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Friday, October 13, 2017

Há pessoas que só respeitam quem as trata mal. É incrível.



Aprendi com a minha família e com a Bíblia- e mais tarde, a ler Maquiavel, Sun Tzu, Mazzarin e outros estrategas - que raramente é preciso ser mau para chegarmos onde queremos. A diplomacia, a gentileza, a bondade, a calma, a paciência e a discrição 
levam-nos mais longe do que uma atitude prepotente de "quero, posso e mando" e do que atalhos desonestos, que têm sempre prazo de validade (veja-se o nosso amigo Sócrates). 

Juntando a essas características a ética de trabalho, o trabalho árduo e o entusiasmo, não há nada que não se consiga fazer.




O tempo confirmou-me essa ideia:  as pessoas mais bem sucedidas com quem tenho privado são o vivo exemplo disso. Quanto mais próximas do topo, mais bondosas e amáveis costumam ser. É nos quadros intermédios que costumam estar os serzinhos insuportáveis: competentes e empenhados q.b ( ou obcecados)  para subirem até certo ponto, mas demasiado impossíveis de aturar para que alguém no seu perfeito juízo os deixe ascender a altos voos ou manter-se lá. Ninguém respeita os brutos.




 O uso da veemência, da força ou mesmo da assertividade deve ser reservado como recurso expressivo para quando já não se vai lá com serenidade, papas e bolos. O bem sempre que possível, o mal sempre que necessário (ou apenas se for mesmo necessário). Ou como dizia o outro, caminha em paz mas leva um cajado bem grande na mão! Lá por uma pessoa ter ética, não quer dizer que seja pateta. Ou como a avozinha me repetia sempre "Deus Nosso Senhor também não gosta que a gente seja palerma!".


E não me tenho dado mal com a abordagem...




No entanto, há sempre alminhas que parecem ter alergia à honestidade e à gentileza: ou seja, quando lidam com gente de bem (mesmo que se tenham dado mal com quem se comporta do modo oposto) em vez de ficarem aliviadas, todas contentes de encontrarem pessoas de confiança, e de as estimarem para não as perderem, decidem abusar. Entram em modo "se me dão o dedo, eu quero o  braço todo". 


E tratam de lidar com os bons como lidavam com os maus- ou pior ainda, pensando que podem porque quem é bom não reclama nem retalia. 




Na cabeça destes entes, bom = a trouxa.  Na sua óptica, só é gentil quem é demasiado cobarde para ser mau; só é honesto quem não tem lata  para ser matreiro; só é educado quem não possui coragem para fazer exigências ou para dar respostas tortas.

Não lhes passa pela ideia que alguém possa ser bom, ser honrado, agir discretamente, fazer pouco barulho, querer o bem de todos e ter palavra, não porque se deixa intimidar ou porque não tem alternativa, mas por simples escolha sua, por hábito de berço e por natureza de carácter. Tomam os outros por idiotas: não lhes ocorre que as pessoas lhes topem os esquemas perfeitamente, apenas prefiram não o demonstrar para evitar um confronto aberto e darem a volta à questão de uma forma airosa. Podemos ser ardilosos e não sermos umas bestas.





Para criaturas assim, as pessoas boas são demasiado boas para ser verdade, logo há que tratá-las com a mesma sem cerimónia que se dedica às pessoas más.

E é mesmo isso que fazem, porque se calhar nunca aprenderam aquela frase de S. Francisco de Sales''Nada é tão forte como a gentileza 
e nada é tão suave como a verdadeira força".

Coitados, só entendem a linguagem da má criação e da trapaça (ou em casos extremos, a linguagem do banano e da bolacha).





O lado positivo disso (já que é impossível evitar totalmente tropeçar em criaturas que só respeitam quem é tão bruto como eles ou pior) é que por vezes, passar por menos esperto do que se é na realidade dá imenso jeito. E ter paciência de Santo, também. Quando os espertalhões julgam que o "bonzinho" não vai fazer nada, que se vai deixar pisar à vontade, já ele, de saco cheio e irremediavelmente roto mas nas suas calmas, metido consigo, preparou uma estratégia para lhes tirar o tapete. 

Quando dão por ela já é tarde; espalham-se ao comprido, sai-lhes o tiro pela culatra, o bonzinho segue alegremente com a sua vida deixando-os na mão e os chicos-espertos têm de voltar a lidar com pessoas que não prestam, que é para aprenderem. O calado vence tudo, era outra frase que a avó me repetia vezes sem conta. 

