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Wednesday, May 7, 2014
Fábula das pessoas que implicam com tudo e opinam sobre tudo- chatas, mesmo.
Hoje vou contar-vos mais uma fábula do Decameron, porque no tempo em que não havia blogs, um homem chamado Boccaccio retratou lindamente certos tipos humanos (ou semi,
vá-se lá saber ao certo) que não fazem falta nenhuma, mas como existem é um dever moral alertar que por aí andam.
Eu ainda há dias disse por aqui que embirrar com bom humor é preciso: se não repararmos no que vai mal à nossa volta para evitar que se propague (ou pelo menos, que se propague para o nosso lado) e não nos rirmos dos disparates que a sociedade oferece, estamos a ir com o rebanho, a não exercitar o nosso espírito crítico, a ser uma daquelas pessoas a quem tanto lhes faz ou pior, que querem tanto agradar que não se atrevem a ter opinião...e isso é muito triste.
Mas lá está, é tão mau não ter opinião sobre nada como ter opinião sobre tudo.
Pessoas que têm constantemente de opinar, de debater, que metem constantemente colherada, que dizem mal deste, daquele, daqueloutro, que este tem cunhas, que aquela é bonita logo deve armar-se em mulher fatal, que se acham com mais diplomas do que toda a gente - logo, com o direito de se imiscuir onde não são chamadas e de entrar em debates que não lhes competem - tudo isto com cara de tacho, de quem anda sempre a chupar um limão que não pediu para nascer na árvore ou pior- com um sorriso melífluo, cheio de peçonha e mel como dizia Nabokov, são do mais insuportável.
Ou porque se tornam cansativas (é preciso saber quando parar) ou porque não percebem quando estão a mais e se intrometem no que não lhes diz respeito, ou porque a sua companhia não só se torna indesejável como ridícula, gente desta não aprendeu a máxima às vezes é melhor estar calado.
Por desejo de protagonismo, por amargura, por falta do que fazer, por vontade de engraxar ou por ausência de noção pura e dura, o que mais há é seres assim.
Os que tenho conhecido são geralmente pessoas que não têm grandes alegrias na vida: como não brilham em nada, não têm génio, imaginação, beleza, êxito, felicidade, nem sequer paixão pelo que quer que seja, dá-lhes para isso: frustrados a tempo inteiro, gente da aldeia que manda nas colectividades, pseudo-intelectuais frustrados e solteironas sem existência própria que se consideram autoridades nisto e naquilo.
Quanto a estas últimas, já vos disse: não há nada pior do que uma mulher sem grande cérebro que se arma em muito culta e se põe com pretensões intelectuais ou pior, com discussões "ideológicas" com tudo quanto é homem, nem que o homem em causa seja o pobre Padre da freguesia - que como Sacerdote não tem outro remédio senão dar a outra face e sofrer aquilo. Se não saber estar calado é feio, numa mulher, que deve ser graciosa, é intolerável. Mas lá está: ninguém se torna uma solteirona jarreta por ser linda e graciosa.
Almas destas, todas elas, não são gente digna de nota- o único poder que têm é o de maçar os outros de morte, ser inconvenientes, estragar almoços, arranjar pequenas intrigas e dar cabo da paciência alheia.
E lembram-me sempre a tal estória do Decameron; vamos à fábula que já me alonguei muito, desculpem: havia um homem rico que tinha a seu cargo uma sobrinha muito mimada. A rapariga não era uma beleza, nem uma inteligência rara; para além da fortuna do tio não possuía formosura, nascimento ou dotes que a recomendassem. Mas tinha a mania que sim, logo desprezava toda a gente e torcia o nariz ao mundo. Se estava em casa, implicava com as criadas que não faziam nada com jeito, com a comida que não lhe agradava, que se aborrecia de morte; se saía de casa, achava que dizer de tudo e de todos: a gente hedionda, a rua que era suja, as lojas que não prestavam, tudo era mau.
Certo dia houve festa na cidade e a chata lá foi, deixando o tio aliviado por se ver livre dela por umas horas. Mas não teve sorte porque dali a pouco a chatarrona voltava, com cara de quem comeu e não gostou como de costume.
