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| Myla Dalbesio para Calvin Klein |
A polémica do cartaz da Victoria´s Secret - que entretanto se viu obrigada a alterar o slogan do soutien para conter a fúria de certas consumidoras - veio confirmar uma tendência que já se vinha verificando em todo o seu exagero: a obsessão pela suposta "beleza real" e o "ugly is the new pretty".
Sobre isso, muito já foi discutido por aqui. E se não há nada contra a diversidade nas modelos, actrizes ou caras conhecidas convidadas para representar esta ou aquela marca, é notório que a se está a perder o foco na beleza (independentemente do tamanho dessa beleza) que devia ser o que importa quando se fala de moda ou simplesmente de roupa.
Tanto a Calvin Klein como a Vogue viram na controvérsia do momento uma oportunidade - um verdadeiro filão- e decidiram contentar o público. As "gordinhas" estão unidas, querem um lugar ao sol e são uma parte do mercado demasiado poderosa para ser ignorada. Afinal, o cliente tem sempre razão.
A CK respondeu às exigências de duas formas: primeiro, usando uma modelo "cheiinha" - embora não o suficiente para ser considerada "plus size" dentro da indústria de moda, o que por sua vez também gerou polémica - na sua mais recente campanha.
Myla Dalbesio é uma bela rapariga que, vestindo o tamanho 40, é demasiado grande para ser considerada uma modelo standard e demasiado pequena para o nicho das modelos plus size. A julgar pelas imagens da campanha parece-me que ela emagreceu para este trabalho e que vestirá um bocadinho mais do que isso habitualmente, mas é irrelevante para o caso:continua a ser um tamanho ou dois acima das modelos habituais da marca. Nem assim o público ficou satisfeito, mas acho que o resultado está impecável.
Segundo - e aqui começa o problema a que me refiro - a lingerie Calvin Klein esteve envolvida no editorial pós-bebé, sem photoshop, da lindíssima Lara Stone para a System Magazine:
Já a Vogue fez outro tanto, com um editorial protagonizado apenas por modelos mais cheias e de busto generoso.
Em teoria, estas ideias até têm a sua razão de ser - tenho conhecido bons fotógrafos que sempre me disseram que quando há boa luz e a pose certa, não é preciso photoshop, ou é preciso muito pouco; só o suficiente para que a lente dura da máquina capte o que o olho humano vê sem acrescentar os desnecessários e míticos cinco quilos ou linhas onde elas não existem.
A questão negativa aqui é que ambos os editoriais retrataram as modelos no seu pior: as imagens são cruas, quase feias.
Que esteja na moda mostrar vários padrões de beleza, de forma mais inclusiva e de modo a que mais mulheres se identifiquem com o que vêem, tudo bem. A moda sempre teve mais a ver com aspiração do que com identificação, mas nada contra.
Que mulheres "comuns" façam capa de revista ou figura de cartaz de vez em quando, até representa uma quebra da monotonia.
Porém, o propósito da lingerie é esconder o menos bonito e realçar os pontos fortes - aqui não vejo isso. Nem onde está a necessidade de em nome da "beleza natural" não passarem uma escova no cabelo das modelos. Aposto que todas elas andam mais penteadas em casa, de pijama, do que nas páginas da revista.
Não se pode aplaudir uma tendência cegamente só porque é inclusiva. Creio que daqui a uns anos se vai ver isto pelo que realmente é: caprichos de artista desejoso de chocar.
Num provocante ensaio para a BBC que devia ser obrigatório ver, "Why Beauty matters", o filósofo Roger Scruton atreveu-se a questionar o culto moderno à fealdade e o deserto espiritual a que isso conduz, interrogando-se se não haverá uma forma de o belo e o "real" coexistirem em harmonia. Ficam as suas palavras para governo de cada um:








