Recomenda-se:

Netscope

Showing posts with label celtas. Show all posts
Showing posts with label celtas. Show all posts

Wednesday, January 7, 2015

Das mulheres com *outro* poder



O empowerment feminino - e já anda por aí uma tentativa de tradução disto assaz esquisita, "empoderamento" - é um termo muito na moda. Qualquer cantora que empunhe cartazes, abane as ancas num palco e diga meia dúzia de lugares comuns à imprensa, tem "poder" e está  a "empoderar" as mulheres,  é assim um Jedi de saias (o que não faz lá muito sentido porque todos os Jedi usavam uma espécie de saias, but you know what I mean). Qualquer mulher que berre contra o status quo ou a tradição só porque sim, nem que isso não contribua nada para a sua felicidade ou a felicidade das outras, é "poderosa".

  Como já discuti amplamente o assunto não vou por aí hoje, mas esse outro "poder" a que me refiro é muito mais antigo, muito mais subtil e muito mais comum do que parece. E ou uma mulher nasceu com ele, ou precisa de treinar bastante para o chamar a si, porque não é coisa que se exerça da boca para fora. Como dizia Margaret Thatcher, uma das mulheres mais verdadeiramente poderosas que nos foi dado ver, "ser poderosa é como ser uma senhora - se precisa de mostrar que o é, é porque não é".

  Não acompanho de perto a carreira de Queen Lafifah, mas sempre que um filme dela passa na televisão fico colada ao ecrã. Toda ela é uma mulher forte - na beleza, nos gestos, na voz, no sorriso doce, na forma desempenada como não atura tretas de ninguém e coloca as coisas e pessoas no seu lugar para se mostrar serena logo a seguir, com cara de quem já viu muita coisa e não se impressiona com duas lérias. Não escolheu o nome "Queen Latifah" por nada: é  fácil imaginá-la como uma Rainha Bíblica, a Raínha do Sabá, ou em qualquer papel mais modesto que exija liderança - como mãe de farta prole desinquieta, governanta ou patroa de um saloon, a atirar os borrachos para o bebedouro.

É, para empregar o piropo que Carlos da Maia achava detestável, "um mulherão".

  A Mammy de E tudo o Vento Levou, interpretada pela fantástica Hattie McDaniel é, apesar de uma simples escrava, tão forte como Scarlett e a verdadeira matriarca daquela casa. Sempre pensei se a resistência de Scarlett teria alguma coisa a ver com ter sido criada por aquela mulher autoritária e bondosa, que se gabava snobemente de saber distinguir uma senhora ou um cavalheiro com um simples golpe de vista. Apesar de personagem de ficção, Mammy foi inspirada em muitas figuras reais que governavam as casas de boas famílias no Sul daquele tempo e que apesar da sua condição, exerciam funções de autoridade. 


Numa versão portuguesa temos a Ana do Vedor, robusta camponesa, lavradora próspera com a voz de comando conferida pela sua posição de ama, que entra no celeiro ou no salão com o mesmo desembaraço, não se receia de ninguém e põe em pratos limpos as situações mais complicadas da trama.

"E, ao atravessarem o quinteiro, o doutor e o abade abraçaram, cada um por sua vez, uma das moças de Ana do Vedor, que voltava da fonte com o cântaro de água.— Olá, olá, fidalguinhos! — bradou da porta da cozinha a patroa. — Já disse que isto aqui não é terra do Cruzeiro. Olhem se querem que eu os enxote como as raposas do galinheiro!?E, quando a criada chegou ao pé dela, disse-lhe com aspereza:– Tu não sabias chimpar-lhes o cântaro pela cabeça abaixo, minha maluca? Sempre vocês não sei para que querem a esperteza. Os rapazes retiraram-se rindo".

Ou a Brites de Almeida, que em Aljubarrota matou sete de uma vez.

 Mas não é preciso ser tão obviamente forte, de postura imponente, arquétipo de Mãe Primordial, Vénus de Willendorf reencarnada, ou uma Boudica, a Rainha dos Icenos que aterrorizou as tropas de Nero, para ter uma personalidade poderosa.




 A força feminina pode ser mais delicada, mais subtil e pasme-se - discreta, modesta, prudente, até obediente quando é justo dar razão aos outros. Porque uma mulher verdadeiramente feminina, que sabe fazer uso da sua feminilidade, é tão delicada mas tão forte como uma corda de piano.

