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Wednesday, August 12, 2015

Termómetro do ciúme: em 1961...e hoje

Uma "escala mundial do ciúme" elaborada por psicólogos

" O ciúme tem sempre por base um complexo de infantilidade, porque quem é tendente a este defeito possui um espírito que não se fez adulto. Será mais ciumento o homem ou a mulher? Geralmente é a mulher, porque é particularmente exagerada nos seus defeitos (...). Em contrapartida os excessos de ciúme, inclusive os crimes passionais, são mais frequentes nos homens do que nas mulheres, porque estas suportam melhor o tormento do ciúme e não temem tanto como o homem o ridículo da traição, que faz explodir os seus sentimentos de forma violentíssima.
(...) um conselho a todos os ciumentos: é preciso pensar que este defeito pode matar o amor mais forte...".

in Crónica Feminina, Junho de 1961

 Este curioso artigo vinha acompanhado de um gráfico (acima) que indicava, de acordo com cada país, "o número de ciumentos e a intensidade do ciúme".  Não sei ao certo como se mede tal coisa numa população inteira, mas suponho que tenham usado um questionário semelhante a este, que ilustrava o mesmo texto:


Tem graça observar que nos nossos dias, muita gente podia perfeitamente rever-se neste "termómetro do ciúme". 

Basta substituir, na sexta questão (para eles) "uma carta na carteira" por uma espreitadela não autorizada ao telemóvel e (nas questões femininas), "mandar alguém vigiá-lo" por um intenso controlo do facebook e instagram.  De resto, tudo igual. É claro que algumas perguntas indicam um ciúme perfeitamente saudável ainda hoje: responder afirmativamente a 3 ou vá, 4, não é nada do outro mundo. Que um homem não goste de ver a sua mulher feita Kim Kardashian ou coisa pior na rua, é um elogio que lhe faz. Mas se a ideia dele de "roupa provocante" é um vestido minimamente cingido, ou um ligeiro decote nas costas; se lhe faz uma cena simplesmente porque ela foi alvo de admiração numa festa; e no feminino, se basta o esquecimento de uma data para se sentir traída ou algo tão inócuo como "a tua amiga é tão simpática" para perder o juízo, algo não bate certo.

O "monstro de olhos verdes": a temperar ou tornar intragáveis os relacionamentos desde que o mundo é mundo...



Sunday, July 19, 2015

A "mulher num pedestal", homens Alfa e homens Beta

Dois Homens Beta: um é lingrinhas, o outro parece Alfa.
Daquelas comédias românticas para comer pipocas: uma mulher bonita, vistosa e de sucesso começa a namorar com alguém que tem todas as características físicas e psicológicas do Homem Beta: pouco atlético, pouco vigoroso (um lingrinhas, vá) sem carreira que se veja, passivo e (apesar de bondoso e razoavelmente inteligente) com zero auto confiança, que se deixa pisar pela parentela, pela ex namorada, pelo novo namorado da ex... enfim, o bombo da festa de toda a gente. 

Como é um filme (e vá lá, já tenho visto coisas mais improváveis na vida real) apesar de todos os contras o parzinho aparentemente mal arranjado lá se entende; mas antes disso - face aos contínuos complexos de inferioridade do rapaz- ela acaba por confessar que inicialmente se interessou por ele por o saber "inofensivo". Ou seja, como é menos atraente do que ela, dificilmente teria capacidade para a magoar. Um exemplo da velha dinâmica de poder do "elo mais forte" numa relação: supostamente, dizem os entendidos na matéria, na maioria dos casos há um elemento que se importa mais, que tem mais medo de perder o outro.



E é um facto que muitas mulheres, com medo de saírem magoadas, caem no erro de se relacionar com um homem de quem não gostam assim muito e/ou que lhes parece de alguma maneira menos bonito e/ou socialmente poderoso, por uma questão de segurança emocional. Acham - não raro, de forma inconsciente - que um namorado que se sinta sortudo por elas olharem sequer para ele fará tudo para manter o que conseguiu. Claro que isso quase sempre corre mal: porque é difícil respeitar quem não se admira, porque ninguém gosta de um capacho e em última análise, porque às vezes as pessoas mais inofensivas e coitadinhas são as piores (veja-se um caso típico).

  Mas o que interessa para aqui é o motivo que levou a heroína a isso: é que o ex namorado  - alto, bem parecido, confiante a beirar o egocêntrico, super bem sucedido e aparentemente um Homem Alfa - era igualmente inseguro. Colocava-a num pedestal e esperava uma perfeição que ela dificilmente conseguiria cumprir (pois "perfeita" aos olhos dele ou não, era uma mulher como as outras); sentia-se constantemente ameaçado e como que para compensar isso, acabou por a trair com outra, num reflexo "vou ser infiel antes que tu o faças".



 Embora qualquer mulher sonhe ser adorada, um pedestal é um lugar exagerado e ingrato; conheço poucas que estando nessa posição sejam muito felizes, porque num ídolo colocam-se expectativas irrealistas misturadas ao constante receio da perda, do engano ou da desilusão. Mesmo quando o homem em causa parece ter todos os sinais do Alfa (estatura, beleza, posição) e que não lhe seja dada causa para insegurança, se houver dentro dele algum traço de fraqueza, essas desconfianças podem surgir. Dizem os especialistas que essa é a  causa de alguns cavalheiros bem parecidos preferirem mulheres mais apagadas, enquanto outros, fracas figuras, se ufanam de passear mulheres troféu...

 É preciso uma hombridade de ferro para adorar alguém que se admira muito, saber ser amado de volta e lidar com isso sem desconfianças, hiper vigilância e paranóia. Prova provada de que a auto confiança é muitas vezes a chave de todos os mistérios...

Wednesday, May 27, 2015

S.Francisco de Sales dixit: ciúme é quantidade, confiança é qualidade



"Como o verme se cria na maçã mais delicada e madura, também o ciúme nasce no amor mais ardente e afectuoso, cuja substância aliás, estraga e corrompe; porque pouco a pouco acarreta desgostos, desavenças...(...).  É uma pretensão tola querer dar a entender com os zelos a grandeza do amor. O ciúme é um sinal da magnitude e corpulência do amor mas não da sua bondade, pureza e perfeição; a perfeição do amor pressupõe a firmeza da virtude da coisa que se ama, e o ciúme pressupõe a incerteza".

