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Monday, March 4, 2019

As coisas que eu ouço: não, c´os diabos!!! (Baby post #1)



Tal como partilhei convosco via Facebook, não tenciono dedicar muitos textos ao meu estado de graça. Estou nas núvens, claro - se puser de parte os enjoos contínuos, a exaustão e outros "extras" que fazem parte da encomenda - mas já se sabe que as futuras mães todas acabam por debitar as mesmas ideias, mais vírgula menos vírgula e que isto tudo só é grande novidade (e uma coisa do outro mundo) para a própria interessada.  

E como também vos disse... até ver, graças aos céus, estar de esperanças não me transformou numa taradinha canta-monos, adepta de horrores como "sessões fotográficas sexy para grávidas" e de baby showers, o que me fez comprovar que as hormonas são injustamente acusadas de muita coisa, quando a culpa assiste à falta de gosto, de decoro e de bom senso. 

Falaram-me num baby shower (com a maior boa vontade, assinale-se...) e benzi-me logo, disse que agradecia a intenção mas achava agoirenta a ideia, isto para não ser indelicada e acrescentar que é uma pinderiquice; e expliquei o mais delicadamente possível que quem desejar dar presentes poderá fazê-lo, se Deus quiser, quando o piqueno nascer e/ou for baptizado, como os nossos antepassados Católicos sempre fizeram. Só me faltava mais essa!




Vou explicar melhor, para não se zangarem já comigo: o bem intencionado hábito americano do baby shower (ou "chá de bebé", como se convencionou dizer por terras de Vera Cruz e me soa sempre a bruxas malvadas que metem criancinhas no caldeirão) começou a popularizar-se nos anos 1950, época do baby boom, como forma de desmistificar a gravidez (na época victoriana e até antes já havia tradições semelhantes, mas a festa era sensatamente feita depois do nascimento, não só devido ao secretismo que rodeava a gestação mas também aos riscos que o parto envolvia). Regra geral, era 
 um evento modesto organizado pelas amigas da gestante, sendo uma forma de ajudar a futura mãe a compor o enxoval do primeiro filho, e apenas do primeiro- que já se sabe, é sempre uma despesa considerável. 

Claro que os americanos são uns bem dispostos e uns caturras sempre prontos a fazer festas por qualquer pretexto, por isso a brincadeira foi evoluindo para formatos cada vez mais elaborados e consumistas. E também é verdade que certas coisas que no Velho Continente, de cultura mais parcimoniosa e supersticiosa, soam de mau gosto, são mais desculpáveis nos expansivos e impulsivos (mas fofos)  americanos.


Baby Shower americano na década de 1960

 Porém, tal como sucedeu com os casórios e o fenómeno bridezilla, até por Terras do Tio Sam a coisa tem ganho contornos de tal maneira egocêntricos e gananciosos (de baby showers organizados pela própria futura mãe para "pescar presentes" a listas de exigências, há casos escandalosos) e uma estética tão aberrante que nenhuma pessoa de bom gosto se lembrará de copiar tais ideias.


Para piorar um pouco, a figura do baby shower popularizou-se na Europa muito à conta de reality shows como o programa das Kardashians e afins, o que já diz tudo. As primeiras pessoas que vi a adoptar a ideia eram precisamente...enfim, mulherio de gosto e perfil duvidoso.

 Mas mais importante, além de ser uma maneira mais ou menos descarada de pedinchar presentes, fazer um baby shower é deitar foguetes antes da festa, o que nunca é alvissareiro por muito que a ciência evolua- até a criancinha estar cá fora sã e escorreita nunca se sabe, lagarto, lagarto, bate na madeira, cruzes canhoto

As minhas avós haviam de persignar-se ante tal irreverência, mas não estou sozinha nisto: em Inglaterra muita gente mais old school considera o conceito de baby shower azarento, inapropriado e deselegante. 

Por estes dias a ex-actriz de TV Cabo que casou com o Príncipe Harry deixou muito boa gente desagradada ao organizar um baby shower ultra extravagante e caríssimo em Nova Iorque, algo normal entre novos ricos mas altamente mal visto em círculos tradicionais (quanto mais na Família Real Britânica) onde a ostentação é desprezada e há toda uma aura de superstição que rodeia o nascimento de uma criança. 

Na semana passada conversava com uma amiga irlandesa que era da mesma opinião: os irlandeses conseguem ser mais dados a crendices que italianos, brasileiros, ingleses e portugueses todos juntos; e por tradição nem o berço era trazido para casa antes de o bebé vir ao mundo são e salvo. Agora, com esta americanice, não só as avós se afligem, como as pessoas se sentem na obrigação de dar lembranças três vezes: no baby shower, na primeira visita ao bebé e no baptizado!

Por tudo isso, obrigada mas não obrigada...e acho aconselhável que quem quiser adoptar o hábito para mimar uma amiga o faça discretamente, com certa modéstia elegante, depois do nascimento do bebé -principalmente se não vai haver baptizado, pelo menos nos próximos tempos. Não constranger os outros nem criar obrigações escusadas é uma delicadeza que cai bem em toda a parte.


mmmm...não, obrigada, com mil diabos!!!

Mas há mais; parece que nenhuma futura mãe hoje em dia escapa ao assunto dos tenebrosos "books de gestante"(Credo!) mesmo quando foge deles como o demo da Cruz.



Ora, há umas semanas estava previsto nevar em Londres e fiquei com esperança de que houvesse um nevão como no Inverno passado, quando tudo aqui à volta ficou coberto de um espesso manto branco e tive a oportunidade de tirar boas fotografias. 

Como tem estado sempre chuva e vento e não tem havido boa luz, até agora ainda tirei poucos "retratos de mamã para mais tarde recordar" (lá por não gostar de "books de gestantes" não quer dizer que não queira guardar alguns instantâneos bonitos e espontâneos, como sempre se fez desde que as famílias passaram a ter acesso a máquinas fotográficas). 

E lá pensei "boa, se nevar podemos conseguir algumas imagens bonitas" tendo em mente, claro está, algo natural, fofinho e normal como o exemplo no topo do texto. Comentei o assunto com umas conhecidas e eis que uma, que casou bem e teve convívios bastante civilizados na melhor sociedade (logo ganhou obrigação para não dizer tais disparates) se sai com esta:

"Que máximo! Se nevar podes tirar fotografias de bikini!!!".

