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Monday, November 19, 2018

Amor em tempos de...paz, amor e rock n´roll




Ando há bastante tempo para criar um post sobre o Woodstock - ou antes, sobre o street styling do Woodstock, porque houve realmente looks incríveis no festival mais ou menos improvisado que correria extraordinariamente bem e viria a ser um dos eventos mais emblemáticos de todos os tempos, símbolo incontornável do movimento Flower Power e dos protestos contra a Guerra do Vietname e a favor dos Direitos Civis. 

O que se pensava ser apenas "um festão numa quinta" acabaria por se tornar o retrato de uma geração e de um tempo em que os idealistas eram ingénuos mas realmente bem intencionados e sabiam vestir de forma controversa para as normas da época mas continuar giros - ao contrário dos snowflakes de hoje que só dizem disparates, falam de barriga cheia e se põem feios de propósito. 

Deve ter sido uma época interessante para se ser jovem, por muito que eu ache que certas "novidades" que sairam daquelas cabeças mais valia nunca terem existido, porque abriram portas a muita coisa que me desgosta hoje em dia. Enfim, a História nunca se faz sem solavancos e sem que algumas coisas mudem para melhor e outras tantas para pior...


 De qualquer modo, creio que se inventassem uma máquina do tempo eu daria um pulinho ao Woodstock, apesar de Festivais não serem o meu cup of tea e de o pivete a marijuana me dar volta ao estômago a uma distância de 100 metros. Isto se a máquina do tempo incluísse uma casa de banho com duches, ou nada feito. Até posso gostar de brincar aos hippies uma vez por outra, mas sempre em versão limpinha. 

E curiosamente, foi um casal "não hippie" que passou a ser a cara do Woodstock: em Agosto de 1969 Nick e a sua então namorada, Bobbi (ele empregado num banco, ela ainda na faculdade) ouviram na rádio o aviso das autoridades para que as pessoas se mantivessem afastadas do pandemónio nas imediações do festival. 



Como os jovens têm por hábito ser do contra, agarraram em alguns amigos, pegaram na carrinha da mãe de um deles e foram ver o que se passava. Acabaram por gostar do ambiente de espontânea alegria e música que se tinha criado e ficaram, embrulhados numa colcha que encontraram abandonada a um canto.

De madrugada o fotógrafo Burk Uzzle, trabalhava para uma agência noticiosa mas decidira ir registar o evento por sua conta, viu o casal abraçado de pé contra o nascer do sol, achou a imagem bonita - e sem que os visados se apercebessem, registou o momento.



O festival acabou, a multidão dispersou e Nick e Bobbi voltaram às suas vidas normais de quem não é hippie, com responsabilidades e contas para pagar - viriam a casar dois anos e pouco depois. Só quando o álbum com a música do Woodstock veio a público souberam que tinham sido fotografados...e que estavam famosos! (Quanto a mim foi uma sorte a relação ter resultado- imaginam-se a aparecer ad aeternum ao lado de um ex em tudo quanto é merchandising de nostalgia? Cruz Credo!).




Quase 50 anos volvidos, o casalinho continua apaixonado, a receber correio dos fãs e a dar ocasionalmente entrevistas sobre as suas memórias. Numa delas, os eternos namorados partilharam mesmo a receita para um amor sem prazo de validade e um matrimónio bem sucedido:

"O casamento é difícil. Há bons e maus momentos. É preciso escolher as batalhas: às vezes é muito mais fácil ser feliz do que ter razão. É preciso perguntar a nós mesmos- estou melhor com ou sem esta pessoa? E se estamos melhor com ela, então fazemos com que resulte".

Quanto a mim, esta é a fórmula mais sensata de todas. Devia vir escrita em papel selado quando se avançam com os documentos na conservatória....




Sunday, May 8, 2016

Audrey Hepburn faria 84 anos...e o que isso representa


A estrela dos olhos de gazela celebrava o seu aniversário a 4 de Maio. Era, como todos sabemos, um ícone de estilo, de elegância, mas acima de tudo bela -e uma Verdadeira Senhora- por dentro e por fora. 
Curiosamente ontem, sem me lembrar da data, encontrei esta entrevista em que outra musa incontornável de que falámos há pouco, Sophia Loren, partilha as suas recordações dela, descrevendo-a (claro) como "muito discreta".



Os grandes vultos de um passado dourado vão desaparecendo. Ainda temos Raquel Welch, Brigitte Bardot (pouco igual a si mesma) Loren, Lollobrigida, Cardinale e outras. Mas Hepburn, como Elizabeth Taylor ou Lauren Bacall, já não se encontram entre nós e temo que aos poucos, quando todas as elegantes estrelas de décadas idas se tiverem esfumado, reste cada vez menos da magia, graciosidade e delicadeza que cá deixaram. 

A fama imortaliza-as, certo; o exemplo e a inspiração não se desvanecem nunca. Mas enquanto cá estão em pessoa, tenho um pouco a sensação de serem anjos da guarda de um certo comportamento, imagem pública, discurso e forma de estar. São como mães vigilantes que a qualquer momento podem, através de uma qualquer entrevista ou declaração pública, puxar as orelhas à sociedade (recordam-se do chá que Taylor deu, com seráfica paciência e caridade, a Kim Kardashian, sem fazer a tonta sentir que estava a ser condescendente? Já não se fabrica disto!).

Receio bem que em estas, e outras Senhoras (como S.M. Isabel II) deixando este mundo - que seja bem tarde- assistamos à derrocada definitiva da feminilidade e elegância. A não ser que as excepções de hoje, que ainda as vai havendo, saibam velar com bastante vigor e energia, pela beleza e donaire de antigamente. Para o nosso bem e o das gerações futuras...

Monday, August 17, 2015

Quando as revistas punham juízo no mulherio #2




Recordam-se de no mês passado termos visto uma carta num "Correio Sentimental" de 1960, em que a revista pôs uma leitora desgostosa e desmiolada no lugar, dando-lhe um chá de bom senso?

 Quanto mais exploro as publicações femininas desse tempo, mais me admiro com o sentido de responsabilidade que procuravam incutir nas mulheres. O "nada é errado se te faz feliz" não estava na moda como hoje e não se punha o "corre atrás dos teus sonhos doa a quem doer" acima de tudo. Apesar dos contos românticos, das fotonovelas, das notícias de celebridades e das dicas de moda, quando se tratava de falar em comportamento as jornalistas de então apelavam ao uma boa dose de realismo e sentido do dever.

