Recomenda-se:

Netscope

Showing posts with label anos 80. Show all posts
Showing posts with label anos 80. Show all posts

Tuesday, May 15, 2018

As coisas que eu ouço: não tirem a piada às viagens em família!




Há umas semanas  ouvi na rádio um anúncio de uma qualquer MEO cá do burgo (já não me recordo que companhia era, mas oferecia um pacote de internet desses para dentro e fora de casa) que basicamente, prometia aos pais o sossego e a tranquilidade de crianças caladinhas nas longas viagens de carro. 

Nem conversas, nem gargalhadas, nem andar à batatada uns com os outros, nem cantar a árvore da montanha até encher a paciência aos adultos, nem constantes perguntas "ainda falta muito?" e muito menos "preciso de ir à retrete!", "quero comer!", "estou a enjoar!", "oh mãaaaae, ele não me larga", "paaaaai, ela pôs o pé em cima da minha cabeça" etc. Nada dessa selvajaria e coboiada que tanta graça e mística davam a qualquer percurso de férias nos anos 80/90 (já lá vamos). 






Nada de cantorias em família e os pais a alinharem na brincadeira até perderem a compostura e atirarem com um "quietos, ou voltamos já para casa" ou, melhor ainda, "se não se comportam como gente decente, levam uma tareia que choram com razão" (esta era ouro!). Nada disso. Zip it. Fecho eclair. Nem xus nem bus. 



Ou seja, viagens em família todas zen, de uma respeitabilidade pequeno-burguesa, pretensiosa, afectada e peneirenta; ideais, portanto, para paizinhos Bimbi armados em cosmopolitas de frágeis nervos, praticantes da "parentalidade positiva"que puseram no mundo crianças ora índigo ora hiperactivas (uma das duas tem de ser), adeptas ferrenhas da dieta Paleo e praticantes de mindfulness. Paizinhos estilo pais do Ruca (esse demónio!) que invariavelmente vão aproveitar a paz e o silêncio para meditar nas sábias palavras do guru do momento, mandar às "migas" a imagem das unhas de gel "de verão" e para partilhar nas redes sociais cada instante do percurso - mas atenção, com a cara da petizada devidamente oculta por um focinho de cachorro ou macaco do snapchat, não vá o diabo tecê-las. 



 E - voltemos ao anúncio- como se conseguia tal milagre, assim sem recurso à hipnose, clorofórmio, Xanaxes nem ritalina? Ora, usando a melhor forma de anestesia que existe: ou seja, alienando, perdão,  entretendo a pequenada (devidamente algemada nas suas cadeirinhas mesmo que já tenha quase treze anos e pernas super compridas) com os seus IPAD em vez de os deixar maçá-los com coisas aberrantes vulgo impaciência ou entusiasmo infantil. 

Para que não restem dúvidas, vou citar o "reclame", que era mais ou menos isto:

"Goze a sua viagem e deixe a Porca Peppa tomar conta das crianças!". 



 O quê??- saltei eu logo e desatei a fazer juras- peralá! No way!  Hell no! Era melhor!!! Não, c´os diabos!


Em planeta nenhum a Porca Peppa há-de tomar conta dos meus potenciais filhos e sobrinhos. Nem ela, nem a Popota, nem a Leopoldina e nem mesmo personagens mais aceitáveis ou vintage como a Bela Adormecida, os Cavaleiros do Zodíaco, os Pequenos Póneis, os Ursinhos Carinhosos, o Batman ou os Guardiões da Galáxia. Ponto. Mas a  Porca Peppa muito menos. Apre. Irra. Vade Retro Satanás.



Se é para se usar a internet com o propósito de tornar as viagens em família mais divertidas, não lhes ocorria nada melhor, tipo ir ao Youtube buscar vídeos de karaoke para cantarem todos juntos?

As  road trip em família foram das melhores recordações que me ficaram da infância. O caminho para chegar ao local das férias (ou aos vários pontos que queríamos visitar) era tão entusiasmante como as férias em si mesmas. Poucas coisas nos uniam mais a pais e irmãos e nos davam um melhor insight uns dos outros como peregrinar para conhecer as melhores e mais secretas praias do Alentejo ou percorrer a Europa de carro. 