"Então, minha sobrinha - regressais tão cedo?"- perguntou o bom homem.
"Ai tio- achei a festa tão maçadora, a rua tão malcheirosa e a assistência tão mal arranjada e desagradável que preferi vir para casa para não ver tais pessoas" - respondeu a maldisposta.
"Pois bem, minha cara- se fazeis tanta questão de não encontrar gente dessa, recomendo que eviteis ver-vos ao espelho" - alfinetou o homem, farto de a aturar.
E como pessoas destas nunca olham para o espelho para ver os seus próprios defeitos, a chata continuou a ser chata, chata, chata pela vida fora, e morreu sozinha, refilona...e chata.
Estão a perceber a analogia da coisa?
Friday, December 14, 2012
Homens insuportáveis... e mulheres com paciência de Job
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| George W. Joy - Griselda, 1903 |
É certo que as perspectivas e expectativas "oficiais" acerca da dinâmica homem-mulher mudaram ao longo dos séculos, mas, como já aqui tem sido discutido, os comportamentos fora do comum - ou que davam nas vistas por serem maus ou injustos - sempre foram assinalados pelos autores contemporâneos como censuráveis. Embora certas características femininas - docilidade, virtude e uma suposta obediência - fossem consideradas ideais, poucos seriam ingénuos ao ponto de afirmar que essa forma de estar seria a regra sem, pelo menos, uma ponta de sarcasmo. O Decameron, de Boccaccio, com todo o humor que o caracteriza, é uma obra que retrata lindamente a realidade: as mulheres, mesmo manietadas pelas regras sociais, levavam a melhor muitas vezes - ou porque tinham razão, ou por serem reconhecidamente mais inteligentes do que os parceiros que lhes tinham cabido em sorte ou, em alguns casos, por serem de facto dotadas de malícia e vontade de se "portar mal" - vontade essa que transcende tempos e géneros...
O próprio Shakespeare, no seu The Taming of the Shrew ("A fera amansada") objecto de tantas análises de feministas e não só, deixa-nos a pensar se a "verdadeira obediência" não terá uma pitada de ironia. E guerra dos sexos à parte, Caterina era uma peste, a precisar de se moderar um pouco, com marido ou sem marido. Quanto ao ciúme excessivo de Othello, não precisa de interpretação - é claramente pintado como tolice e sentimento de inferioridade, com graves consequências. Em nenhum ponto Desdémona é apontada como causadora ou facilitadora da possessividade injusta do mouro.
| Waterhouse, A Tale from the Decameron: " Este conto mostra que as donzelas devem aprender a ser totalmente submissas", dizem eles. " Não, não, é para ensinar os homens não serem imbecis" dizem elas. |
Se é verdade que as mulheres sempre governaram nos bastidores, usando de astúcia e subtileza, deixando aos homens as honras e assados da História e não precisando de dar a cara - com pontuais e soberbas excepções - também seria falso afirmar que as expectativas sociais existentes na Idade Média, Renascimento e mais além não davam azo, em caso de maridos equivocados ou cruéis e de mulheres demasiado gentis, a situações que escandalizavam pela sua estupidez ou crueldade. Reais ou obra de ficção, casos de mulheres maltratadas caíam na boca do povo e na pena dos autores, e eram empregados para entreter e moralizar. A moral do conto dependia muito das conveniências de quem ouvia, claro está, já que há sempre duas faces da moeda...