Observemos um exemplo de Abril de 1967. Uma anónima dos seus vinte e muitos anos escreveu para a Crónica Feminina nos seguintes termos (e olhem que conheço muitas que pensam exactamente assim):

"Sou casada e tenho uma filha mas não sou feliz. O meu marido é severo comigo e trata-me mal. Outra coisa que me aflige bastante é que gostava de ser artista, de cantar, de fazer cinema e teatro. De noite só sonho com essa vida que tanto desejo; de dia só penso nela e passo muito tempo a ler revistas que falem de artistas. Estou apaixonada por essa vida, mas também gosto muito da minha filha...por favor ajude-me a resolver esse problema".




Eis como lhe responderam: 

"É inconcebível que uma mulher casada, com uma filha de quem diz gostar, centre todos os seus desejos num sonho de sentir-se em evidência e fazer parte do mundo dourado do espectáculo. Respeito extraordinariamente as vocações verdadeiras que levam alguém a dar o melhor de si mesmo à arte que escolheu. Não é no entanto o que se passa consigo. Nem sabe ao certo o que gostaria de ser; a única coisa que a fascina é a notoriedade, o olhar das multidões, o êxito, a fama. Acorde enquanto é tempo, por amor de Deus! Não é já uma garota de quinze anos para sonhar assim, esquecendo a realidade que se esconde atrás do brilho dos projectores! Ser artista não é fácil: quantos ficam pelo caminho ou marcam passo num obscurantismo que nunca conseguirão abandonar! A severidade do seu marido não será principalmente fruto de não encontrar em si a mulher que desejava para companheira mas apenas uma cabeça cheia de ilusões, que não sabe viver cada dia nem ser mulher e mãe no verdadeiro sentido do termo?".

Agora, imaginemos que conselhos dariam hoje os "consultórios" do género, ou as amigas de uma jovem mulher casada e mãe, com responsabilidades mas talvez demasiado tempo livre em mãos, que decidisse de um momento para o outro que queria ser famosa, por vaidade e escapismo (pois assumo pelo conteúdo da carta que a leitora não tivesse um percurso ou estudos nas artes do palco enquanto solteira) deixando as suas obrigações para trás e entretendo-se com folhetins todo o santo dia.

 Estou a ver o filme... seria o "consultório" a recomendar "concorra ao Ídolos! Reconsidere a sua relação porque o parceiro não tem o direito de a limitar; talvez tenha casado demasiado cedo, quando não tinha descoberto o seu verdadeiro "eu" e estado em contacto com a sua deusa interior", etc. E as amigas: "mostra o teu talento, amiga ! Vai atrás dos teus sonhos! Inscreve-te na Casa dos Segredos! Pede o divórcio porque homens há muitos e nós somos poderosas, blá blá blá".



No meio disto tudo, bem gostava de saber como a história acabou. Será que a jovem desmiolada até tinha jeito, tentou umas aulas de canto e lá convenceu o marido a apoiá-la, mas em termos de gente ajuizada?

Será que confrontada com a realidade, viu que tinha tanta voz e presença de palco como uma cenoura crua e ganhou tino? Será que nunca deixou de ser desmiolada e o marido ficou a sofrer-lhe tudo? Ou o marido terá agido como um homem do seu tempo e ido devolver a tontinha a casa dos pais? E a pobre criança, como ficou? Mistérios...



Wednesday, August 12, 2015

Termómetro do ciúme: em 1961...e hoje

Uma "escala mundial do ciúme" elaborada por psicólogos

" O ciúme tem sempre por base um complexo de infantilidade, porque quem é tendente a este defeito possui um espírito que não se fez adulto. Será mais ciumento o homem ou a mulher? Geralmente é a mulher, porque é particularmente exagerada nos seus defeitos (...). Em contrapartida os excessos de ciúme, inclusive os crimes passionais, são mais frequentes nos homens do que nas mulheres, porque estas suportam melhor o tormento do ciúme e não temem tanto como o homem o ridículo da traição, que faz explodir os seus sentimentos de forma violentíssima.
(...) um conselho a todos os ciumentos: é preciso pensar que este defeito pode matar o amor mais forte...".

in Crónica Feminina, Junho de 1961

 Este curioso artigo vinha acompanhado de um gráfico (acima) que indicava, de acordo com cada país, "o número de ciumentos e a intensidade do ciúme".  Não sei ao certo como se mede tal coisa numa população inteira, mas suponho que tenham usado um questionário semelhante a este, que ilustrava o mesmo texto:


Tem graça observar que nos nossos dias, muita gente podia perfeitamente rever-se neste "termómetro do ciúme". 

Basta substituir, na sexta questão (para eles) "uma carta na carteira" por uma espreitadela não autorizada ao telemóvel e (nas questões femininas), "mandar alguém vigiá-lo" por um intenso controlo do facebook e instagram.  De resto, tudo igual. É claro que algumas perguntas indicam um ciúme perfeitamente saudável ainda hoje: responder afirmativamente a 3 ou vá, 4, não é nada do outro mundo. Que um homem não goste de ver a sua mulher feita Kim Kardashian ou coisa pior na rua, é um elogio que lhe faz. Mas se a ideia dele de "roupa provocante" é um vestido minimamente cingido, ou um ligeiro decote nas costas; se lhe faz uma cena simplesmente porque ela foi alvo de admiração numa festa; e no feminino, se basta o esquecimento de uma data para se sentir traída ou algo tão inócuo como "a tua amiga é tão simpática" para perder o juízo, algo não bate certo.

O "monstro de olhos verdes": a temperar ou tornar intragáveis os relacionamentos desde que o mundo é mundo...



Monday, August 3, 2015

A paixão acima dos interesses


O bikini de Ursula Andress, que a catapultou para o estrelato em 1962, foi responsável por encorajar muitas mulheres a  finalmente experimentar um (embora o modelo moderno se estreasse em 1946, existissem fatos de banho de duas peças já nos anos 30 e até na Roma Antiga se usassem uns antepassados do dito cujo). Claro que no início dos anos 1960 todos os bikinis eram apropriados e tinham classe; hoje é preciso procurar um bocadinho melhor.

Bikinis à parte, Ursula nunca ficou conhecida por muito mais além da beleza, do seu lindo cabelo, da boa figura e das feições cinzeladas: até fez de Afrodite em Clash of the Titans.

 Mas também primou por ser sincera. Quando lhe perguntaram porque é  em 1965, no auge do êxito e sem necessidade alguma disso, concedeu posar para a Playboy, respondeu: "porque sou linda!" (o que vá lá, sempre é uma motivação melhorzinha para dar nas vistas e ganha um ponto pela honestidade...). 

