dispostas a amar o trono e não o homem - com o brilho da sua riqueza e do seu nascimento. A verdade é que da fama não se livrava...mas o seu defeito seria mais ser pinga-amores do que propriamente um D. Juan, como veremos.

Enquanto espalhava charme pela Europa, fazendo o que é suposto um príncipe exótico e namoradeiro fazer, em 1958 Shiv cortejou uma ruiva sorridente - e ao que parece, não muito esperta-  a modelo, barmaid e ex balconista de Londres Jane Buckingham. Incuravelmente romântica e fascinada com tanto glamour, Jane dizia a quem a queria ouvir que o príncipe ia casar com ela.

Jane Buckingham e Shiv 
 As intenções dele nunca as saberemos, mas talvez fosse verdade porque ele provou ser capaz disso...embora não da forma que Jane esperava. No ano seguinte, no espaço de duas semanas, Shiv deixou de ver Jane para se lançar nos braços da actriz húngara Eva Bartok- e escandalizou o pai Marajá ao bater o pé para casar com ela.

O romance de Shiv e Eva comentado na imprensa
 Eva parecia ser a contraparte feminina de Shiv, porque era tão namoradeira como ele. A sua história era no mínimo rocambolesca. Fora casada quatro vezes (a primeira vez, um casamento forçado) tinha uma filha de um dos maridos que muito mais tarde veio a alegar ser afinal de Frank Sinatra, com quem tinha tido um breve affair em 1956, e até conhecer Shiv estava supostamente noiva do bem parecido David Mountbatten, 3º Marquês de Milford Haven, a quem terá deixado pelo Príncipe.

Eva com David Mountbatten, de quem diziam estar noiva

O Marajá, lá na distante Índia, enfurecia-se com tais projectos - e à falta da bênção paterna, o Príncipe decidiu levar o casório a cabo em Roma.

 Ouvindo as declarações de amor de Shiv a actriz largou o namorado, largou o filme que ia protagonizar na Alemanha...e a outra, rejeitada, furiosa, em lágrimas, agiu como uma verdadeira mulher da luta: em vez de aceitar o desfecho com dignidade, saltou para um avião para tentar recuperá-lo em Nápoles.


 Toda a vida ouvi que tentar comover um homem com lágrimas e súplicas é a coisa mais patética (e inútil) que se pode fazer, especialmente se ele estiver apaixonado por outra; mas o caso da pobre Jane foi ainda mais digno de dó: teve tanta pouca sorte que o avião em que seguia chocou contra um caça, matando a tripulação e os passageiros, num total de 31 vítimas.



 Para tornar o enredo ainda mais esquisito, o Príncipe (que seguia de carro para Nápoles) teve um acidente também, em França, mas não sofreu nada.

 Quanto a Eva Bartok,  também não casou com ele: em Abril de 1959 mandou-o literalmente ao pai com um diplomático telegrama, dizendo "não posso separar a vossa família; que Deus te abençoe". 


A actriz nunca revelou a razão da ruptura. Talvez fosse uma mulher de emoções pouco firmes, talvez achasse que os seus casamentos estavam todos embruxados ou talvez pusesse fim ao noivado porque conhecia mal o Príncipe e ele viesse a revelar-se mais maçador do que ela julgara. Outra hipótese seria  por se sentir chocada com um desfecho tão trágico...ou por recear que a defunta ex a amaldiçoasse da sepultura. 

A verdade é que a bela Eva que não voltou a casar...e que as aventuras do Príncipe Shiv se perdem nos tablóides a partir dessa data.



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