Teófilo Braga, que recolheu e tratou muitos contos da tradição oral portuguesa e europeia, relata um dos meus preferidos no género. Conto-o de memória, e à minha maneira:
Havia um Rei que tinha vários leais servidores, a quem queria muito bem. Gostava de ver a sua corte adornava de caras bonitas, por isso, incentivou os seus barões a casar com as mulheres mais lindas que conseguissem encontrar. Ao fim de algum tempo, todos tinham casado, mas só um se recusava a levar a mulher ao Paço, desculpando-se com a frágil saúde dela. A pobre coitada nunca punha um pé na rua, era uma autêntica prisioneira. O monarca andava desconfiado de que a esposa do fidalgo não seria bonita, por isso armou um ardil: subornou uma criada da casa para que o deixasse entrar uma noite, na ausência do marido, para a ver com os seus próprios olhos. Assim fez: a camareira abriu-lhe a porta e deixou-o entrar na rica alcova, adornada de cortinas de damasco verde. O Rei abriu as cortinas, aproximou uma lamparina e viu a dama a dormir profundamente, descomposta e de cabelos soltos. Achou-a formosíssima, mas teve de sair à pressa porque ouviu o fidalgo entrar. Com a correria, deixou cair uma luva no chão do quarto e como estava escuro, a camareira também não deu por nada. Pela manhã, o marido, achando uma luva de homem no quarto, ficou louco de ciúmes - pior do que já era, pois essa era a única razão de a esconder em casa - e tratou a esposa muito mal, acusando-a de o ter enganado. A partir dali foi um inferno. Recusou-se a partilhar cama e mesa com a ela e cobria-a de acusações e injúrias. Nisto passou um ano.
A criada, cheia de remorsos por ter causado um desgosto tão grande, foi contar ao rei o que se passava. Este ficou aflito e tratou de esclarecer o equívoco.
Chamou o fidalgo e disse-lhe:
- Afinal, porque nunca trouxe a sua mulher ao palácio?
- Senhor, é que ela é muito doente.
- Pois amanhã, vou cear a vossa casa.
E o ciumento, que remédio...não podia negar esse pedido.
Na noite seguinte, a esposa, ao ver-se sentada à mesa com o marido - coisa que há um ano não acontecia - não se conteve e começou a chorar.
O Rei perguntou-lhe o que tinha.
" Eu era amada do coração; hoje não o sou, não sei porque não" - respondeu a pobrezinha.
" Quando em minha vinha entrei, restos de ladrão achei" - atalhou o marido, secamente.
Foi o que o soberano quis ouvir.
" Eu fui esse tal ladrão
Que na tua vinha entrei; verdes parras arredei,
lindos cachos de uvas vi;
mas juro-te à fé de Rei que nas uvas não buli".
A partir dali o fidalgo mudou o seu comportamento, e percebeu que era estúpido e inútil ser tão possessivo. A mulher passou a acompanhá-lo sempre à corte, onde era conhecida como a mais bela, esperta e honrada.
Apesar da lição e mudança de atitude do marido, dá que pensar por que terá a infeliz suportado tanto tempo, e com tanta paciência, tais desmandos...
Boccaccio vai mais longe, no conto que passou à História como A Paciente Griselda - conto esse que se aos olhos da época causava indignação, para a sensibilidade moderna é verdadeiramente hiperbólico. A mais tradicional e tolerante das mulheres - desde que dotada de bom senso e amor próprio - terá vontade de bater na heroína.
- Tentei tudo, mas os meus vassalos e o meu povo não te aceitam como marquesa; eu próprio acho que a nossa união foi um erro de juventude. Vou casar com uma linda princesa de quinze anos, e hoje mesmo voltarás para casa do teu pai. Como não trouxeste nada, nada levarás.
- Sim, senhor; bem sei que estava como vim ao mundo quando me trouxe; mas peço-lhe que me deixe levar uma camisa em troca da minha inocência, que trouxe e não levo.
O marquês acedeu, virando-se para a parede, para que ela não o visse chorar. Os criados da casa e o povo da cidade, esses choraram muito ao ver a sua senhora, que lhes era tão querida, sair em camisa; e censuravam amargamente o marquês, que só podia ter enlouquecido para cometer tantas crueldades sem razão. Mas ela tranquilizou-os, dizendo que só Deus podia dar e tirar privilégios, logo não havia caso para aflições.
Voltou a casa do seu pai e vestiu as suas roupas de camponesa, que o velho guardara pelo sim pelo não, pois nunca se fiara nas bondades do genro. E continuou a viver como se a sua antiga vida não tivesse passado de um sonho. Mas as exigências do marquês não tinham parado por ali; parecia determinado a não a deixar em paz. Desta feita, exigiu que ela fosse tratar-lhe dos preparativos para o casório, pois só ela sabia organizar uma festa como ele gostava. Griselda, com o coração partido, submeteu-se a mais esta provação; e foi, mostrando-se animosa e tranquila como sempre. As damas do palácio condoeram-se dela e imploraram ao marquês que já que ali estava, a deixasse mudar de vestido para não destoar dos convidados; mas ele não permitiu e ainda assim, ela procedeu como a melhor dona de casa, e com a postura de uma verdadeira senhora. Quando estava tudo arranjado, Gualtieri veio apresentar-lhe a sua jovem noiva.