 Conheço muitas mulheres destas: esposas que eram mimadas até os maridos darem à sola deixando-as a braços com contas para pagar, filhos para criar e que não tiveram outro remédio senão deitar mãos aos trabalho, até trabalho humilde, sem perderem a classe nem a beleza. Beldades que não deixam homem nenhum - ou ser nenhum - fazer delas tolas, com uma habilidade, uma calma e uma discrição que quem vê se pergunta como aquilo aconteceu. Senhoras elegantes cujas famílias perderam tudo mas não deixaram de ser quem eram e muito menos de se comportar como quem eram - com elegância, porte, delicadeza - depois de resistirem sabe Deus a quê.

E mesmo as senhoras elegantes de outros tempos aparentemente já frágeis, já velhinhas, que por mais que a Terra pule e vire não se conformam com nada disso e continuam a viver no seu próprio universo, fazendo frente a um batalhão se for preciso, como as Scorpioni imortalizadas no filme Chá com Mussolini. Para muitos, serão velhas malucas, mas é por velhas malucas dessas que o mundo não desaba mais do que já desabou...

 Em comum, todas têm um traço vincado: o de não tolerarem disparates. A capacidade de colocar os pontos nos ii e a coragem de, face à necessidade, descalçarem as luvas. Sem bravatas e sem grande alarido.




Saturday, April 13, 2013

Never fear


"Vinde buscá-las!"



A icónica frase acima foi, como saberão, dita pelos 300 espartanos quando o gigantesco exército persa lhes exigiu que depusessem as armas. É lema de várias forças militares, de equipas desportivas -  e também um dos meus, por genética e por simpatia. Vinde buscá-las ... se vos atreveis. Em bom português, haviam de encontrar mulher. Coragem não é ausência de medo (embora a adrenalina, ou a alegria da batalha, possam camuflar uma inevitável insegurança, de tal forma que nem damos por ela). Coragem é borrifar-se para o medo e dizer à fatalidade "hoje não" ou, em caso grave,  "hoje é um dia tão bom como qualquer outro". Atirar-se com unhas e dentes. Não temer nada, excepto que o céu nos caia em cima da cabeça. Não ter medo, nem admitir medo, de coisíssima nenhuma. Claro que a prática ajuda. À medida que se vão ultrapassando, derretendo e escangalhando barreiras, bloqueios, adversários e obstáculos uns atrás dos outros, as chatices vão perdendo a capacidade de nos impressionar: "digo ao Diabo não te temo, ó camafeu: conheci piores infernos do que o teu"*.

*Sérgio Godinho


Saturday, October 27, 2012

Halloween chic, lendas, tradições e...Apocalipse


Já prepararam a vossa fatiota para o Ano Novo Celta? A minha é um work in progress, dependente de alguns acessórios estarem prontos a tempo. Ainda estou indecisa entre duas opções; mas ao contrário do que é costume, inclino-me para uma toilette que não seja exactamente uma máscara. (Inclino-me, ainda não optei...não vá eu à última hora escolher ir de alma penada e depois passar por mentirosa).  Está a apetecer-me pegar nas roupinhas e calçados com um certo ar gótico que por aí andam, que não tenho coragem para usar no dia a dia (em look total, pelo menos) e compor um visual witchy, mas elegante. Estilo bruxa à paisana, mas pouco. Uma bruxa/vampira/rainha das Trevas sofisticada que se possa levar a todo o lado desde que se mantenha sob controlo, não vá ela semear o caos e a destruição na mais selecta das festas. A minha vontade de causar o Apocalipse em certos e determinados circuitos ainda não se desvaneceu, por isso talvez essa seja uma boa inspiração. Vista o que vestir, o que importa é que as almas do outro mundo me confundam com uma delas; afinal, essa é a tradição por trás da All Hallows Eve. Em noite de Samhain, o véu entre mundos desvanece-se e tudo quanto é fada, elfo, alminha, fantasma ou diabrete passa para este lado da vida, pronto a pregar partidas aos humanos. A Rainha das Fadas e o seu amado esposo, o Rei dos Elfos, saem na sua cavalgada fantasma prontos a raptar gente normal para viver encantada no seu palácio por um período mínimo de sete anos (isso não parece assim tão mau; o problema é que quem lá vive não regressa bom da cabeça, tal é o contraste entre aquela terra maravilhosa e a nossa).  Neste período as Divindades estão mais perto e os espíritos dos antepassados e amigos que partiram para o Outro Mundo estão mais próximos de nós. Também é a época para agradecer o que de bom se recebeu, deixar para trás o que não interessa e formular desejos para o futuro. Mas tudo isso sob disfarce - a alternativa é ficar em casa como os irlandeses de antigamente, que se fechavam a sete chaves após o por do sol; porque se os seres mágicos nos reconhecem, pode haver consequências muito desagradáveis. Ou seja: usem o que vos apetecer - desde que seja estranho - para vossa própria segurança, e bons sustos a todos.