                                          S. Francisco de Sales


A perfeita confiança é uma das maiores bênçãos - e um dos mais complicados desafios- de qualquer casal. Afinal, trata-se de um dom, só possível no tipo mais profundo e evoluído de amor humano. 

  É fácil não desconfiar, não sentir qualquer insegurança, quando se gosta "assim assim" de alguém. Difícil é haver esse tipo de confiança e serenidade entre duas pessoas que sentem um amor realmente apaixonado uma pela outra e consequentemente, o constante medo da perda.

 Quando um casal se adora e mesmo assim confia, estamos perante um amor imenso e equilibrado, que se torna indestrutível. Mas por isso mesmo, a confiança também é um exercício mútuo, uma prática diária que nasce do altruísmo, do auto domínio que permite calar consigo próprio (a) as pequenas arrelias, as partidas da imaginação, as suspeitas injustas. 

Conclui-se então que para não haver ciúmes desordenados, são precisas duas coisas: honestidade e virtude a toda a prova, de ambas as partes, e mútua crença na honestidade e virtude do outro. Afinal de que servem essas qualidades, se quem mais beneficia delas não acredita que existem?

Sunday, May 17, 2015

Adriana Lima dixit: em louvor dos homens ciumentos


"Gosto de homens ciumentos. Adoro o ciúme. Adoro."


Nos tempos que correm, as palavras da encantadora modelo podem soar estranhas ou imprudentes - no mínimo, de uma franqueza fora do vulgar.

É que infelizmente, todas sabemos pelos jornais as consequências trágicas do ciúme masculino quando levado ao extremo. Para não falar no ciúme não tão perigoso, mas frequente e exagerado, que transforma qualquer relação num purgatório. A própria Adriana Lima admitiu, noutra ocasião, não gostar de sair com homens demasiado ciumentos.

Há verdade, porém, nas palavras do "anjo" da Victoria´s Secret. Verdades que só uma bela mulher latina (detesto a conotação que a palavra ganhou, mas adiante) poderia dizer e entender. Talvez uma irlandesa o pudesse fazer também, sendo a Irlanda terra de homens católicos e de sangue a ferver, mas tenho para mim que portuguesas, brasileiras, espanholas, italianas e assim por diante sintam uma maior compreensão desse fenómeno (e dos seus perigos e encantos) do que as americanas, as alemãs, as inglesas, exímias na arte de racionalizar os sentimentos e querer tudo nos devidos lugares. 

 Não sei quanto a vocês, mas quando vejo filmes românticos de Hollywood quase sempre acho as mulheres picuinhas, frívolas e intolerantes. Questão cultural: a nossa forma de amar é mais intensa, mas também mais paciente. Ainda temos o reflexo ancestral e maternal de ver os homens como eles são, de não esperar que ajam exactamente como nós. 


São muitos séculos de história, de ciúmes ora sentidos na pele ora ouvidos em relatos de família, de hábito na velha associação "se ele não é zeloso, não se importa" . O ciúme clássico do homem italiano, que vem sempre a par com um amor despótico, avassalador, apaixonado, o "raio" de que falava Mario Puzo, não deixa de se aplicar ao homem português. Tive duas antepassadas a sofrer disso para o provar, sendo que só uma delas tropeçou num marido de origem siciliana. E Adriana Lima, volto a dizer, tem alguma razão. Os ciúmes deles fazem uma mulher sorrir (porque às vezes são cómicos, de tão disparatados) envaidecem-na, oferecem um sentimento de pertença e protecção. Para não falar nas reconciliações fervorosas, cheias de juras e promessas. O homem ciumento tem  toda uma atitude "esta mulher dá comigo em doido" que é extremamente romântica. 

Sim, o ciúme é romanesco e intenso. Não podemos negar isso a bem do politicamente correcto, em nome do "eu não sou insensata" porque quando se trata de paixão, ninguém é muito ponderado e sustentar o contrário seria hipócrita. Em boa verdade, um homem que não tem ciúme algum, que não se rala de todo se a amada veste assim, sai assado, age cozido, que até a incentiva a causar cobiça nos outros, faz-lhe quase um insulto. Não a respeita, não a leva a sério. É um homem Beta, um efeminado, para não dizer coisa pior. Quem adora uma mulher, vê-a como coisa sagrada.


 No entanto, bem se diz que o ciúme é como os temperos: usado em quantidades estratégicas, um bocadinho todos os dias, dá cor e sabor à dinâmica homem-mulher. Mas se a mão escapa e vira um frasco de malagueta para a panela...temos choro, aflição e mal estar. É impossível apreciar uma refeição carregada de piri piri ou jindungo, por muito bem confeccionada que seja, com os mais raros e frescos ingredientes, servida com o maior requinte. Tal como é impraticável funcionar numa relação com demasiada possessividade, por muito amor, química e compatibilidade que haja.

 A desconfiança inviabiliza a comunicação; há sempre assuntos do passado a pôr pedras entre os dois envolvidos; um percalço que não teria importância alguma para qualquer outro casal torna-se um cavalo não de batalha, mas de Tróia; não se segue adiante; o relacionamento não cresce, não evolui; é interrompido (se não oficialmente, pelo menos interiormente) a toda a hora; surge a tentação de refrear os sentimentos, de se doar menos, para evitar sofrimentos escusados- ora por parte do ciumento, que despreza a mulher por coisas que ela nem sequer sonhou, ora da cara metade, que se vai escudando e endurecendo face a cada suposição injusta. 

    Não se pode dizer à pimenta que não queime, ao lume que não arda; mas qualquer um, dotado de razão, consegue moderar a dose e conter as queimadas, de modo a não causar estragos.






Tuesday, April 21, 2015

O instinto básico do ciúme





O ciúme é uma emoção primordial não exclusiva do ser humano. Quem tem vários animais de estimação apercebe-se disso: cães e gatos disputam entre si (e de que maneira!) tanto a atenção de potenciais parceiros como a do dono, assim como qualquer privilégio (o primeiro ou mais apetitoso pedacinho de comida, um caixote/lugar no sofá que até há minutos não lhes interessava para nada mas passa a ser importante assim que "o outro" lá se senta, etc).



 E don´t get me started a falar nos tigres, leões (capazes de assassinar as crias de um rival para tomar o seu lugar) veados, alces, cavalos, papagaios, galos ou mesmo animais "fofinhos" como os cangurus ou os pinguins (que se enchem de bofetada uns aos outros). 



