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Monday, March 7, 2016

Dicas da Belle époque: "uma beleza que se degrada é um delito que se comete"

Hoje, num antiquário, veio-me parar às mãos um livro curiosíssimo que, a julgar pela referência às Gibson Girls e a Fluffy Ruffles (uma espécie de Carrie Bradshaw de 1907), pela ortografia e pelo que consegui apurar online, será do início do século passado.

O compêndio - uma espécie de manual de auto ajuda e aperfeiçoamento- dedica dois capítulos inteiros à beleza, que o autor, um tal Ellick Morn, considerava não só ser uma obrigação feminina, como estar (quase totalmente) ao alcance da vontade e ser influenciada pela bondade do coração. 

"As mulheres têm não só o direito, mas o dever de ser belas. O futuro do mundo está na sua expressão de beleza, porque (...) a conquista da felicidade está na redução à unidade do trinómio beleza - bondade - saúde. Se não fosse um brilhante paradoxo, diríamos que julgamos imoral a mulher feia, porque não responde ao apelo da espécie, opondo um obstáculo ao seu fim último, que é alcançar a felicidade; mas não seria equitativo julgá-lo porque a mulher não é sempre culpada da sua fealdade, embora o seja na maior parte dos casos por uma conduta irregular, anti higiénica e desordenada. Além disso, a mulher é muitas vezes feia porque não soube cultivar a flor preciosa da bondade".




A beleza física era também vista como ao serviço de uma espécie de eugenia, do apurar da "raça", ou seja, como um alto ideal que transcendia a satisfação do indivíduo:

"A mulher deve ser ambiciosa de beleza. Neste caso a ambição não é um vício mas a primeira das virtudes, porque demonstra nela a alta compreensão de um dever sagrado, o de dar a vida a homens belos e sãos.  Entre os primeiros deveres da mulher está a tentativa de obter um tipo ideal de beleza. Esse dever devia estar pelo menos ao mesmo nível de uma boa instrução. As tentativas feitas pela mulher para alcançar beleza nunca se perdem, porque mesmo que ela não consiga realizá-las imediatamente e para as suas satisfações pessoais, realizá-la-á nos seus descendentes.


Lina Cavalieri
Desde os seus primeiros anos a obrigação moral de aprender a arte de ser bela impõe-se à mulher não para desenvolver uma pueril presunção galante, mas para realizar um fim augusto, o de aperfeiçoar o corpo e a alma da raça a que pertence. Criar para si um tipo de beleza, conservá-lo o maior tempo possível, transmiti-lo aos seus filhos, eis o verdadeiro feminismo da mulher, eis o que pode fazer dela rainha do mundo e o ser a que devemos todas as dedicações e sacrifícios".


La belle Otero


Longe das ideias do nosso tempo, em que assistimos um certo ressentimento contra os padrões de beleza, o escritor acreditava (à semelhança de uma beldade contemporânea, a Bela Otero) que ser formosa era a principal missão da mulher e que a inspiração em ideais de beleza nada tinha de funesto: em teoria, o corpo seria uma criação do espírito. Por um esforço de vontade prolongado, seria possível modificar a figura e imprimir-lhe o tipo de beleza que melhor sintetizasse os gostos estéticos de cada um(a).




"O desejo ardente de realizar um ideal de beleza dá sempre resultados positivos. A nossa alma possui um poder plástico de transformar lentamente o nosso rosto, dando-lhe a fisionomia que os nossos olhos contemplam mais frequentemente e do ideal de beleza que fixamos...a primeira operação a executar é escolher um ideal de beleza e viver intensamente a ponto de nos imaginarmos no modelo. Mesmo praticando a ginástica física, não se deve perder de vista o modelo ideal. Todos os movimentos devem ser feitos pensando no modelo que se quer imitar". 



Mas desenganemo-nos se a ideia parece superficial: para que a beleza física fosse duradoura, tinha de partir da alma. "A mulher que quer conquistar a beleza deve evitar a vida desregrada, o vício, as fadigas que desfeiam, as causas de doença e as preocupações. Tudo o que ajuda a fazer-nos melhores e mais sãos, ajudará a tornar-nos belos". 

O autor acreditava mesmo que não havia pior crime que o de lesa-beleza: "são pois, culpadas de lesa - beleza as mulheres que não têm a ambição do seu corpo, que o deixam enrugar e envelhecer, que extinguem no rosto o esplendor divino da suavidade, que esquecem o dever sagrado da coquetterie sublime, que por uma conduta desregrada degradam a pureza das formas. Mais culpados ainda são os que impedem a mulher de satisfazer a sua aspiração soberana de beleza, que a sujeitam a trabalhos penosos e degradantes, que fazem dela a besta de carga, que abafam a flor divina e degradam a alma feminina nas fadigas diárias dos escravos. Uma beleza que se degrada é um crime que se comete"...

Em tempos de "igualdade" e "beleza real" muita gente discordará destas ideias "antiquadas" ; mas outras tantas pessoas - nomeadamente as adeptas do fitness- verão aqui umas quantas verdades...



Tuesday, January 12, 2016

Quando um vestido fala por si


Num oceano de vestidos de suspiro ou minimalistas praticamente todos iguais (como tem vindo a tornar-se norma nas passadeiras encarnadas deste mundo) Lady Gaga, ex-rainha da extravagância, roubou as atenções nos Globos de Ouro com este Versace arrasador.

