| Mal por mal, antes Bodice Rippers...pelo menos as capas kitsch têm a sua piada. |
Parece que a trilogia Fifty Shades of Grey, inicialmente uma fanfiction de Crepúsculo (o que nos permite adivinhar a tónica da coisa) tomou de assalto o mercado da literatura light com aspirações a obra séria e pseudo profunda e está a "revolucionar" a vida conjugal das jovens donas de casa desesperadas nos E.U.A , e um bocadinho por todo o planeta. O sucesso viral do texto de E.L. James tem motivado os mais acesos debates e deixado as feministas de carteirinha à beira de um ataque de nervos. A crítica classifica a sua prosa como " pornografia para mamãs" básica e lamechas, embora reconheça a sua facilidade em "fazer virar rapidamente as páginas" . E para quem não conhece, o que é afinal Fifty Shades of Grey, que será brevemente adaptado às telas (deve ficar uma coisa gira, deve)?
Nada mais que um cruzamento ligeiro, baratuxo, de fácil leitura e mais claustrofóbico - ou menos povoado - de contos como Histoire D´O (que aprecie-se ou não, é um clássico do género) com um romance de bolso da Harlequin. O tipo "ensaio sobre a obsessão" que nem chega à pornochanchada, para usar um termo do país irmão.
Nada mais que um cruzamento ligeiro, baratuxo, de fácil leitura e mais claustrofóbico - ou menos povoado - de contos como Histoire D´O (que aprecie-se ou não, é um clássico do género) com um romance de bolso da Harlequin. O tipo "ensaio sobre a obsessão" que nem chega à pornochanchada, para usar um termo do país irmão.
Fique claro que eu não li Fifty Shades of Grey , tal como não li Crepúsculo, e muito provavelmente não me darei ao trabalho de pousar os olhos em tal. A minha análise do fenómeno é puramente na óptica de quem observa um circo à distância, mas já conhece o elenco.
Enredo : donzela inocente apaixona-se por homem complexo, sofisticado, poderoso, cheio de traumas emocionais (típico) e assina um contrato cedendo-lhe controlo absoluto sobre a sua vida. Segue-se um festival de bondage e sado masoquismo cheio de artifícios banais e óbvios. Um modelo de gravata usado pela personagem esgotou em todas as lojas - prova que originalidade e criatividade estão em crise por esse mundo de Deus.
A julgar pela descrição do texto, recheado de detalhes gráficos e explícitos, Fifty Shades cairá no cesto da péssima literatura que pretende apelar aos sentidos. Não é preconceito meu, entenda-se: poucos são os bons resultados conseguidos dentro do género "livro proibido". Há os clássicos (Marquês de Sade, que é mais literatura de terror do que outra coisa qualquer, Lolita, Anais Nin, Chin ping Mei, Fanny Hill, Lady Chatterley´s Lover, e meia dúzia de outros) e um punhado de obras obscuras com algum interesse - mas na maior parte das vezes o resultado é tão cómico, ou tão maçador, que não chega sequer a chocar. O aspecto físico de um relacionamento é das coisas mais delicadas de escrever e quanto mais descritivo, pior. Atrever-me-ia mesmo a dizer que é mais fácil cair no ridículo ao retratar cenas de paixão por escrito do que no audiovisual. Exige-se muita elegância e subtileza, exige-se que o autor saiba de facto escrever - e convenha-se, raramente há autores geniais dispostos a mascarar o seu trabalho sob pinceladas de escândalo.
Assim, limito-me a meditar sobre o fenómeno. A única coisa que me causa confusão na hype gerada pelo livro é que tratem o tema como revolucionário; mas vindo de leitoras ávidas de "Crepúsculo" e de amigas suas, provavelmente pouco lidas - sem ofensa a ninguém - isso não deveria surpreender-me. Não há qualquer novidade na "transgressão" de Fifty Shades of Grey: é o facto de estar na moda que o torna polémico. Há quem lhe chame mesmo " um recuo de 50 anos nas conquistas da liberdade feminina" ou um "incentivo à violência e abuso doméstico". A escritora e jornalista Katie Roiphe, da Newsweek,
pergunta-se : " Mas por que é que o livre arbítrio há-de ser um fardo para as mulheres? Talvez o poder não seja sempre confortável, mesmo para quem cresceu habituada a ele; talvez seja algo que desejamos apenas em certos campos, ou que as exigências do poder se tornem aborrecidas". A escritora (e ex dominatrix) Melissa Febos defende que esta febre diz muito acerca das "actuais ansiedades das mulheres relativamente à igualdade" e que não significa "infelicidade ou invalidação do feminismo, mas um sinal de progresso - de que milhões de mulheres estão a procurar activamente as suas fantasias, independentemente dos homens".