(Tipo, assim:)



(ou assim!)



Podem imaginar as reacções que me passaram pela cabeça (rir-me à gargalhada na cara dela ou oferecer-lhe uma tareia, por exemplo!) mas fiquei-me por um "estás doida, rapariga, para que é que eu havia de querer retratos nesses preparos?  Então e o frio?" e ela, com o ar mais sério deste mundo: "punhas um casaco de peles por cima! Não queres mostrar que és uma grávida em boa forma e lembrar-te disso mais tarde?".

Sim, que isso do casaco havia de valer de muito...nem sei o que é pior em tal ideia: se o ridículo, se a galdeirice e sem vergonhice, se o disparatado de andar de bikini no meio da neve em qualquer circunstância, se o propósito não só de tirar tais fotografias mas de partilhá-las com o mundo (como se o meu marido alguma vez desse Amens a tal coisa, ainda que eu fosse desmiolada a esse ponto), se o facto de o frio ser arriscadíssimo não só para uma gestante mas para o pobre inocente que não fez mal nenhum.

 Anda o Serviço Nacional de Saúde a gastar meios em vacinas da gripe da tosse e da convulsa obrigatórias para grávidas (as duas já cá cantam, não vá o diabo tecê-las, e até reagi bastante mal a uma delas) porque É INVERNO E ESTÁ FRIO, mas vamos lá descascar-nos em bikini fora de época para passar vergonhaças e pneumonias. 

Como alguém disse recentemente - e com carradas de razão- numa conhecida página facebookiana cá do burgo, " quando as mulheres tiram a roupa por outro motivo são taxadas de galdérias mas se estão grávidas já tudo diz que é lindo?". Go figure.

Sunday, February 4, 2018

As coisas que eu ouço: é brejeirice à portuguesa, com certeza (e além fronteiras).




Aqui há tempos fartei-me de abanar a cabeça com uma notícia (e sobretudo, com os comentários à dita cuja...) que dava conta de uns quantos pais portugueses, coitados, que carinhosamente enchiam as malas dos filhos, residentes ou estudantes em Londres, de acepipes e farnéis lusitanos de cada vez que estes iam de férias à santa terrinha.

Abanei a cabeça aos sempre divertidos comentários facebookianos porque eram, basicamente, escritos do tipo "coitadinhos destes emigrantes de hoje! Quando eu fui a salto prá França ninguém me foi lá levar «o comer»" pejados de erros ortográficos e cunhados por "Zés avecs" do antigamente, para quem história de emigrante em que o protagonista não sofre, tipo cantiga do Graciano Saga, não é história de emigrante que se preze.

E depois abanei a cabeça também à candura destes pais amorosos, mas um bocadinho simplórios, emalando tupperwares de rissóis e bacalhau à Brás (bem bom, verdade seja dita) como se os filhos fossem para o mato e não para um país a duas horas de avião onde, porta sim porta não, há mercearias e restaurantes portugueses. 


A zona onde moro será composta sobretudo de nativos, londrinos de gema (a minha vizinhança é quase tudo velhinhos veteranos da Grande Guerra que me tratam por darling e só querem saber de jardinagem, de levar os bisnetos aos treinos do Chelsea e de reclamar contra as regras malucas da recolha do lixo). Depois há uns quantos polacos, italianos e portugueses e o resto é diversidade e multicularidade, mas mesmo com esta dispersão, sem precisar de sair da freguesia contei umas três ou quatro mercearias/cafés do mais português que há, onde se compra desde bacalhau a salame de chocolate passando por álcool etílico (os ingleses têm a mania de desinfectar as feridas com uma pomada que é milagrosa para todos os males da pele, mas um atraso de vida quando se trata de um corte, coitados) e uns dois ou três restaurantes.

 Que diremos noutras zonas de Londres, com maior concentração de lusa gente! Depois, caso as saudades de uma feijoada, de uns pastéis de bacalhau ou de uma Sagres sejam mesmo insuportáveis, basta apanhar um comboio até Vauxhall e dar um pulinho ao Little Portugal, que uma pessoa parece que está numa aldeia chamada qualquer coisa "de Cima" ou "de Baixo" pronta a montar um arraial mais minuto, menos minuto. E de resto, os maiores supermercados têm secções de produtos internacionais onde polacos, romenos, portugueses, brasileiros, vietnamitas ou caribenhos encontram as marcas da sua terra a um preço bastante decente - misturada que me permite, sem qualquer dificuldade, reproduzir a receita de kalilu que a tia aprendeu em S.Tomé (e me passou depois de muita insistência) para o almoço e fazer um cabrito assado à moda da Beira para o jantar. A fruta e os vegetais são baratos e excelentes, com coisas de todo o lado. A carne o peixe já precisam de mais critério, mas nada que impeça um português ou um italiano de comer como fazia em casa.



Sempre me pareceu que isso do português que vai para fora e não gosta da comida é um grande patranha, ou pelo menos que não se aplica em Londres - apesar de o elogio à superioridade da alimentação portuguesa ser justíssimo. Quem o diz ou gosta de se queixar, ou tem preguiça de explorar o seu bairro, ou simplesmente não gosta de cozinhar. Ou então não sabe nem estrelar um ovo- o que já tornaria um pouco menos disparatado chamar a estes jovens expatriados, como disse o Zé avec, "meninos da mamã". A sério, salvo em caso de receitas de família complicadíssimas, não vejo necessidade de levar (e demais a mais em voos da Ryanair ou da Easy jet, que muitos destes jovens utilizam) farnéis a perfumar o ambiente!

Porém, cada um sabe de si e isto tudo foi só para introduzir a bonita cena a que assisti (ou, se quisermos aludir à modinha do #metoo, de que fui vítima, pobrezinha de mim, mulher frágil e indefesa) num restaurante português há um par de semanas.