 Inspirado em Grace Kelly, by the waycomo lembrou e muito bem Raquel Prates no seu blog.

Referências à parte, eis a prova provada de que tanto Gaga como Versace são espampanantes quando querem, mas porque podem, e que rapidamente passam ao estilo mais depurado com  acrobática destreza. É que para fazer um vestido destes, com um corte tão preciso, perfeito sem o mínimo fru-fru, é necessário savoir faire. E já o disse por aqui, Versace escorrega para o exuberante muitas vezes mas basta usar algo feito por esta Casa para ver que quem a gere entende do ofício e sabe enaltecer as curvas femininas como ninguém. Ou não estivéssemos a falar de italianices!

Then again sou suspeita, já que sempre que um vestido deste género aparece num evento, o coração pende-me para ele. Quase todos os meus vestidos formais são algo parecidos com isto, entre a Belle Époque e os anos 50 - verdade seja dita, tenho um de veludo negro parecidíssimo em fila de espera para que a costureira o retoque. E porquê? Ora, talvez porque sou careta ou porque o gosto e os traços italianos estão geneticamente cá e não posso lutar contra isso. Tal como Gaga, aliás, a menina Germanotta, também não pode. Mas sobretudo porque o que é doce nunca amargou. 



Um modelo sheath admiravelmente executado, num bom tecido, com um belo decote (neste caso, shoulder to shoulder), mais feitio menos feitio na saia, mais manga menos manga, não só realça as formas sem desconforto - mais ergonomicamente correcto, não há-  sem cair na vulgaridade, como dispensa grandes fantasias. Funciona bem em seda, veludo, brocado, liso, estampado. 

Depende da boa estrutura e da boa caída, não de uma aplicação estapafúrdia, de uma cauda ou de cristaizinhos bordados que muitas vezes não se seguram como devem. Hoje em dia, finados os tempos da verdadeira haute couture, o que mais se vê são vestidos caríssimos mas banalíssimos ou não tão bem executados como isso. Um destes não precisa de se ater à originalidade; só de destacar a mulher que o usa, e de chamar a atenção para os seus mais belos atributos: o rosto, a pele, a decolletage, a cintura, a curva dos rins.

Melhor ainda, é quase impossível errar no styling de um vestido destes. Noutros os acessórios, as jóias, os penteados tornam-se um assunto muito relevante, já que a toilette é às vezes tão sem graça. Mas um assim fala quase por si mesmo, praticamente dispensa as jóias e a maquilhagem ou o penteado são um extra (lembram-se de Angelina Jolie em O Turista?). E por fim, é um modelo feito para a mulher, para a figura feminina, criado nos bons tempos em que as mulheres queriam e sabiam agradar e estavam cientes de que a beleza é uma arma e consumada arte. Logo, desde que ajustado à medida e usado por quem tenha o mínimo de curvas, acaba por ser democrático para a maioria das figuras, altas ou baixas, magras ou mais cheias. 

A mulher que opta por ele não está desesperada por ser "diferente", por ofuscar as demais, por dar nas vistas; preocupa-se em sentir-se bem na sua pele, em estar apropriada e em passar um bom serão. O resto vem por si mesmo, pois lá dizia Chanel "quando uma mulher está mal vestida, reparam no vestido; quando está bem vestida, reparam na mulher".



Thursday, July 30, 2015

Lição de 1905: beleza sem isto é perigosa.

 


Esta semana veio ter-me às mãos outra remessa cuidadosamente seleccionada dos livros que mais me agradam e que ando sempre a caçar - velhinhos e cheios de conteúdo, do tempo em que era seguro entrar numa livraria sem sair de lá com uns neurónios a menos, com ideias quaestionáveis e muitas dúvidas de gramática, estilo e ortografia. 

Alguém se há-de ter desfeito da vasta biblioteca do avô ou tio, um tal Sr. Azevedo que possuía volumes e mais volumes sobre religião, ciência, história e costumes em pelo menos quatro línguas e comprados entre 1930 (embora alguns fossem mais antigos; as dedicatórias lá estavam) e 1970 e pouco. Trouxe uma caixotada deles, pensando com amizade no desconhecido Sr. Azevedo, essa alma irmã cujos herdeiros não teriam grande apreço pela sua cuidadosa escolha de leituras...coisa assaz estranha. Desde pequena adorava virar do avesso os livros que o avô, que não conheci, deixara lá em casa, e ainda guardo a maior parte. Com muita pena minha, perdi a edição de Jane Eyre que a avó adorava e que me recomendou. Foi a minha primeira introdução às irmãs Brontë.

Por respeito ao Sr. Azevedo, esperemos que as suas netas e sobrinhas não se regalem a ler asneiras! Mas não apostava...

Adiante; entre os que trouxe comigo, estava um encantador livrinho de contos italiano, pretendendo ser um estudo da psique da mulher: Psicologia Feminina -A proletária- A burguesa- A aristocrata, de Paolo Mantegazza, Florença, 1905.


Depois de introduzir a obra com o aviso "às mulheres de hoje, para que nos preparem a mulher do futuro" de dissertar deliciosamente sobre a mulher do seu tempo e de tecer algumas considerações proféticas sobre a opinião que os leitores de épocas vindouras teriam sobre o seu livro-documento (voltarei a isso noutro post, com certeza), o autor lança-se então na análise  de mulheres de todos os cantos da sociedade.