Numa dessas viagens mais longas, não havia rádio e eu encarreguei-me da banda sonora, cantando com o pai o Jesus Christ Superstar inteirinho, de fio a pavio. A única coisa que tornava estes passeios melhores ainda era quando primos, avós e tios se juntavam à festa. Mais cantoria. Mais cobóiada. Mais pugilato e solavancos no banco de trás. Mais piqueniques. Mais do primo Vasco a berrar "traz a sopa!" para nós respondermos igualmente aos berros "já vaaaai", nunca percebemos de onde vinha o estribilho porque nem havia sopa no menu mas tinha graça, tal como a história a fingir francês "o Julien foi à misse...veio de lá uma mulher e disse... c'est ça, Julien?". Não havia selfies nem perdíamos tanto tempo a tirar retratos, mas ficaram alguns bem giros, revelados ou polaroid.



Não importa o quanto a tecnologia tenha evoluído, não se pode perder a magia. Nem podemos esquecer que as crianças crescem muito rápido. O tempo para fazer viagens divertidas, barulhentas e stressantes passa muito, muito depressa. É um fósforo. Não quero que as memórias da minha família venham a ser uma névoa de árvores a passar e olhos no monitor - arriscados a fazer um descolamento de retina, esse mito urbano da minha infância. Nem crianças alienadas, nem descolamentos de retina enquanto eu cá andar. A porca Peppa e toda a sua pandilha que vão pregar para outra freguesia!

Saturday, May 28, 2016

Ghostbusters só com mulheres- será boa ideia?


Já o tenho dito, Hollywood e os média em geral andam apostados em me escangalhar a infância com remakes e versões modernaças de filmes, personagens e séries bem amados pela minha geração. 

Não sei se será o caso de Ghostbusters, mas o que temos visto até aqui não me deixa nada descansada. Raramente fazem justiça ao original, quanto mais inventar para melhor, isto quando não se põem com paranóias da inclusão e da igualdade. Agora há uma orfãzinha Annie afro-americana (nada contra, até estou curiosa para ver o filme, mas ser ruiva era o cartão de visita da personagem. É o equivalente a fazer A Cor Púrpura com mulheres louras de olhos azuis: até pode ser feito, mas não fica a mesma coisa). 

E se eu adorava os Caça-Fantasmas! Que serões com os primos à espera de nos assustarmos benevolamente com as assombrações! O meu preferido era o taxista-múmia que se virava de repente, no meio do caos armado em Nova Iorque. E a Estátua da Liberdade a caminhar? E o Titanic a chegar ao porto? E a música, que ainda ouço às vezes?

Duvido que seja a mesma coisa; que com os novos efeitos especiais por computador se consiga o mesmo impacto. Agora, que o elenco se componha exclusivamente de mulheres, não me agrada nem me desagrada. Só me aborrece por ser a visão imposta pela ditadura do politicamente correcto. 




Fazia mais sentido ser misto - haver entre os rapazes uma rapariga gira e uma senhora mais velha de língua afiada, daquelas que não aturam tretas, a mostrar que uma mulher é tão capaz de caçar almas penadas como um homem em vez de se limitar a ser a donzela em apuros ou a secretária namoradeira. Mas não. Tinham de fazer uma equipa exclusivamente feminina because you know, feminism. Soa forçado e é uma seca que nem a diversão mais inocente seja livre de cassete política. É o que temos e sou capaz de ver só para tirar teimas, embora sob protesto e a pensar que há aqui discriminação contra os homens e misandria, em modo " agora vingamo-nos, aqui menino não entra". Ah, grow up already.

Thursday, March 10, 2016

Pobres brinquedos: anos 80 x hoje

Não é a primeira vez que aqui se esmiuça indignadamente o estado de sítio que vai pelo maravilhoso mundo dos brinquedos. Particularmente nos brinquedos de meninas (sim, alguns destes ainda são "para menina" por mais que a McDonald´s se tenha curvado à doideira, como discutimos aqui e como João Miguel Tavares disse nesta crónica que é das coisas mais lúcidas que li nos últimos tempos). 

Porém, analisando-os todos juntos chega a ser assustador. De acordo com os fabricantes de brinquedos, as pequenas de hoje não podem aspirar a um corpo "perfeito", mas devem vestir como meretrizes; não podem ser femininas no sentido tradicional do termo, mas é desejável serem flausinas e aprenderem desde cedo o atrevimento. Ai não querem crer? Vejam pelos vossos olhos.


1 - My Little Pony

ANOS 80
Já aqui falámos em detalhe no desastre sinistro dos pequenos póneis humanizados e serigaitos, com direito a mini saias e pestanas postiças. Felizmente isso não passou de uma medonha edição especial, mas quer os desenhos quer os brinquedos têm agora um design muito mais infantilizado, diferente dos modelos elaborados que nos encantavam na infância

 
HOJE

Na linha da moda das ilustrações para livros infantis que supostamente as crianças de hoje apreciam, porque "são iguais aos desenhos que elas conseguem fazer". Olhem que divertido, que estimulante: rabiscos e garatujos...