 Ursula também disse em tempos "em mim sempre tiveram mais força as paixões do que os interesses". E acredito que fosse verdade. Não seria a primeira nem a última mulher bonita a ser destituída de cálculos, a ir onde o coração a levava em vez de fazer da sua beleza arma de arremesso. 


 Sinceramente, pelos casos que tenho visto, as mulheres mais pretendidas não têm tempo para ser fatais, para estratégias nem cálculos: a vida apresenta-lhes espontaneamente tantas opções (nem todas boas; daí haver tantas beldades infelizes) que a dificuldade está em fazer escolhas acertadas. 



Por exemplo, lembro-me de uma jovem professora que tive de quem gostava muito. Não se parecia com Ursula Andress; tinha mais de Cleópatra como a imaginação popular a pinta. Era linda, além de inteligente e gentil. Tinha uma pele perfeita, olhos verdes rasgados e um narizinho que parecia obra de bisturi, sem ser. Eu conversava bastante com ela mas achava-lhe sempre um ar um pouco triste. Um dia comentei o facto com uma rapariga da minha turma, que me contou que aquela mulher linda e elegante, tão simpática, tinha sido abandonada no altar pelo noivo. Além da vergonha, fora um grande desgosto porque gostava mesmo dele...perdi o rasto à professora, mas nunca me esqueci disto. 

 Muitas vezes homens e mulheres têm mais a recear das raparigas sem graça, mas ambiciosas e atrevidas, dos que de muita Ursula Andress por aí - mesmo das que têm a imodéstia ou a ingenuidade de se reconhecer umas Afrodites, como ela.

Sunday, August 2, 2015

Beatriz Costa dixit: que mereciam estes "ricos maridos"?


Já por aqui mencionei várias vezes como gosto dos livros de memórias de Beatriz Costa. A nossa simpática actriz viajou por todo o mundo e privou com as personalidades mais extraordinárias, de Picasso a Lana Turner. Tudo quanto se possa imaginar de gente interessante, de ícones vivos ou mortos, das artes às letras passando por pessoas da melhor sociedade, de todos guardou histórias para contar.

 Apesar de ter aprendido sozinha a ler e escrever aos 13 anos (alfabetização que completaria mais tarde à mesa da Brasileira, com a ajuda de Almada Negreiros e outros grandes vultos) descrevia as suas aventuras com uma graça, uma eloquência e uma vivacidade ímpares. As suas recordações são um verdadeiro estudo de costumes...

 Ora, a dada altura Beatriz passava largas temporadas em Paris e era íntima de Elsa Schiaparelli, em casa de quem se faziam animadas tertúlias. Como ao Sábado a aristocrática designer dava folga ao pessoal doméstico, cada convidado dava a sua colaboração para fazer o jantar e lavar a louça, de modo que havia frango cozinhado por Greta Garbo e copos limpos por Salvador Dali!



 Também se tornou uma fiel cliente da Maison Dior e das Galerias Lafayette, o que fazia com que muitas senhoras brasileiras e portuguesas a maçassem para lhes servir de cicerone para compras na Cidade-Luz. E assim pôde Beatriz Costa aferir um triste facto:

"Nisto de gastar dinheiro, a brasileira é mais arrojada. A mulher portuguesa depende muito do visto conjugal para os seus gostos...conheço senhoras riquíssimas que nunca vestiram um modelo! 
Em compensação, conheço maridos dessas mesmas senhoras que sustentam concubinas que só vestem de Paris e de Roma...".

Que na época uma mulher, se não tivesse muito de seu (ou muita mão nos seus haveres, pois conheço não poucos casos de dotes espatifados pela cara metade) dependesse do marido para pagar os seus arrebiques, vá que não vá. Agora essa dupla punhalada era imperdoável, e o pior é que não é coisa do passado...tenho ouvido muitos episódios aviltantes e recentes a provar o adágio popular "as primeiras são vassouras, as segundas são senhoras". Insulto a dobrar, à fidelidade conjugal e ao armário!

 Como se não bastasse sujarem de lama os vestidos das legítimas, ainda tratam, como uns perfeitos palermas, de garantir que os compram de melhor qualidade às malucas com quem passam o tempo, na maioria dos casos indignas de engraxar os sapatos às mulheres que têm em casa...


Isto enquanto as esposas, coitadas, sabendo ou não, ricas ou não, se privam deste ou daquele pequeno luxo ou conforto pela boa economia do lar. Tal como antigamente...

Se um homem infiel é o piorio do intolerável - ou seja, nenhuma mulher digna tem obrigação de suportar tal humilhação - um que é assim mas não distingue o trigo do jóio e coloca uma doidivanas no mesmo plano (ou até acima) da mulher que leva o seu nome, não sei o que merece.

 Enquanto actualmente a maior parte opta pela tristeza do divórcio (cujas consequências são muito relativizadas) a solução de outros tempos e menos comum agora, para uma senhora de brio, era a separação como mandava a Igreja e a boa sociedade. Sacudia-se a lama das saias e retribuía-se o sofrimento com o desprezo. 


 Algumas iam além disso e desciam a pagar na mesma moeda, como uma certa duquesa encantadora cujo marido trocou o conhaque pela aguardente e só estava contente nas piores companhias femininas: separou-se, manteve os seus privilégios e fez outro tanto. Tomava amantes e despedia-os antes que dessem problemas, dizendo-lhes "se alguma vez nós, mulheres, fôssemos falsas e cruéis para os homens, estaríamos no nosso pleno direito; seria uma mísera compensação da muita perfídia com que os senhores nos tratam...". 

 Não concordo que se proceda assim, mas é compreensível que o abismo atraia o abismo, que asneira atraia asneira. Até S. Gregório Nazianzeno avisava com que cara quereis exigir honestidade de vossas mulheres, se vós próprios viveis na desonestidade? Como lhes pedis o que não lhes dais?". Haja juízo...



Thursday, July 23, 2015

As coisas que eu ouço: as "escandalosas" e a Procissão





Esta história é bastante caricata, própria de uma novela baseada em Jorge Amado, mas não foi fruto da minha imaginação; foi presenciada por pessoas de família (que eram pequenas na altura) em 1960 e bolinha, na Beira Alta. 