 Achei particular graça a este trecho de uma das estórias, sobre uma rapariga lindíssima:

"A nossa rapariga lia no rosto dos homens todos esses desejos, dos quais media a força, descobria a direcção e interpretava a origem. E sem o ter aprendido com pessoa nenhuma, a não ser com Eva dos tempos remotos, sabia, com o olhar e com o sorriso, sem palavras, aquecer os desejos muito frios e friar os muito ardentes (...) aquecendo e regelando, mas espalhando sempre pelos sulcos das almas as sementes subtis e infinitas da esperança. Nesta arte as mulheres muito belas, que devem quase sempre e necessariamente ser loureiras** empregam uma diplomacia de tal ordem que bastaria para imortalizar muitos estadistas."

 E atrevo-me a dizer, fazendo a vontade ao autor que muito curioso estava sobre a opinião das mulheres do futuro: ai da mulher, bonita ou feia (mas se for bela, pior ainda) que não possua esse dom instintivo, de auto domínio e de controle sobre as emoções que provoca nos outros. Sem o golpe de vista, carecendo da capacidade de ler os rostos alheios e de gerir estrategicamente as reacções que causa, a mulher torna-se uma presa fácil, uma vítima dessa "primeira divindade" que é a formosura...


**NB- loureira: Sedutora; que faz por agradar.



Tuesday, July 7, 2015

Hotel da Estrela: um retiro encantador no coração de Lisboa




Quem por aqui passa já conhece o meu fraquinho pelos ambientes de outros tempos. E quando se trata de me deslocar, prefiro instalar-me num local com carácter- se possível, com história. Ou neste caso, com diferentes histórias e uma atmosfera diferente. Que transmita uma sensação acolhedora, familiar, tranquila e com um toque de mistério.

O Hotel da Estrela (cujo edifício começou por ser, no sec. XIX, a residência dos Condes de Paraty, e mais tarde foi convertido em escola) é um desses lugares especiais. 

Junto à Basílica e Jardim da Estrela e ao bairro de Campo de Ourique, a 10 minutos do bulício do Chiado e da Avenida da Liberdade - ideal para quem viaja em passeio, lazer ou negócios, portanto - o Hotel da Estrela oferece, porém, a ideia de um retiro perfeito. 

Como precisei de usar um vestido de noite
 durante a estadia,  não resisti a captar a atmosfera para partilhar convosco!

Sabem os romances vitorianos em que um cavalheiro vê passar uma perturbante desconhecida, perde-a de vista e depois indaga onde ela mora, sem sucesso, pois está escondida numa qualquer casa encantadora na grande cidade? Pedro da Maia às voltas, em busca de Maria Eduarda? Foi essa romântica sensação que tive ao chegar. Uma mulher enigmática podia refugiar-se ali dos olhares dos admiradores, esperando o amor de quem se desencontrara em Paris ou no Cairo. Ou, numa perspectiva mais actual e optimista, um casal poderá escolher o Hotel da Estrela para um passeio elegante e cheio de significado.

Membro da Small Luxury Hotels of the World, este pequeno hotel de charme oferece essa atmosfera intimista na dose certa, colorida por toda uma envolvente retro que evoca as escolas de outros tempos. 


 O conceito está presente desde os quartos e corredores, sarapintados de rabiscos a giz, até ao restaurante (que se chama, precisamente, a Cantina da Estrelarecomenda-se o pequeno almoço, com doces tradicionais e vista para o delicioso jardim) onde não faltam sequer os bengaleiros em fila.



O bonito jardim, com vista para a Basílica.

 A suite, muito espaçosa, combina habilmente o design contemporâneo e a cama Hästens - considerada a melhor do mundo - com a iconografia da nossa infância. Só a atenção ao detalhe vale uma visita. De notar também os produtos de toilette da Real Saboaria, sempre um agrado para os sentidos presente nos hotéis do grupo.


Quem estudou em edifícios antigos antes de começarem a substituir todos os adereços por versões modernas e eficientes (mas também assépticas e sem metade da magia) encontrará aqui um regresso às ardósias, ao giz, às secretárias de madeira, aos mapas e transferidores de pinho, aos livros que cheiravam a biblioteca... enfim, à boa antiga portuguesa, mas sem réguas nem palmatórias assustadoras. Afinal, é para isso que as memórias servem: para conservar os aspectos belos e que nos fazem sentir bem. Não há nada de melancólico no Hotel da Estrela. Só o charme e elegância de tempos idos, adaptado ao conforto e exigência do sec. XXI.


 de Lisboa). Por isso decidimos ligá-lo a esse imaginário que nos diz tanto a todos, a Escola. Mais que uma estadia num hotel, os nossos hóspedes serão transportados para um universo que lhes foi em tempos familiar… Estando ao lado da Escola de Turismo, alguns dos nossos colaboradores são alunos dessa escola, trabalhando no hotel como forma de enriquecer a sua formação, da qual cada hóspede faz também parte.


