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Monday, August 27, 2012

Rivais #1: Diana de Poitiers vs Catarina de Medici (parte II)

File:Henri & Catherine.jpg
O casamento de Catarina e Henrique

(Continuação da Parte I)

Henrique, amante fervoroso, imbuído dos ideais do amor cortês, jurara inúmeras vezes não casar a não ser com o seu ídolo. Diana, mulher sensata e prática, tinha outra visão: amava o homem, e esse, sabia-o, seria sempre seu; mas o príncipe (que entretanto se tornaria herdeiro do trono) esse pertencia a França. O Reino atravessava um período delicado e uma aliança vantajosa era crucial. Dotada de um singular instinto político, Diana convenceu carinhosamente o amante a aceitar o destino que lhe era imposto. Ele acedeu - com a  condição de ela jamais se afastar dele, de continuarem a ligação como até aí. A mulher que viesse teria a coroa - mas apenas isso. Na hora de reinar, Diana seria a verdadeira rainha.
File:Henry II, king of France.. F Clouet.jpgCuriosamente, Catarina de Medici, a noiva, era parente de Diana de Poitiers. Apesar das riquezas fabulosas contratadas no seu dote - dizia-se que as jóias que trouxe para a Coroa Francesa, incluindo pérolas gigantescas, "valiam um reino" - o povo não se sentia impressionado por ter " a larva que veio da tumba italiana" como futura Rainha. A família Medici era imensamente rica e poderosa, aparentada com Papas, mas de origem plebeia. O pai de Catarina, Lorenzo II de Medici, fora feito Duque de Urbino pelo seu tio, o Papa Leão X, mas uma nobreza tão recente não era motivo de orgulho aos olhos dos franceses. A mãe de Catarina, contudo, era a Condessa de Bolonha, Madeleine de La Tour D´Auvergne, o que facilitou consideravelmente as negociações do enlace. Estranhamente, parte do parentesco com Diana vinha precisamente desse lado da família...
 Apesar da opulência em que cresceu, Catarina teve uma infância conturbada: ficou órfã cedíssimo e chegou mesmo a correr risco de vida quando a sua família perdeu temporariamente o poder, precisando de se esconder em vários conventos. Quando o perigo foi afastado, o seu tio e tutor - o Papa Clemente VII - tratou de lhe arranjar casamento. Exultou quando o acordo foi selado com França, chamando-lhe " o enlace do século". A noiva, no entanto, carecia dos predicados para agradar a um rei, mesmo a um rei que não estivesse já loucamente apaixonado por outra mulher. Apesar de muito jovem (14 anos) Catarina não era uma beleza: franzina, de feições grosseiras, "uma boca demasiado grande" e os olhos salientes característicos dos Medici...
Catarina de Medici
 Possuía, porém, alguns encantos: dizia-se que tinha lindas pernas e que por isso trouxe para França a sela de senhora, que mais facilmente lhe permitia mostrá-las; a sua pele imaculada, porte e mãos eram também elogiados. Mas isso não bastava para convencer Henrique. Ao chegar a França, a jovem já sabia o que a aguardava, mas mantinha-se confiante. Gostava do poder e possuía notáveis qualidades de dissimulação, dominando, como boa florentina, a arte da intriga palaciana desde muito nova. Mas nada a podia preparar para o facto de, à chegada, ver as cores e as armas da rival por toda a parte: nos arcos do triunfo, nos lenços do marido, nas fitas da sua lança...percebeu então que não poderia ganhar aquela batalha. Para piorar tudo o seu prometido tinha uma figura magnífica e Catarina apaixonou-se perdidamente por ele, mesmo só obtendo migalhas do seu afecto.
 Seguiu-se uma fase dolorosa. Embora fosse bem recebida na corte - e se portasse, honra lhe seja feita, com muita graciosidade - era à Poitiers que as maiores honras estavam reservadas. Entretanto, o seu tio morrera e o Papa que o sucedeu, Paulo III, recusava-se a cumprir o acordo relativo ao principesco dote.  O sogro lamentou " a rapariga veio para cá com uma mão à frente e outra atrás!". França começava a arrepender-se do negócio...
O marido pouco a visitava e durante os primeiros 10 anos de casamento, Catarina não produziu qualquer herdeiro. Desesperada, ferida no seu amor próprio e vaidade feminina, recorria aos artifícios que lhe valeram a alcunha de Rainha Negra, ou "Rainha Bruxa": a astrologia, feitiços, poções mágicas, remédios nauseabundos...que tinham a virtude de afastar o pobre príncipe ainda mais, graças ao cheirete de tais mistelas. França precisava de um herdeiro e falava-se, à boca pequena, em repudiar Catarina quanto antes. Diana, por seu turno, parecia ter uma boa estrela: morto o Rei, e Henrique coroado, era agora a favorita incontestável. O novo monarca sentava-a no seu colo perante o Conselho, acariciava-a em público, não conseguia tirar as mãos nem os olhos da sua amada. Concedeu-lhe o título de Duquesa de Valentinois, ofereceu-lhe um castelo que Catarina ambicionava para si própria e mandou remodelar com luxo a casa d ´Anet, não faltando mesmo uma escultura de Diana como Deusa da Caça, feita à imagem da amante. 
STATUE OF DIANE DE POITIERS BEHIND THE ROYAL CHAPEL, REPRODUCTION OF A FOUNTAIN PRESENTING ONE OF...
Escultura de Jean Goujon representando Diana como Deusa da caça,  no Château d´Anet
Nas visitas oficiais era a favorita, e não a esposa legítima, quem recebia as homenagens. O próprio Papa, quando presenteou a jovem rainha com a Rosa de Ouro, não se esqueceu de enviar à amante um magnífico colar de pérolas. A pobrezinha da esposa sofria cada vez mais, torturando-se a si própria. O seu lema passou a ser " odiar e esperar".
Virna Lisi como Catarina,
em La Reine  Margot
Dizia-se que mandara fazer um buraco no soalho, de modo a observar as actividades amorosas do marido e da rival. Ao testemunhar o entusiasmo de ambos, terá caído ao chão, chorando "tudo está perdido". Mais bela, sempre mais bela, imune à passagem do tempo, bem nascida, hábil, querida por todos, Diana era imbatível. Henrique dava-lhe, politicamente, voz activa e os seus conselhos valiam ouro para ele. O povo adorava-a e a corte bajulava-a. A verdadeira Rainha, estrangeira e sem amigos, estava cada vez mais isolada, sendo- lhe negada qualquer influência nos assuntos de Estado. A promessa feita a Diana cumpria-se integralmente. É preciso dizer, contudo, que o Rei fazia por tratar bem a mulher e que Diana, se a afrontava indirectamente pelos privilégios que Henrique lhe concedia, nada fazia para desrespeitar Catarina, bem pelo contrário.                              
 Senhora de um auto domínio admirável, a favorita apiedou-se da infeliz rival e na sua qualidade de Dama de Honor, conseguiu que a jovem Rainha se abrisse com ela. A partir daí, tudo fez, com sacrifício dos seus próprios sentimentos e recorrendo aos maiores artifícios de alcova, para que Henrique visitasse a mulher: Henrique ficava junto a Diana e uma vez preparado por ela, subia aos aposentos de Catarina para "cumprir o seu dever". Como Diana se sentiria ao mandar o homem que amava para junto de outra, podemos apenas calcular...
Baixo relevo Benvenuto Cellini feito
 à imagem de Diana, no portal do Châteu d´Anet
Assim, e com alguma ajuda do médico Jean Fernel, Catarina foi finalmente capaz de ter oito filhos de seguida, seis dos quais vingaram. Nem por isso deixava de detestar cordialmente a rival: a situação tornou-se mesmo pior, já que Henrique determinou que seria Diana a dirigir a educação dos seus filhos!
A Medici nunca perdoaria tanta interferência. Mas a luta entre as duas mulheres seria interrompida pelo irremediável. Em 1559, deu-se uma tripla celebração: a da Paz entre França e Espanha, e dos casamentos da filha e da irmã do Rei Henrique (com Filipe II de Espanha e o Duque de Sabóia, respectivamente). A corte quis assinalar tão auspiciosa ocasião com as mais luzidas festas. A culminar os festejos, Henrique fez questão de organizar um torneio - uma das suas maiores paixões. E apesar das súplicas de Catarina, que na noite anterior acordara sobressaltada por um terrível pesadelo em que via o marido por terra, com a cara ensanguentada, insistiu em participar...usando as cores de Diana, como fazia desde os 12 anos de idade. Elegera-a a sua dama e muitos anos depois, nada tinha mudado. A justa guerreira realizou-se, com o Rei a rir dos avisos da mulher, que atribuía ao seu espírito supersticioso. Infelizmente, o pressentimento de Catarina estava certo: perante o terror dos presentes Henrique foi acidentalmente trespassado pela lança do conde de Montgomery que, parecendo adivinhar uma desgraça, tentara escusar-se ao desafio. 