 Sempre gostei de ouvir esses episódios em casa (já aqui vos falei brevemente da Sra. Molelas, a velha criada) porque as cidades e vilas dessa zona tinham, na época, um estilo de vida próspero  e algo particular. A pequena "boa sociedade" local era muito unida e bastante cosmopolita. As pessoas viajavam e  faziam a maior parte das compras em Espanha; as mulheres "embonecavam-se", usavam o cabelo em "colmeia" e algumas atreviam-se já a uma discreta mini saia.

 O que não se comprava fora, era fornecido em grandes bazares ou comércio especializado. Depois, quase todas as famílias tinham a sua própria produção de iguarias: legumes frescos, ovos, enchidos, as boas conservas da região, queijos e presuntos enchiam as despensas e eram partilhados entre os vizinhos. Pobreza e desigualdade havia, como sempre houve e haverá, mas sendo uma zona fértil, não se tornava tão aflitiva como noutros sítios. O que mais angustiava ricos e pobres eram ver os jovens que partiam para o Ultramar e voltavam numa caixa, cenário bastante frequente.


 Em suma, quem vinha de visita das grandes cidades do litoral ou do estrangeiro ficava surpreendido com o bem estar e mente aberta da "província". 

Mas as velhas tradições também se mantinham de pedra e cal. As freiras tinham uma parte importante na educação dos meninos e meninas e o pároco local, já idoso e muito bonzinho, era adorado pelas crianças, para quem tinha uma paciência de Job, menos quando lhes metia um medo de morte com o Inferno (o que até resultava para incrementar a disciplina) ou pior, quando prolongava a sua homilia horas a fio (ou o que parecia horas a fio) nas manhãs em que a neve chegava aos tornozelos...

Como a Igreja estava a deitar por fora e nesse tempo os mais novos davam o lugar aos adultos sem fazer perguntas, a pequenada ficava de pé, vergando sob o peso dos casacões de Inverno, a gelar e a dormitar, suspirando pelo "Ite, Missa est!". E os adultos, embora todos fossem cumpridores senão parecia mal, nem todos eram muito piedosos ou tinham espírito de sacrifício para os longuíssimos sermões: começou então a circular um estribilho algo blasfemo à saída da Igreja, dito à laia de desabafo enquanto se batiam os pés dormentes: dominus "vobisco", o teu pai é um corisco, etc (o resto da rima não me chegou, mas era maior...).



No entanto, as irreverências ficavam-se por aí... 

Mas os costumes estavam a mudar, não necessariamente (ou pelo menos, não totalmente)  para melhor. Num certo Verão, vieram de férias umas raparigas, filhas de filhos da terra, que viviam em França. O "povo" (que alguns de vós saberão, significa "aldeia" ou "povoação" para essas bandas) estava sossegado como sempre, e preparou-se uma linda procissão. Chegou o dia e estava tudo arranjadinho e ordeiro que dava gosto ver: colchas nas varandas, alecrim pelo chão, a banda a tocar, os andores enfeitados com esmero,  as pessoas mais ilustres do lugar, as senhoras muito aprumadas com elegantes véus e as santas Irmãs, ladeando os meninos da Catequese muito bem enfileirados.

Sai a Procissão, que percorria a aldeia toda...e eis que as doidivanas decidiram exercer o direito de fazer topless em sua casa, conforme os hábitos que traziam de Paris ou lá de onde era. Ninguém teria nada com as suas modernices, nem mesmo naquele tempo, se não tivessem escolhido a hora e optado pelo pátio da frente em vez do jardim das traseiras no firme propósito de trazer um pouco de St. Tropez à serra, de arreliar o pároco e escandalizar o povo - escandalizar no sentido Bíblico do termo!



 Assim, quando o piedoso cortejo passou à porta de sua casa, lá estavam as Brigitte Bardot do vilarejo nesses preparos, estendidas a apanhar sol com o maior ar de desafio. Depois levantaram-se e puseram-se aos risinhos e pulinhos, a pôr bronzeador, etc, como quem diz "não sabem o que estão a perder, seus anjinhos!". 

Medo da danação não deviam ter; os pais não deviam ser gente de as castigar; e ninguém ia parar para ralhar com elas, pois então!

De modo que a banda apressou o compasso, a assistência acertou o passo, o sacerdote não sei o que pensou mas imagino e continuou como estava, as senhoras olharam com reprovação, os homens olharam para o chão e as freiras...coitadas,  trataram de tapar a vista aos pequenos o mais discretamente que podiam. As escandalosas, essas lá ficaram, contentes com a sua mefistofélica partida que ficou nas crónicas da terra...

Muito gostava eu de as entrevistar  hoje, para ver se continuam a pensar da mesma maneira. O mais certo é jurarem que nunca fizeram tal coisa e serem umas senhoras do mais convencional que há, como costuma acontecer aos piores rebeldes assim que a vida lhes prega das suas...





Monday, July 20, 2015

Jackie x Marilyn - ou como lidar com uma mulher da luta



É curioso que duas das mulheres que mais admiro pelo estilo intemporal e sem mácula (apesar de muito diferentes uma da outra) tenham sido as piores rivais.

No entanto, se Jackie foi um exemplo intemporal de elegância interior, Marilyn nem por isso. Era frágil, carente e deixava assim abafar todas as outras qualidades que possuía (até o talento, que só foi reconhecido tarde demais). Era linda, fotogénica, vestia bem...e mais nada.

 Jackie possuía outro pedigree e outra educação, o que se traduzia numa classe à prova de bala. Marilyn era uma mulher lindíssima, mas Jackie era uma linda Senhora.

Como muitas mulheres do seu meio, tinha um grande sentido de dever e Católica, casada com um homem de família Católica Romana (embora mais tarde, ao enviuvar tragicamente, chegasse a pôr a sua Fé em causa) encarava o casamento como um compromisso inquebrável. Por isso, fingia não ver as aventuras do marido mulherengo, pelo menos em público. Sabia que enquanto mulher de JFK, representava algo maior do que ela própria. Assim,  tratava o vergonhoso assunto com o merecido descaso e Marilyn foi a única que a fez sentir-se ameaçada entre os "brinquedos" do marido: não tanto pessoalmente mas por recear um escândalo, dada a grande fama e fraco auto domínio (e noção das circunstâncias) de Ms. Monroe.



  Quanto a Marilyn, coitada, não tivera mãe que lhe ensinasse (embora também haja para aí mães que ensinam precisamente o contrário daquilo que é correcto) que uma mulher só corre atrás de um homem se ele lhe tiver roubado a carteira!