O Hotel da Estrela tem um tema que traz de volta o espírito das escolas antigas, oferecendo uma experiência de estadia verdadeiramente original. O hotel, que em tempos foi uma escola, fica situado ao lado de duas das mais emblemáticas escolas de Lisboa, o Liceu Pedro Nunes e a antiga Escola Machado de Castro (actualmente Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa). Por isso decidimos ligá-lo a esse imaginário que nos diz tanto a todos, a Escola. Mais que uma estadia num hotel, os nossos hóspedes serão transportados para um universo que lhes foi em tempos familiar… Estando ao lado da Escola de Turismo, alguns dos nossos colaboradores são alunos dessa escola, trabalhando no hotel como forma de enriquecer a sua formação, da qual cada hóspede faz também parte.
O Hotel da Estrela tem um tema que traz de volta o espírito das escolas antigas, oferecendo uma experiência de estadia verdadeiramente original. O hotel, que em tempos foi uma escola, fica situado ao lado de duas das mais emblemáticas escolas de Lisboa, o Liceu Pedro Nunes e a antiga Escola Machado de Castro (actualmente Escola de Hotelaria e Turismo de Lisboa). Por isso decidimos ligá-lo a esse imaginário que nos diz tanto a todos, a Escola. Mais que uma estadia num hotel, os nossos hóspedes serão transportados para um universo que lhes foi em tempos familiar… Estando ao lado da Escola de Turismo, alguns dos nossos colaboradores são alunos dessa escola, trabalhando no hotel como forma de enriquecer a sua formação, da qual cada hóspede faz também parte.

Thursday, March 26, 2015

AXIS Póvoa de Varzim: escapadinha à moda da Belle Époque


Desde pequena que não passava pela Póvoa de Varzim, mas a sua história como uma das "zonas de banhos" mais elegantes do País sempre me despertou curiosidade. Frequentada pela boa sociedade nortenha desde finais do século XIX, quando "ir a banhos" passou a ser moda, a então vila ganhou uma dimensão cosmopolita, passou a ser um centro de requintadas tertúlias e recebeu convidados ilustres, como o Rei Carlos Alberto de Sardenha, que se veio exilar no Porto e escolheu a Póvoa de Varzim para recuperar do desgosto de ter abdicado do Trono.


O bulício na "Avenida dos Banhos" em 1921

 Sobre o ambiente de ócio que aí se vivia, típico do tempo, escreveu em 1881 o autor Alberto Pimentel: "A mais movimentada de todas as praias que eu conheço. Parece uma peça de Sardou. Ha lojas cheias de gente e gente para encher as lojas. Falla-se, descute-se, joga-se, dança-se. Há animação. A noite, a villa enche-se de luz e de murmúrios. Tem um aspecto venesiano, vista do mar. O amor faz ali cincoenta casamentos por anno; mas as victimas da roleta são em muito maior numero." 


Aspecto da praia em 1882
 Hoje, a cidade conserva muito da sua aura de "destino de recreio"  - ou seja, um passeio ideal para dandis do século XXI. Além da beleza da cidade em si, as acessibilidades são excelentes - é possível ir ao Porto de comboio e voltar a tempo de passar uma bela tarde de praia.

Por isso, fiquei encantada por me convidarem a conhecer o bonito AXIS Vermar Conference & Beach Hotel.
Junto ao jardim, literalmente a dois pulinhos do mar
 Acabado de remodelar, o edifício - com o estilo acolhedor dos anos 70 - apresenta hoje toda uma inspiração náutica. 



A decoração dos corredores (que nos transporta para um filme de Stanley Kubrick) dos quartos com varandas para o mar (soberbos, que nos dão a impressão de estar no interior de um yacht) e do spa (cuja piscina me lembrou os aposentos d´A Pequena Sereia) consegue criar um ambiente muito particular, que desperta a imaginação. 


Com as suas "escotilhas" e jogos de luz, o SPA tem uma atmosfera muito especial

  Apropriado para deslocações de negócios mas também para fugas românticas ou dias de praia em família (os quartos duplos, de dois pisos, são uma opção convidativa para casais com filhos pequenos)  o AXIS Vermar é uma escolha elegante e despretensiosa.

 Interessante também foi ficar a conhecer o projecto internacional de boas práticas OMO, que os Axis Hotéis vão acolher e que se destina a integrar jovens com síndroma de Down no sector hoteleiro. 

Recomendo uma visita e espero voltar em breve para explorar melhor...


Wednesday, January 14, 2015

O amor de hoje e o medo de "perder tempo"


 "In such great inevitable love, often love at first sight, we catch a vision (...) as it should have been in an unfallen world. In this fallen world we have as our only guides, prudence, wisdom (rare in youth, too late in age), a clean heart, and fidelity of will....."

J.R.R. Tolkien

Actualmente é costume, perante uma relação que demora a evoluir ou a compor-se (por muito potencial que tenha) dar-se conselhos do género "se tivesse de funcionar, já tinha funcionado". É um paradoxo que hoje em dia, quando tudo está preparado para prolongar ao máximo a existência humana, as pessoas tenham muito mais medo de "perder tempo" do que  antigamente. 

São capazes de ter affairs de uma noite como se nada fosse e não consideram isso "perder tempo" mas apavoram-se perante um relacionamento mais profundo, desde que não ofereça gratificação imediata. Ser "enrolado" ou "entretido" é o terror de muita gente na era da vida longa, das redes sociais, da fast fashion, da fast food, do sucesso rápido, do "tudo para ontem". 

O sociólogo polaco  Zygmunt Bauman (cujas ideias vão dar post por aqui em breve) disse "temos relacionamentos instáveis, pois as relações humanas estão cada vez mais flexíveis".