E isto não é ser sonso, é ser estratégico.

Monday, August 22, 2016

As "Cherie Blair" da vida.




Há dias, a propósito deste livro engraçadíssimo que tive a sorte de encontrar, lembrei-me da desgraça ambulante que era a ex "Primeira Dama" do Reino Unido, mulher de Tony Blair. Apesar de ser uma advogada de gabarito, com uma carreira de sucesso, bem casada, mãe de vários filhos e tida como uma mulher inteligente, uma intelectual...Cherie não demonstrou grande sabedoria nem senso comum.

Não prestou nenhum favor ao pobre do marido enquanto ele ocupou o cargo de Primeiro-Ministro (cargo com algumas situações bastante espinhosas a enfrentar, começando pela gestão da crise mediática que se seguiu à morte de Diana de Gales) e fez de si própria constante alvo de chacota.




Sem querer agora dar uma biografia detalhada da senhora nem entrar em detalhes sobre a sua "panelinha" com Hillary Clinton que tem andado nas bocas do povo (é caso para dizer: olha que duas se juntaram!), recorde-se: no seu dia a seguir às eleições (1997), Mrs. Blair cometeu a imprudência de vir à porta pela manhã, recolher um ramo de flores (convenientemente encomendado por um paparazzo) em chinelas, com uma camisa de dormir nada sedutora e toda descabelada. Foi um pratinho para os tablóides, que se deliciaram com a sua ausência de noção, realçada por  respostas do tipo "sabia lá eu!"...como se não se conhecesse o que é a imprensa inglesa! Mas até isto poderia ter sido usado a seu favor - o público adora uma ingénua - se a fiada de disparates, ora deliberados ora por pura falta de jeito, não se seguisse em catadupa.



Socialista e republicana ferrenha, recusou-se a usar saias e a fazer a "curtsey" (graciosa reverência tradicional) a Sua Majestade, como seria esperado dela. Era como se essa pequena cedência, esse elementar profissionalismo, o pedacinho de humildade e de conhecer o seu papel que é apanágio dos grandes, a matasse.

Isabel II , Rainha dos pés a cabeça como sempre, troçava dela com infinita condescendência: "os joelhos parecem endurecer-se-lhe assim que me vê", comentava jocosamente.


 Depois Mrs. Blair parecia fazer questão de usar exactamente o que a desfavorecia: a não ser que o dress code não deixasse qualquer lugar à imaginação, era uma tragédia pegada. De vestidos linha A ou de malha que só chamavam a atenção para as ancas largas e para os braços gorduchos a trajes casuais e preparos tão relaxados que roçavam o desmazelo, passando pelas cores menos lisonjeiras para si, Cherie nao acertava uma e  dir-se-ia que se comprazia com a sua "rebeldia" rematada por constantes trejeitos, gestos desabridos e caretas, o que levou a que a imprensa fizesse cruelmente troça da sua "bocarra de caixa de correio". E com isso algum trabalho meritório que realizava, nomeadamente de caridade, acabava por passar despercebido...



Mas o que há mais é "Cherie Blairs" por ai:  mulheres que acham que não precisam de se reger pelo mais elementar bom senso; que julgam dar uma imagem de muito "resolvidas" por desafiarem gratuitamente as mais inócuas directrizes de boa sociedade ou de bom gosto.  O mundo é que se deve ajustar a suas excelências, dar-lhes palmadinhas nas costas, acomodar-lhes as manias com um muito obrigada por cima - e não elas moverem-se de acordo com o mundo.

 As Cheries Blairs da vida (mais gordas ou mais magras, mais velhas ou mais novas, intelectuais ou rapariguinhas de shopping) sofrem do tal mal do bovarismo: acham-se demasiado cultas, espertinhas,  indomáveis ou rebeldes para ceder a quem quer que seja ou cumprir as regras de bom viver, mesmo no seu próprio interesse.

 Tudo lhes é devido, pensam as coitaditas - e por isso adoram mostrar um ar de desafio gratuito e ter um discurso provocador e irrealista, armadas em chicas espertas, desinibidas ou moderninhas (conforme o perfil, e há vários).