Sunday, October 14, 2012

My love songs #4: Siúil A Rún

J.W Waterhouse, Miranda (1916)

Uma das minhas canções preferidas de todos os tempos e um dos mais belos lament tradicionais celtas, Siúl A Rún/Shule Aroon (Go, my love) conta uma história de paixão incondicional e separação trágica. Adoro cantá-la e adoro ouvi-la, mas é das melodias (e poemas) mais angustiados que conheço. Cantada em inglês, com refrão em gaélico, as suas origens são incertas. Há quem diga que nasceu no século XVII, a propósito da partida dos "Gansos Selvagens" - mercenários irlandeses - durante a Revolução Gloriosa de 1688, que seria trágica para todos os católicos na Grã Bretanha e Irlanda. Muitos pensam que a canção está relacionada com a derrota do  Bonnie Prince Charlie, que é objecto de muitas trovas na Escócia e na Irlanda (e de quem falarei um dia destes). Só com o seu regresso os seus partidários católicos forçados ao exílio poderiam voltar a casa, mas esse desejo nunca se realizou. Outros ainda atribuem-lhe uma origem mais recente. Mas apesar disso, e de algumas variantes (como a americana Johnny has gone for a soldier) o tema é sempre igual: uma jovem é forçada a separar-se do seu amado, que parte para a guerra, e cai em desespero. Para o ajudar, está disposta a vender o pouco que possui e assim comprar-lhe uma espada de aço; fará tudo para o seguir, nem que a família a amaldiçoe pela vergonha que lhes lançará em rosto ao fugir com um soldado, o que na época era muito mal visto. Muitas grandes vozes já interpretaram Siúil A Rún, mas minha versão preferida é a de Órla Fallon, do projecto Celtic Woman. 



I wish I was on yonder hill
'Tis there I'd sit and cry my fill
And every tear would turn a mill
Is go dté tú mo mhuirnín slán
Chorus
Siúil, siúil, siúil a rún
Siúil go socair agus siúil go ciúin
Siúil go doras agus éalaigh liom
Is go dté tú mo mhúirnín slán

(Go, go, walk my love
Go quietly, softly move
Go to the door and flee with me
And may you go safely my dear)
I'll sell my rock, I'll sell my reel
I'll sell my only spinning wheel
To buy my love a sword of steel
Is go dté tú mo mhúirnín slán
I'll dye my petticoats, I'll dye them red
And round the world I'll beg my bread
Until my parents shall wish me dead
Is go dté tú mo mhúirnín slán
I wish, I wish, I wish in vain
I wish I had my heart again
And vainly think I'd not complain
Is go dté tú mo mhúirnín slán
But now my love has gone to France
to try his fortune to advance
If he e'er comes back 'tis but a chance
Is go dté tú mo mhúirnín slán


Saturday, September 29, 2012

Canção do dia: Lord Randal, ou o amor venenoso

Arthur Hugues, La belle dame sans merci
Lord Randal, ou Lord Randall, é uma balada anglo-escocesa medieval, uma das mais antigas em língua inglesa e uma canção que adoro, mas que andou arredada da minha memória por demasiado tempo. Acredita-se que seja baseada num episódio do século XIII. É uma canção de amor, assim parece ao início. O jovem e belo senhor chega ao seu castelo, cansado da caça e queixando-se à mãe que o interroga, preocupada, de "dores de amor".  Como todas as mães, a de Lord Randal não descansa enquanto não descobre a história toda. Ficamos assim a saber que houve um rendez-vous apaixonado nos bosques e que a amada, por motivos não explicados, o terá envenenado. Se o "veneno" é literal ou uma metáfora fica à nossa imaginação, mas a inspiração para a trama terá sido Lord Randolph, 6º Conde de Chester, que morreu em 1232, alegadamente envenenado pela esposa amantíssima. Lord Randal é, pois, uma murder ballad, embora mais romântica e menos assustadora do que outras no seu género. Os versos prosseguem com o infeliz protagonista cada vez mais enfraquecido, a fazer o seu testamento. À mãe deixa o gado, à irmã ouro e prata, ao irmão as suas terras e domínios, e ao seu "verdadeiro amor", "fogo e inferno". Assim acaba a história, sem sabermos se Lord Randal sobrevive e se esta "belle dame sans merci" é culpada ou inocente. Pessoalmente, imagino sempre um final feliz para o enredo, e que a "dor de amor" não passou disso mesmo...