As pessoas vivem mais tempo mas em boa verdade não sei para que o querem, pois gostam de tudo à velocidade da luz; e apesar de terem acesso a tanta informação, não aprenderam que ninguém é perfeito. Até a pessoa mais perfeita para cada um terá falhas, o que é necessário é que essas falhas sejam compatíveis ou suportáveis com/para a cara metade.

 É claro que há relacionamentos que estão condenados à partida e é suicida investir neles (se o amor não é assim tão grande ou há maus tratos, falta de respeito, preguiça, infidelidades sucessivas, etc) mas alguns dos maiores amores são postos à prova pelas circunstâncias ou pelo destino (para quem acredita em destino, claro). 



Tenho para mim nenhum dos grandes romances do passado teria acontecido se os protagonistas pensassem como hoje se pensa - a não ser talvez Romeu e Julieta, que apaixonarem-se e casarem foi um ver-se-te-avias, e mesmo assim acho que não tinham posto os pés perante o Altar. Passavam a noite juntos e na manhã seguinte acabavam tudo via facebook porque a ex amada, a Rosaline, se lembrava de que afinal o Romeu até era giro e desatava a deixar likes e comentários sugestivos na página dele, enfurecendo a Julieta!

  As coisas em que vale a pena investir levam tempo, e ultrapassam os cenários mais assustadores - obstáculos, distância física, zangas prolongadas, meses e anos sem comunicar. Talvez o equívoco seja meu, rapariga antiquada, porque a avó sempre me martelou "o que tem de ser tem muita força e não vale a pena uma mulher afligir-se, nem fugir nem correr atrás".




Dizia isto e lembrava-me que ela e o avô tinham estado dois anos zangados, sem trocar palavra (e depois foram felizes para sempre) e que o avô dela tinha ultrapassado barreiras sociais complicadíssimas para casar com a mulher que amava...após 20 anos de espera. Eu não estaria aqui a escrever isto se não houvesse um rapaz e uma rapariga que não desistiram um do outro durante duas décadas.

 Outra das minhas bisavós passou das boas com o ciúme do marido - mas ele adorava-a. Quando lhes fizemos uma festa de já-nem-me-lembro quantos anos de casados (acho que eram sessenta ou coisa assim) pareciam tão apaixonados como dois adolescentes. Naquela época era a flexibilidade, não a espera, que se levava a mal.

 E falo disto porque ontem me relembraram a história do autor de O Senhor dos Anéis e da sua mulher, a pianista Edith Bratt. O amor entre ambos foi a inspiração para Tolkien criar duas das suas personagens mais famosas: os amantes Beren e Lúthien.



 Quando se conheceram, o tutor de Tolkien e os amigos de Edith não concordaram com o namoro: ele era mais novo do que ela, estudante com aspirações a escritor, sem grande promessas de futuro; ela era Anglicana devota,  ele um Católico fervoroso. Foram impedidos de falar por três anos, mesmo por carta, até que Tolkien atingisse a maioridade. Na noite do seu 21º aniversário, o autor escreveu à amada, reafirmando-lhe os seus sentimentos - e foi por um triz, porque Edith, julgando que ele a esquecera, estava para casar com outro.
 Quando soube que ele continuava a amá-la, Edith foi ao seu encontro (debaixo de um viaduto!) rompeu o noivado com o outro rapaz, acedeu - não sem alguma luta interior - a converter-se ao Catolicismo (sendo expulsa de casa e ostracizada pelos amigos à conta disso) e casaram.


J.R.R Tolkien e sua mulher Edith em 1966

 Pelo meio, ainda tiveram de enfrentar muitas dificuldades, nomeadamente financeiras...e a I Guerra mundial. Edith mudava-se para as imediações do batalhão do marido só para estar perto enquanto ele lutava nas trincheiras, vivendo no pavor de o perder de um minuto para o outro. O autor confessaria mais tarde que a forma como tinham ficado juntos - e permaneceram unidos até à morte - fora uma aventura romântica que podia ter corrido mal.

 Tolkien era um homem virtuoso, mas não um idealista; admitia que não há relações perfeitas e que constância e fidelidade não são dados adquiridos, mas escolhas conscientes que dão muito trabalho e exigem força de vontade. E tempo, claro.


Tuesday, December 30, 2014

Streetstyle do tempo da outra senhora



Cada geração acha sempre que sabe tudo e inventou tudo, mas creio que nenhuma época foi tão cheia de si como a nossa, que - se excluirmos coisas como a internet, as gadjets e as redes sociais - não inventou praticamente nada. A nossa época recicla, revisita, reaproveita, transporta, transforma, actualiza...mas criar, muito pouco. E isso não é necessariamente mau - nem sempre o que é novo é bom, antes pelo contrário.

Calções de cintura subida...tal como nas últimas temporadas (c. anos 1920)

Mas não deixa de ser curioso ver como a blogosfera pasma para as imagens de um Sartorialist, do instagram de qualquer it girl do momento, sem às vezes pensar que - por bonitas ou inspiradoras que as imagens sejam - de novo, só têm o veículo, a frequência com que são divulgadas, e eventualmente o tipo de protagonistas.