Podia continuar por aí fora, a citar a Arca de Noé inteira, mas percebem a teoria. Dos ciúmes nenhum animal está livre, nem mesmo estes sofisticados primatas que somos. E quando se trata do ciúme relativo ao amor romântico, que interfere com emoções ainda mais intensas, pior se torna, porque ameaça tanto a noção de exclusividade (sobretudo nos homens, dizem os especialistas) como a de segurança (que afecta mais as mulheres, afirmam eles).

 São instintos perfeitamente naturais e compreensíveis, que as leis da sociedade humana vieram regulamentar mais ou menos formalmente. Li há dias que a monogamia, o casamento, se inventaram principalmente para evitar a dor e infelicidade que advêm da infidelidade ou abandono do parceiro. Ainda que a ideia de "amor livre" tivesse triunfado completamente, o ser humano continuaria a aspirar a um amor só seu. A paixão pede (ou exige) posse completa. Acredito nisto plenamente, embora possa haver indivíduos que escapem à regra. A maior parte das aves parece compreender isto, acasalando para toda a vida - daí a tradição chinesa de usar símbolos como patos ou grous como talismãs para uma união feliz.


Patos Mandarins, talismãs chineses do amor feliz e da fidelidade

 O ciúme é natural, legítimo (pelo menos, quando uma relação oficial e estabelecida é de alguma forma ameaçada) e, se mantido sob controle, até lisonjeiro. 

 No entanto, sabendo nós disto tudo, não deixa de ser surpreendente como alguns seres humanos com educação, completamente civilizados em todos os aspectos, polidos por todas as regras mundanas, se deixam completamente transtornar pelo "monstro de olhos verdes". Porque uma coisa é senti-lo, outra bem diferente é permitir que ele domine até quando não há motivos. 

 Tenho visto vários cavalheiros (nas mulheres acontece também, mas no masculino torna-se uma coisa devastadora) que, face a um simples olhar ou comentário de qualquer homem presente em relação à mulher com quem se importam, perdem a cabeça. Em público, se for preciso. Não conseguem, ao menos, manifestar discretamente o que os incomoda. Se sofrerem de ciúmes agudos, irracionais, são capazes de insultar a mulher, que nem fez nada, acusando-a de "ter encorajado", de ter "provocado". 



Não pensam: a emoção, o instinto, os sentimentos levam totalmente a  melhor. Perdem a  noção do que dizem, do que fazem, da figura que fazem - passe o pleonasmo - daquilo que quem está pode pensar deles, da mulher que está com eles, da situação (porque quem vê não percebe o que realmente se passou e pode julgar imediatamente coisas muito piores) da realidade, das consequências (vide Othello), da lógica. 

E escusado será dizer, argumentar com um ciumento é tempo baldado porque uma vez desencadeada essa reacção (que pode accionar-se numa questão de segundos) eles ficam cegos, não vêem, não raciocinam. Só sentem, e o que sentem é terrível. É como se um ácido corroesse tudo o que há de bom e esclarecido lá dentro.

 Onde fica então o homem civilizado que devia ser superior a essas coisas, a esses frémitos selvagens? Onde fica nesse caso a lógica, a racionalidade, a alma? Perante o instinto básico, vai-se tudo. Se o amor é o milagre da civilização, o ciúme doentio é a prova de que a civilização está constantemente ameaçada.




Tuesday, April 14, 2015

As coisas que eu ouço: ciúmes desgovernados dão nisto.

"Quando eu gosto de uma mulher exijo fidelidade
absoluta - mesmo que ela nem sonhe que eu gosto dela!"

Recentemente, num jantar, rimo-nos bastante ao recordar um episódio que se passou nos anos 1970 mas que podia perfeitamente acontecer hoje (salvo algumas diferenças, pois o politicamente correcto tornou as pessoas muito mais sensíveis).

Um amigo da família, que aqui para nós se chamará Manel, andava a 
preparar-se para estudar Medicina num dos primeiros liceus a ter turmas mistas. Numa escola com poucas raparigas - e em ciências, onde as alunas ainda eram mais raras -  qualquer recém chegada fazia muito sucesso.

 Ora, o Manel calhava ser vizinho de uma das condiscípulas, chamemos-lhe Mimi, com quem se dava bem. Para não fazer o caminho sozinha, já que iam para o mesmo lado, ela costumava pedir-lhe que a acompanhasse. E ele lá ia, sem nenhum interesse especial na rapariga.

  Mas havia um jovem na mesma turma, o "Bolachas", que estava perdidamente apaixonado pela Mimi e entendeu que apesar de nunca se lhe ter declarado (ou porque era tímido, ou porque não sabia o que queria da vida) ninguém se podia aproximar dela. Um verdadeiro ciumento indeciso, dos que não se descosem nem dão nome às coisas mas se acham traídos mal outro ser de calças se aproxima.




Por isso tomou de ponta o Manel, que via como rival... e todos os dias lá andava atrás dele, acusando-o de lhe roubar a namorada.

 - Tu não te atrevas a aproximar-te da minha miúda que eu parto-te a cara! -ameaçava ele.

Em vão o nosso herói lhe explicou, vezes sem conta, que não estava interessado na Mimi nem tinha nada com ela.

- Se gostas dela, vai falar com ela. Acompanha-a tu a casa, que eu não me ralo nada - e larga-me da mão.

Pois sim. O ciumento nem dizia palavra à Mimi, que não sonhava as intenções dele, nem largava o outro, seguindo-o como um cão de fila. Isto andou assim umas semanas, com o primeiro a fazer figura de urso e o segundo a encher o saco.

 Até que um belo dia o apaixonado paranóico emboscou o "rival" na casa de banho do ginásio, continuando com a mesma lenga-lenga. 

- Tu gostas da Mimi! Eu não permito que chegues perto da Mimi! A Mimi é minha, etc.

E o outro : ó Bolachas  tu deixa-me, cala-te, desaparece-me da frente! - porque já estava mesmo farto e porque tinha um teste de Matemática a seguir.

 Mas o Bolachas não desistia, cada vez gritava mais, e o Manel, que era um rapaz atlético e desempenado, ficou "cego", como se costuma dizer. 

Perdeu as estribeiras, puxou o braço atrás, tomou balanço e assentou-lhe um soco tal que o Bolachas voou, varou a porta da retrete e foi aterrar, ensanguentado, em cima da dita cuja. Depois o Manel foi chamar quem lhe acudisse e regressou à sala para fazer o tal teste de matemática.