2- Barbie...e o pobre Ken

ANOS 80
  Depois de anos a bater-se valentemente contra as vozes detractoras que a acusavam de estimular "padrões impossíveis" de beleza, a querida Barbie (que em meados do início do milénio já tinha aumentado a cintura e reduzido o peito, acabando por ficar mais Skipper do que Barbie) lá cedeu à ditadura da beleza real, à concorrência da trambolha invejosa da Lammily e à febre politicamente correcta da consumidoras.  Isto sem falar nas Barbies My Scene e outros lançamentos da pobre coitada a vestir como uma serigaita, para enfrentar a concorrência das Bratz com meias de rede e colagéneo nos lábios há uns anos atrás. 

HOJE

 Farta de remar contra a maré, de ser odiada pela sua perfeição, a nossa amiga ganhou agora vários tipos de corpo( não necessariamente muito realistas: veja-se que a versão "curvy" tem anca larga mas pouco peito... depois, arrisco dizer que em termos de marketing são um desastre; quem tiver várias bonecas vai ver-se aflita para comprar roupa para todas. Recordam-se de como era tentar enfiar na Barbie vestidos giros, mas feitos para outras marcas?). Além disso, a Mattel  publicitou amplamente os novos tipos de cabelo (o que não percebo como é novidade, já que a Barbie sempre teve amigas com todos os cabelos, etnias e cores...). Já o Ken, como vimos em triste pormenor, passou do seu charmoso tipo de college boy a ser bastante...lingrinhas e ameninado. Só não faz duck face para as selfies porque é um boneco, mas se calhar ainda arranjam forma de conseguir isso. E já há pressão para ele engordar também. God help us all


3- Pinypon
ANOS 80

Aqui entre nós, nunca tive muitos Pinypons: dava prioridade à Barbie, a livros, estojos de médico e lápis Caran D´Ache. Mas uma vez o menino Jesus trouxe-me um conjunto engraçadíssimo de Pinypons tendeiros, com uma carrocinha para vender frutas e flores, e lá fui comprando um por outro para alargar a colecção. Eram baixinhos, bojudinhos, infantis e super amorosos, com olhinhos pretos e inexpressivos, mas de uma maneira fofa. 

Pinypons e Pinyponas, todos vestiam umas jardineirazitas do mais inocente que há. E podíamos trocar-lhes as perucas de plástico, recordam-se? Se não estou em erro, fazendo isso dava para transformar um Pinypon em Pinypona: uma vez carecas, os pinypons não tinham sexo, como os anjos. Era tudo super progressivo e mente aberta mas não como hoje, que na altura ninguém punha maldade ou política em brinquedos nem se maçava com questões de "género".  
HOJE

Pois bem, olhem para os destravados dos Pinypons agora: para já, têm boca e alguns, cabelo à séria. Depois, fazem caretas, com o ar atrevido de criança chica-esperta a precisar de umas boas palmadas. E por fim, os penteados e as indumentárias: cristas, saltos altos, tops curtinhos de sair à noite e mini saias estilo kizomba. A sorte é que os Pinypons continuam rodinhas baixas (também, a marca perdia a  razão de ser...) e quase não têm pernas para mostrar, senão era a desgraça completa. Até há Pinypons namoradeiros. Bonito exemplo.


4- Barriguitas

ANOS 80
Confesso que não brincava com as Barriguitas, mas achava-lhes uma certa graça, principalmente às que cheiravam bem ou tinham cabelo colorido. Também elas eram inocentes, angelicais e bojudinhas. E escusado será dizer que também elas sofreram uma chocante transformação: de ingénuos bebés bochechudos, passaram a serigaitas e valdevinos magrinhos (só não têm um six-pack porque isso dava cabo da marca) maquilhados como travestis em palco e alguns, com um olhar alucinado que mete medo ao susto. 

HOJE


Aqui temos uma contradição: a Barbie engordou para não criar frustrações com um ideal de beleza "perfeita", as Barriguitas emagreceram para - digo eu - combater a obesidade infantil. Lá está, ninguém entende o politicamente correcto. 


5- Polly Pocket

ANOS 80
Foi brinquedo que nunca me encantou - uma espécie de circo de pulgas, mas com bonecas míiiiiinimas. O jingle era mesmo "tão pequena/num anel a poderás levar". Bem, os fabricantes adaptaram-se aos novos tempos fazendo o mesmo que todos os outros: enserigaitando as bonecas. Mas enquanto a Barbie engordou e reduziu o peito, o Pinypon ganhou carinhas e boquinhas e a Barriguita emagreceu, a Polly Pocket entrou naquela máquina do filme "Querida, aumentei o miúdo" e ficou enorme comparada com o que era.