Muito antes dos blogs de street style, nas primeiras décadas do século passado,  já três irmãos em Paris, os irmãos Seeberger, se dedicavam  a retratar as mais belas e elegantes mulheres de sociedade, nos locais mais exclusivos da Cidade Luz. As principais Casas de Moda - Vionnet, Hermès, Chanel... - não tardaram a captar o potencial da ideia, colocando as suas modelos, vestidas com as mais belas criações, à mão de semear para as lentes dos irmãos Seeberger.


 Olhar para as beldades de outros tempos em instantes vívidos do quotidiano não é só inspirador, ou testemunho de uma elegância que já não volta (embora possa sempre ser evocada a título individual). Mostra-nos a vida de épocas passadas fora dos retratos em pose; lembra-nos que muitas silhuetas, peças ou acessórios que agora usamos, ou mesmo extravagâncias que tanto encantam os fotógrafos na feira de vaidades das semanas de moda, são apenas revivalismos...e que o original foi muitas vezes de melhor qualidade, ou usado melhor.

 Essa humildade é essencial quando se pensa o estilo, quando se medita na elegância. Podemos fazer algo igualmente fabuloso...mas sem referências do passado, não somos nada.












Monday, December 1, 2014

Conselho de 1901 que ainda vale em 2014



 "(...)any makeup which is not discreetly and artistically managed is vulgar in the extreme."

Ella Adelia Fischer, The Woman Beautiful (1901)


As modas vão e vêm, a elegância fica; e há máximas que não se alteram com o passar do tempo. Sendo certo que na Belle Époque estavam em voga as morenas claras com figura de ampulheta, como Lina Cavalieri, e pouca ou nenhuma maquilhagem (o uso de "pinturas" só viria a ser assumido pouco a pouco, embora a maior parte das senhoras as aplicasse discretamente) a verdade é que um rosto demasiado "mascarado" - quando fora da passerelle e dos editoriais de moda - não é favorecedor, nem atraente. É impossível ter bom ar com um make demasiado forte.

 A maquilhagem, por muito sofisticada que seja, deve servir para realçar os traços...não para pesar ou dar nas vistas por más razões.

 Actualmente, temos à disposição duas "correntes de maquilhagem" por onde escolher: o natural "no makeup look" e um visual cuidado ao extremo, com vários truques de contouring, reservados até há uns anos atrás aos profissionais e connoisseurs e amplamente divulgados agora junto do público graças a celebridades instantâneas como Kim Kardashian e aos tutoriais de maquilhagem disponíveis nas redes sociais ou no Youtube.

Em ambos os casos, convém encontrar o meio termo: recursos como o smokey eye e o bold lip podem resultar lindíssimos e ser, em si mesmos, um acessório de moda; o contouring habilmente aplicado pode dar "cara de boneca" sem que se note que lá está.
 Convém que o que está a vista pareça real, vivo, que uma mulher possa agir à vontade e receber uma festa ou beijo no rosto sem parecer que vai sujar a pessoa que a cumprimenta!

 O que é preciso é sensatez, conhecimento (para saber o que nos cai bem e evitar gaffes e visuais datados, como as sombras brilhantes e o excesso de gloss) um pouco de prática e olhadelas frequentes e discretas ao espelho (para evitar borrões que acontecem a todas).

 Tendo em mente que a boa maquilhagem serve apenas para enaltecer o que a Natureza deu a cada uma e que, para ser uma mais valia e não um incómodo, não deve fazer-nos perder demasiado tempo pela manhã, estar-se-á no caminho certo. Uma boa rotina não tem de ser longa nem angustiosa. Quanto à diversão de experimentar truques novos e elaborados...uma forma excelente de garantir que não se exagera é reservá-la para a noite e ocasiões especiais.

 Mantenhamos as coisas simples, pois disse Arlene Dahl e muito bem "demasiado rouge é sinal de desespero".





Thursday, October 9, 2014

Viscondessa Astor dixit: o coração de uma mulher é um oceano de segredos.


Devem ter reparado que roubei o título a uma frase do Titanic, o filme, mas foi de propósito: afinal a autora da frase acima, Nancy Astor, era cunhada do infeliz John Jacob Astor, o magnata que morreu a bordo do "navio inafundável".

 Nancy vinha de uma família americana mais notável pela beleza das suas filhas do que pela constância da sorte aos negócios: a sua irmã Irene casou com o artista Charles Dana Gibson, servindo de modelo para as famosas "Gibson Girls".
 Ainda assim, com engenho e trabalho, o pai conseguiu colocar-se bem o suficiente para que Nancy, após um casamento falhado, procurasse um futuro brilhante na sociedade do Reino Unido, à semelhança de tantas herdeiras americanas do tempo.

E isso não tardou a acontecer: a beldade sulista encantou Londres com o seu espírito picante, temperado por uma modéstia encantadora - combinação que a tornava popular junto dos cavalheiros, mas também lhe granjeava a admiração das senhoras mais respeitáveis.


 Quando numa festa uma dama inglesa se virou para ela e lhe perguntou "veio roubar os nossos maridos?", Nancy fez sucesso ao responder "se soubesse a trabalheira que foi livrar-me do meu!". No entanto, casaria em breve com Waldorf Astor, americano naturalizado inglês, tornando-se Lady Astor. Os dois eram almas gémeas: tinham a mesma moral, os mesmos gostos e até partilhavam o aniversário: 19 de Maio de 1879.