Parece uma cena de filme, mas aconteceu mesmo...

 O resultado desta história foi o Bolachas ter de pôr dois dentes postiços. O Manel escapou com uma reprimenda porque era bom aluno e tinha sido provocado (além de naquele tempo ninguém se ocupar de rapaziadas, quanto mais de duelos por ciúmes). A Mimi, ao que parece, continuou a leste do paraíso, sem saber que o infeliz enamorado tinha perdido dois dentes da frente por amor dela...

 Os tempos são outros mas ciumentos como o Bolachas continuam a existir, mesmo quando já passaram há muito a idade do liceu: em vez de dizerem da sua justiça põem-se a controlar rivais que nem têm razão de ser e a fazer cenas de ciúmes disparatadas (e sem direito) às Mimis das suas vidas...

Hão-de ganhar muito com isso, hão-de.












Saturday, March 7, 2015

Os homens e os duelos na era dos social media


Um reflexo masculino inato é o sentido territorial. Desde a noite dos tempos, face ao ciúme as mulheres arrepelavam-se e choravam, os homens partiam a desancar um rival - hipotético ou de facto. Por alguma razão houve duelos até meados do sec. XIX: as "pendências de honra" não eram mais que uma forma pretensamente civilizada de dar vazão ao instinto para a pancadaria.

 Actualmente os papéis inverteram-se tanto que se procurarmos no Google, como procurei para ilustrar este texto, uma imagem de "homens a lutar por uma mulher" encontraremos muito mais facilmente mulheres à luta por um homem que engana as duas, o que é deprimente...porque enfim, aos homens nunca caiu tão mal perder a cabeça nem lutar por uma dama. Se não for levado ao exagero, até é amoroso...já lá vamos.

 De qualquer forma,  ainda vai havendo  cavalheiros que fazem justiça ao instinto de galos de briga. Ou porque são mais tradicionais, ou simplesmente porque têm mais testosterona que os outros, ou porque sofrem de um ciúme e/ou de um ego mais acentuado. E que fazem esses cavalheiros? São uns exagerados. Se têm um relacionamento com -ou simplesmente, sentimentos fortes por - uma determinada menina ou senhora, fazem gala de controlar qualquer potencial rival. Ainda que não haja motivo para isso, a sombra de um homem atraente (ou que lhes pareça ameaçador lá na sua cabeça) perto da mulher de quem gostam faz-lhes ferver o sangue e partem para a provocação, a troca de palavras, a intimidação, a ameaça ou mesmo o bom e velho vias de facto. 

 Ora, noutros tempos essa pesquisa exigia algum trabalho: ou os rivais se conheciam e frequentavam o mesmo meio - o que permitia mandar um "recadinho" por um amigo comum, como primeiro aviso - ou era necessário andar a rondar-lhe a casa ou o emprego, como o transmontano d ´Os Maias, que se muniu de um facalhão para "beber o sangue ao Maia" (e recebeu uma data de bengaladas). Isto para fazer a coisa à traição e sem muita publicidade, evitando assim o duelo, que era sempre falado. Se tudo corresse pelo pior, havia uma cena de pugilato e a rapariga disputada, embora passasse uma aflição e uma vergonhaça, sempre ficava com o ego lá nos píncaros.

 Hoje, nem é preciso tanto: há sempre os avisos através de amigos e conhecidos e as "esperas", mas graças às redes sociais basta uma mensagem a insultar o atrevido de tudo quanto há, e se não se afastar dela vou fazer-lhe a vida tão infeliz que nem faz ideia, ou simplesmente um parto-te a cara, meu filho de mulher que não é honesta.

É mais discreto, mas também mais manhoso, e a dama disputada só vem a saber por portas travessas, se é que sabe de todo. 

Na maior parte das vezes, limita-se a perguntar-se porque é que o Manel, que era um rapaz tão simpático, agora foge a correr quando a vê.

 Não deixa de ser querido que o façam (de uma maneira controladora e parva, diga-se...) mas o romantismo vai-se pela chaminé. É que não é legítimo lutar por uma dama sem o fazer às claras...

Monday, February 16, 2015

Dica de 1960: não espicaçar o amado com ciúmes

Imagem da mesma revista (Verão de 1960)

 "É frequente que uma mulher (...) longe do marido ou do noivo [seja] alvo das atenções dos outros homens. Ora, isso pode não passar de um sucesso inocente que é necessário saber apreciar mas que não deve subir à cabeça de ninguém. Se um homem, numa reunião de amigos, tiver feito a corte a uma rapariga, nunca ela se deverá gabar do facto junto daquele que ama porque o ciúme que poderá provocar está longe de ser um processo para se fazer amar com mais intensidade. A ternura e a confiança serão muito mais apreciadas".

In Crónica Feminina, 1960


O monstro de olhos verdes, quando exagerado, é sempre mau, e no masculino pior um pouco.

 Já em doses moderadas, o ciúme deles é bem vindo... um cavalheiro que não é zeloso, das duas três: ou não está apaixonado, ou lhe falta brio (leia-se - é um paspalho) ou sofre de alguma esquisitice que não seria decente explicar.

É o triste caso de muitos rapazes e homens que não se importam de passear as namoradas ou mulheres em semi- trajes que chamam a atenção pelos piores motivos; talvez por se sentirem muito modernos, parecem mesmo achar graça (ou acobardar-se, nem sei) perante as investidas e a troça alheia. Só quando os maus resultados batem à porta é que se lamentam. Exemplos desses levantariam muitas questões já analisadas por aqui, mas chamemos-lhe apenas falta de respeito próprio e pela cara metade, de parte a parte - e encerremos a questão concluindo que casais assim se merecem.



  Agora, em todos os outros casos: uma mulher sensata deve usar ou não a arma do ciúme para espicaçar a paixão da cara metade? Eu diria que o ciúme saudável, normal, nasce espontaneamente, como consequência dos factos. Se uma mulher é atraente e faz por se manter bonita, se veste com feminilidade e bom gosto, se sabe estar, se tem uma rotina ocupada e um mínimo de vida social... é natural que os olhares masculinos se voltem para ela onde quer que esteja e que receba atenções.

 É mais difícil, portanto, que o noivo ou marido se dê ao luxo de andar "distraído". Os elogios que a mulher atrai, se se reflectem bem nele, também lhe acicatam o sentido territorial. 