                                      Comparação de tamanho entre a Polly Pocket original e a actual                             
Em altura e em silicone. Será uma Polly-Purse ou uma Polly- Bag e de certeza que é uma Polly Stripper, agora Polly Pocket, faz favor. Para terem uma ideia, até há quem se entretenha a fazer miniaturas da Miley Cyrus com Polly Pockets. Enough said.




No meio deste cenário dantesco, só o Nenuco continua igual a si próprio (se bem que vi umas edições todas anime e maquilhadíssimas há uns tempos, mas devem ter desistido da ideia). 

O mais estranho é que curiosamente - e sabem que "sexismos" não são comigo - os GI Joe, Action Man, Playmobil e outros brinquedos "para meninos" não foram ainda, graças aos céus, contagiados por esta febre. Com a loucura que para aí vai de efeminar os homens para evitar os "estereótipos de género" confesso que tive medo. Mas (por enquanto) os rapazes estão a salvo, por isso concentrem-se nas vossas filhas, que a coisa está preta. Muito preta (creio que ainda posso dizer "a coisa está preta", ou isso ofende alguém? Uma pessoa começa a pisar ovos nem que não queira...).

Wednesday, January 27, 2016

Uma mulher prudente vale o dobro, até os bárbaros o sabem.


Há dias estava a passar um dos filmes de Conan, o Bárbaro, com Arnold Schwarzenegger, que me divertiam bastante em pequena. Não me franzam o sobrolho, eu adorava o Conan em BD. Uma escolha estranha para uma rapariga, talvez, mas gostava mesmo. Não só pela figura desempenada do bárbaro mas pelas guerreiras, bruxas e princesas que encontrava pelo caminho. Bruto e bárbaro ou não, Conan era um homem Alfa. Conan não aturava desaforos. Conan levava tudo à frente à espadeirada até se tornar rei. Conan não falava muito, dizia "Crom!" quando se espantava com alguma coisa e olhem lá. Era mais um homem de acção e eu sempre preferi gente de poucas falas.


Para terem uma ideia, eu que nem gosto muito de ir ao cinema (partilhar uma sala apertada com estranhos, sem poder fazer pause ao filme quando me apetece e sentir-me na obrigação de lá ficar mesmo que me aborreça de morte não é o meu cup of tea- para isso, vou ao teatro) quis ir ver a versão nova, com o bem apessoado Jason Momoa. Fail. É claro que não gostei. A atmosfera não tinha nada a ver com a dos filmes originais. 

Mas voltemos à personagem do Conan, arquétipo da masculinidade no seu estado mais puro. A dar uma olhadela à história com olhos de adulta, notei algo que me tinha passado despercebido. A Princesa que a pandilha do Conan está a ajudar começa a ter um fraquinho por ele e pede umas dicas à guerreira Zula (a lindíssima Grace Jones) que, não sendo mulher de meias tintas, lhe diz o seguinte:



E a boa da Princesa Jehna decide levar o conselho ao pé da letra. No final, sem sequer avaliar como quem não quer a coisa se o herói está interessado, pede-o em casamento à frente de todo o mundo. Ah rapariguinha decidida e descaradona. Mas o bárbaro, que além de não ser pássaro de gaiola (naquele momento, pelo menos) é um rapaz à moda antiga, fica perplexo com a lata e recusa categoricamente: "terei o meu próprio reino, e a minha própria Rainha". Uffff, que vergonhaça. 

Teria sido melhor se se fizesse misteriosa, não? Ao menos não levava uma tampa MEGA diante da corte inteira. Ela ainda lhe dá um beijo (que isto a dignidade às vezes escapa até nas melhores famílias) a ver se o Conan muda de ideias, mas ná. Até podia ser uma Princesa, mas perdeu o encanto quando fez de flausina. Ele não gosta de serigaitas, como qualquer homem de brio. Bárbaro ou não bárbaro, Conan é um cavalheiro: prefere arrebatar a mulher dos seus sonhos, sentir-se um conquistador, a contentar-se com a primeira que se lhe oferece de bandeja. Porque já se sabe, isso tira a piada toda, vai contra a Natureza e não costuma dar bom resultado.

E é claro que mais tarde Conan casa, tem o seu reino e a sua Rainha, fazendo justiça ao ditado: "não é que ele não fosse homem para casar. Não lhe apetecia era casar contigo". Livra... #dignidadefeminina. Cabe em todo o lado e poupa embaraços!