"O where ha you been, Lord Randal, my son! 

And where ha you been, my handsome young man!" 
"I ha been at the greenwood; mother, mak my bed soon, 
For I'm wearied wi hunting, and fain wad lie down."

"An wha met ye there, Lord Randal, my son? 
An wha met you there, my handsome young man?" 
"O I met wi my true-love; mother, mak my bed soon, 
For I'm wearied wi hunting, and fain wad lie down."

"And what did she give you, Lord Randal, my son? 
And what did she give you, my handsome young man?" 
"Eels fried in a pan; mother, mak my bed soon, 
For I'm wearied wi hunting, and fain wad lie down." 

"And wha gat your leavins, Lord Randal, my son? 
And wha gat your leavins, my handsome young man?" 
"My hawks and my hounds; mother, mak my bed soon, 
For I'm wearied wi hunting, and fain wad lie down." 

"And what becam of them, Lord Randal, my son? 
And what becam of them, my handsome young man?" 
"They stretched their legs out and died; mother, mak my bed soon,
For I'm wearied wi huntin, and fain wad lie down." 

"O I fear you are poisoned, Lord Randal, my son! 
I fear you are poisoned, my handsome young man!" 
"O yes, I am poisoned; mother, mak my bed soon, 
For I'm sick at the heart, and I fain wad lie down." 

"What d'ye leave to your mother, Lord Randal, my son?
What d'ye leave to your mother, my handsome young man?"
"Four and twenty milk kye; mother, mak my bed soon,
For I'm sick at heart, and I fain wad lie down"

"What d'ye leave to your sister, Lord Randal, my son?
What d'ye leave to your sister, my handsome young man?"
"My gold and my silver; ; mother, mak my bed soon,
For I'm sick at heart, and I fain wad lie down"

"What d'ye leave to your brother, Lord Randal, my son?
What d'ye leave to your brother, my handsome young man?"
"My houses and my lands; mother, mak my bed soon,
For I'm sick at heart, and I fain wad lie down"

"What d'ye leave to your true-love, Lord Randal my son?
What d'ye leave to your true-love, my handsome young man?
"I leave her hell and fire; mother, mak my bed soon,
For I'm sick at heart, and I fain wad lie down"

Thursday, August 30, 2012

Gostar tem limites

Há algum tempo que aqui a Godmother andava com vontade de ler o romance de Mario Puzo que deu origem ao filme (que preciso de rever, pois tenho dele uma memória muito vaga) The Godfather. Ontem, por mero acaso, arranjei um exemplar e estou bastante impressionada quer com a prosa, quer com o protagonista, Don Corleone. Claro que o livro tem partes de arrepiar ( até ver, da autoria de outras personagens) mas o Padrinho é, em essência, um anti-herói, um generoso homem à moda antiga fiel aos códigos de honra dos seus antepassados, de uma lealdade extrema aos amigos. Um mafioso fofo, vá, que começou por negociar em azeite. A sua bolsa, os seus homens, os seus favores estão sempre ao alcance daqueles, pobres ou ricos, poderosos ou humildes, que lhe jurem amizade. Para obter justiça? Falem com o Padrinho. Para resolver um problema que parece impossível? Lá está o Padrinho. Todos gostam dele, é o Pai Natal daquela gente toda. Um dia poderá - ou não - cobrar o favor, que pode ir de obter uma informação importante a receber legumes ou bolos frescos da loja do devedor. Obviamente segue as velhas máximas italianas, como "o bem sempre que possível, o mal sempre que necessário" e "odiar e esperar"  apoiado nas regras da omerta, pois claro.