Eça de Queiroz dizia, n´Os Maias, que o amor se mantém vivo mais facilmente na vida buliçosa da cidade, onde um casal bonito pode entreter-se com mil distracções e despertar a admiração de terceiros, do que escondido na quietude do campo onde não se vê vivalma...



Porém, há que ter atenção ao sensível orgulho masculino e à confiança conjugal, que deve ser à prova de bala. Uma coisa é a admiração automática que uma mulher, mesmo discreta, atrai sendo bonita, e as homenagens sociais que vêm com isso. Outra é a resposta que se lhe dá; e nisso muitas, mesmo as que não se deixam levar pelo defeito da vaidade ou da leviandade, podem pecar por distracção, ingenuidade ou timidez. Ou por não detectar de imediato a malícia onde ela existe, ou por ficar sem jeito, ou por julgar que actualmente uma mulher sabe muito bem defender-se sozinha, logo é capaz de colocar no lugar quem toma excessivas liberdades sem ter sido encorajado a tal - e não faltam pessoas aparentemente respeitáveis que não precisam de encorajamento

 Ora, essas atenções não só lesam a dignidade de quem as recebe como podem ferir os sentimentos da cara metade- tanto na sua confiança, como no ego. E se o "pretendente" fizer parte do mesmo círculo social e ousar cortejar a mulher em causa nas barbas do parceiro, pior se torna. Para uma menina ou senhora pode não parecer grave, para um cavalheiro é fazer dele parvo. 

Logo, há que rechaçar tais "cortesias" e não as esconder do companheiro, mas tão pouco gabar-se disso...fazer-lhe queixa ainda é a saída mais honesta. Fica salva a sua sinceridade, e o ciúme...esse é inevitável, para o bem e para o mal.









Wednesday, December 10, 2014

Mais um "Othello" da vida real...e uma perfeita Desdémona.


Ontem foi noticiado o assassinato da bailarina e actriz Stephanie Moseley às mãos do marido, que se suicidou em seguida, perante um amigo que (coitado do pobre) assistiu a tudo via webcam, no melhor espírito de filme de terror.

 Segundo testemunhas o casal discutia constantemente porque a cara metade de Stephanie, Earl Hayes, não conseguia superar uma alegada traição (ou separação, não compreendi ao certo) do passado. Via infidelidades até numa mosca que zumbisse por perto e tornava a vida da mulher num inferno. Os dois estavam mesmo em vias de um afastamento definitivo à conta disso, mas dez tiros selaram a tragédia para ambos.
 Só falta saber-se que as suspeitas de Earl eram infundadas, causadas por uma intriga qualquer, para termos o enredo de Othello sem tirar nem pôr.

 Já muito se falou aqui dos Mouros de Veneza , dos ciumentos patológicos, e por mais que dê voltas não consigo perceber o mecanismo. Se alguém provoca ciúmes e dá motivos para desconfiar; se é preciso vigiar essa pessoa a toda a hora e ela é imatura que chegue para alimentar situações que deixem o outro desconfortável...o remédio é afastar-se, certo?

Isso pode ser doloroso, mas ao menos não coloca ninguém em risco.

 Se assim não é e as suspeitas nascem lá na cabeça do ciumento e ele não aceita a realidade por mais provas de dedicação que se lhe dê, então se calhar é hora de pensar mais na cara metade e no sofrimento injusto que está a provocar. E procurar tratamento especializado ou reconhecer que é uma pessoa com quem é impossível viver...porque é mesmo.

 Mas o problema do ciumento é que não é só desconfiado e inseguro: é possessivo, e a posse exagerada (pois o amor destituído de algum sentido de posse não tem graça, o mal está é nos extremos) nasce de um profundo egoísmo. De uma incapacidade para abrir mão do controlo total. Estilo se me afasto dois metros para reflectir e avaliar a situação alguém aparece imediatamente para me roubar a mulher.

 E como tal, em casos destes, o meio para pôr fim ao desconforto interior é resolver o caso a tiro ou coisa pior. O velho "se não me pertence não será de ninguém". Tenho para mim que os Othellos que chegam a actos dramáticos desses estão, na sua cabeça, a cometer não um crime, mas uma demonstração de romantismo mórbido.

 Para homens assim, se a a história de amor não pode ter um final feliz...que tenha um final trágico. Juntos a bem ou a mal. Nenhum ciumento sabe ser razoável - essa é a raiz do problema.

Saturday, November 22, 2014

Quando eles querem impressionar...demasiado.




Há dias apanhei na internet um artigo algo lamechas, mas com muito de verdade,  que lembrava como é que um homem apaixonado deve olhar para a sua amada (e outras coisas também) para que ela sinta que o é.

Olhe para ela com espanto. Olhe para ela com incredulidade.

etc, etc, um pouco como aquela canção do Brian Adams.


Eu não sei se isso é uma coisa que um homem tenha de se lembrar de fazer. Quando um cavalheiro está apaixonado, preso daqueles amores intensos, absorventes e excessivos que são os únicos que valem a pena neste mundo de Deus (desde que não descambem em obsessão que aí estraga-se tudo, convém assinalar) é assim que olha, não há outra maneira. Ainda há dias partilhei convosco o documentário de Roger Scruton em que o filósofo  diz precisamente isso: quando estamos apaixonados, a pessoa amada não nos parece real. Não parece deste mundo. Parece demasiado linda, demasiado perfeita. E queremos olhar para ela como se tivéssemos medo de que se desvaneça.

Ora, é com incredulidade que se olha para o que não nos parece deste mundo, e sempre acreditei nisto:  a mulher que nunca foi olhada assim só pode ter-se contentado com amores da treta, amores de ocasião, estilo amigos-que-resolvem. juntar-os -trapinhos. Se um homem nunca vos olhou assim, estão a fazer alguma coisa mal...levantem-se do sofá e vão em busca do amor verdadeiro, rápido.

  Mas ao ler que isso é uma coisa que um homem tem de se lembrar de fazer, um gesto romântico como dar flores e não um reflexo natural, caí um bocadinho das nuvens. Haverá alguns que o fazem, como fazem outras coisas, no firme propósito de seduzir e impressionar.

Claro que querer seduzir e impressionar é sempre sinal que estão encantados connosco- as intenções podem variar, mas aí já depende de sermos ajuizadas ou não.

 Mas é preciso separar não só as intenções deles (que podem transformar-se em mais honradas do que são inicialmente perante uma mulher que se dá ao respeito, pois eles são um bichinho que gosta de testar os limites) mas também o carácter verdadeiro do falso.