Como vos disse, aqui há uns quantos restaurantes lá da terra, e alguns onde se come francamente bem - uns mais mainstream, com uma decoração a tender para o sofisticado, outros do estilo tasquinha embora os preços não variem muito entre uns e outros. Desta feita, fomos a um desses mais "modernos" que é frequentado tanto por ingleses como por portugueses de todas as categorias e províncias, casa simpática que serve uma belíssima espetada à madeirense. Entrámos e a patroa, que não nos conhecia, cumprimentou-nos em inglês (aqui nunca atinam com a nossa proveniência, é um fartote) com um forte sotaque da língua de Camões. Nas mesas à frente e atrás, britânicos a conversar alto e bom som. Na mesa ao lado, uma grande família portuguesa que era um estereótipo ambulante (o sogro Zé das Couves, o genro Carlão do ginásio, o filho do meio Carlito Rúben do tuning, a filha Sheila manicura e o irmão mais novo, o Joãozinho) a fazer mais barulho ainda, se possível. 

Entretanto precisei de fazer uma chamada e fui às traseiras onde instalaram uma salinha para fumadores. E quem tinha ido lá fumar? O Zé das Couves, o genro Carlão e um outro parente do mesmo género- ao que percebi, todos eles Zés Tugas empedernidos e batidos nas idas e vindas da emigração. Estava eu de telefone ao ouvido, muda e queda à espera que me atendessem, e eles "carvalho para aqui" e "coza-se para acoli" nessa habilidade acrobática e minuciosa de entremear 30 palavrões numa frase só. E vendo que estava uma senhora mas não estando bem certos se eu os compreendia ou não, decidiram experimentar-me, dizendo ainda pior. Jesus, as asneiras que eu ouvi! Mas decidi ficar caladinha a ver até onde ia o disparate...



Continuaram por um bocado, deliciados com as suas obscenidades como uns garotos que usam pela primeira vez esse palavreado nas costas da professora. Entre a possibilidade de dizerem do piorio à frente de uma mulher sem que ela percebesse patavina e a hipótese de essa mulher ser conterrânea e estar constrangida, não sei o que seria mais divertido para eles. Eis aqueles portugueses que dão a todos fama de camponeses analfabetos e trogloditas, e que fazem com que os ingleses trocem que "para saber onde está um português, é seguir os gritos de "carvalho!". 

Até que, já cansado de tentar adivinhar, o tuga pai atirou mais esta (versão censurada):

"Uma vez, andava eu na França, ia com fulano e beltrano num comboio entre a França e a Alemanha, e íamos a dizer «carvalhadas«...«carvalho» para trás, «coza-se» para a frente, filho da piiiiii*** à esquerda e à direita...e estava uma gaja com dois putos sentada à nossa frente. «Atão» não é que a gaja se vira para nós e diz: os senhores façam o favor de falar melhor, que eu também sou portuguesa e levo aqui crianças?".

Essa matou tudo. Ora bem-  nem com uma vergonhaça dessas aprendeu, e ainda usou o exemplo para ofender outra senhora (ou na sua linguagem, outra "gaja"?). Olhem que é preciso ser bruto! Um labrego sem remédio! 

Era a minha deixa para lhes fazer a vontade, respondendo "pois fez a senhora muito bem, seus ordinários!". Ou de chamar o meu marido para os ensinar na única linguagem que entendem, que (apesar de à conta de umas misturas anglo saxónicas lá dos antepassados dele o confundirem com um local a torto e a direito) ele é tão marialva como se pode e já que gostam de se armar em machos latinos, havia de lhes matar as saudades da pátria com umas traulitadas, em modo Alencar: vai-lhes um copo na cara e é aqui um vendaval, que há-de ficar a Grã Bretanha a saber o que é um português!

Mas decidi que era melhor, tal como n´Os Maias,  não haver um vendaval, e a  Grã Bretanha ficar sem saber o que é um português que para fama de campónios e barraqueiros já basta o que basta, e pregar-lhes uma boa partida à minha maneira. Fiz-me de novas e fui-me sentar; com o barulho e a música só se ouvia quem falava aos berros. Entretanto algumas mesas vagaram, a música lá baixou e acabámos de jantar. 

E depois de pagar a conta, antes de sair porta fora,  viro-me muito risonha para a dona do estaminé e para a moça que nos tinha servido, olho para aqueles rústicos como quem não deixa lugar a dúvidas, e atiro alto e bom som, do fundo do meu diafragma como me ensinavam nas aulas de canto:

"Então muito boa noite e até à próxima!".

Calou-se tudo e ficaram com aquela carinha "ó terra engole-me já", e o Carlão a olhar para o brutamontes mais velho com ar de quem diz, a tratar o sogro por tu: "eu bem te avisei que «a gaja» era portuguesa mas tu «não te acreditastes»". Ainda pensei que desatassem a rir (descaramento não lhes faltava) mas vá lá que não...

É como digo sempre: isto portugueses ou são de uma suprema elegância e de uma reserva que roça a altivez, ou são uns parolos que só servem para causar vergonha alheia (ou mais apropriadamente, vergonha patriótica). E depois queixam-se muitas vezes de ficarem na "gaiola dourada", de serem vistos como pessoas "honestas, hospitaleiras, trabalhadeiras e de confiança" mas de não os considerarem gente lá muito sofisticada, com quem se conviva de igual para igual. Se a maioria que nos representa por este mundo fora é assim (e não nos enganemos, apesar de tudo a maioria ainda é esta espécie que faz corar o desembaraçado boneco do Zé Povinho) então querem o quê?

É caso para dizer "valha-me Nossa Senhora da Asneira, que bem pode". Livra!



Saturday, November 18, 2017

As coisas que eu ouço: padrões elevados (NOT!)






Esta semana deparei-me com duas moçoilas com muito mau ar, à porta da Poundland (espécie de "lojinha dos 300" cá do burgo). Dizia então, com a resoluta postura de quem tomou um grande propósito de vida, uma loura oxigenada à sua "miga":

- Eu já o avisei que comigo não faz farinha! Se ele engravidar a outra, acabou tudo entre nós!


Fiquei estarrecida com tanta baixeza e tive de fugir dali para não me escangalhar a rir na cara delas...

Eu costumo bater na tecla dos "padrões elevados" quando se trata de relacionamentos.

Ou seja, se uma mulher quiser evitar relações em que é desrespeitada (e convém que queira...) ou tratada como um brinquedo, precisa de definir muito bem consigo, antes de se envolver seja com quem for, o que quer e não quer para a sua vida. Saber o que aceita e não aceita. 

