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Monday, May 12, 2014

As pessoas untuosas...arrepiam-me!





Cuidais que trago piolhos,

anjo de Deos, minha rosa?
Eu sô aquela preciosa
que dava as moças a molhos, 
a que criava as meninas
pera os cónegos da Sé...
Passai-me, por vossa fé,
meu amor, minhas boninas,
olho de perlinhas finas!
E eu som apostolada,
angelada e martelada,
e fiz cousas mui divinas. 
Santa Úrsula nom converteo
tantas cachopas como eu:
todas salvas polo meu,
que nenhüa se perdeu.

                                                           Gil Vicente, "Auto da Barca do Inferno"


A quantidade de posts que já escrevi por aqui sobre as pessoas cheias de peçonha e mel quase dava para fazer um Tratado da Sabujice, ou um Manifesto anti Lisonja Barata.
 Sendo incapaz de bajulação, também não suporto ser bajulada ou ver pessoas queridas a ser alvo de tais tentativas de aproveitamento. Soa-me imediatamente a falso e não só - se estiver em modo caridoso, chego a sentir um misto de repugnância, vergonha alheia e pena por quem se rebaixa a engraxar abjectamente, tirando o chapéu a pessoas que inveja ou despreza com um servilismo doentio.

Mas na maior parte das vezes, só a boa educação me impede de lhes dar um pontapé. Assim, com a pontinha do sapato, estilo chegue-se para lá, bicho feio, antes que se pegue

 Quando a esmola é muita, o santo desconfia - e é preciso ser muito ingénuo para não distinguir admiração sincera (ou simples diplomacia, que às vezes nos obriga a ser polidos com quem não simpatizamos) de untuosidade, vulgo lamber botas.

 A untuosidade lembra-me sempre a Alcoviteira do Auto da Barca do Inferno: vozinha maviosa, elogio fácil de quem quer angariar meninas, o riso imediato a cada piadinha que o alvo diz, muita solicitude, muito empenho, muita humildade, muito sim a tudo, e olho de falcão para arranjar as intrigas que forem precisas, não vá o pássaro fugir.



  Claro que quem bajula tem geralmente uma tendência para se fazer necessário, para se intrometer onde não é chamado, para ser fura bolos, metediço e pior que a pulga na costura - força aproximações, faz-se convidado, mete colherada, presta-se a ser alvo de troça desde que ganhe alguma coisa com isso, opina muito e se lho permitirem, põe e dispõe. Huriah Heep, de Dickens, ou a Juliana, do Primo Basílio, são bons exemplos  da natureza venenosa de pessoas assim: quem não tem vergonha de se mostrar servil, é capaz das piores maldades.

 Eu, que noto um bajulador a milhas, se não lhe puder dar o desejado pontapé (ou por uma questão de compostura, ou porque não ando a investir em bons sapatos para os empeçonhar com gosma) divirto-me a calcular quanto tempo aguentam o sorriso.
 Tenho cá uma teoria: acho que o agrafam e que logo que voltam costas, sofrem um ataque de tiques nervosos, fazem caretas que nem uns possessos, vomitam injúrias, espanejam-se pelo chão de raiva, enfim, mostram a sua verdadeira face, que é mais ou menos assim:



A mim não me enganam. Nauseazinha...

Wednesday, September 12, 2012

Da dignidade (ou da falta disso)

O mal de andar pelo mundo com olhos abertos, em certos meios pelo menos, é assistir a cenas patéticas de bajulação, de adulação, de babujice e de desespero abjecto. Tenho reflectido aqui várias vezes sobre o assunto, mas a capacidade de certas pessoas para se rebaixarem, para a vénia torpe, para agirem como tapete ou cãozinho nunca deixa de me espantar. Aproveitam cada brecha, cada instante de fragilidade, para se fazerem muito humildes, muito amiguinhas, solícitas ao máximo, muito necessárias, sempre de olho na recompensa. Fazem-me lembrar a Juliana, a criada d´O Primo Basílio, a engraxar a patroa moribunda para lhe apressar a morte e ficar com a herança. Não se lhes dá levar pontapés em público, sofrer desfeitas ou afrontas, morder a língua às maiores humilhações, engolir grandes sapos, beijar o pior inimigo - à francesa, não na face, serem o pneu sobressalente, ficar com as migalhas... E lá dizia o outro: Deus deve amar os medíocres, porque criou imensos. Como são eterno vassalos que elogiam e servem para limpar os pés, ainda há ingénuos que os aturam. Sem reparar que quem não tem dignidade numas situações, também não a tem noutras, e é capaz de se vender por 30 dinheiros à primeira oportunidade - ou se um dia, cansado de tanto dobrar a espinha,  acordar com vontade de se vingar. Vade retro, Satana, salvo seja.

Thursday, March 29, 2012

Bad Company


"Dizem a verdade aqueles que afirmam que as más companhias conduzem os homens à forca."
  (Maquiavel)

"Não vos enganeis. As más companhias corrompem os bons costumes" (1 Coríntios 15:33)


Nunca tive um pingo de tolerância para más companhias . (S. Vicente, santinho padroeiro contra as más influências e os vícios, me defenda sempre de tal !) Nem mesmo na idade do armário. Lá em casa, sempre honrámos a máxima da maçã podre: basta uma para contaminar o cesto. O único remédio é esvaziá-lo e eliminar a ranhosa ou, caso isso seja impossível, sermos uma maçã ajuizada e rolar para outro lado.  Nunca gostei de bajuladores e sou incapaz de adular seja quem for – logo, se não me agradam as novas companhias de alguém, salto fora.  Não sou amiga de gente esquisita e mal intencionada, por isso - como é lógico  – não sou amiga de quem tem amigos desses. É coisa que mata toda a admiração, amor ou respeito que possa sentir por alguém.
Prefiro afastar-me dos íntimos a alimentar-lhes os vícios.   