 Um homem que não seja bom, cavalheiro nem generoso por aí além pode fingir essas qualidades quando está deslumbrado com uma mulher. Dependendo dos seus meios e da forma como foi educado, pode fazer TUDO ao seu alcance para mostrar como é bondoso/carinhoso/ mãos largas/rico/poderoso. Se for um rapaz normal com um estilo de vida normal pode ficar-se por insistir em pagar tudo e mais alguma coisa ainda que vocês digam desde o início que não se sentem à vontade com isso, mais flores e o costume; se for assim high profile, vai oferecer presentes caros fora de propósito,  pedir que a secretária vos ligue a confirmar o jantar ou, numa de Mr. Big, mandar o motorista buscar-vos.

Tudo isso, não sendo necessário, é simpático, porque os cavalheiros são raros hoje em dia MAS (sem querer aqui puxar das detestáveis cartadas modernaças)  também pode intimidar (e nos casos mais graves, essa é a ideia); é uma forma de intimidação positiva, do estilo "vou deixá-la tão tonta que vai ficar à minha mercê".


 E quando assim é isso só se revela demasiado tarde, quando a relação chega a outro nível e se vê que a pessoa não é assim tão bondosa nem tão meiga. Nesses casos, Deus nos livre deles, o homem super generoso e super atencioso - principalmente se tiver algum tipo de poder e autoridade - pode mostrar-se tão absorvente e dominador como foi desde o início, mas numa versão pouco agradável.

 É que ele não era bonzinho nem estava a fazer isso só para vos fazer sentir contentes; estava a fazer isso por ele, para se assegurar, por egoísmo. E se por algum motivo uma mulher não corresponder a essas expectativas super idealizadas, é capaz de reagir de forma igualmente hiperbólica. Todo o exagero nasce da insegurança, e de um desejo de superar essa insegurança nem que seja a martelo. Mais ainda: desenganem-se se julgam que um homem bem parecido, com uma posição de destaque e meios não tem como ser inseguro... muitos têm um ego muito frágil. E quando gostam de uma coisa ou de alguém, isso apavora-os. Têm de se assegurar. A bem...ou a mal.

Não quer dizer que o cavalheiro não estivesse apaixonado quando fez isso tudo (e se calhar estava mesmo) MAS pode querer dizer que não leva os sentimentos alheios em consideração e que tendo poder, pode tentar abusar disso.

Como é que então se distinguem os actos de conquista inofensivos dos não tão bem intencionados logo na primeira fase da relação? É preciso ouvir o instinto. Se há demasiados presentes, demasiado cedo e demasiado caros, a pontos de vos fazer sentir desconfortáveis, das duas uma: ou ele não tem intenções sérias ou se as tem, encara as relações de uma forma muito possessiva. Se é demasiado absorvente, convidando-vos a toda a hora para festas ou encontros em locais maravilhosos mesmo quando não vos dá jeito e não respeita a vossa relutância...é certo que quer muito a vossa companhia, mas pode estar a atropelar fases essenciais do amadurecimento da relação e provavelmente, vai agir com o mesmo tipo de exagero quando as coisas não correrem bem. E acreditem, esses exageros não são bonitos.

 Não há nada mais maravilhoso do que um cavalheiro decidido. Porém, se ele é demasiado cavalheiro, demasiado maravilhoso, demasiado decidido, cautela: o mais certo é gostar de drama em tudo, e estar-se nas tintas para a vossa opinião sobre o papel de heroína que vos coube, e o enredo ter um desfecho algo Shakespeariano que não vos convém nada...








Thursday, November 13, 2014

Síndroma de Othello, e 3 males femininos: Sindroma de Desdémona, Madame Butterfly e Helena de Tróia

Laurence Olivier e Maggie Smith, Othello (1965)

Há quem chame - muito adequadamente - Síndroma de Otelo a esse mal terrível que é o ciúme compulsivo. 
 Othello é uma das minhas obras preferidas, e acho que Shakespeare não caricaturou nem um bocadinho, não exagerou numa vírgula: basta ter convivido de perto com um ciumento para ver os pormenores da peça a desenrolar-se com tal realismo que parece o Laurence Olivier a desempenhar o papel e tudo: há as suspeitas absurdas, o ouvido leve a qualquer intriga disparatada, a angústia de cortar à faca (que faz por sua vez com que a Desdémona tenha pena do Othello e vá aturando) e as cóleras perigosas. 

Já para assistir ao desfecho da tragédia tim-tim-por-tim-tim, sem pagar bilhete e em versão vida real, basta ler jornais...infelizmente.

Não é que não haja mulheres a sofrer de Síndroma de Otelo que fazem a vida negra aos companheiros, mas no masculino é mais perigoso. Repito o que escrevi em tempos por aqui:


"O ciúme masculino vem da posse e da imaginação. Uma vez implantado um cenário mental, seja qual for o motivo, um homem ciumento não abre mão dele, por mais provas que tenha do inverso. O ciúme masculino procura confirmações onde elas não existem, se for necessário recorre a calúnias de estranhos para se alimentar, devassa o passado e transporta-o para o presente (...)
 Os homens julgam-nos sempre mais ardilosas do que somos, com uma estratégia militar de fazer corar os romanos.  A suspeita basta-lhes, e essa suspeita masoquista é fatal.  Dizem que as mulheres são emocionais e eles racionais - talvez por isso o ciúme deles, nascendo no seio do método, do raciocínio, da posse, é infindável, e mata aos bocadinhos. Recordemos que Othello leva uma peça inteira a ouvir intrigas, e como prova para o desfecho, um lenço mentiroso lhe basta...se fosse Desdémona a ter ciúmes confrontaria Othello, chamava a suposta rival à tábua, deitava o palácio abaixo - mas dificilmente o drama seria uma tragédia. Os homens só complicam".

 Isto leva-me a pensar que não faltam por ai mulheres a sofrer de Síndroma de Desdémona: ou seja, que toleram tudo isto. São as que vêm nos jornais, e as que aturam ensaios de Othello entre quatro paredes.

  Muitas ainda, padecem do Complexo de Helena de Tróia: a beleza só faz com que atraiam Otelos (ou mais apropriadamente, Menelaus) para a sua vida, ora a disputá-las como um prémio ora a fazer-lhes a vida num inferno com cenas de ciúmes. Casos em que a beleza não dá mesmo felicidade...a não ser que venha acompanhada de uma personalidade forte para pôr cobro à brincadeira.