E claro, terá de comunicar esses padrões (por palavras e atitudes) a qualquer potencial namorado, logo que começam a conhecer-se e ele deixa claro o seu interesse. 

 Às primeiras iniciativas que ele tome (ele, atenção...) cabe a uma rapariga deixar explícito, de forma serena e amigável mas firme, de forma verbal e não verbal, o que está disposta a aceitar, vulgo: se quiser sair comigo, tem de convidar com a devida antecedência, porque eu valorizo o meu tempo; ou "não me envolvo em relações casuais...;se não tiver um relacionamento sério, prefiro estar sozinha" ou ainda "não acredito em coabitar sem estar casada". Perante isto, quem é sério (ou está mesmo interessado) deixa-se estar; quem anda na brincadeira fica informado e põe-se a andar enquanto é tempo. Filtragem feita.

Quem não define o que quer, sujeita-se a ser alvo de joguinhos. Ou mal interpretada. Os homens admiram e respeitam quem se dá ao respeito. Se uma mulher sabe o que quer, mas age e fala como se quisesse outra coisa, arrisca-se a patinar na maionese meses ou anos a fio, a perder o seu rico tempo e a gastar a sua paciência com quem não a merece, não presta ou, simplesmente, com alguém que é errado para si. Isto quando não faz papelões menos dignos ainda.


Porém,  vá- há mulheres que têm até um padrão digno e civilizado na sua cabeça, mas pecam por não se explicarem ou não terem firmeza. Mas estas duas que eu tive a pouca sorte de ouvir? 

O padrão nem sequer existia, ou é tão baixo, tão rasteiro,que está em valores negativos. Pergunto-me qual é, para começar, o objectivo de uma mulher que pensa assim: com tanto homem por este mundo de Deus, o melhor cenário que ela consegue imaginar para a sua felicidade é que o seu "amigo" não tenha filhos de outra qualquer? É que notem, a pobre coitada não só não deve ter uma relação assumida, como já nem aspira à exclusividade; aceita a rival, desde que só ela própria tenha a honra de carregar as bastardias do D.Juan! E eis, minhas senhoras, as belas conquistas da "libertação da mulher". Se foi para esta "igualdade de direitos" que andaram a libertar o mulherio...só me resta concluir que o mulherio é, na maioria, composto por selvagens em maior ou menor grau postas à rédea solta. 




Tudo bem que uma pessoa vai sabendo, aqui e ali, de mulheres que aceitam tudo para não estarem sozinhas: de serem a "outra" , ou uma de várias, ao papel degradante de "amiga colorida" (ou meretriz pró-bono) na tentativa patética de fazer um homem que não as assume mudar de ideias, a lista é grande e deprimente. Não precisamos de conviver com serigaitas, Carlões e Carlonas para sabermos que esse universo paralelo existe. Quanto mais não seja, basta olhar para a MTV ou para um qualquer reality show para ficarmos a conhecer esses fenómenos, nomeadamente o dos engatatões que são pais de pobres bebés ilegítimos de várias "baby mammas".

Tudo bem que este exemplo que citei acima é muito exagerado e diz respeito a uma certa demografia; mas olhem que já ouvi histórias parecidas em extractos mais selectos da sociedade. Uma amiga toda bem veio uma vez perguntar-me que conselho dar a uma conhecida dela, que se tinha envolvido com um Casanova que mantinha várias "amigas", todas sabendo das suas artes, que se sujeitavam a tudo na esperança de (sic) "lhe conquistar o coração". A minha resposta? Eu ria-me na cara dele, oras! Que outra réplica seria possível perante tanto descaramento? 

Já estou como a outra: estas raparigas não sei para que querem a esperteza...




Parte do problema dessas mulheres será não terem aprendido as velhas regras da dignidade feminina em casa, e a outra parte só pode estar ligada a problemas profundíssimos de auto estima.

Convém que se tratem os relacionamentos como o processo de procura de emprego. Se, numa entrevista, o potencial empregador disser: "não assinamos contrato, o salário é pago em sandes de chouriço, não garantimos nada  e vai ter de competir com uma data de colegas pelo privilégio de estar aqui todas as manhãs às oito" o mais certo era virarem as costas e deixarem o palerma a falar sozinho. 

Mas quando se trata da vida privada já tudo é escrito em papel molhado e ninguém estranha?


Monday, July 10, 2017

As coisas que eu ouço: como calar uma pata-choca



Para garantir que chego a horas sem correrias, costumo apanhar quase sempre um dos autocarros directos para o aeroporto, que é certinho como um relógio (uma das grandes vantagens de Londres é a abundância de transportes públicos...uma pessoa só usa o carro se quiser ir às compras ou passear fora da cidade, isto quando a Uber não quebra o galho; para quem não aprecia conduzir, como eu, não podia ser melhor). 

E embora haja aqui condutores de bus um pouco estranhos (incluindo alguns que nem se maçam a aprender inglês; os passageiros que necessitam de informações que tirem pela pinta, pois então!) regra geral até costumam ser simpáticos. 

Quero dizer, nem passam por cima das poças de propósito só para troçarem dos peões, como os malucos dos holandeses nem nada (true story!). Alguns até abrandam e voltam a abrir as portas se houver gente a correr atrás deles, e quando já nos conhecem de vista dizem-nos sempre o seu "how are you today?".

Mas esta semana apanhei uma "senhora" (aqui não faltam mulheres a conduzir autocarros, algo que ainda não se vê tanto assim em Portugal) que era uma verdadeira personagem. Tinha um cabelo encaracolado num rabo de cavalo todo no ar, tipo espanador, e uma personalidade a condizer: é que todo o santo percurso (e como a "carreira" pára em muitas capelinhas, a viagem ainda dura uma boa meia hora) a criatura NÃO SE CALOU, a ralhar o tempo todo. 




É sabido que a murmuração é um defeito que as mulheres devem evitar, mas juro que esta levava a murmuração a outro nível. Se não achasse impossível uma hárpia daquelas ser esposa e mãe, ficaria cheia de pena do seu pobre marido e filhos!

É preciso dizer, para quem não conhece bem Londres (ou só andou de transporte público algumas vezes enquanto turista) que por estas bandas se aplicam umas teorias que só podem ter sido importadas das Índias às viagens de autocarro, e mesmo algumas de comboio.