Iludiu-se e tratou de fazer a Kennedy marcação cerrada: embora o Presidente tencionasse tanto divorciar-se da esposa para casar com ela como ir ao fim do mundo, lá achou que ia ser Primeira Dama e teve a desfaçatez de ligar à legítima, toda serigaita, a avisá-la "olhe que ele vai pedir-lhe o divórcio para casar comigo" - na tentativa desesperada de a fazer perder a cabeça.

 Nem ao menos percebeu que quando um homem está determinado, ele próprio trata de informar a cara metade; não precisa que a amante faça de mensageira...



 Jackie atendeu o telefone, ouviu, deixou-a falar. E depois respondeu-lhe muito calmamente: "deveras? Ele vai divorciar-se de mim para casar consigo? Muito bem, eu vou-me embora; a senhora muda-se para a Casa Branca e fica aqui a braços com todas as responsabilidades, problemas e canseiras...".

E assim troçou da rival sem descer a esgatanhar-se com ela, pondo-a no seu lugar com refinada ironia. Ignora-se como a actriz terá reagido a esta subtil resposta torta, ela para quem ser Primeira Dama devia representar apenas estatuto social, usar uns vestidos todos bonitos e dizer adeus às pessoas. Mas claro, todos sabemos como a história acabou. Nunca houve nenhuma Primeira Dama chamada Marilyn Monroe. 

  Porém, caso o Presidente fosse louco para pôr tudo em risco e casar com Marilyn, acredito que Jackie o tivesse deixado à vontade - e a braços com o remorso, a consciência de homem Católico em grandes apuros, a carreira política de pantanas e uma mulher que não tinha nascido para o papel a espatifar a Casa Branca...

Onde há mulheres da luta, mulheres dignas não têm interesse em estar. Aliás, mulheres de brio não têm concorrência: face a um ameaço, geralmente aplicam a fórmula de Eça de Queiroz: mandar o traidor à atiradiça, com um bilhetinho a dizer "guarde-o". Ou antes, "ature-o".





Wednesday, July 15, 2015

As coisas que eu ouço: o pudor, um reflexo instintivo?




Lia eu há dias, numa das revistas antigas da minha colecção, a frase "o pudor é um reflexo feminino instintivo". E fiquei cá com as minha dúvidas...talvez o seja mais numas do que noutras, e mais acentuado em algumas épocas.

 A frase veio entretanto a propósito numa conversa em que se falou de como algumas mulheres fazem questão de se menear quando entram num local mais frequentado por elementos do sexo oposto - seja certos ginásios, uma oficina, um prédio em obras ou um quartel. 

  Isso pareceu-me assaz estranho, pois acho que a reacção natural será, ao aproximar-se de tais sítios, ainda que não se conte com nenhuma atitude menos respeitosa, vestir o casaco (mesmo que não se traga vestido nada que dê nas vistas) não estabelecer grande contacto visual... em suma, fazer o que é normal quando uma pessoa se sente observada!



 Mas ao que parece há quem adore esse tipo de atenção. Lembrei-me então dessa cândida ideia (escrita nos anos 1960) de o pudor ser um reflexo instintivo de qualquer mulher. O certo é que não é nem era na altura, e tenho provas...

 Uma pessoa minha conhecida tinha, nessa época, uma bela e reluzente oficina de automóveis novinha em folha. Era um homem muito bem parecido e vaidoso, além de bom profissional...

Pois começou logo a ver-se grande sururu de senhoras a acorrer ao estabelecimento, sem fazer caso do óleo de motor que lhes pudesse sujar as toilettes, nem deixar aos maridos tão maçadora incumbência...embonecadas, bamboleantes, dengosas, todas pintadas, com os seus bonitos cabelos armados com laca, era uma alegria.

 A brincadeira só parou quando a vizinhança foi avisar a legítima..."olhe que o seu marido está na conversa horas a fio com a clientela...e quando o empregado lhe diz que vem lá uma senhora, vai a correr buscar o pentezinho para se ajeitar antes de a atender...".

A época que atravessamos pode legitimar, relativizar ou fazer com que certos desconchavos passem despercebidos, mas o descaramento (ou falta dele) sempre existiu. Variava era de acordo com os princípios, natureza e educação de cada uma...

Saturday, July 11, 2015

Lembram-se de quando as pessoas tinham noção do certo e do errado...



...e não se importavam de o dizer publicamente, sem faltar à delicadeza MAS sem receio de serem chamadas "botas de elástico" ou "moralistas"? Quando não se acanhavam de chamar a bicharada pelos nomes, de apontar o preto e o branco sem eufemismos nem relativismos fofinhos?

Se calhar não se lembram de quando isso era a norma - nem eu - porque o costume terá caído em desuso por volta de 1970 e picos, e foi por aí abaixo, por aí abaixo...sendo limitado ao seio das famílias e às rodas de certa intimidade. De resto, inventam-se todas as desculpas para os pecadilhos alheios...pois quem tem telhados de vidro, não atira pedras. Se antigamente a regra era "perdoar quem errou, mas abominar o erro" actualmente o erro é muito desculpável. Ou com pretextos da psicologia, ou com o de "a vida são dois dias".

 Encontrei um exemplo disso numa revista de 1960. No "consultório das dúvidas sentimentais" deu-se a seguinte resposta - sensata bofetada de luva branca - a uma leitora que se lamuriava de sofrer muito por se ter envolvido com um homem casado e pai de família:

"Se sofre, a culpa é sua, pois devia ter arranjado um rapaz livre. Se pensasse bem no que essa pobre mulher e aquela criança sofrem por sua causa, não falaria nunca no «seu» sofrimento. Não queira construir a sua felicidade sobre os destroços da vida de alguém. Volte ao bom caminho. O seu sofrimento acaba, pois a sua consciência fica livre de pesadelos. Creia que o que lhe dizemos é tudo para seu bem...".


E mais nada. Ora tome um merecido raspanete que é para aprender, sua desvairada destruidora de lares. Mas era para o bem dela, sem dúvida!

 Tenho para mim que fosse a mesma pergunta colocada no "consultório" de uma revista actual, a resposta seria algo do género "pense na sua felicidade! O que importa é ser feliz!"...sem nenhuma consideração pelos sentimentos dos outros.

 Agora continua a julgar-se, claro; a maioria das pessoas faz muitíssimo de juiz...quando os pecados dos outros a afectam directamente. Uma mulher enganada dificilmente terá com a rival a mesma "solidariedade feminina" que concede uma conhecida (ou mesmo a uma celebridade) que se envolva com um homem casado: a não ser que seja de uma classe à prova de bala, o mais certo é chamá-la de tudo um pouco, pô-la mais rasa que a lama nas redes sociais, ameaçar vinganças de meter medo.