                                             
Catarina, Diana e o Príncipe herdeiro desmaiaram. A arma trespassou-lhe uma vista, atingindo o cérebro e o Rei, que parecia estar apenas ferido, morreu em grande sofrimento ao cabo de alguns dias. Nessa aflição, Diana  foi proibida de se aproximar dos aposentos, de se despedir do homem que amara durante tantos anos. Catarina de Medici vingava-se finalmente, mas a que preço! A partir desse dia pôs luto carregado, que jamais aliviaria. Por motivos desconhecidos "a rainha bruxa" conhecida pelo seu espírito rancoroso, nunca perseguiu Diana após a morte de Henrique - talvez, apesar de tudo, tivesse alguma consideração pela rival, que fora quase uma amiga. Talvez a deixasse em paz por respeito à memória do marido adorado. Ou talvez quisesse ainda "odiar e esperar". Limitou-se a exigir de volta as jóias da coroa que Diana costumava usar. Sabendo que o seu "reinado" acabara, Diana regressou aos seus domínios. Sete anos depois, morreu como vivera: ao ar livre, caçando. Catarina teria pela frente uma vida de conspirações, suspeitas, violência e batalhas ferozes. Veria reinar três filhos seus: Francisco II, Carlos IX e Henrique III. Morreu em 1589, um dia depois do assassinato deste último. 









