Da próxima vez que o vosso irmão, pai, marido ou amigas disserem que vocês têm sapatos/roupa/acessórios a mais, pensem com os vossos botões que isso não é novidade nenhuma; vocês, queridas amigas, estão apenas a seguir a ordem natural da vaidade feminina desde que o mundo é mundo.
E se vos pedirem exemplos, lembrem-se do enxoval da lendária Lucrécia Bórgia quando casou (1502) com o seu último marido, Afonso d´Este, filho do Duque de Ferrara. Naquele tempo não havia "princesas" vestidas na Mango como agora, era tudo a rigor, e a jovem duquesa de 22 anos (divorciada do primeiro marido e viúva do segundo) entrou triunfalmente na cidade com uma bagagem tão impressionante como a sua entourage.
Entre outras peças (e sem considerar uma fortuna em jóias, tecidos luxuosos e peles) o guarda roupa de Lucrécia contava 200 camisas, "algumas delas no valor de 100 ducados", 84 vestidos, 20 mantos/casacos, 22 toucados, 13 cintos, 33 chinelas, 55 pares de sapatos e não sei quantos pares de mangas amovíveis (a ideia de "vestido" completo, conforme o conhecemos, é relativamente recente; em várias épocas era hábito trocarem-se as mangas, golas, debruados, saiotes ou até corpetes dos vestidos, conseguindo vários looks diferentes; um hábito que se mantém ainda hoje, aliás, na reciclagem de trajes de época para produções históricas de TV e cinema) .
Os números da roupa de Lucrécia não serão tão impressionantes se os compararmos superficialmente com - não vamos mais longe - alguns armários que nós bem conhecemos (cof cof), sem contar com o guarda roupa de it girls, profissionais de moda ou celebridades e se tivermos em conta que hoje as nossas necessidades são diferentes: temos vários tipos de casacos e usamos calças e botas, por exemplo.
Mas se considerarmos que primeiro, este era apenas o enxoval que Lucrécia levou para a sua nova casa (não imagino o que terá deixado em Roma) e que na época era tudo feito à mão, sem qualquer tipo de produção em série - algo de que mesmo quem veste exclusivamente roupa griffèe não se pode gabar hoje, a não ser que se cinja à haute couture - a beldade tratava-se realmente bem.
O sogro (que era um homem bastante austero) se ficou surpreendido ou desagradado, não o demonstrou. Deu apenas ordens para que o cortejo com os baús fosse devidamente acomodado.
No entanto, com o passar dos anos Lucrécia acostumou-se à vida simples em Ferrara, deixando para trás muitos excessos do passado. Entregou-se ao seu papel de Duquesa e às numerosas obras de caridade; o povo adorava-a. Nunca li registos de como se vestia nessa (última) fase da vida, mas acredito que tenha atingido a sua maturidade de estilo, trajando de modo menos ostensivo, provavelmente reciclando boa parte dos tecidos que trouxera consigo inicialmente...o que só a deve ter tornado ainda mais elegante.
Ter muito e de boa qualidade é óptimo, desde que se faça bom uso disso e se evite o exagero...