Salvo as devidas diferenças (sou uma pessoa honesta, não dirijo um império e nunca faria mal a cavalos, nem a outro bicho qualquer com a honrosa excepção das centopeias ) identifico-me com a atitude da personagem, no sentido de ter uma lealdade absoluta às pessoas que me são próximas e de esperar delas o mesmo. Não sei se isso vem  do meu lado siciliano, do meu lado celta, da educação que recebi ou disso tudo junto, mas tenho uma noção de clã muito forte. Com quem não me é nada, sou condescendente ( no mundo em que vivemos a lealdade é rara, não vale a pena contar com tal coisa nem zangar-se por tão pouco).  Para as pessoas a quem abro o coração, porém  - e são poucas , que eu demoro a afeiçoar- me - estou sempre disponível. Podemos não nos ver durante imenso tempo que o meu carinho é sempre igual, mesmo que a vida nos tenha afastado, que a pessoa que eu conheci já não seja exactamente a mesma. Se erra, lá estou eu para perdoar setenta vezes sete vezes. Se precisa da minha ajuda, ali me tem. Tenho o hábito de gostar de certas pessoas e não o perco facilmente. Se houver uma relação de sangue ou de amor mais entranhada é  a minha lealdade, embora não seja cega (nunca fui de fidelidades caninas nem de ignorar os defeitos dos que me são caros). Só há duas coisas que me fazem mandar às malvas estes princípios sagrados: a primeira é que abusem da minha generosidade. Ou seja, que estejam sempre disponíveis para me pedir um favor, para aceitar os meus convites, mas jamais para retribuir embora se arvorem "amigos até ao fim do mundo". E isto uma, duas, três vezes, mais vezes, com o maior atrevimento. É uma atitude de egoísmo, oportunismo e infantilidade que não consigo respeitar. Amigo que é amigo está lá quando é preciso, não se limita ao "venha a nós". Dizerem a esmo que me admiram tanto, gostarem muito de mim mas não terem nenhum trabalho com isso -  quando eu me dou a infinitos trabalhos para lhes valer nas suas aflições  - não é um "negócio justo". Amizade ou amor envolvem sempre reciprocidade. 
A segunda mata-lealdades acontece quando, por mais que se faça, uma pessoa amiga mostra fraqueza de carácter, insistindo em comportamentos que a  desmerecem ou degradam - envergonhando quem está à volta. Más companhias, vícios, embrutecimento, rebaixar-se por vontade própria a situações desagradáveis de forma sucessiva, têm o efeito de matar, a médio prazo, a minha amizade. Posso ser atraiçoada por alguém e apesar de magoada, continuar a gostar dessa pessoa; mas não posso ter afeição a um ser humano que me inspira desprezo. Aí...morreu, e faço como o Don Corleone: vai em paz, mas não me chateies mais, nem batas à minha porta...

Sunday, August 26, 2012

Ah, Brave!

Uma história passada na Escócia medieval? Check. Uma princesa celta, ruiva, com uma cabeleira indomável de caracóis? Check. A mesma princesa vive num castelo rodeado de paisagens verdejantes e o seu passatempo preferido é galopar e brincar com armas que nem uma selvagem? Check. Há uma bruxa? Check. E escoceses barulhentos, arruaceiros e bravos? Check. Acrescente-se a isso uma boa dose de gaitas de foles e ursos ( os ursos, por qualquer razão que nunca entendi, formam estranhas coincidências na minha vida) e está claro que Brave é um filme para mim. Só não gostaria dele se fosse terrivelmente mau, mas apesar de eu não ser exactamente fã deste tipo de animação (prefiro o aspecto clássico das princesas Disney) Brave é perfeito. É certo que os aspectos técnicos contribuem largamente para isso - a atenção ao detalhe, o realismo, o figurino, a pesquisa primorosa que obviamente ali está - mas o que o torna tão agradável é o excelente argumento e o trabalho dos actores que dão voz às personagens na versão original (acho, aliás, um desperdício ir ver qualquer outra).
Fez-me rir a sério (foi uma sorte escolher a última sessão) e quase, quase me fez chorar. Não quero revelar muito a quem ainda não viu o filme *ALERTA SPOILERS* mas adorei a criada Maudie, os três irmãos-ursinhos

                                                       

e os três pretendentes. Certo é que no lugar da Princesa Merida, eu também ficaria renitente em trocar uma vida de liberdade por um príncipe chato, que pusesse e dispusesse de tudo, mesmo que ele fosse  filho de um chefe de Clã -  o que (naqueles tempos pelo menos) era sinal de um homem valente, com as ideias no lugar.