Os aduladores são a pior espécie de inimigos. (Tácito)

A baixeza mais vergonhosa é a adulação. (Francis Bacon)

Os aduladores são como as plantas parasitas que abraçam o tronco e ramos de uma árvore para melhor a aproveitar e consumir. (Marquês de Maricá)

A anatomia de um adulador é inconfundível. Aparecem sempre movidos por um interesse qualquer, já se sabe. Estabelecem vínculos a uma velocidade precipitada, atropelando as fases de desenvolvimento de qualquer relação. Por exemplo, o "você" passa a "tu cá, tu lá" num ápice, mesmo que fosse suposto guardar alguma cerimónia.  O descaramento é tanto que por vezes, quem vê fica sem reacção. Outro truque é repetir o nome da pessoa que querem conquistar a torto e a direito, uma táctica muito usada em vendas. (As pessoas adoram ouvir o próprio nome). Ainda ontem não se conheciam, mas de repente referem-se ao sujeito com grande intimidade e orgulho:  " o João isto, o João aquilo". O passo seguinte é procurar impôr-se no grupo estabelecido, dando graxa aos mais vulneráveis. 


 Aprendei que todo o adulador vive à custa de quem o escuta. (La Fontaine)


    Entregar-se às pérfidas insinuações de um adulador, equivale a beber veneno numa taça de ouro. (Demófilo)

  
Uma vez que tem um objectivo em mente, o adulador está disposto a engolir todos os sapos, a fazer todos os fretes, a abdicar de qualquer réstia de dignidade e a rastejar se for preciso. Se lhe disserem na cara " és uma besta!"  ele vai rir-se e encolher os ombros.   É o pior sabujo que existe. 

Um bom meio de reconhecer um bajulador: conta-lhe que és autor de alguma acção ignóbil, fingindo orgulhar-te dela como de uma façanha. Se ele te felicita, é um bajulador. Um homem sincero pelo menos abster-se-ia de um comentário. (Cardeal Giulio Mazzarino).


 Como não lhe interessa o bem-estar de quem adula, apenas pretende tirar proveito,
lisonjeia-lhe até as piores acções. Qualquer disparate é elogiado, posto na coroa da Lua. Se lhe contam " apanhei uma bebedeira tão grande que fui parar ao hospital feito num oito" o parasita responde " Ganda maluco! és o meu herói! Para a semana posso ir também?".
Claro que é impossível competir com isto. Perante tanta peçonha e mel qualquer aviso, reparo ou opinião sincera soa a sermão. Familiares, amigos ou companheiros do visado que caiam no erro de o prevenir são taxados de mal dispostos, secas, invejosos ou desmancha prazeres. É nessa fase que o adulador faz o próximo movimento: opinar. O adulador adora interferir na vida do alvo, fingir que pugna acima de tudo pelos seus  interesses, tornar-se necessário. De repente, ele é que sabe o que é melhor para o seu novo “amigo”. Todos os outros têm defeito.

Quem sabe adular também é capaz de caluniar. (Napoleão)

É nesta altura que uma pessoa sensata (que já topou o esquema e avisou duas ou três vezes, sem resultado) toma o único caminho possível para a serenidade: fugir dessa tropa fandanga.   Afinal, 

Aquele que gosta de ser adulado é digno do adulador.(William Shakespeare).




É doloroso reconhecê-lo, mas factos são factos. Vejam o cavalheiro acima: uma verdadeira estampa, com um rosto lindíssimo e uma bela figura. Herdeiro de uma colossal fortuna do petróleo. Não faço ideia se é uma pessoa inteligente, mas parece ser alguém sem motivos para se queixar da vida, com um futuro radioso. Pois é, mas em vez de cuidar dos negócios da família, estudar, fazer voluntariado em África, plantar batatas ou qualquer ocupação igualmente saudável, o rapazinho passa a vida assim:



Grandes pândegas, visitas à esquadra, vida de playboy, cenas vergonhosas (foi expulso de hotéis, casinos, lojas e até do casamento do irmão) bebedeiras e drogas à fartazana, a sustentar malandros, a aturar parasitas, a ser mau para toda a gente, num desregramento e depravação absolutos.  A corrupção de Brandon Davis é tal que de solteiro cobiçado, passou a ser uma anedota.  Foi alcunhado de “Greasy bear” (urso seboso) e os próprios pais viram-se obrigados a fechar-lhe a bolsa. Ei-lo aqui, lindo como o sol, numa cruel caricatura de si mesmo:

You Dirtbag 

É caso para dizer, nem coberto de ouro....
O que um príncipe aprende melhor é a equitação, porque o seu cavalo não o lisonjeia. (Plutarco) 
"A companhia da multidão é nociva: há sempre alguém que nos ensina a gostar de um vício, ou que, sem que percebamos, nos transmite esse vício por completo ou em parte. Quanto mais numerosas forem as pessoas com as quais convivemos, maior é o perigo."(Séneca)


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