Monday, November 30, 2015

O momento que se segue pode destruir a vossa infância. Não me responsabilizo.


É escusado perguntar "lembram-se da Heidi?" porque TODA a gente sabe quem era a bonequinha de faces rosadas e cabelo preto que cantava à moda tirolesa, sem cerimónia, "avozinho diz-me tu..." (o velhote não devia ser tão ranzinza como isso, se permitia familiaridades dessas aos mais novos...).


Nunca cheguei a ver a série porque passou em Portugal ainda eu não era nada, mas a febre da Heidi e do Marco contagiou de tal maneira miúdos e graúdos que na minha infância ainda se falava em ambas - existia merchandising da Heidi em casa dos meus primos mais velhos e até em casa dos meus bisavós havia umas canecas da Heidi, que invariavelmente me calhavam quando me queriam obrigar a beber café com leite (daquele que potencialmente tinha nata, um drama que a pequenada de hoje desconhece pois os fervedores de leite estão praticamente extintos). 

Além disso, nos anos 1960, muito antes de existir o anime, a mãe adorara o livro e insistiu que eu havia de ler esse tesouro da sua infância. Heidi, a menina dos Alpes, de Johanna Spyri, foi (a par com Pinocchio) um dos primeiros livros "à séria" que li. No romance ela não tinha o cabelo tão curto e liso, mas apesar de tudo a imagem que me ficou foi a dos desenhos animados.

Pois bem, agora pensem lá na "vossa" Heidi, que era assim....


E nas bonecas da Heidi, que eram assim, tiradas a papel químico da série (havia uma ainda mais fofa em casa da madrinha, hei-de perguntar-lhe se lá continua)...


Pronto, acabaram-se os paninhos quentes. É que um iluminado, desses que acham que as crianças de hoje não têm imaginação e que tudo - o Noddi, os filmes da Disney e até o Avô Cantigas - tem de ser feito a 3D,  estilo jogo manhoso de computador, entendeu que havia de trazer a pobre Heidi para o digital. E o resultado foi este...


Nem se canta o tirolês, nem avozinho diga lá, e na versão brinquedo a "nova" Heidi, a Heidi para a geração milénio, tem cabelo castanho, um carão comprido, um ar inexpressivo e parece que abusou dos bons petiscos dos Alpes - ou que continuou a apreciá-los mas senta-se a trocar likes com o Pedro e a Clarinha no facebook em vez de andar aos pulinhos pelos montes- pois engordou. Ora vejam:



Se calhar é mais um esforço para tornar as bonecas "reais" (que é um eufemismo para feiinhas) . Já não bastava a Anita agora ser Martine e a sem vergonhice que por aí vai no maravilhoso mundo dos brinquedos, nem a Heidi nos deixam....


Thursday, September 24, 2015

O bom e velho champô de ovo




Quando penso na minha infância, acho que tinha mesmo que dar em blogger, e até me admira não ser das piores, salvo seja - não me ter tornado numa beauty blogger dessas que cada dia que Deus deita ao mundo falam num produto diferente (nada contra, pelo contrário- as reviews destas meninas dão imenso jeito, mas os meus interesses diversificaram-se um bocadinho).

É que eu era um perigo perto dos cosméticos. Bastava passar por uma perfumaria ou pela secção de higiene e beleza do supermercado para ficar com os olhinhos a brilhar. Se me queriam ver entretida, era deixar-me ao pé da senhora "das pinturas" e já por aqui vos contei que adorava "pedir emprestados" os cosméticos da avó, herdar os bâtons da tia (os da mãe também, mas a tia comprava imensos e como tinha uma paciência de santa, dispensava-me sempre alguns) ou mesmo fazer misturas: a avó achou sempre que eu ia dar em cientista e trabalhar para a L´Oreal ou coisa assim. Uma das bonecas que mais me encantaram foi um manequim de cabeleireiro que nem parecia um brinquedo - absurdamente caro e  super realista. Foi um dos poucos brinquedos que estafei e não sobreviveu para contar a história.


 De modo que para mim, sempre ansiosa por novidades, frasquinhos e produtinhos às cores, tornou-se um desapontamento ver sempre lá em casa, para os cabelos dos pequenos pelo menos, o champô de ovo da Foz. Era uma coisa maçadora e pouco glamourosa que cheirava massa de bolos (agora adoro o cheiro) por isso passava a vida a insistir para se deixarem disso e ficarem-se pelas outras marcas, ou ao menos mudarem para o Foz de maçã ou de alperce que tinha uma cor mais bonita.