 Dos três, o concorrente McIntosh é o mais bem parecido, mas achei o jovem McGuffin um amor. Ainda torci para que ela escolhesse antes este highlander... isso sim, seria um final inesperado. 


Dito isto, estou com imensa vontade de comprar merchandising do filme. Não sei que utilidade daria aos brinquedos mas são absolutamente adoráveis, ora vejam:







Sunday, April 29, 2012

Os homens mais sexy da História

Henry Cavill

Não deixemos que o pó dos séculos nos engane: as páginas da História estão cheias de sex symbols capazes de pôr a um canto os galãs dos nossos dias. Pela beleza, carisma, valentia, e pela aura de romantismo que criaram à sua volta, estes garbosos senhores detêm o direito perene ao título "Your Royal Hotness".




Alexandre Magno


 (356 -323 a.C) Filho do Rei Filipe II da Macedónia e de Olímpia de Épiro, sacerdotisa de Dioniso, tornou-se rei aos 20 anos.  Por altura da sua morte, aos 32, tinha conquistado o maior Império visto até então. A sua juventude e beleza, o mito de uma origem divina ("Filho de Zeus" ou de Dioniso, consoante as lendas) o casamento controverso com Roxana -filha de um obscuro chefe das províncias conquistadas- e as suas complexas relações pessoais fizeram dele o mito sensual de  gerações.





Vercingetorix


(72 - 46 a.C)  Rei dos Arvernos, o seu nome significa, aproximadamente, "Chefe Supremo dos Guerreiros". Carismático, louro, imponente , o jovem nobre personificava a imagem dos grandes e temíveis guerreiros gauleses.
Verdadeiro génio militar, liderou uma das maiores revoltas celtas contra Roma, acabando por ser derrotado na trágica Batalha de Alésia. 
Vendo-se vencido, rendeu-se em grande estilo: vestiu a sua magnífica armadura, montou o seu corcel ricamente ajaezado e deu três voltas ao acampamento de Júlio  César antes de depôr majestosamente as armas. Continua a ser um símbolo do orgulho francês.


Viriato


( ?-138 a. C) O "Rei- Pastor" - título conferido a líderes de origem divina na antiguidade - foi outro chefe celta que causou grandes dores de cabeça aos romanos. Exasperados, os generais romanos terão mesmo comentado " na parte mais ocidental da Península Ibérica vive um povo que não se governa nem se deixa governar!".  Os vários significados atribuídos ao seu nome relacionam-se com "masculinidade, virilidade, honra, nobreza" e com os virae, adornos usados pelos guerreiros celtiberos. Embora a sua figura continue envolta em alguma obscuridade,  predominam as descrições de Viriato como "um verdadeiro príncipe", corajoso, magnânimo, grande estratega, um homem "na flor da idade, de grande força física" e com "todas as características dos lendários Reis celtas".






D. Afonso Henriques


(1109? - 1185) O nosso primeiro Rei, O Conquistador , não poderia deixar de figurar nesta lista. Assumiu o governo com apenas 19 anos e em 1139 proclamou-se Rei - apesar do reconhecimento da independência Portuguesa só chegar em 1143. Pouco se sabe sobre o seu verdadeiro aspecto físico, embora a lenda sobre a sua espada, que nenhum outro homem conseguia manejar, e os relatos das suas façanhas nos tracem o retrato de um perfeito varão medieval.  A sua bravura e o  seu carácter férreo, intempestivo e determinado fazem o resto: não há nada mais sexy que um homem decidido.




Raimundo I de Antióquia 


(1115 – 1149) Filho mais jovem de Guilherme IX (Duque de Aquitânia e Conde de Poitiers) Raimundo tornou-se Príncipe de Antióquia numa aventura digna de romance. Como filho mais novo, era de esperar que construísse a sua própria fortuna ou se contentasse com uma vida obscura. Ao ser apontado como o pretendente ideal para a jovem Constança, herdeira de Boemundo II de Antióquia, aproveitou a oportunidade sem pensar duas vezes. No entanto, foi necessário fazer crer à mãe da noiva, a arrogante viúva e regente Alice de Jerusalém, que seria ela a escolhida. Ainda jovem e bonita, Alice corou de alegria com a proposta - e quase morreu de despeito ao saber o logro de que fora vítima. Mas teve de engolir a afronta e Raimundo, com 37 anos de idade, tornou-se Príncipe de Antióquia ao lado da sua noiva adolescente. Raimundo de Poitiers era considerado um dos homens mais fascinantes da cristandade. O arcebispo de Tiro descreveu-o como "um senhor de ascendência mui nobre, de figura alta e elegante, o mais belo dos príncipes da terra, um homem de conversa e afabilidade encantadoras, de coração aberto e magnífico para além da medida".  Dizem que tinha o hábito de, por fanfarronice, se pendurar em peso na porta do castelo, segurando o cavalo entre as pernas musculosas, o que nos dá uma ideia da sua envergadura física... Em 1148, durante a Segunda Cruzada, foi acusado de ter uma relação adúltera e incestuosa com a sua belíssima sobrinha, a célebre Leonor de Aquitânia. Após muitas aventuras - nem todas coroadas de êxito - o exuberante Príncipe morreu tragicamente  na batalha de Inab.