- Deus a salve, senhor; é muito linda. - respondeu Griselda - Só vos peço, em nome do amor que tivemos, que não a trateis tão mal como à vossa primeira esposa; quem sempre viveu rodeada de mimo não tem a mesma força para suportar penas tão grandes.
Neste momento, Gualtieri não aguentou mais; muito comovido, contou-lhe a verdade: aquela menina não era a sua noiva, mas a filha de ambos, que ela julgava morta mas que ele mandara, tal como o irmão mais novo, educar em casa de uma duquesa sua tia. Todos os horrores a que a submetera não tinham sido mais do que provas para averiguar se apesar do nascimento humilde, Griselda estaria à altura da sua posição. Pediu-lhe perdão das suas desconfianças, e dos testes a que a tinha sujeitado: muito lhe tinha custado tudo aquilo, mas agora que via a mulher excepcional que Griselda era, tudo faria para a compensar dos sofrimentos passados e a para a honrar como sua mulher. E viveram felizes para sempre...
A questão é: Griselda nunca o tinha procurado (limitou-se a obedecer-lhe desde o princípio) logo, quem se julgava Gualtieri para a "testar"? E isto são partidas que se preguem? Confesso que a primeira vez que li a história, há muitos anos, estive até ao fim à espera que Griselda, ao saber a verdade, agarrasse nos filhos e saísse orgulhosamente da casa daquele doido - decisão que, em qualquer época, ninguém lhe levaria a mal. Obviamente, a fábula tencionava ensinar às mulheres as virtudes da paciência e da tolerância, que são sempre recompensadas; resta saber como as mulheres desse tempo reagiam ao conto: pensariam "que bonito, também hei-de ser paciente?" ou "Deus me livre; para recompensas dessas mais vale dizer e fazer tudo o que me passa pela cabeça"? Deixo isso à vossa imaginação.
Wednesday, January 25, 2012
O presente envenenado de Botticelli
Boccaccio, no seu Decameron (um dos meus livros preferidos) conta a história de Nastagio degli Onesti e a Caçada Infernal. Rejeitado pela sua amada, Paola Traversari, o jovem Nastagio retirou-se, pesaroso, para a floresta. Enquanto meditava nas suas penas de amor, surgiu-lhe uma aparição terrível: uma bela jovem nua, perseguida por um cavaleiro enraivecido e os seus cães de caça. Atarantado, o rapaz ainda agarrou um ramo para defender a donzela, mas o caçador precipitou-se sobre a vítima caída, assassinou-a e atirou o coração da infeliz aos mastins.
Nastagio não teve tempo para se refazer do pânico sem que a mulher se levantasse e a horrorosa cena se desenrolasse novamente: tratava-se de um casal de almas penadas. O cavaleiro tinha sido em vida amante da donzela, que o desprezava; a paixão desmedida teve um fim trágico, por isso ambos ficaram condenados à danação eterna. Até ao fim dos tempos, a jovem seria perseguida numa caçada fantasma pelo amante atraiçoado, que teria de a matar, uma e outra vez, sem descanso.
Ao regressar a casa, Nastagio teve uma ideia: convencer a família da namorada soberba a comparecer a um piquenique no pinhal, para testemunhar a assustadora visão.
Apavorada pela aparição tétrica, Paola, que temia um destino semelhante, aceitou finalmente casar-se com Nastagio.
Sandro Botticelli pintou quatro magníficos painéis que ilustram este conto fantasmagórico, encomendados por Lorenzo di Medici, O Magnífico. A obra seria um presente para o casamento do sobrinho, Gianozzo Pucci, com Lucrecia Bini.
Dizem as más línguas que o pintor amava a noiva e por isso escolheu precisamente este tema para o painel (que originalmente se destinava à cabeceira da cama nupcial) com intenções de amaldiçoar o enlace. Verdade ou não, reza a história que o presente ficou exposto na sala de estar.
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