  Mas os Síndromas de Desdémona e Helena de Tróia têm raízes mais profundas; vêm da terrível mania de suportar muito, de um mal mais grave: o Síndroma de Madame Butterfly. Na ópera de Puccini (bem mais trágica do que o conto que a inspirou... mas bem, é Ópera) a geisha Cho Cho San abandona a sua religião, é deserdada pela família, espera três anos por quem não prometeu de vir, fica a ver navios na versão japonesa do Alto de Santa Catarina e por fim suicida-se, tudo por um homem que não merecia tanta dedicação.

 As mulheres deviam ver, ler e ouvir mais os clássicos, para não copiarem as personagens que acabam mal. Mas é uma daquelas coisas mais fáceis de dizer que de fazer...






Thursday, October 2, 2014

Ciumento de uma figa.


O meu gato Farinelli anda a passar uma crise: não gosta nem um bocadinho de dividir as atenções com outro bichano de longa pelagem, e se me vê com o Maggie ao colo é notá-lo a aproximar-se sorrateiro, com ar inquisidor, como quem diz (sem cerimónia, que ele foi criado ao Deus dará e apanhou maus hábitos antes de vir cá para casa, logo é de "tu" para baixo) "tanta coisa que eu era o teu gato e não sei quê e agora dás mimos a este? Sua falsa, cínica, impostora, tudo te serve!".

 E não há carinhos que o convençam de que, embora o Maggie - é um gato com nome de gata porque o pêlo era de tal maneira grande que o veterinário se enganou nos primeiros meses- seja uma das coisas mais fofas à face da Terra e precise de atenção para se ajustar a uma nova família, um amor não tira o lugar do outro. Já tentei explicar-lhe que o pedigree do outro não faz diferença (quanto a beleza estão empatados e amo igualmente os felinos de raça indefinida que tenho) mas qual quê...

 O último número que faz é vir com miados (ele que raramente abre a boca) turrinhas e ronrons, a pedir colo e carinhos e, ao fim de uma sessão de abracinho do gato, beijinho do gato, quem é o Fofinho? Onde ´tá o Fofinho? e melosices do género, ferrar-me uma boa dentada. Morde-me com evidente prazer e retira-se com a maior dignidade que pode, com ar de muito obrigada por cima.




Assim como quem diz "estúpida, partiste o meu coração e como não sou capaz de deixar de gostar de ti  tenho de te castigar, sua leviana que dá confiança a qualquer um!".

E eu, fazer o quê? Aguento a afronta e desculpo, pois.

 São coisas de macho Alfa e de macho alfa estragado com mimos, mas como é um gato dá-se o desconto, coitadinho. Sempre achei que o mais inteligente dos gatos terá, mais ou menos, o intelecto de uma criança muito esperta de 4/5 anos. São bichos muito sensíveis, muito inteligentes, mas eternos bebés. 

 O que é curioso notar é que o Farinelli é um gato, um bicharoco *considerado* não racional; além disso, mal ou bem tem realmente competição e razões, se não para questionar o amor eterno que se lhe dedica, para ficar aborrecido com a concorrência. Ele não quer dividir atenções mas coitado, tem de viver com isso.

 Porém há Alfas humanos, igualmente estragados com mimos, sem concorrência e sem razão para desconfiar que se comportam exactamente na mesma. Não mordem, se calhar (também era o que faltava!) mas fazem bem pior. É para onde é que ela estava a olhar, porque olhou para aquele, porque deu troco ao outro, porque ia vestida assim ou disse assado, e insultos, e desconfianças - quando na maioria das vezes, o sentimento que uma mulher lhes vota é daqueles tão profundos, tão avassaladores que consomem tudo o resto e não deixam espaço sequer a um pensamento rápido dedicado a outra pessoa. Só um amor desses explica que elas aturem cenas assim, de outro mundo e de outro tempo.

 O gato ao menos é gato, e tem razões de queixa, e sempre se pode amassar e encher de abracinhos ou fechar de castigo, se não se fizer nada dele. Soubesse eu e tinha chamado Othello ao gato, em vez de Farinelli. 

Friday, August 1, 2014

De Ofélia, todas temos um pouco.

Ophelia, Arthur Hughes


Ofélia é sem dúvida a personagem do Bardo mais representada na Arte. Da pintura à fotografia, passando pela moda, poucas mulheres da ficção foram tantas vezes retratadas ao longo dos séculos - ou mais analisadas.

                                         

Nem Julieta comove tanto - ou intriga tanto - porque Julieta tem a recompensa do amor (tanto na vida, como na morte) e é inocente, transparente, fácil de entender. Ama, é amada, o mundo não a deixa amar, morre sacrificada às paixões terrenas dos outros para continuar o seu destino no outro mundo ao lado do homem que escolheu, end of story. 



Além disso, Romeu era apenas um rapaz, com todo o ímpeto e idealismo dos rapazes. Hamlet era um homem e um príncipe, ou deveria sê-lo. Portia, Caterina, Jessica, Lady M., destacam-se pela sua iniciativa, pelo seu mau feitio, pela sua coragem ou ardil mas Ofélia, coitada -um pouco como Desdémona -  é lembrada por ser vítima do seu amor, do amor de Hamlet, da sua própria beleza, castigada por ser irresistível para Hamlet.


 " (...) Ophelia, I hope that your beauty is the reason for Hamlet’s insane behavior, just as I hope your virtues will return him to normal some day, for the good of both of you".

(Act III, cena I)

Não é uma mulher forte ou determinada: a única intensidade que se lhe conhece é a paixão, e a paixão é péssima conselheira.
Só os amores que corriam bem na vida podem correr bem no Além - os que não se resolveram neste mundo não se resolvem no outro. E assim é com Ofélia e Hamlet, já lá vamos.

Se Hamlet é considerada a maior obra de Shakespeare - e a mais densa - não seria eu (que ainda por cima, continuo a preferir, por um triz, a Peça Escocesa) que me atreveria a 
dissecá-la ou a traçar teorias.

 Mas sendo impossível a quem lê ou vê a peça (quem diz peça, diz filme) não tirar as suas conclusões, aqui vos digo em duas linhas: Ofélia ama Hamlet apesar de todos os avisos do pai e do irmão, que lhe dizem que sendo ele um príncipe não pode dispor de si, por muito boas intenções que tenha:

"Perhaps he loves you now (...)
 but you must fear.
His greatness weighed, his will is not his own,
For he himself is subject to his birth (...)".