De certo modo, estou com Katie Roiphe. Em poucas décadas, séculos de educação feminina foram virados de cabeça para baixo. As mulheres passaram de uma repressão exagerada (na aparência, pelo menos) para uma liberdade obrigatória. A ideia original - liberdade de opções - foi retorcida até se criar outro padrão igualmente difícil de preencher. O "poder" sobre a sua vida, emoções, carreira e intimidade tornou-se o status quo, imbeliscável e sagrado. As heroinas tradicionalmente femininas ( tímidas, subtilmente sedutoras, púdicas, inacessíveis, delicadas) foram ridicularizadas e substituídas por marias rapazes ultra independentes e predadoras. Não há nada de mal nisso - de frágil e de guerreira todas temos um pouco - desde que não se caia em extremos, porque nem todas as mulheres são iguais.pergunta-se : " Mas por que é que o livre arbítrio há-de ser um fardo para as mulheres? Talvez o poder não seja sempre confortável, mesmo para quem cresceu habituada a ele; talvez seja algo que desejamos apenas em certos campos, ou que as exigências do poder se tornem aborrecidas". A escritora (e ex dominatrix) Melissa Febos defende que esta febre diz muito acerca das "actuais ansiedades das mulheres relativamente à igualdade" e que não significa "infelicidade ou invalidação do feminismo, mas um sinal de progresso - de que milhões de mulheres estão a procurar activamente as suas fantasias, independentemente dos homens".
As protagonistas independentes passaram a ser politicamente correctas, condição sine qua non: não há nenhuma princesa Disney que seja salva hoje em dia, que desmaie nos braços do príncipe. Príncipe e princesa são actualmente dois alegres compinchas, o trabalho de matar dragões é fifty-fifty, nenhuma princesa quer ficar a dormir - o que é muito bonito, mas por ser repetido uma e outra vez, se vai tornando cansativo. Ai da mulher que assuma em voz alta a defesa de um papel mais tradicional: é considerada uma bruxa do tempo da outra senhora, uma Joana D´Arc que se atreve a usar saias, boa para a fogueira.
Hoje há que ser (ou parecer) forte, giríssima, um génio, uma dona de casa exemplar capaz de criar 500 pratos diferentes na Bimby e elaborar refeições gourmet todos os dias, convencer os homens lá de casa a dividir tarefas, ter uma carreira de sucesso a tempo inteiro, dois ou três filhos amorosos, um marido que não fique mal no retrato, tomar a iniciativa no princípio de um relacionamento, telefonar, marcar os encontros, mandar SMS fofinhas e provocantes, ser super desinibida, ultra sexy e conhecer habilidades de fazer corar uma cocotte para tirar da cartola em privado. Se abrirmos uma revista feminina, veremos que os artigos para "apimentar" a vida conjugal estão recheados de habilidades intrincadíssimas, do tipo "enlouqueça-o com 100 truques de contorcionismo de artistas tailandesas" ou " 50 segredos do esternomastoideu que ele vai adorar conhecer". Estão tão obcecadas para agradar como antigamente, apenas fingem que não - o que representa um esforço titânico. E reparem, nunca se vêem artigos que considerem normal que uma mulher seja envergonhada, que core, que aja segundo as normas ancestrais, que tenha uma certa reserva, reserva essa que é, no fundo, parte do seu encanto e parte do jogo de sedução. Qualquer jovem dos nossos dias é programada para agir como a mais descontraída cortesã, nem que até ali tenha levado uma vida de freira. Claro que depois, in situ, muitas vezes não bate a bota com a perdigota, e temos mulheres exaustas e frustradas, a consultar terapeutas para descobrir científicamente a equação do problema.
A questão é que hoje se racionaliza demais, em vez de seguir a natureza. Física e emocionalmente, as mulheres foram desenhadas para Caixas de Pandora, com inúmeros segredos - charadas que cabia aos homens, fortes e decididos, decifrar. Os beijos roubados (com a mulher a ter um conveniente chilique) as fugas e raptos apaixonados, o cavaleiro em armadura reluzente representavam escape, entrega, confiança absoluta, aventura, o acto de se abandonar nas mãos de outrém, de delegar num ser mais forte e mais poderoso a responsabilidade de um comportamento que não era habitual numa senhora. O bom e velho "foi ele que me desinquietou" que eles aceitavam cavalheirescamente, não sem uma pontinha de orgulho, resolvia todos os complexos de culpa.
Agora, porém, os homens estão praticamente proibidos de agir como tal, e se aparentemente não sabem o que dizer de tanta sorte (elas declaram-se, elas tomam as rédeas do relacionamento, elas são amantes diplomadas em Harvard, é uma alegria) por outro lado estão emasculados, super sensíveis, bonitinhos, a pedir licença a um pé para mexer o outro.
Hipérboles, metáforas, modismos e artifícios baratos à parte, a mensagem que estas mulheres querem passar é simples e inofensiva: estão cansadas de controlar tudo, de decidir por eles, de não terem onde se apoiar, de fingir entre quatro paredes um arcaboiço emocional que não existe - e uma vez por outra, querem ser conduzidas, delegar responsabilidades; libertar-se, mas não sozinhas.
No fundo, é um grito do Ipiranga invertido, uma maneira de dizerem "mexe-te e faz o que te compete, preguiçoso". Não prestem atenção não, que não é preciso.