 Mas a mãe não desarmava, porque o champô de ovo, já as avós o sabiam,  tinha umas propriedades mirabolantes para fazer crescer uma bela cabeleira. E de facto, o cabelo louro platinado do meu irmão e os meus longos caracóis, que cresciam que Deus os dava,  eram para ninguém pôr defeito!

 Acabei por me emancipar do aborrecido frasco amarelo e só voltei a ele mais tarde, já no liceu, quando confirmei que afinal a mãe tem sempre razão o champô de ovo tem de facto uma série de poderes mágicos: abre a fibra capilar para permitir uma limpeza profunda, é emoliente, previne a queda, dá força e ajuda no equilíbrio hormonal. 



Lá fiz as pazes com o Foz, que realmente é óptimo para um cabelo macio, hidratado, brilhante mas também para eliminar o terrível complexo "raízes oleosas, pontas secas". Ou seja, grande aliado quando o cabelo apanha "fases" em que não se sabe o que fazer dele...ou para controlar a inevitável queda sazonal.

No entanto, continuava cá com dúvidas: champô de ovo de supermercado não podia ser a mesma coisa que champô de ovo caseiro, ou podia? Decerto a quantidade de ovo verdadeiro não seria grande. A fórmula era boa, mas não podia ter muito ovo...erro crasso! E descobri-o de uma forma pouco agradável...

Num certo Verão, comprei um frasco para evitar que o cabelo ressecasse com o sal e o calor, mas só gastei metade e no fim das férias deixei-o na casa de praia.


Estive uns três meses sem lá voltar e quando voltei...ia toda contente para lavar o cabelo...blhec!!!! Mal desenrosquei a tampa ia morrendo com o pivete a ovo podre, ou bombinhas de mau cheiro, que saía lá de dentro. Felizmente não cheguei a tocar no líquido, mas ficou explicado porque é que o Foz fazia efeito. Só é pena nunca terem colocado um aviso na embalagem "FEITO COM OVOS FRESCOS, CONSUMIR DEPRESSA".

 Lembrei-me disto porque convém ir variando de champô e a velha fórmula de ovos é óptima para esta altura do ano. Tenho de dar uma volta ao Jumbo para trazer um (se não estou em erro, o Supercor também vende). Mas se quiserem recordar ou experimentar, fica a informação: é MESMO feito de ovo, uma gemada intensiva para vitaminar as madeixas. E convém gastar a eito, rapidinho, para evitar sustos desagradáveis. A não ser que queiram reservar para pregar uma partida a alguém que esteja mesmo a pedir uma dose de ovos podres.





 

Saturday, July 18, 2015

De Mad Max e Plutão




Isto de ter irmãos e primos faz com que uma rapariga vá por arrasto nos gostos deles, por isso tive uma infância bastante completa: ballet, dar cabo dos cosméticos lá de casa (a avó benzia-se porque eu lhe gastava tudo na tentativa de inventar o novo "super creme para as mãos") muitas bonecas, mas também muita brincadeira com carros, comboios, armas de brincar, miniaturas de batalhas famosas, action men, GI Joes, Street Fighter...e filmes de tiros e bombas e socos nas trombas



 Ora, entre os filmes que eu via com os rapazes doidos por carros havia os do Mad Max, que já tinham uns bons anos na época e eles reviam em bloco vezes sem conta. A rapaziada delirava com aquelas máquinas e eu achava graça ao argumento, arrepiava-me com o Humungus e já na altura, pasmava para o styling punk-apocalíptico daquele universo. O punk em si mesmo nunca me disse nada - não gosto do cabelo nem de anarquia - mas tem alguns elementos interessantes e sempre notei (comecei cedo) como os figurinistas de Mad Max tinham feito um excelente trabalho quer a criar fatos novos com ar de velhos, quer a incorporar peças a cair de podres de uma forma que resultava (viva a reciclagem) para parecer que todas as lojas tinham acabado e as pessoas tinham de se desembaraçar com as velharias que sobrassem e mesmo assim não perderem o estilo.



 Um pouco o que agora se passa em The Walking Dead, que me parece que foi aí beber alguma inspiração...

 Pois bem, um dos rapazes cá de casa já foi ver o novo Mad Max e não ficou desiludido (eu estou com alguma curiosidade, por ser protagonizado por Tom Hardy, um dos actores mais promissores e bem parecidos dos últimos tempos, com uma voz incrível). De modo que como os anteriores têm passado na televisão, se sentou a rever o primeiro e eu fiz companhia...



