Tibério Gemelo: com primos como Calígula, quem precisa de inimigos?
Assim começava, discretamente, uma escalada de vingança, loucura e excessos.
Mas a início, ninguém diria: tudo corria às mil maravilhas. O jovem Imperador foi bem
recebido pelos súbditos, que amavam Germânico e se sentiam felizes por ver o filho deste ascender ao trono. Também estavam contentes por se verem livres de Tibério, que nos seus últimos anos lhes impusera terríveis sofrimentos e privações. Calígula parecia corresponder às expectativas do povo e sinceramente interessado no seu bem estar: os primeiros sete meses do seu reinado foram considerados os mais felizes que Império conhecera em muitos anos. Houve espectáculos luxuosos, combates de gladiadores, o exército foi recompensado prodigamente pelos seus serviços, os exilados regressaram à pátria, anularam-se sentenças injustas de traição e desterraram-se os criminosos sexuais, entre outras medidas que mereceram aprovação geral.
Os primeiros tempos ficaram marcados pela prosperidade e por uma administração correcta. Se por um lado,reprimia duramente as conspirações que o ameaçavam e batalhava para reforçar a autoridade imperial, por outro a "estrelinha" procurava, generosamente, agradar ao povo que o aplaudia e aos nobres que o rodeavam. Carinhosamente, Calígula mandou transladar os corpos da sua mãe e irmãos para os sepultar com todas as honras. Mas esta fase feliz foi breve: cumprindo uma antiga profecia, o Imperador caiu gravemente doente no Outono de 37. E quando finalmente saiu do leito, não parecia o mesmo homem: rapidamente assassinou, ou obrigou ao suicídio, os que tinham feito o voto louco de oferecer as suas vidas aos deuses se o Imperador melhorasse - entre eles a sua primeira esposa e o sogro. Passou a ver conspiradores em toda a parte e a mostrar ideias megalómanas que depauperavam os cofres. Mesmo assim, continuava empenhado na reforma do Império: foram elevados novos membros às classes senatorial e equestre, aboliram-se certos impostos, e pela primeira vez foi publicado um relatório público com as despesas do Imperador. Ao mesmo tempo ordenava execuções sumárias, como a do seu amigo Sutório Macro, a quem devia o trono. O seu espírito tinha-se fragmentado: vagueava entre os seus impulsos naturalmente generosos e a paranóia cruel. Em 39, a fome assolou o Império, condições que não convinham às suas políticas gastadoras. Aflito, iniciou uma série de medidas desesperadas como multas, extorsão e subida de impostos. Os que tentavam defender os seus bens eram sumariamente executados. Estabeleceu novos impostos nos bordéis, leiloou gladiadores em público, pedia dinheiro ao povo em actos oficiais. Na tentativa de atenuar a crise, depauperava ainda mais o tesouro em construções faraónicas: ampliou os portos de Regium (na Sicília e Calábria) para permitir um maior fluxo de cereais vindos do Egipto; construiram-se e repararam-se estradas; ergueram-se aquedutos, templos, circos e anfiteatros; Calígula era apaixonado por obras extravagantes de engenharia. Em 39, construiu uma ponte flutuante entre Baiae e Puteoli - e como não sabia nadar, atravessou-a montado no seu cavalo, Incitatus, usando a armadura de Alexandre, o Grande. O boato de que teria nomeado o mesmo corcel cônsul e sacerdote perseguiu-o pelas páginas da História...
As suas relações com o Senado deterioravam-se: humilhou vários senadores publicamente, obrigando-os a correr atrás do seu carro. Muitos outros foram simplesmente executados. A megalomania acentuava-se: foi o primeiro Imperador romano a intitular-se um Deus em vida. Obrigou o povo a render-lhe culto e aparecia em vestido de Apolo ou Mercúrio, conforme a inspiração do momento. Chegou mesmo a mandar erguer estátuas suas nas sinagogas do Império - um sacrilégio para os judeus - e ameaçou fazer o mesmo no Templo de Jerusalém. Só a prudência de governadores e conselheiros, que temiam a guerra civil, o demoveu. A sua vida pessoal não era mais digna de elogio: acusavam-no de dormir com as próprias irmãs e de as vender a quem lhe apetecia, de raptar as mulheres dos súbditos a bel-prazer, de ensaiar caretas ao espelho para se tornar mais assustador, de tornar o palácio num autêntico bordel...verdadeiras ou falsas, estas acusações viriam a resultar em numerosas conspirações, a última das quais seria bem sucedida: foi brutalmente assassinado aos 28 anos de idade. A sua mulher e filha segui-lo-iam numa morte horrível. Mesmo assim, o povo chorou por ele e pediu justiça - a tentativa de restabelecer a República falhou e seria o seu sucessor e parente, Cláudio, a executar os seus carrascos.
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