Não sei se haver por aqui uma comunidade indiana tão grande que até o presidente da câmara é desses lados terá alguma coisa a ver com isso, que pensem "assim como assim já ninguém estranha", mas tenho para mim que em certas horas e em certos percursos, andar de autocarro em Londres não será tão diferente de fazê-lo em Bombaim ou das zonas mais remotas da China comunista. Ou seja, é tudo ao molho e fé em Deus!




De todo o modo é comum, quando o autocarro/comboio está cheio, o motorista pedir (ou ligar uma mensagem automática a pedir) que toda a gente se esprema como puder dentro do veículo, para caberem mais almas. Costumo ter sorte, pois apanho o autocarro quando ele ainda vai vazio, mas se puder evito estas enchentes. Imaginem, tudo apertadíssimo, com malas, com sacos, com carrinhos de compras, carrinhos de de bebé... e o motorista ou a gravação a solicitar nas calmas "please move down inside the bus so we can continue our journey." Dá vontade de os mandar a uma certa parte!




Ainda assim, já está realmente tudo acostumado e não costuma haver grande altercação por causa de tais apertos, pois a civilidade ainda vai sendo de rigueur por cá...valha-nos isso.

Voltemos à mulherzinha: talvez as mensagens automáticas estivessem avariadas, talvez ela gostasse simplesmente de ouvir a estridência da própria voz. O que é certo é que sempre que podia, berrava com os passageiros para darem espaço uns aos outros, num rumorejar constante de guinchos. Não contente com isso, berrava com os outros condutores e quando não havia mais ninguém, ralhava para o rádio. Claramente a pessoa não estava em si e comecei a pensar se estaria em boas mãos...




Chegados ao destino, ainda arranjou maneira de mandar vir com a ambulância que assistia um acidentado, porque não lhe apetecia ir pelo caminho que ficava exactamente ao lado - uma mota toda partida no chão, o desgraçado de maca, polícia e INEM...e a doida queria passar por cima! Claro que se riram dela, porque felizmente o desastre não tinha sido grave. E saí aliviadíssima, finalmente.

Foi sol de pouca dura, porém - ao voltar para casa, apanhei a mesma tarada no caminho de regresso. E a cena repetiu-se, para pior. No percurso de volta é necessário apanhar os trabalhadores do centro de cargas e descargas, que por alguma razão são sempre todos indianos e cerca de 50, à vontadinha. E claro, a bruxa ralhou, ralhou e ralhou com os pobres coitados, que como não podia deixar de ser, faziam troça dela lá na sua língua...a dada a altura já ia tudo a rir e a encolher os ombros, e eu já estava tão cansada que não me admirava que tomassem balanço e desatasse tudo a dançar e a cantar tipo filme de Bollywood mais minuto, menos minuto.



Entretanto a minha família telefonou-me. Atendi e com isso   o cavalheiro idoso que ia ao meu lado, que eu tomara por indiano também, percebeu que eu era portuguesa e perguntou-me, num português perfeito, se eu era de Lisboa como ele. E lá me explicou, a rir, que aquela mulher era sempre a mesma coisa. Todas as viagens o mesmo. Não há paciência...

Por fim, mais uma paragem...e podem imaginar que o circo continuou: as pessoas a tentar entrar e a ogresa de uma figa a tratar mal toda a gente, cada vez mais histérica. Mas houve uma senhora que não estava mesmo para a aturar. Muito calma, muito composta, sem se alterar nada, argumentou com ela, respondeu-lhe umas poucas de vezes sem levantar a voz e por fim desistiu de viajar naquele autocarro, avisando-a  categoricamente: "deixe estar que anotei os detalhes todos e vou fazer queixa de si!". A maluca aí perdeu mesmo as estribeiras, guinchando a plenos pulmões "YOU DO WHATEVER YOU WAAAAAAAAAANT!". E fechando as portas com estrondo, lá nos conduziu aos trancos e barrancos...




Olhem, certo é que depois desta última explosão ela se calou de vez. Nem piu. Nem chus, nem bus, nem catrapuz: foi um sossego até à estação.

Com pessoas assim, das duas uma: ou um cristão desce ao mesmo nível e lhes aplica um correctivo na linguagem que entendem melhor, enchendo-lhes a cara de bolachadas, ou fica nas suas tamancas e as ameaça com aquilo que elas mais temem. Tenho a certeza que para uma pessoa assim, perder um emprego onde pode gritar com os outros é o pior dos castigos. De qualquer maneira, admirei a classe da senhora mas fiquei com pena que não tivesse escolhido a primeira opção. Uns sopapos bem dados tinham sido mel, e ficava com um final mais giro para este relato.





Saturday, March 11, 2017

As coisas que eu ouço: ele não está interessado, sua pateta.




Aqui há tempos travei breve conhecimento com uma simpática e esperta rapariga parisiense, responsável de boutique numa célebre marca de luxo. 
Tal como eu, ela tinha- se mudado recentemente para Londres. 
 Engraçámos uma com a outra e como me cruzava com ela nos intervalos, às vezes conversávamos um pouco. Certa vez notei-a triste e atrevi-me  a perguntar o que a incomodava. "Bom..." respondeu um pouco atrapalhada, sem deixar de olhar para o telemóvel. "É este rapaz de quem eu gosto. Convidei-o para jantar um quiche em minha casa mas ele está a desculpar-se que hoje não pode...". 




E lá continuou a tentar convencer o convidado relutante, perguntando se ele não dava um jeito de aparecer nem que fosse mais tarde, pois já tinha o quiche meio feito.
 Vocês que já me conhecem podem imaginar o que me passou pela cabeça, e como me foi difícil morder a língua. Mas dominei-me como pude e tentei perceber a estória, só para constatar o óbvio: o mancebo não estava lá muito interessado, e a minha nova amiga
andava  a virar-se do avesso para tentar conquistar o coração de Sua Excelência nem que fosse pelo estômago. Pobre pequena! 