 Como de todos esse era o que eu conheço pior, diverti-me (claro) a reparar no styling de Mel Gibson e seus companheiros. E no primeiro filme o mundo (ou a civilização) ainda não acabou propriamente, embora não ande muito longe, por isso toda a gente mantém um ar minimamente apresentável. 



Ainda há polícia e a polícia tem uns uniformes de couro fabulosos (na verdade, como o orçamento do primeiro filme era limitado, só o do Goose era pele; todos os outros foram feitos em vinil) com umas botas impecáveis (ando há imenso tempo para arranjar as biker boots perfeitas). Por curiosidade, as do filme eram fabricadas por esta marca australiana, mas creio que já não fazem o mesmo modelo.

Em suma, como o couro tem estado por toda a parte ultimamente (dos perfectos a saias e vestidos) não me surpreendia que começássemos a ver por aí certos visuais inspirados em Mad Max. Talvez eu própria me divirta a criar um, só por carolice (e como não adoro propriamente de conduzir, se pegar no volante de uma carripana velha para fazer pendant ainda lanço realmente o terror no asfalto...).


Se me arranjarem este side car, desafio aceite.
    Haja imaginação nos mais ínfimos momentos da vida...até porque há que prever todos os cenários, e ter criatividade ajuda: há dias disseram nas notícias que muita gente enviou o seu nome para ser deixado em Plutão (que acho uma indecência e uma falta de respeito agora ser chamado "planeta anão", mas os cientistas lá sabem). Quando ouvi isso pensei inicialmente "olha que pena não ter sabido". Mas depois reflecti melhor e não me pareceu assim tão boa ideia. Não se sabe quem poderá encontrar aquilo, nem que meios terá (uma qualquer rede social extraterrestre que permite saber tudo sobre toda a gente só pelo nome) para nos vir bater à porta, estilo, "já que cá deixou o nome, deve querer que a visitemos". No pior dos cenários éramos invadidos a começar pela própria casa; no melhor, podem ser ETs que não sabem, lá no planeta deles, a velha regra "os hóspedes ao terceiro dia aborrecem" e "mais vale ser desejado do que aborrecido". Se nem os terráqueos a cumprem às vezes...não, obrigada. Passo. Mas caso haja mesmo um fim do mundo, já tenho cá umas ideias para o que vou usar...







Thursday, December 18, 2014

Na dúvida, fiquemo-nos pelo intemporal.

Clémence Poésy para a Vogue UK, 2010

Uma das frases mais citadas de Coco Chanel é a moda passa, o estilo permanece

E Karl Lagerfeld avisa que a diferença entre o trendy e o aspecto barato é muito ténue.
 Por muito divertido que seja aderir às tendências de cada estação, ter preocupações de estilo implica considerar o Passado (isto já se usou? Porquê? Como ficava?), o Presente
 ( porque é que esta tendência está de volta? Qual é a sua utilidade? E o seu valor estético?) e o Futuro (continuarei a usar isto mais tarde? Como parecerá daqui a uns anos?).

 Para distinguir um clássico de uma moda passageira, basta observar imagens antigas: as que nos fazem pensar "que bem que as pessoas se apresentavam nesta altura" ou "podia perfeitamente usar isto agora" são intemporais; as que parecem datadas à primeira vista são testemunhos dos exageros da moda.

 Ter esta preocupação em mente é especialmente importante nas ocasiões especiais: bailes formais, casamentos e todas aquelas que não queremos recordar com constrangimento um dia. É possível manter um visual actualizado, de acordo com os tempos, e usufruir das tendências sem cair em exageros - se o equilíbrio, a subtileza e a qualidade do que usamos for sempre a maior prioridade.

Nada como ver alguns exemplos de décadas passadas para ficar com uma ideia:

Anos 1960

Se os retratos dos anos 50 são instantaneamente reconhecíveis mas raramente feios (podemos gostar ou não do estilo, mas quase todas as roupas  passariam despercebidas hoje com o toque certo) nos swinging 60s e mais para o fim da década as coisas começaram a descarrilar um bocadinho, com um certo exagero no volume dos penteados (e nas barbas, para eles) e a introdução de materiais sintéticos, maquilhagem espampanante ou looks futuristas - que embora ficassem bem nas revistas, na vida real não resultavam assim tão bonitos.


Porém, foi uma década glamourosa com a nota certa de equilíbrio: os visuais de Jackie Kennedy, Brigitte Bardot ou Jean Shrimpton podem perfeitamente ser usados agora. Quanto à Burberry, nunca fez roupa feia e esperemos que assim continue.