                                                        (Act I, cena III)


E Hamlet ama Ofélia. Muitíssimo, demasiado. Nunca fica claro se a relação entre os dois foi consumada, mas vários trechos indicam que assim foi e que inclusive, Ofélia espera uma criança dele. O pior é que Hamlet, traumatizado pela morte do pai e revoltado pelo casamento quase imediato e escandaloso da mãe, começa a acreditar que nenhuma mulher é fiel, que todas são ardilosas e falsas, poços de sensualidade sem auto domínio nem coração que não fazem senão atraiçoar os homens que confiam nelas.


 Decide fingir-se de louco para desmascarar o tio usurpador do trono, mas a julgar pela sua atitude para com Ofélia (a quem passa a tratar como se fosse um tapete) fica no ar se o príncipe não estará mesmo descompensado de todo. Desconfia dela, imagina-a capaz dos piores actos (ou pelo menos, assim o diz, pois não se sabe se ele próprio acredita no que diz) e fá-la sentir-se culpada pela sua beleza pecaminosa. Segundo ele, beleza e virtude não podem andar juntas:

"Ay, truly, for the power of beauty will sooner transform honesty from what it is to a bawd than the force of honesty can translate beauty into his likeness. This was sometime a paradox, but now the time gives it proof. I did love you once". (Act III, cena I)

Os seus abusos descontrolam-se de tal maneira - com a infeliz a sofrer-lhe tudo, julgando que ele está gravemente doente - que ele chega a embaraçá-la em público, a mandá-la ir para um convento para não "gerar mais pecadores" ou casar com outro "casa com um tolo, pois os homens sábios percebem bem os monstros em que vocês [mulheres] os transformam" .

"Get thee to a nunnery, go. Farewell. Or, if thou wilt needs marry, marry a fool, for wise men know well enough what monsters you make of them. To a nunnery, go, and quickly too. Farewell".

Piorzinho ainda (conforme as traduções) Hamlet diz-lhe que vá para um bordelpois segundo certas teorias, "convento" era usado, naquela época, como eufemismo para casas de má fama:

"Vai p´rum convento. Ou preferes ser geratriz de pecadores? (...)
OFÉLIA: Oh, céu clemente, ajudai-o!

HAMLET: Como te pintas! Deus deu-te uma cara e fazes outra (...) chega - foi isso que me enlouqueceu. P´rum bordel - vai! 

(Acto III.1)"
A  constante violência psicológica e o assassinato acidental do pai às mãos de Hamlet (porque o esquema do príncipe acaba mesmo por descarrilar, como era fácil de prever) acabam por levar Ofélia ao limite. É ela que enlouquece mesmo e - nunca se percebe se por pouca sorte ou suicídio - morre afogada.
 Essa combinação de sensualidade, fragilidade, culpa, amor desesperado e por fim a morte num elemento tradicionalmente feminino, a água, tornaram a personagem uma inspiração para centenas de artistas e motivaram incontáveis estudos por diferentes escolas de pensamento.

  Voltando à história, é claro que depois Hamlet chora muito e diz que sem ela não tem motivos para viver (e de facto, arranja mesmo maneira de morrer logo a seguir). Típico..

E porque digo eu que em cada mulher há um pouco de Ofélia? Porque não conheço nenhuma que, por amor, não se tenha sujeitado a ouvir ou suportar coisas que deviam ser atalhadas antes de começar, depois de já terem percebido há muito que algo vai podre no Reino da Dinamarca. E, como diria Hamlet, o resto é silêncio...






Thursday, July 24, 2014

As coisas que eu ouço: era um homem tão ciumento, mas tão ciumento...



Na terra dos meus avós, nos tempos em que a moral e os costumes eram outros, as mulheres honestas evitavam - como em toda a parte naquela época, de resto- andar desacompanhadas. Parecia mal a uma mulher casada, menina solteira ou a uma senhora de respeito ser vista em constantes passeatas.
  Se alguém insinuava a uma mulher que se tinha por virtuosa que ela passeava muito, ai ai: o mais certo era receber a resposta bem torta "era o que faltava! Tenho de aviar a minha vida!".
 Aviar não tinha, neste caso, o contexto de "despachar". Aviar a vida seria o que hoje se entende por ir às compras. E aviar a vida era precisamente uma das poucas desculpas que uma mulher tinha para pôr o nariz fora da porta, principalmente se não dispunha de pessoal doméstico que fizesse de pau de cabeleira ou - melhor ainda -  que aviasse a vida por si. 

Quando os transportes públicos se banalizaram,também não parecia bem ir sozinha numa camioneta cheia de estranhos; quem  tinha um marido com carro próprio evitava sujeitar-se a essas idas e vindas.

 Pois bem, mesmo neste cenário havia um homem que passava todas as marcas, o que ao mesmo tempo escandalizava e divertia os vizinhos. Casado com uma mulher ainda jovem e bonita, era de tal maneira possessivo, ciumento e desconfiado que entendia que toda a gente a achava tão deslumbrante como ele mesmo e via rivais até nas pedras do chão; a pobrezita não podia dar um passo porque o marido suspeitava da  própria sombra...

 Uma vez que o casal não era propriamente abastado, a esposa do ciumento era das tais que se precisava de "ir à cidade" tinha de o fazer de camioneta. Como o zeloso compulsivo trabalhava, não a podia acompanhar, e...que remédio senão deixá-la. Mas na véspera já estava em ânsias e fazia-lhe mil recomendações, que a infeliz sofria com paciência de santa.

 Ora, naquela altura estava na moda usar o cabelo nuns chignons, ou carrapitos, com a franja solta e ligeiramente ondulada. Pois uma das directrizes mais desesperadas do ciumento era que a mulher se livrasse de fazer a onda no cabelo, não fosse o motorista do autocarro apaixonar-se por ela!

 Ela lá lhe fazia a vontade, o que provocava muita troça entre as amigas: mas a verdade é que se  fosse mulher de lhe pregar alguma partida, não seria por falta de onda no cabelo que deixaria de o fazer...quem quer portar-se mal é capaz disso com onda ou sem onda, mais bem arranjada ou menos, e não precisa de se deslocar para isso, nem de arranjar namoro com o motorista da camioneta.

 Bem se vê que os ciúmes tornam os homens tolos. Já assim era no tempo de Boccaccio, e ainda hoje continua exactamente na mesma.


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