Fiquei-me a olhar para ela. Ora ali estava uma jovem com formação superior, bem sucedida e pelos vistos prendada na cozinha. Uma rapariga que não tinha pensado duas vezes em mudar-se para o outro lado do Canal da Mancha sozinha pela sua carreira. Não era uma estampa de mulher, mas tinha uma aparência agradável que, com outro visual e uma dose de autoconfiança, podia ganhar uns quantos admiradores. Em suma, eis uma jovem com qualidades para fazer a felicidade de um homem, mas que estava a agir de uma maneira totalmente desesperada. A dar tudo de bandeja - passe o trocadilho. E com isto, lá se foi a minha fé na famosa coquetterie das mulheres francesas. 



Não precisava de conhecer o rapaz em causa para perceber que se tinha assustado perante tanta facilidade e tanta solicitude. Se calhar, ela tinha tido sorte: outro que ele fosse, teria tirado partido do convite, comido o quiche, aproveitado tudo o resto, e desaparecido no nevoeiro. 

Não aguentei e fiz por lhe mostrar a luz: oh menina...mal empregadinha ceia!

 Não me leve a mal mas os homens não funcionam bem assim...ele é que a devia ter convidado para jantar, só é suposto nós retribuirmos muito mais tarde. Não há quiches para quem ainda não provou ser digno do nosso esforço e bla bla bla. Convide as suas amigas para dar conta da tarte e não pense mais no caso, que se ele estiver interessado trata de a compensar.

Isto posto de uma forma mais delicada, claro: lá lhe tentei, em duas ou três frases, resumir o que digo tanta vez. Que eles apreciam o mistério, a conquista, caçar, cortejar, provar do que são capazes. Que o  que é fácil só lhes interessa em modo pastilha elástica, e às vezes nem isso;  que a mulher que se
atira a  um homem acaba sempre aos pés dele; e que eles gostam das raparigas conscientes do seu valor, daquelas  que não se deixam tratar como segunda escolha e estabelecem, desde o início, padrões elevados no relacionamento. Vulgo, se quer falar, desembucha primeiro; se quer sair, convida com tempo e horas e organiza um encontro como deve ser; e mais importante,  não há envolvimentos sem compromisso. Quem quer brincadeiras, que vá bater a outra porta,que portas escancaradas não faltam nestes tempos ruins. 

Isto porque quando um homem quer uma mulher, perde o apetite, o sono, cancela o que for preciso, pinta-se de ouro, faz piruetas...
em suma, nem o diabo o impede.
Mas quando não quer, tanto faz correr como saltar. 

Simples. Não há áreas cinzentas. Não é exactamente física quântica.



Pois sim: não sei se olhou para mim como se lhe tivesse dado a novidade mais estranha deste mundo ou como se a sua avozinha tivesse ressuscitado para lhe puxar as orelhas (aposto na segunda hipótese). Ficou obviamente desconfortável e acabrunhada; acho que só não se ofendeu porque era realmente uma moça amorosa, incapaz de retaliar com um "está a acusar-me de ser oferecida?". Mas estava, embora não de uma maneira maldosa. 

Há dias li finalmente o clássico "He´s just not that into you" que nos anos 90 (junto com o famoso "As Regras") foi dos poucos livros a dar que pensar às mulheres sobre estas coisas.




 E de facto é uma pérola, muito mais bem apanhado do que eu julgava e recheado dos melhores conselhos sobre a matéria, ou não fosse quase todo escrito por um homem, que sabe como eles pensam.




 Deu filme mas o livro é de ler, sublinhar e passar às amigas, a ver se um bocado de juízo entra naquelas cabeças tontas e armadas em modernas. Só um resumo do primeiro capítulo, colado no frigorífico de certas meninas e mulheres, poupava muita lágrima, muito suspiro, muita noite em branco e acima de tudo, muita mancha no currículo deles e delas.

Vide:




Falou como um livro aberto. Apre que não há paciência para tanto masoquismo. Bless their hearts.

Saturday, August 13, 2016

As coisas que eu ouço: sede como as criancinhas



Esta foi mais vista do que ouvida: ontem ia eu toda atarefada a caminho dos meus afazeres quando, ao chegar à estação que tomo diariamente, noto os guinchinhos de alegria de duas ou  três crianças muito pequenas que se divertiam a girar sobre si próprias de braços abertos (quem nunca o fez em petiz, que se acuse...). Estava um lindo dia de sol e o quadro chamou-me a atenção pela sua inocência; bem se via que  não tinham nenhuma preocupação na Terra!

E do nada, reparo que um homem novo de fato e gravata se lhes juntou: abriu os braços e girou também, sem alterar a expressão do rosto, como se aquela brincadeira fosse a coisa mais séria deste mundo. Sorri enternecida para aquilo, julgando ser um jovem pai a brincar com os filhos.



Foi tudo tão rápido que mal deu tempo para perceber que não era o caso: ele rodou um par de vezes como um derviche com aquele ar grave de quem diz "virou que se faz tarde" (ou mais literalmente, como diria a Kylie Minogue, I'm spinning around, move out of my way) e, sem interromper o movimento nem mudar de cara, saiu da dança para apanhar o metro como se nada fosse.

 Isto diz muito da capacidade desta gente de viver a seu modo e de se estar nas tintas para o que o povo pensa, como já vimos, mas acima de tudo lembrou-me de como não se tomar demasiado a sério é condição sine qua non para a felicidade ou mesmo para o sucesso.

Se a uma pessoa crescida lhe apetece brincar ou  dançar o vira (ou outra coisa qualquer) out of the blue uma vez por outra, não está escrito em lado nenhum que seja proibido ou que precisa de ter horários e lugares específicos para tal - tão pouco se ganha automaticamente um carimbo de "figura de urso"  por causa disso, mas se ganhar, azar. E  até vos digo que só não me juntei a eles porque fiquei demasiado surpreendida e  não me queria atrasar, senão era limpinho. You can dance if you want to - and you can spin if you want to, era o que mais faltava.

Friday, May 20, 2016

As coisas que eu ouço: sem medo e com pouca vergonha





Uma pessoa das minhas relações que está a representar a organização onde trabalha num exótico e distante país, ganhou simpatia por um dos moços que limpa o condomínio- jovem emigrante alegre e prestável, vindo lá do Bangladesh, do Paquistão ou coisa que o valha.