Anos 1970

Disco music, poliéster, cabelo grande em transição, o nascimento do punk para o bem e para o mal...de tudo isto se compuseram os anos 70, o que levado ao exagero deixou imagens embaraçosas para a posteridade:


Mas os resquícios do look hippie, impondo uma beleza natural e romântica, e o preppy da época salvaram a década. Nota bene os vestidos longos que temos usado nos últimos Verões e o estilo muito Ralph Lauren de Ali MacGraw:


Anos 1980

Não há década que tenha visuais tão datados ou se destaque tão depressa no meio das outras. Dos anos 80 com o seu power dressing, new romantics e glam rock  vieram a maior parte das tendências excessivas que toda a gente jurou enterrar para sempre - embora nos últimos anos algumas tenham regressado - leggings, polainas, ugly sweaters, ou mesmo o cabelo no último anúncio do Opium de Yves Saint Laurent. Diz-vos alguma coisa? Busted!


Mas- pasmem - entre cabeças coroadas, rock stars como Bryan Ferry. modelos e filmes clássicos da época, há muitas coisas que ficariam lindamente hoje. Ralph Lauren não erra, e o understated é tudo:




Anos 1990

Os anos 90 tiveram o minimalismo e o grunge, mas também as boysband, o lip liner castanho, as sombras de olhos brilhantes, o sportswear horroroso, os ganchinhos com borboletas, as gargantilhas de elástico, os penteados de ouriço cacheiro...



Claro que houve sempre quem passasse incólume: basta olhar para Jennifer Aniston em Friends (Ralph Lauren, de novo) para Alicia Silverstone em Clueless (Blair Waldorf não inventou nada) ou para a maravilhosa Carolyn Bessette Kennedy.



Moral da história: moderação, discrição e bom senso salvam a época mais louca...e os álbuns de família!












Thursday, January 17, 2013

Flash, ah-aaaah!

                              
Ontem revi, ao fim de muito tempo, Flash Gordon - uma das películas que marcou a minha infância, apesar de ter sido feita antes de eu nascer. O meu primo tinha o vídeo e era um daqueles filmes que acarinhávamos e repetíamos vezes sem conta.  Nunca fui grande apreciadora de ficção científica, mas Flash Gordon tinha um ambiente quase de Swords and Sorcery, tinha a música dos Queen...e claro, Sam Jones parecia-me um dos rapazes mais bonitos do mundo. Com aquele ar de betolas simpático, all american boy, corajoso e de bom coração eu achava-o, na minha inocência, o mais próximo de um príncipe (encantado, não dos normais) que já tinha visto. Depois havia a Princesa Aura, bad girl que eu achava simplesmente o máximo: era lindíssima (Ornella Mutti, nem mais) ardilosa e manipulava os homens à sua volta como peões num tabuleiro de xadrez. 

Até ontem mantive a impressão de Flash Gordon ser um filme que só tinha graça para crianças, mas foi uma agradável surpresa vê-lo com outros olhos - até porque há certas alusões que, por estarem feitas com certo bom gosto, só os adultos entendem (falo por mim...naquela idade 
passaram-me despercebidinhos de todo os momentos mais sexy do filme). Na sua estética muito kitsch e própria (o cinema tinha outra graça antes de o malfadado exagero do CGI transformar todo e qualquer enredo com efeitos especiais num videogame barato...) é totalmente despretensioso, tem uma excelente direcção de actores, bons diálogos e um elenco que inclui Timothy Dalton  - giríssimo como Príncipe Barin, e com uma química incrível com Ornella Mutti -  Topol e o actor shakespeariano Brian Blessed. Também confirmei a minha opinião quanto ao bom parecer de Sam Jones, o Flash -ah -ahhhh! *com vozes a imitar as dos Queen*. O ar inocente e um bocadinho tonto, a aura de herói perfeito e os olhos dourados faziam realmente dele um verdadeiro Príncipe Encantado. Só uma coisa mudou: desta vez achei que a Princesa Aura ficou melhor com o Príncipe Barin, que no quesito Encantado não ficava atrás e ao menos, já lhe conhecia as manhas e impunha alguma contenção. O pobre Flash Gordon, nas mãos dela, ia ser um infeliz. Mas isso são perspectivas sensatas, que ganhamos quando começamos a tomar os factos da vida com um grão de sal.

Por favor, meus anjos, lembrem-se de ser queridos e votar hoje no Imperatriz aqui, nas categorias "Moda" e "Generalista" . Se acham que esta vossa amiga desenvolve um bom trabalho, deixem também o vosso voto aqui, onde se vai eleger a (o) blogger de mente mais trabalhadora, cósmica e fenomenal. Muito obrigada :*****

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...