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| A nossa Bimby é mais cara que a vossa (e também temos uma colecção de Tupperwares maior). |
Estava eu a comentar este post com uma pessoa chegada - pessoa essa que como conhece de perto hipsters e todo o tipo de gente sabe sempre coisas do arco da velha - e fiquei a conhecer um disparate de todo o tamanho.
É que há casais jovens e dinâmicos assim do género novo yuppie ou burguesinho (daqueles metidos a trendy e cosmopolitas que odeiam o campo, adoram viajar, vão em todas as modas, fazem questão de comer sushi mesmo que detestem, espatifam o cartão de crédito, fazem jogging no meio da estrada, dão pontapés no português, compram em todas as marcas médias ou entry level porque os logótipos são maiores, põem aos filhos nomes da moda que nunca houve na família seguidos de outro mais a condizer estilo Constança Iara ou Tomás Rúben e outras maluqueiras de classe média emergente (publicadas de cinco em cinco minutos nas redes sociais - olhem para isto: a Constancinha fez cocó verde, que lindo!) ... que não só estão convencidos de que a Bimby faz tudo sozinha (e ao que finalmente percebi não faz; só corta e cozinha uma coisa de cada vez, é assim uma espécie de parente rica do vulgar 1-2-3 da Moulinex) como a levam a passear.
Ou seja, quando se juntam com outros casalinhos iguais nos apartamentos super urbanos uns dos outros (para falar de futebol, ou dos saldos da Ana Sousa, ou para se queixarem da sogra, a Sra. Felismina, que lhes quis dar um naperon, do patrão que é um chato, ou da empregada da limpeza que não sabe mexer na Bimby) cada um leva a sua Bimby.
Suponho que no final cada casal guarde as sobras numa tupperware mas tem de ser mesmo Tupperware, se for numa do Ikea já não é a mesma coisa. Um autêntico swing de Bimbies e Tupperwares.
Não é que isto tenha propriamente mal nenhum - mas é muito engraçado, minha gente.
Faz-me lembrar as crianças, que levam os brinquedos para brincar em casa uns dos outros e comparar quem tem mais coisas da Barbie. Os vulgares churrascos já não têm graça; é preciso prestar homenagem a um electrodoméstico complicadote, porque não basta tê-lo: há que justificar o investimento exibindo-o.
Como não aprenderam a cozinhar (porque em casa dos pais a senhora Felismina, coitada, fazia tudo porque filhos tinham era que estudar..) assim é mais chic, pensam eles. Já era maçador e parolo gabarem-se das viagens para a Tailândia pagas a prestações...tentar fazer vista com um robot de cozinha é o fim do mundo.
Isto vendo a coisa pelo ângulo meramente social, porque se vamos para o aspecto antropológico, pior estamos: que fossem só as mulheres a fazer coisas destas, enfim. Há uma esposa de Stepford em todas e se a engenhoca até funciona, ter um assomo de exibicionismo é uma tolice que numa mulher se desculpa.
O pior é que os homens fazem outro tanto e apoiam "ai, a Marta coitada só cozinha na Bimby...tão lindo!" ou " a minha Bimby foi mais cara que a tua" . Eu explico: que um homem se ocupe do coelho à caçador, das facas japonesas que trincham carne como se fosse manteiga ou do barbecue é perfeitamente masculino e aceitável. Mas um homem a fazer questão de levar uma Bimby debaixo do braço? Desculpem, isso é a coisa mais amaricada que já ouvi, sem ofensa porque sinceramente não vejo um casal gay a fazer uma destas.
São homens destes que não se sabem impor minimamente, que aplaudem todas as doidices, que aturam todos os desmandos e desvarios. Uns bananas sem espinha dorsal, em suma. Depois queixam-se que "a Ana dá cabo de mim porque ainda não conseguimos engravidar" (frase que dá urticária) ou "a Patrícia passa demasiado tempo com o personal trainer e torrou o American Express nos saldos do Dolce Vita, mas ela é que sabe".
Não consigo estabelecer bem a relação entre a possidonice, os homens feministas disfarçados, o modo Pato Bravo de ser, certos modismos e o descalabro da sociedade... mas que ela existe, existe.