D. Pedro I, o Cruel ( também chamado O Cru ou o Justiceiro)


(1320 - 1367) Amado pelo povo enquanto Rei, o Príncipe  Até -ao -fim-do -Mundo-Apaixonado era conhecido pela sensualidade -  tanto antes como depois da sua trágica história de amor com a bela Inês de Castro. 
O carácter obsessivo e a extrema lealdade à sua amada conferem-lhe a allure de anti herói romântico, material para lendas. Quando a Madre Abadessa do Convento de Santa Clara, que convivera com o casal antes da morte de Inês, pediu ao príncipe que contivesse os seus furores em nome "da sua honra e do seu bem" D. Pedro terá respondido, apontando para o túmulo da amante " minha honra e meu bem estão ali". A mulher que nunca desejou ser adorada desta maneira que atire a primeira pedra...
 Curiosamente, o seu sobrinho e homónimo D. Pedro, o Cruel, de Castela - que lhe entregaria os carrascos de Inês de Castro refugiados no seu país - também viveu um amor amaldiçoado que foi a sua desgraça, com a fidalga D. Maria de Padilla.





D.Manuel I


(1469-1521) O Venturoso era um dos Reis mais afortunados e bem parecidos do seu tempo: elegante, "de boa estatura, de corpo mais delicado que grosso, (...) os cabelos castanhos,  (...) os olhos alegres, entre verdes e brancos, alvo, risonho, bem assombrado" rico e com poder quase absoluto, gostava de vestir bem e de se divertir.  Em 1498, já duas vezes viúvo e tendo jurado não voltar a casar, desposou com certo escândalo a jovem noiva  do próprio filho -  a linda Leonor da Áustria (irmã do Imperador Carlos V e filha de Joana a Louca e de Filipe, o Belo).  O Príncipe D. João, que se apaixonara pela sua prometida, teve um enorme desgosto.  D.Leonor não foi tida nem achada na decisão, mas não consta que tenha chorado a troca...






César Bórgia


(1475-1507)  Maquiavel inspirou-se nele para a sua obra imortal, O Príncipe. Filho do Cardeal Rodrigo Bórgia (futuro Papa Alexandre VI )e da sua amante Vanozza dei Cattanei, da Casa de Candia, César Bórgia foi um dos homens mais belos e influentes do Renascimento. Inicialmente destinado à carreira eclesiástica, com o assassinato misterioso do seu irmão Giovanni - crime que as más línguas chegaram a atribuir a César - colocou o seu génio militar ao dispor dos interesses da família. A relação conturbada e intensa com a  irmã, Lucrécia, e uma ligação de paixão-ódio com a famosa Caterina Sforza são apenas algumas das peripécias da atribulada vida pessoal do Duque Valentino. Com a morte do pai, perdeu rapidamente o poder. Morreu em combate em Espanha, ao serviço do Rei de Navarra.




Giuliano de' Medici


(1453-1478) Filho mais novo de Piero de Medici, irmão de Lorenzo, o Magnífico, co-governante de Florença e grande patrono das artes, Giuliano era considerado um "golden boy". Bonito, confiante, másculo e atlético, terá sido o modelo para o Marte de Botticelli - a Vénus foi a sua amante Simonetta Cattaneo de Candia, mais conhecida por Simonetta Vespuccio: eterna musa do genial pintor, parente de César Bórgia, a mais bela mulher de Florença - e provavelmente de todo o Renascimento.
Giuliano, o orgulho da casa de Medici, foi assassinado com apenas 25 anos, trespassado por uma espada e apunhalado 19 vezes. Deixou a sua noiva, Fioretta Gorini (que por morte de Simonetta, tomara o seu lugar) grávida do futuro Papa Clemente VII.