 Além de se ter celebrizado pelas festas esplendorosas que dava e por um percurso político algo controverso, Lady Astor é lembrada por ser uma senhora espirituosa. Várias frases suas, que revelavam uma auto confiança à prova de bala, ficaram para a posteridade. Quando era confrontada com a sua ascensão social graças ao marido, dizia coisas como "casei abaixo do meu nível. Todas as mulheres o fazem" ou "o aborrecimento de ter sucesso é ser maçada por pessoas que antes desdenhavam de mim".

 E claro, falou lindamente ao afirmar que as mulheres podem tagarelar muito, mas dificilmente entornam os feijões ou despejam o saco como os homens fazem. Uma mulher só revela um segredo se não se importar com ele. As mulheres tendem a ser discretas principalmente quando são inteligentes, ainda que disfarcem essa capacidade por verbalizarem muito. Lá diz o ditado, "não contes tudo o que sabes"...e Lady Astor sabia aplicá-lo na perfeição.



Wednesday, October 8, 2014

Quando eles são mesquinhos.

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As mulheres têm defeitos terríveis e podem ser vingativas em certas circunstâncias. A mesquinhez não é, aliás, apanágio nem de uns nem de outros. Mas quando um homem decide ser mesquinho... é mesmo. Não lhe importa a educação que teve, nem se faz um tolo de si próprio ao peguilhar por coisinhas, nem se falta à sua própria palavra quando escolhe as retaliações mais ridículas ou os argumentos mais baixos. 

Quando as coisas ficam pretas, tudo lhes serve. 


Nesse aspecto as mulheres serão talvez mais moderadas: implicam com os grandes acontecimentos negativos, muitas são incapazes de esquecer uma ofensa, à boa moda de Catarina de Medici ("odiar e esperar") mas dificilmente se lembram de aspectos insignificantes, darão o dito por não dito ou farão tristes figuras só pelo prazer de humilhar, por arrasto, a cara metade. A nossa mente, mais multifacetada, funciona como um ábaco e só em caso extremo se deita a casa abaixo ou se perde a face.


 Lembrei-me disto ao ver o início de temporada de Mr. Selfridge: na season 1 pensamos que Lady Loxley é ingrata ao fazer tão pouco caso do marido, mas ao conhecer o cavalheiro conclui-se que se calhar, ela terá as suas razões. Percebe-se logo que ele não é boa rês, ao ver que a própria criada de quarto se arrepia assim que ele põe os pés em casa. É certo que não sabemos se também ele não terá motivos para ser mau para a mulher - se ela lhe causou ciumes injustamente ou se começou a ser má para o marido porque ele foi detestável desde o início. Mas Credo, que homem mais desagradável. 


Seja como for, não é assim que as coisas se fazem. Não se dá o nome a uma mulher para depois usar isso como arma de arremesso a torto e a direito (a boa e velha granada "ela não é ninguém sem mim!") não se discutem assuntos privados à frente de gente de fora - muito menos à frente de "caixeiros", que é o que Lord Loxey pensa de Mr. Selfridge - principalmente para logo a seguir mudar de ideias e arrastar a pobre coitada para pedir um favor ao mesmo caixeiro. E acima de tudo, não se chega a casa para assentar um bofetão na infeliz que até a mim me doeu, sem se saber de onde veio aquilo. 


Muita compostura tem ela, só vos digo isto - ex corista ou não. E embora os tempos sejam outros, não faltam por aí casais onde se vêem coisas destas, cobranças tristes e espectáculos à frente de quem está. Sempre ouvi dizer que se devem evitar as pessoas capazes de fazer figuras de urso em público ou de amesquinhar os amigos, empregados e por aí fora, mesmo que sejam todas doçuras e mesuras para nós.


 Às vezes as mulheres vêem isso acontecer e pensam "que amor, é mau para toda a gente menos para mim; deve adorar-me!". Erro crasso! Aplique-se sempre a vetusta máxima "quem vê as barbas do vizinho a arder, põe as suas de molho". E quem diz barbas, diz saias...

Thursday, September 18, 2014

Porque é que o Titanic nunca me convenceu?


Ocorreu-me esta ideia quando há dias li qualquer coisa a propósito num artigo de nostalgia dos anos 90. Nunca comprei a maluqueira do filme de James Cameron. Mentiria se dissesse que não fiquei entusiasmada ao saber de uma produção sobre a tragédia (já que o acontecimento e a época sempre me fascinaram) ou que não gostei dele em si, apesar de se tornar tão popularucho. Por mim, as cenas das senhoras de sociedade na 1ª classe e as peripécias dos irlandeses na 3ª podiam ter continuado por ali fora, que eu não me ralava.

 O que nunca engoli nem com molho de tomate foi o belo romancezinho entre a Rose e o Jack, por quem era suposto o público torcer. Are you serious?! Já lá vamos.

 Primeiro, a Rose. Nunca compreendi a Rose. Sempre a achei estouvada e egoísta. 

Também sou suspeita, para vos ser sincera: se eu vivesse naquela época, se tivesse a idade da Rose nesse tempo, ia ser o mais parecido que havia com uma reaccionária (se é que posso aplicar aqui a palavra, mas acho que posso) ou se preferirem, um Velho do Restelo jovem e de saias. Ainda me lembro da cara espantada da minha professora de História do 8º ano, quando eu lhe disse que não achava piada às suffragettes. Era suposto todas as meninas gostarem dessa parte:  as suffragettes eram umas gandas malucas que desobedeciam à ordem estabelecida e faziam manifs, eram valentes e iam presas e tudo.