Pois há umas semanas o meu amigo estranhou que o rapaz, sempre tão bem disposto, andasse com cara de Sexta-feira Santa, triste que dava dó, como se carregasse o peso do mundo nos ombros. Ao início não quis parecer intrometido, mas como os dias passassem e ele continuasse acabrunhado, perguntou-lhe o que tinha e se o podia ajudar em alguma coisa, etc.

Pobrezito! Vendo que alguém se interessava pelas suas arrelias, não aguentou mais e rompeu a chorar, contando o infortúnio que o moía por dentro e sacando de umas imagens comprometedoras que lhe tinham enviado anonimamente. 

Era portanto o caso mais velho e sórdido do mundo: o desgraçado a mourejar de sol a sol para dar uma vida melhor à família (mulher e um filho pequeno) e a flausina lá na terra, de sari para o ar...e de arranjinho com outro. 



Todo sufocado com o desgosto, ainda teve a presença de espírito de dizer que só queria ir a casa quanto antes tratar discretamente do divórcio e da custódia do pequeno, sem revelar as razões do desquite nem à própria família, nem à família da adúltera, senão cunhados e irmãos ainda se juntavam para algum medonho crime de honra daqueles que são tristemente costumeiros por essas bandas, e ele - com a nobreza de um S. José  - não queria, apesar de tudo, nenhum mal à mãe do filho, nem fazer dele órfão. E lá foi para a terra encerrar o assunto.

Qualquer infidelidade é sempre horrível: mas quando à traição se soma a ingratidão, pior se torna. E depois, está provado que más mulheres, como maus homens, há em toda a parte e que quando se querem portar mal, não são os rígidos costumes, nem a vigilância, nem trancas ou a ameaça de consequências tremendas que impedem o que quer que seja. Que a mulher faltasse aos seus deveres, já era mau; que não receasse pela própria pele, sabendo os bárbaros usos com que por lá se praticam até contra mulheres inocentes, quanto mais culpadas... é muita lata e muita loucura.

O que reforça a minha ideia de que quem leva uma vida desregrada e/ou é capaz de apunhalar friamente a cara metade não está muito bem, mentalmente falando. O descaso pelo risco, pelo embaraço e pelos sentimentos alheios só pode querer dizer que se está num modo um bocadinho psicopata. Não sei se isso existe, mas explicava muita coisa.

Thursday, May 5, 2016

As coisas que ouço: ele há pessoas mesmo inconvenientes, Credo.


As regras de civilidade social nem todas são escritas na pedra, a preto e branco e letras gordas. Ainda que estivessem, de pouco ia servir porque assim como assim a maioria não se podia estar mais nas tintas para a boa educação e não segue as directrizes óbvias, quanto mais as nuances....

Mas tenho a certeza de que haverá algures uma regra implícita quanto a não mencionar, diante de um casal que ainda por cima não se conhece bem, os ex de um ou de outro. Como numa conversa que me contaram esta semana:

João: olá Frederico! Há quantos anos, blá blá, blá...olha, queria apresentar-te a minha mulher, Dora.
Dora: como está, Frederico? Prazer em conhecê-lo.
Frederico: ah...eu conheço-te! * nota bene o "tu" super agressivo* Tu não namoraste com o Filipe da faculdade X ou Y?

Assim como quem diz "tu não trabalhavas na Zara?", mas com o tom acusatório de quem afirma "tu partiste o coração ao Filipe" ou pior, "tu namoraste a turma inteira". Em todo o caso, dito como se isso interessasse ao Menino Jesus.



Yup, estou certa de que essa regra de sensatez, ou exercício de sensibilidade, devia estar nos compêndios. Algures ao lado da directriz que explica que nunca se pergunta se uma senhora está de esperanças (porque ela pode só ter engordado e é aborrecido) da que enuncia que nunca se pergunta "é a sua filha?" a um cavalheiro (porque pode ser a namorada vinte anos mais nova) e pertíssimo da regra que frisa que  não é leal nem bonito ser amigo de um inimigo do amigo ou continuar em grandes amizades com os ex dos amigos, principalmente se se portaram mal (porque não se pode servir a dois senhores). 



Antigos namoros - ou de resto, quaisquer esqueletos no armário e episódios "coloridos" ou embaraçosos da vida de alguém - não se mencionam a não ser que se tenha grande convivência e confiança com a pessoa e principalmente, com o casal em causa. O indiscreto que fala pode não ver mal nenhum nisso, c´est la vie e tal, hall of shame cada um tem o seu, certo; mas nem todas as pessoas são assim tão modernaças e encaram águas passadas com a mesma ligeireza, tipo num dia namora-se e no outro vai tudo alegremente para os copos como nos filmes americanos.



Tanto quanto o inconveniente linguarudo sabe, esse pode ser (e quase sempre é) um tema sensível. A relação que menciona desnecessariamente, sem pensar, pode já ter sido motivo de arrelias entre a Dora e o João, de forma particular ou por ciúmes retroactivos em relação à vida passada de ambos de modo geral. Ou ter acabado da pior maneira e deixado algum trauma/problema de consciência à Dora ou ao Filipe. Em todo o caso, as pessoas mais conservadoras encaram os seus erros com grande discrição, principalmente se estão numa relação estável. E um fala barato nunca sabe se está a abrir a Caixa de Pandora dos outros, que podem não ser assim tão open minded.

É um bocado como pôr-se a falar de mortos e tragédias a quem está doente. Há sempre modo de uma pessoa se situar sem cair em gaffes destas. Perguntar "tu não tinhas amigos na faculdade X ou y?" esclarece na mesma a impressão do "já vi a tua cara em algum lado". Mas causar confusão, constranger os outros e lançar uma eventual discórdia é muiiiito mais divertido, não é?

Em última análise, tudo isto se resume à máxima "se não tiver nada de agradável para dizer, cale-se". E essa é bem simples e categórica...