Monday, February 27, 2012

Cuchulain e a ríastrad celta



O céu está sobre nós, a terra abaixo, e o mar à nossa volta; a não ser que o céu caia sobre o nosso acampamento num chuveiro de estrelas, ou que a terra seja sacudida por um sismo, ou que as ondas do mar azul  cubram as florestas do mundo dos vivos, nós não cederemos um palmo.
Palavras dos Heróis do Ulster ao seu Rei - Táin Bo Cuailgne, the Book of Leinster

Michael Fassbender vai interpretar o lendário heroi celta Cuchulain, o bravo do Ulster, filho de Lugh, uma espécie de Aquiles ou Beowulf irlandês. Estou ansiosa para ver o filme. Michael é um dos actores mais interessantes dos últimos anos e esteve fantástico como Stelios em 300 - tem tudo para interpretar um belo guerreiro de outros tempos.
Cú Chulaind/Cúchulainn (pronuncia-se "kiu kolln") era filho de um Deus, extremamente corajoso e foi treinado pela deusa guerreira Scáthach, na Escócia - senhora que só aceitava ensinar quem sobrevivesse a uma luta consigo. 
   Mas Cuchulain sofria de uma bênção e de uma maldição: em combate era tomado por um furor assassino, ou ríastrade derretia tudo. 
Quando isso acontecia, era de fugir: de belo mancebo ( tão bem parecido, aliás, que os seus pares temiam que todas as mulheres fugissem com ele, e o obrigaram por isso a casar depressa) tornava-se num monstro. A boca fendia-se-lhe até às orelhas, o cabelo ficava em chamas, um olho saltava para fora da órbita, o outro enterrava-se pelo crânio dentro e lançava gritos assustadores, chacinando quem lhe surgisse à frente, sem distinguir amigos de inimigos. Uma vez desencadeada, a ríastrad só cessava com a total aniquilação do alvo.
Esta lenda é ilustrativa do carácter dos povos celtas: verdadeiros valentes, tão dados à sensualidade, ao culto da beleza e à subtileza de discurso como à brutalidade mais feroz. Guerreiros que só temiam que o céu lhes caísse em cima da cabeça. Os próprios romanos ficavam pasmados ante o espectáculo das tropas de elite celtas à cabeça dos exércitos - "os formosos selvagens", homens na flor da idade, admiravelmente feitos, que se apresentavam como os Deuses os haviam deitado ao mundo, com o sol nos longos cabelos e nos adornos de ouro, exibindo a sua masculinidade numa provocação (como quem diz "vamos raptar as vossas mulheres"!) . Outros havia, que arrancavam as roupas na fúria do combate, acreditando-se possuídos pelos Deuses, sem temer pela vida por um segundo, matando e espezinhando enquanto a fúria durasse. 
Foram vários os grandes líderes e exércitos do período clássico que contaram com guarda costas e mercenários celtas nas suas fileiras (Aníbal, Cleópatra, Herodes...). E nem falemos das mulheres, que eram tão independentes e dotadas como os homens nas artes do amor e da guerra - e igualmente de temer, lutando como feras no campo de batalha e habilíssimas a coleccionar cabeças.
 No seu tratado sobre as virtudes femininas, Plutarco conta a história da bela Rainha Chiomara, que foi violada por um centurião romano.  Ao regressar a casa, queixou-se ao marido - com a cabeça do agressor na mão.


Nota: Algumas destas histórias, e muitas outras, são contadas em maior detalhe num blog que recomendo verdadeiramente: De Reyes, Dioses Y Héroes.

Friday, February 10, 2012

Momento estranho - Celtas, mas pouco



Há pouco estava muito tranquila a ler sobre os celtas e lusitanos, com intenções de preparar um post aqui para o estaminé. Eis que toca o telefone e recebo uma mensagem:

HOJE NO LUSITANO, GRANDE FESTA - BAILE COM OS CELTAS.

Note-se que o Lusitano é uma discoteca na Zona Centro que em nada se parece com um castro, cujos frequentadores não se chamam Boudicca, Vercingetorix nem Viriato e que Os Celtas são um grupo de baile que não toca música irlandesa nem nada semelhante (se assim fosse estava lá batida, era limpinho).
 Mas quais são as probabilidades?

Textos relacionados:

Related Posts Plugin for WordPress, Blogger...