Admito que por cá, a forma como a cirurgiã Carolina Beatriz Ângelo deu a volta aos homens para votar como chefe de família foi uma jogada brilhante (imagino a cara deles) mas melhor faria se não tivesse discursado e debatido tanto- morreu do coração aos 33 anos quando tinha coisas bem mais importantes a oferecer à Humanidade do que debater política. Lá dizia Bernard Shaw que não percebia para que é que mulheres bonitas e inteligentes se esgatafunhavam por coisas dessas...



 Logo eu não havia de simpatizar muito com raparigas como a Rose, sempre revoltadas para que o mundo mudasse numa direcção que não sabiam se lhes convinha. 



Voltemos então à doidivanas da Rose. A Rose é uma menina mimada que sabe muito pouco da vida e acha que a relva é mais verde do outro lado. Tem um noivo bonito e Alfa que a adora, que não lhe nega nada desde que ela o trate bem, que quer casar com ela e oferecer-lhe uma vida de mimos e segurança apesar de ele ser rico e ela estar completamente falida. Caledon, o noivo, não gosta de Picasso, mas oferece-lhe quadros dele porque ela gosta. E pode não dizer frasezinhas romanescas nem tolerar disparates, mas manifesta-se como sabe: no caso, oferece-lhe diamantes porque pode e na sua ingenuidade acha que ela merece o mais belo e raro diamante do mundo. O valor da peça é irrelevante, o gesto é que diz tudo.

 Como é que ela agradece a devoção dele? Contrariando o coitado em tudo o que se lembra. É que não lhe faz uma vontadinha sequer, trata de o contradizer à frente de quem está, faz cara feia a tudo, enfim, é desfeita atrás de desfeita. Depois aparece o Jack- cara -de- bebé, que não a conhece de lado nenhum, bom rapaz mas um tremendo irresponsável.


O Jack é novidade, é idealista, boémio, sonhador, faz de sensível, diz-lhe o que ela quer ouvir - que ela pode fazer o que quiser da vida dela e voar e mimimi - e claro, a menina que está para contrariar toda a gente decide que o rapaz rebelde que nunca viu mais gordo é o amor da vida dela, que quer viver como os amigos dele que passam o tempo a cantar e a dançar porque tem uma ideia romântica do que é a vida dura dessas pessoas, que vai fugir com ele assim que o navio atracar e mai´nada.

 Não lhe ocorre ter respeito pelo homem a quem deu a sua palavra nem remorsos de o enganar em público, não pensa na pobre mãe que ficará na miséria se ela romper o noivado, não repara sequer que o Jack, o bom do Jack, vive de biscates, vive para o presente e amanhã Deus dará, logo não se sabe se amanhã manterá as juras de amor. 


Ela nem sequer acha estranho quando ele lhe diz que costuma privar com prostitutas e as acha mulheres exemplares. Sinal de alarme, anyone?
 Desculpem estragar o romantismo da adolescência de muita gente, mas se o navio não tivesse afundado, o romance não duraria duas semanas. Até podiam chegar a Paris, mas o mais certo era ele trocá-la por uma corista qualquer e a Rose juntar-se ao circo (que é mais ou menos o que acaba por acontecer, vá).
No entanto afundou e é o pobre do Cal que a vai procurar a todo o custo mesmo 
sabendo-se traído e escarnecido. 


 Aí comecei a pôr em causa se o Caledon a adora perdidamente ou se é um tanto pateta, porque tenciona meter uma bala no homem que lhe roubou a noiva (e a desenhou sem roupa) mas continua a querer casar com uma destemperada daquelas. De qualquer modo, nesta altura é suposto a audiência simpatizar com a Rose, a traidora e com Jack, o desmiolado, e dizer "que ciumento malvado que é o noivo! Que possessivo!" - também, faltava que não fosse perante vexames daqueles...

Depois  a película finda como sabemos: ela acaba por ter sozinha todas as aventuras que a família não queria que tivesse (ser actriz, andar a cavalo sem sela de senhora, etc) mas acho que a história passa uma mensagem totalmente errada. Ter uma vida estável ao lado de uma pessoa com ideias firmes não é necessariamente estar "encurralada", assim como fazer o que nos apetece não é garantia de não ter contrariedades na vida. Todos estamos sempre sujeitos a alguma coisa, ninguém é totalmente livre. As restrições que a Rose ia enfrentar junto do Caledon não eram piores do que aquelas que teria de lidar juntando-se com o Jack ou outro "cidadão do mundo" qualquer. Havia muitas coisas que também podia fazer junto do marido, afinal, "ele não lhe negava nada".


 Claro que podem dizer "ah, mas ela amava era o Jack" - sinceramente acho que não amava nenhum. Não sabia o que queria da vida. Uma paixoneta, um entusiasmo, não é amor.
 Por fim, assumindo que isso fosse verdade, ela não deu uma chance ao noivo, embirrou  com ele desde o início; mas também nisto sou suspeita porque sempre achei o Billy Zane mais interessante e custa-me a crer que alguém prefira o imberbe Leonardo Di Caprio, mas tudo é possível...





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