 Caso contrário, é tudo relativo, cada um sabe de si, tudo é desculpável. "Se calhar o casamento já não andava bem" (e claro, cabe a uma serigaita acabar de o estragar!) etc. "coitadinha, iludiu-se..." (desiluda-se então, que diabo!). 

Quase se podia dizer que há mais compaixão por quem tropeça do que pelas vítimas desses "tropeços". Ou concluir simplesmente que poucas pessoas levam a sério os seus compromissos (e pior ainda, os dos outros).

 Não cai bem dizer em público ou na cara da pessoa que prevaricou "isso é uma coisa inquestionavelmente horrível de se fazer". Nem que seja para o bem dela.

   A mim parece-me que anda tudo ao contrário, não sei o que pensam vocês...

Wednesday, July 8, 2015

As "Zecas" da vida - ou um cartoon que faz cá muita falta.

A revista Crónica Feminina tinha, nos anos 60, um cartoon muito engraçado: "Zeca e a Vida". Os desenhos, que eram um encanto, vinham sempre acompanhados de uns versinhos moralizadores, que lembravam como uma jovem não se devia comportar, que nesse tempo não se escrevia só o que o mulherio queria ouvir...também se avisava "não façam assim!".

A protagonista, a Zeca, era uma rapariga tola que, pretendendo ser muito moderna, muito informada e independente, esquecia o básico e só fazia disparates; e pretensiosa, achando-se uma grande senhora, caía em várias más criações fosse no cinema, na praia, nas lojas, etc.


Exactamente como muitas hoje em dia que sofrendo da "ilusão da experiência" se tornam imprudentes porque se julgam imunes a tudo, fingindo ignorar que o mundo não mudou tanto como isso...e fiando-se no facto de serem mais (formalmente) instruídas (mas não necessariamente mais cultas nem mais sábias) que as mulheres de gerações passadas, se sentem mais espertas do que na realidade são. A Zeca era uma chica -esperta. A diferença é que naquele tempo o fenómeno era recente, logo dava nas vistas e motivava brincadeiras que na altura eram consideradas justas, mas hoje seriam olhadas de lado.



É curioso: surgisse um cartoon destes em 2015 e mais facilmente se criticaria a rábula do que as mulheres que a inspirassem...e no entanto, quantas "Zecas" conhecemos por aí? A ler porcarias e a orgulhar-se de as ler; a fazer tristes figuras e a não ver mal nenhum nisso, antes pelo contrário; a fazer-se muito fortes, muito independentes, mas a postar frases lamechas nas redes sociais, vulgo "já não te quero, já vens tarde" para alfinetar um homem que nunca as levou a sério, se é que alguma vez as quis? A tratar com desprezo a senhora da limpeza ou quem estiver sob a sua autoridade no emprego, só porque deram um passinho em frente?



Zecas não faltam, o que nos falta é sentido crítico. E o mais caricato é que as autoras ou leitoras que jamais admitiriam uma "Zeca e a vida" nas suas revistas, alegando solidariedade feminina, serão muitas vezes as primeiras a cortar na casaca de uma "Zeca" que se atravesse no seu caminho...nessa altura qual girl power, qual carapuça. Faz falta um cartoon da Zeca estampado a letras gordas em muitas publicações, oh se faz...

Sunday, June 28, 2015

Talitha Getty: os excessos da hippie mais chic


Quando se pensa em hippie chic - uma tendência que voltou intensamente este Verão, com calças boca de sino, vestidos longos, saias (e outras peças) de camurça e acessórios com franjas- o nome de Talitha Getty vem imediatamente à ideia de qualquer fashionista que conheça bem as suas referências.

Georgia May Jagger abrindo o desfile Marchesa (S/S 2015)
com um look hippie chic

De origem holandesa, Talitha nasceu em Java numa família de artistas (a avó, Dorelia,  foi também uma it girl boémia nos loucos anos 20) e - depois de ter passado a infância num campo de prisioneiros japonês durante a II Guerra-  mudou-se com a mãe para Inglaterra, onde estudou arte dramática.

 Porém, não trabalhou muito como actriz (pouco ficou para a memória além de uma breve participação em Barbarella): considerada uma beldade, os homens não lhe resistiam. Rudolfo Nureyev adorava-a e tentou casar com ela. Porém, teve tão pouca sorte que não pôde comparecer a um jantar onde ficariam sentados juntos...e o anfitrião convidou Paul Getty, o magnata do petróleo, para o seu lugar. Resultado? Paul e Talitha apaixonaram-se, casaram e tornaram-se um dos casais mais emblemáticos dos swinging sixties em Londres.

Talitha e Paul no seu casamento, em 1966

 Ficaram famosas as suas temporadas em Marrocos, com outros ícones da época, como Mick Jagger e a namorada, Marianne Faithfull.

 Porém, os excessos sucediam-se; as reuniões boémias eram coloridas pelas mais belas roupas...e por quantidades impressionantes de ópio. Yves Saint Laurent - que criaria o inesquecível perfume Opium em 1977 - comparou o casal ao romance de Scott Fitzgerald: "belo e amaldiçoado". Com boas razões...

Este retrato do famoso fotógrafo Patrick Anson (Conde de Lichfield) para a Vogue americana, definiria o estilo hippie chic para o futuro-apesar da vida relativamente discreta de Talitha e Paul à época

Apesar de idolatrada pelo marido e de se ter tornado mãe, Talitha teve um caso com um jovem aristocrata francês - e conhecido dealer dos famosos- o Conde Jean de Breteuil. Esse belo rapaz, descrito por Marianne Faifull (que fugiria com ele depois de romper com Mick Jagger) como alguém tão sombrio "que parecia ter rastejado de uma gruta" gabar-se-ia mais tarde de ter fornecido a heroína que matou Jim Morrisson. 

Jean de Breteuil

 A elegante Talitha finar-se-ia em Roma, de causa idêntica, menos de duas semanas depois da morte do Rei Lagarto. Contava apenas 30 anos. E Jean...teve igual destino no mesmo ano, 1971.

 Após a morte da mulher que amava, o marido Paul deixou a vida hedonista, descuidou completamente os negócios e passou a estar num tal isolamento que lhe chamavam "o milionário eremita". Demorou muitos anos a recuperar, e mais de uma década depois os sinais do seu sofrimento ainda eram visíveis. "A dor simplesmente não se evapora" comentava, destroçado.