Saturday, March 26, 2016

As coisas que eu ouço: voz da peixeira, voz de Deus


É sempre um agrado ir à "praça" pela manhã comprar legumes frescos, carne, peixe e os bons acepipes da aldeia trazidos pelas vendedeiras em grandes cestas. Por cá temos uma feira ao Sábado que é um encanto - onde se vende de tudo, de alfaces a restos de colecção de boas lojas passando, infelizmente, pelas inevitáveis mercadorias contrafeitas. Estas últimas só um cego não lhes vê a falsidade, mas são a alegria de muita "senhora- que- quer- ser -bem", mas vai à feira maquilhada como um mimo, de casaco de pele falsa, leggings bordadas e de stiletto, a espatifar os saltos na brita...que as ciganas o façam, compreende-se: as feiras são um bom sítio para arranjar casamentos lá à moda do seu povo. Não sei como conseguem trabalhar assim desde madrugada, mas cada uma sabe de si. Agora quem vai às compras, é um disparate...bem se vê que lhes falta conhecer Senhoras verdadeiras, que têm Keds e Tod´s para estas situações!

E depois temos o Mercado D. Pedro V, que apesar de ter sofrido umas obras valentes mantém algum do seu charme, com as estruturas em ferro estilo Arte Nova de quando foi construído, em meados de 1860, e um altar a Santo António com o responso gravado em pedra, talvez para ninguém perder lá nada. 

Convenhamos que as ditas intervenções não foram lá muito boas: puseram-lhe um chão de tal ordem que não há vez nenhuma que eu não escorregue ali como gente grande, e olhem que nem uso saltos muito altos ou finos, muito menos para giros destes. Houve um dia que me estatelei umas poucas de vezes, parecia que tinha patins...e sempre que lá vou parece que piso ovos. Num sítio tão frequentado por gente de mais idade, não sei como não há velhotas a tombar ali dia sim, dia sim.


 Mas sempre que tenho horário dou um pulinho ao Mercado: adoro ver as flores lindas, as bancas com os brinquedos à moda antiga e comprar bolos tradicionais, como os "Cardeais" - uma monstruosidade de pastel que parece o filho ilegítimo de uma Bola de Berlim com um pão de Deus, mas enfeitado de chantilli e com um cone de morango no meio a lembrar um barrete eclesiástico. Já não são o que eram, mas ainda é o único sítio onde se encontram.

 Pois bem, por estes dias fui lá apetrechar-me de peixe, crustáceos e moluscos para a Semana Santa. E a peixeira que me atendeu, muito simpática e palradora como é tradição do seu ofício, começou a conversar comigo, perguntando se eu era estrangeira...é que o mercado está cheio de turistas!

Conversa vem, conversa vai, comentei com ela que a Quaresma devia ser boa para o seu negócio. Respondeu-me espantada: "ai menina, não! Isto agora a gente nova não respeita as tradições. Quer tudo carne e mais carne!".

Pensei cá com os meus botões que ela tinha razão, por um lado: as tradições, toda elas, andam pelas ruas da amargura como temos visto; mas quanto à carne, não sei. Cá para mim ainda há gente que aproveita a quadra para fazer uns batidos detox para inglês ver. Olhem que com tanta partilha de imagens de comida nas redes sociais, não vi uma alma que fosse a postar um "peixinho de Quaresma". Quando muito vejo papas de linhaça mas é pelo modismo, não pela data...





Monday, March 21, 2016

As coisas que eu ouço: tem mãe que é cega...tem mãe que não


Bem avisa o povo irmão. E quem diz mãe, diz sogra que lá vai dar. Às vezes até há sogras que são mais indulgentes do que as mães- em demasia, mesmo - e isto é a prova provada.

Uma senhora minha conhecida, mulher do Norte sem papas na língua, viu-se afectada por um vírus muito comum hoje em dia: a banalização da roupa de serigaita, que atinge até pessoas que consideramos "normais". Sabem, o bom e velho "é o que se usa agora" que muita gente adopta sem fazer caso se a vestimenta favorece ou é apropriada. A família da senhora estava de casório, e as filhas não tiveram mais nada: vai de se decotarem como se não houvesse amanhã. Pois a mãe, que é uma pessoa de bem e temente a Deus, já que não conseguiu impedi-las de se porem em tais preparos, não teve que não se queixasse às amigas em tom jocoso: "as minhas filhas vão que parecem umas rameiras, com as .... (bom, "abundâncias") todas à mostra". É um pouco atirar pedras ao seu próprio sangue, mas ao menos ficou o protesto registado.


Depois contaram-me um caso totalmente oposto, que apesar de bisbilhotices não serem o meu forte, muito me fez rir: há uma outra mulher, mãe de uns três autênticos Carlões de ginásio, que por sua vez só se juntam com Carlonas ou Sheilas Priscilas kizombeiras naqueles romances fugazes, mancebias e casas-separas que temos discutido.


 Até aí nada de especial - quer-se lé com lé e cré com cré, bem dizia a avó - mas pronto, às vezes uma mãe até pode ter posto no mundo um Carlão, Ricardão ou Ivan Rúben do piorio, e ainda assim querer que ele desencante uma rapariga mais discreta. É esperar muito, é não ter grande noção do próprio merecimento, mas existe, em modo "quem me dera que alguém pusesse juízo na cabeça do meu rico filho Ricardinho/Carlitos/Rubenzinho". 

Muitas destas pessoas gostam de ver a Casa dos Segredos, mas Deus as livrasse de terem uma da protagonistas como vizinha, quanto mais no papel de nora, percebem a ideia?

 Mas esta "senhora" é muito ciente da realidade (um ponto por se olhar ao espelho...) e com uma mente muiiiito aberta. Não só aprova os desconchavos como aplaude, atira foguetes e patrocina o circo se preciso for...

Eis que uma das "noras" da dita matrona posou para a Playboy, sabe Deus em que figuras...e a "sogra" ficou a impar de orgulho, deliciada por vê-la "famosa". E se dúvidas houvesse, numa postagem pública da dita e veneranda publicação masculina em que a menina aparecia, lá comentou, desvanecida:

"Coelhinha mai´linda da sogra".

Agora posso dizer que já vi tudo e o que o mundo está mesmo de patas para o ar. Ou no mínimo, que há gente mesmo, mas MESMO MUITO doida. 

Em boa verdade, nenhuma destas mães/sogras é cega: só que uma tem bom senso e outra não. Enfim, to each their own - ou se calhar, como diz outra sogra que eu conheço e que é uma santa, "o que importa é que as pessoas sejam felizes". Se vamos indignar-nos com a doideira alheia, andamos sempre a benzer-nos, de cabelos em pé, enervadinhos de todo...






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