Qualquer dia, palavra de honra, arranjo uns dizeres todos pomposos aí para o header como se faz nas novelas, do estilo "este blog é uma obra de inspiração; qualquer semelhança com pessoas, factos ou locais reais é mera coincidência". Isto porque há sempre uma alma que se revê no que uma pessoa escreve e vem com o discurso "esse post era uma farpa para mim! Era, era, era que eu sei! ". Já se sabe que um blog, não sendo produto de ficção (com excepção das short stories que escrevo uma vez por outra, e mesmo nesses casos por vezes é difícil dizer onde começa e termina a imaginação) vai beber inspiração às coisas do dia a dia - o que pode, por vezes, assemelhar-se a um atirar de carapuças. Mas mesmo que assim fosse, lá por atirar carapuças a esmo, do alto de um aviãozinho para uma praia cheia de gente, não quer dizer que haja intenção de fazer pontaria, nem carapuças por medida. Se eu quisesse um blog que alfinetasse gente, uma odiosa Corneta do Diabo do século XXI, tratava de me esconder atrás de um pseudónimo e de debitar as estórias que ouço, os factos que conheço, e de traçar as figuras que me aparecem com cruel detalhe - de tal forma que, ainda que não revelasse nomes nem retratos, toda a gente reconhecesse os figurões. Ora, esses exercícios de fel não fazem de todo o meu género. Não é função do Imperatriz, nem minha, moralizar ou escarnecer. Se até quando falo de uma celebridade com zero possibilidades de ler este cantinho perdido na blogosfera uso de certa moderação, que não farei em relação a pessoas "reais" ou a factos que - mais ou menos distorcidos na mente de quem lê - me digam remotamente respeito? Pior ainda, receiam-se essas personalidades muito ciosas do que aqui se escreve de que "outras pessoas percebam que os ditos são para eles".
Calma lá. Nem eu conto factos privados meus na blogosfera (pequenas verdades como ter horror a centopeias não me parece que sejam coisa imoral, íntima ou escandalosa) nem espero das pessoas das minhas relações que as nossas conversas sejam discutidas ao pormenor por tutti quanti, de tal maneira que possam vir a ser (erradamente) reconhecidas por gente que com todo o respeito, nunca vi mais gorda, em qualquer texto que aqui apareça. Se assim é, só posso concluir que quem se queixa da indiscrição, zela muito pouco por fazer a sua parte. Ainda que fosse verdade, um segredo de dois devidamente "maquilhado" tem poucas possibilidades de ser reconhecido por terceiros, mesmo que alguém o coloque sob os holofotes. E o Imperatriz, coitadinho, tem pouco de holofote, tanto quanto sei.
E pronto, com isto, o que não era pessoal acaba por se converter nisso mesmo. Este há-de ser, porventura, o primeiro texto de carácter intencionalmente directo que aqui coloco (há uma primeira vez para tudo). Como sou pouco useira nestas andanças, recorro (once again) ao tio Eça de Queiroz que tinha de facto habilidade e destreza da pena para exprimir uma ideia semelhante. Disse ele, por carta, a outro grande autor, Camilo Castelo Branco, que se queixava de ser "alfinetado" por Eça e os seus amigos:
"Suponha que um dia, Vª Exª descreve, com o seu vernáculo e torneado relevo, certo animal de longas orelhas felpudas, de rabo tosco, de anca surrada pela albarda...(...) E suponha ainda que, ao ler essa colorida página, eu exclamo, apalpando-me ansiosamente por todo o corpo:`grandes orelhas, rabo tosco, anca pelada...é comigo!´Vª Exª balbuciaria aturdido: `eu não sei, eu vivo longe...se as suas orelhas são assim longas, se o albardão se despelou, há realmente concordância...mas na verdade creia que, mencionando esse animal venerável, não me raiou no ânimo a mais ténue, remota intenção...".