Tuesday, June 23, 2015

Eu embirro com...a letra dos "Óculos de sol"


A canção é engraçadinha, marcou uma época, quando a ouço até imagino aqueles bikinis muito giros dos anos 1960...( "Óculos de Sol" fez sucesso em 1968 e tanto quanto sei foi uma one hit wonder...) mas a letra, a letra é que eu não aguento. E como o Verão já chegou, receio bem que vá ter de a ouvir outra vez por aí...

Senão, reparem: a história até começa muito bem. A menina Natércia Barreto (que não sei se compôs a cantiga ou só lhe deu voz, esclareçam-me por favor se estiveram mais informados) está a preparar-se para ir à praia. Já tem o kit de maquilhagem, o bikini encarnado e "um creme muito bom para se bronzear" (na altura ainda não se falava muito nos malefícios do sol e só no final da década apareceram os primeiros protectores solares, mas espero que o da cantiga já fosse desses, porque a cantora era branquinha e lourinha). 

 Também leva o rádio portátil, porque em 1968 não existiam androids e IPhones para distrair as pessoas de todo o contacto humano. Só não se percebe se vai sozinha - onde estão as amigas da Natércia? Principalmente considerando que a pobre coitada vai fazer o disparate de ir à mesma praia onde o ex se pavoneia com a nova serigaita que arranjou. 




Pimba, primeira dúvida: a Natércia não tem amigas, afastou-as todas durante o namoro com o malandro e agora não lhe resta nenhuma (má ideia - isso nunca se faz) ou as amigas da Naná (para não escrever de novo Natércia) são tão tontas como ela e não a impedem de fazer uma asneira tão grande? Pior ainda, se tem amigas, são tão más e egoístas que não prescindem de ir à praia para afastar a coitadinha de tal mau encontro?

 Qualquer amiga verdadeira e sensata diria "não, Naná, não vamos à praia para não nos cruzarmos com o estúpido do Gustavo, que deve lá estar com a pindérica da Ritinha. Vamos antes às lojas, à piscina daquele hotel novo  ou para casa da avó da Filipa na aldeia, que tem rio e tudo". 




Tentaria distraí-la com outra coisa. Não. As insensíveis, se é que existem, desafiam-na a ir ao mar e cara alegre. O que me leva à dúvida número dois: a praia é assim tão pequena? É que isto parece-me uma desculpa esfarrapada, ou um cenário à Morangos com Açúcar versão anos do ié-ié, que os moranguitos arranjavam sempre maneira de todo o elenco ir de férias em simultâneo para o mesmo sítio. Certo, há praias na Linha, na Caparica e outras (como as de Buarcos e algumas algarvias) na cidade que são um pouco apertadas, mas...de qualquer modo com tantos quilómetros de costa neste país há sempre outras praias livres de defuntos e coisas ruins.

E a infeliz  da Naná, com espírito de mártir ou de mulher da luta, lá vai contemplar tão triste espectáculo. Dúvida número três: ela bem se desculpa "já pensei não sair/ mas para onde hei-de ir/com este calor?".

 Mas atenção-  quando uma mulher não se quer cruzar com o ex, não sai e não sai mesmo, ou até arranja um itinerário dos lugares a evitar, mesmo que desista de assistir àquela festa ou de se refrescar no areal. Antes deitar-se na relva com os aspersores ligados! Antes, à falta de piscina privada (ou de um tanque, para quem mora em quintas) abrir a mangueira no máximo e fazer uma triste mas refrescante figura. Ao menos não se sujeitava a isso.

 Agora óculos de sol! Uma rapariga saca dessa arma secreta caso vá tranquila da sua vidinha, no lugar mais improvável para tropeçar na alma penada e, zás: lá aparece o anticristo. 

Que fazer? É pôr os óculos de sol, fingir que não viu e andor, violeta. Já ficar numa praia deitada a ver a cena do pateta aos afagos à flausina, com óculos de sol ou sem eles, exige masoquismo. E um bocadinho de falta de dignidade feminina. Sem esquecer uma mistura entre pateticidade e auto domínio sobre humano.

 Mais sinistro ainda, será que a intenção seria uma tentativa ridícula de comover o ex ("olha para mim tão triste, a chorar por ti") ou de lhe mostrar o que estava a perder para o reconquistar? Ou ainda, de estragar a tarde de praia à outra? De qualquer modo é infinitamente mau. Imaginem o ego do rapaz- deve ter ficado nos píncaros. Em vez de o mandar passear categoricamente, porque os homens mulherengos não merecem ser conservados, quanto mais disputados, põe-se a chorar com uns óculos de sol na cara! Fosse minha amiga ou irmã, que correctivo ia apanhar!

  Uma mulher só se presta a isso se:

a) estiver para lá de Bagdad e não se importar de todo;
 b) tiver uma companhia melhor para apresentar na praia, para ao menos salvar as aparências e devolver a arrelia. Nem que seja a fingir.

 Com cantiguinhas destas a encher as cabeças femininas de tolices como quem não quer a coisa desde os anos 60, não admira que se veja por aí tanto descalabro...

Sunday, June 21, 2015

Directamente de 1962: um sábio conselho de syling (e atitude)


Sobre o uso correcto das saias curtas:

"Saiba ver os seus defeitos dando provas do mesmo espírito de observação que a faz, com tanta frequência, criticar as suas amigas. Certas mulheres, certamente preocupadas em seguir a moda, usam a saia acima do joelho. Para as raparigas muito jovens ainda passa, mas para as outras? Os joelhos, vistos desta maneira, estão longe de ser graciosos! Se em fato de banho, na praia, uma perna é bonita porque é mostrada na sua continuidade, cortada a meia altura não é a mesma coisa..."

Já Coco Chanel dizia que os joelhos são a parte mais "arriscada" do corpo feminino, logo há que expô-los com cuidado.
 E é preciso ter em conta que Mary Quant, responsável por popularizar a mini saia dois anos depois do texto acima citado se regia pelo lema " bom gosto é morte, vulgaridade é vida" (Credo!). Por isso, um grande grão de sal, sempre!  Também nunca é demais lembrar  que a altura de saia que fica bem na sua amiga pode ficar péssima em si, apesar de vestirem o mesmo tamanho: quem faz questão de usar mini saia, vestido ou calções deve antes de mais nada preocupar-se com as proporções certas para a sua silhueta, garantindo que o que usa não vai achatá-la nem desfavorecê-la.