Sunday, August 26, 2012

Rivais #1: Diana de Poitiers vs Catarina de Medici (parte I)





Catherine de Medici, Henri II, Diane de Poitiers

A História é fértil em lutas titânicas entre grandes mulheres. Por amor, por poder -  ou por ambos - os compêndios estão cheios de casos em que damas excepcionais se digladiaram. Um deles envolve a mais gentil das amantes reais, talvez a única que admiro: Diana de Poitiers. A sua antagonista? Catarina de Medici, a célebre "Rainha Negra" eternamente associada ao Massacre da Noite de S. Bartolomeu, mãe da não menos famosa Rainha Margot, sogra de Maria Stuart, Rainha dos Escoceses e quase - por pouco! -  também da sua prima Isabel I.  Entre as duas, um Rei de bela figura: Henrique II de França.
  Diana distingue-se entre as favoritas célebres pelo poder de que gozou - verdadeira rainha na sombra, antes dela só Agnès Sorel, a bela (curiosamente, avó do seu marido) tivera protagonismo semelhante. Porém, Diana tem a seu favor o facto de ser uma senhora de alta linhagem, dotada de uma esplêndida educação... e não menos importante, a verdadeira paixão que a uniu ao rei. Um amor louco, que só a morte separou.
                                                                      Ficheiro:DianedePoitiers.jpg                                 
Diana de Poitiers nasceu em 1499, filha primogénita de João de Poitiers, Senhor e Conde de Saint - Valliers, marquês de Crotone, visconde de l´Estoile, barão de Clérieux e barão de Sérignam. Pela parte da mãe, Joana de Batarnay, estava ligada aos Medici e aos Boulognes. Apesar de ter um filho varão, o pai, que a adorava, fez de Diana companheira de todas as horas. Com ele, a jovem cavalgava e caçava desde o amanhecer, habituando-se a uma rigorosa disciplina que conservaria pela vida fora ... e que muito contribuiu para que preservasse uma beleza que desafiou o passar dos anos. Aos seis anos teve o seu próprio falcão e montava todos os cavalos do pai. Uma autêntica Diana Caçadora...

Desejando proporcionar-lhe uma educação esmerada, de acordo com os padrões humanistas da época, o pai enviou-a para casa de uma parente e princesa de França, a duquesa Anne de Beauje. Aí aprendeu dança, boas maneiras, latim, grego, esgrima, a arte da conversação, a manter gostos e modos refinados, a salvaguardar a dignidade da sua posição através de atitudes nobres, elegantes -  e sobretudo, isentas de intrigas que a pudessem desonrar. A sábia tutora reconheceu os dotes físicos e espirituais da pupila, chegando a considerá-la superior à sua própria filha, Susana de Bourbon.  Aos quinze anos Diana era uma jovem lindíssima, cheia de encanto e graça feminina. Obediente, aceitou sem reservas o noivo que o pai e a duquesa escolheram para ela: Luís de Brezé, conde de Maulévier, Grande Senescal da Normandia e muito apropriadamente ..."Senhor da Caça". O futuro marido era um parente Bourbon, riquíssimo e 39 anos mais velho, o que não impediu um matrimónio muito feliz. Diana manteve uma fidelidade absoluta ao marido ao longo de dezassete anos de casamento. A casa dele, o Château d´Anet, estava equipada com um riquíssimo estábulo e uma vasta biblioteca...isso bastava para a fazer feliz. O isolamento da sombria fortaleza não a perturbava. Enquanto Dama da Rainha Cláudia, e das que se lhe seguiram - incluindo Leonor de Áustria, que fora Rainha de Portugal mediante um casamento escandaloso - a sua deslumbrante beleza e bondade conquistaram a corte.  


File:A8094851168422469-9970.jpg
Château d´Anet na actualidade

A sua pureza e bons costumes, por outro lado, causaram a admiração do Rei e da Rainha. O monarca Francisco I disse dela :" agradável de contemplar, honesta ao conhecer". Em 1519, nasceu um principezinho que Diana colocou amorosamente nos braços da mãe...Henrique II de França. A beldade tinha então 20 anos e não podia adivinhar que um dia ele seria o amor da sua vida. Como irmão mais novo, ninguém esperava que Henrique herdasse o trono. Era um rapaz taciturno, um pouco trapalhão, e Diana foi designada como sua tutora. O companheirismo e a admiração deram lugar a outros sentimentos, o príncipe fez-se um jovem atraente...e com o beneplácito do Rei, Diana, que enviuvara entretanto, tornou-se amante de Henrique. Ele, apaixonado, fascinado pelos romances de cavalaria e as aventuras de Amadis de Gaula, era homem que só ama verdadeiramente e uma vez: foi por isso uma desgraça para ele, recebida com lágrimas de desespero, quando lhe foi comunicado o seu iminente casamento com a sobrinha do Clemente VII, Catarina de Medici.

     
                                                                            (Continua)




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