 E acima de tudo, há realmente que aplicar na escolha das próprias toilettes o dobro do espírito crítico que se usa ao comentar as alheias...ser exigente com as outras e complacente consigo mesma torna uma mulher deselegante por fora, mas pior ainda, por dentro...





Thursday, March 5, 2015

Sic transit gloria mundi


Em 1960 a imprensa do coração noticiava a vitória obtida pela bela cantora Maria Callas, ao ser aceite no círculo social do homem com quem esperava casar - Aristóteles Onassis. A Princesa Grace recusara-se até então a receber a lendária soprano por lealdade à primeira mulher do armador grego, Athina, de quem era muito amiga. À data acedia finalmente aos pedidos do Príncipe Rainier para que cessassem as hostilidades, e Maria Callas deve ter-se sentido muito confiante e feliz...

 Mas é curioso ver estes recortes antigos sabendo o que viria a ser o futuro...uma pessoa sente-se como um viajante no tempo, o que às vezes acaba por ser um pouco melancólico.

 Em consequência do affair, Athina divorciar-se-ia efectivamente de Onassis nesse mesmo ano,  casando no ano seguinte com o Marquês de Blanford e mais tarde, com o milionário Stavros Niarchos, viúvo da sua irmã. Morreu aos 45 anos, de overdose, em Paris, e os dois filhos que tivera de Onassis sofreram mortes igualmente trágicas.

 Quanto a Maria Callas, como estarão recordados, não chegou a casar com o homem que amava apaixonadamente: em 1968 Aristóteles abandonava-a  para desposar Jackie Kennedy, dizendo-lhe "não passas de uma mulher com um apito na garganta; um apito que de resto, já nem funciona". A cantora nunca mais foi a mesma, acabando por definhar de desgosto.

 O casamento de Onassis e Jackie foi tão infeliz que ele se teria divorciado dela se não tivesse morrido antes, em 1975. Alguns anos mais tarde também a encantadora Princesa Grace deixava de fazer parte deste mundo, ficando para trás um inconsolável Príncipe Rainier que não voltou a casar...

Dos protagonistas desta estória , nenhum se encontra já entre nós; as pequenas disputas, desgostos, vaidades, arrelias e batalhas sociais ou amorosas que os moveram deixaram de ser importantes e reduzem-se agora a velhos recortes de jornal que interessam apenas aos seus biógrafos, ou a curiosos sem medo de vasculhar revistas poeirentas...

 É por coisas destas que devemos apreciar com certo descaso as alegrias e glórias mundanas; delas apenas resta a anedota. Vanitas vanitatum et omnia vanitas...  







Friday, February 20, 2015

Sinais dos tempos: coisas que *não* mudaram desde 1960

Coleccionar livros e revistas do tempo da outra senhora, como a Modas & Bordados ou a Crónica Feminina (e lê-las com olhos de ver) dá muito que pensar. Vêem-se modelos e conselhos intemporais, outros que só se mantêm para as pessoas mais conservadoras e ainda aspectos que nos fazem sorrir, tais foram os saltos e trambolhões que a sociedade deu desde então.

 Se eu me benzo com certas "modernices" que pipocam por aí, que não farão as senhoras que escreviam ou dirigiam estas publicações e que ainda se encontrem entre nós! Espero que tenham sentido de humor e sejam pouco afectas a fanicos...


Vejamos então dois exemplos, de 1959 e 1960 (nota bene a riqueza da prosa, comparada com muito do que se lê agora).


O que não mudou nem um bocadinho


"Quando nos chegam os ecos de Paris- a capital do bom gosto - fazemos imediatamente certas comparações de ordem prática e chegamos à conclusão de que não nos seria fácil (...) encarnar a verdadeira parisiense (...). Temos à nossa frente um belo catálogo do último grito em sapataria e podemos verificar que todos os modelos (...) têm, com que maravilhoso aprumo, um saltinho de 7 ou mais centímetros  que termina em  «bico de alfinete». Este chão arcaico, que já viu cair (...) a era pombalina, arranca sem dó nem piedade as capas, os forros, os saltos, tudo, numa voragem assustadora. Os passos das elegantes são, portanto, hesitantes, receosos, desconfiados..."



in Crónica Feminina, Março de 1959

Calçada - e pior, paralelos - terríveis para os pés e para os saltos? Check; ainda continuam aí para as curvas, a arrasar a nossa delicada colecção de calçado. As vetustas ruas de Lisboa já me destruíram um par de botas de que gostava bastante (salto de madeira, ardeu!) e obrigam-me a ter muito cuidado com a forma como ponho os pés em dias de festa, principalmente se alguém tem a  bela ideia de sair do Chiado e dar uma voltinha ao Bairro Alto. A bonita alta de Coimbra...nem pensar nisso é bom, há uma rua do Quebra Costas por algum motivo. Mas essas enfim, são ruas velhas, agora até era mau mudar-se o chão. O mais cómico é que zonas renovadas, como a do Estádio de Coimbra, foram todas forradinhas a paralelos. A fase da minha vida em que morei nessas bandas foi a que mais me fez sofrer - a mim, à pedicura e ao sapateiro. Bem, eles lucravam...mas ainda a semana passada dei cabo de umas cuissardes italianas ao passar por lá (teve remédio, valha-me S. Sapateiro, mas arrepio-me toda quando tenho de contornar o edifício!).


               O que mudou da água para o vinho

(Resposta à carta de uma "apaixonada desiludida" de 16 anos , numa edição de Novembro de 1960 da mesma revista):

"Não deve tornar a escrever a esse rapaz e aconselhamo-la até a fazer o possível por esquecê-lo. Fez muito mal realmente em ter-lhe dado a sua fotografia, pois só quando um namoro inspira confiança e se têm uns laços fortes de amizade, tal se deve fazer (...)".


Primeiro, note-se o tom sensato e querido da resposta. Depois...é cómico reparar como oferecer um retrato a um rapaz era sinal de grande compromisso e intimidade. Hoje, se pensarmos não só na exposição pública de imagens que deviam ser privadas (ou de gosto questionável) nas redes sociais mas nas coisas piores que por aí se passam com rapariguinhas dessa idade -  sexting, "estrelas do facebook" e o diabo a sete - ficamos de cabeça a andar à roda com este admirável mundo novo.

  Isto para não falar nas mulheres feitas que têm idade para ter juízo e se portam mil vezes pior...soubessem as boas senhoras dos anos 60, tão bem intencionadas e decorosas, o que por aí vinha...não teriam sido tão severas com a pobre menina!

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