 Da desleixada que quer enfardar à vontade e vestir como bem entende mas fica toda melindrada por não encaixar nos "padrões de beleza", à Samatha Jones de trazer por casa que depois de uma divertida carreira de oferecida e doidivanas se queixa que ninguém a quer para relacionamento sério porque os homens são "uns cobardes, uns aproveitadores e uns bananas" passando pelas  *pseudo* intelectuais de serviço que adoram discutir política aos guinchos e berrar "não me subestime!", nunca lhes ocorre que o problema possa, afinal, estar nelas.



Em suma, as Cherie Blairs da vida não sabem o que é bom para si. Não aprenderam na adolescência que o mundo não se compadece de "rebeldias" fúteis, nem tem pachorra para ressabiamentos;  tão pouco perceberam que não há almoços grátis. E assim continuam a levar "calduços da vida" pela vida fora, passe o pleonasmo...





Wednesday, April 13, 2016

S.João Crisóstomo dixit: mais vale pouco, mas de qualidade.


Dirigindo-se aos fiéis para os alertar quanto ao mau comportamento dentro da Igreja, S.João Crisóstomo (para quem tais faltas de respeito mereciam um raio, pois nesse tempo nem os Santos tinham papas na língua) dizia o seguinte:

 "De que vale ter feno em abundância, quando se poderia ter pedras preciosas? O montante não consiste na soma dos números, mas no valor comprovado. Isso também se pode ver na guerra: melhor são dez homens bem treinados e valentes, do que dez mil sem nenhuma experiência. Estes últimos, além de não trabalharem, atrapalham os que trabalham.
O mesmo também se pode ver no caso de um navio: melhor são dois marinheiros experientes do que grande número de inábeis, pois estes afundarão o navio."


 A homilia deste Doutor da Igreja conhecido pela sua eloquência extraordinária (Crisóstomo significa "boca de ouro") aplica-se hoje mais do que nunca no contexto religioso: há quem diga que a Igreja não perde fiéis, perde infiéis. Mas podemos considerar as suas palavras num sentido mais abrangente.

Quantidade sem qualidade de nada vale. E em certos casos, a quantidade per se é mesmo perniciosa. Há quem se lamente por perder amigos: mas amigos falsos, ambíguos, invejosos, desleais ou que jogam com pau de dois bicos, são como os fregueses de más contas que compram fiado: mais vale perdê-los do que tê-los. Lá está, marinheiros que afundam o barco não fazem falta nenhuma...

De igual modo, as mulheres em geral gostam de ter muita roupa: algumas até fingem envergonhar-se disso, mas secretamente orgulham-se do seu armário a rebentar pelas costuras. No entanto, não só a quantidade exagerada desorganiza (todas já sofremos disso uma vez ou outra) como na maioria dos casos, o conteúdo do guarda roupa não vale um caracol. De poliéster a coisa contrafeitas, disso se compõe a "colecção" de muita gente. Acumular muita roupa e sapatos, mas de qualidade inferior, é o mesmo que não ter nada que preste para usar. É andar feita boneca de feira. Roupa má presta o mesmo serviço dos soldados que só assarapantam as tropas.



E nem falemos nos homens promíscuos que se gabam aos amigos das suas muitas "conquistas": quem escolhe pouco, quem não selecciona, quem vive pelo ditado "tudo o que vem à rede é peixe" não acerta uma. Julgam-se assim uns playboys, mas não só perdem a dignidade, relacionando-se com mulheres de meter dó (quer na moral quer no que diz respeito à beleza - pois só as desesperadas cedem a tais esquemas) como ganham uma reputação capaz de afastar qualquer rapariga séria e ainda se arriscam a acabar presos a uma serigaita espertalhona que lhes faça a vida num inferno. E no fim da lista, quantas conquistas valeram a pena? Ainda que falando só no sentido mais superficial, é mais impressionante conquistar uma só beldade do que de muitas marafonas banais. Um punhado de diamantes vale mais que uma tonelada de palha.

  No feminino isso também acontece: há mulheres vaidosas e inseguras que adoram alimentar pretendentes e admiradores. Sentem-se poderosas por receberem atenção, mesmo que seja atenção negativa, expõem-se quanto podem, vão para a rua vestidas como a Beynocé entra em palco, dão troco a tutti quanti; cada like nas redes sociais contribui para a sua duvidosa coroa de glória, cada elogio meloso lhes infla o ego. Mas um convite para jantar ou pedido de namoro do homem de quem realmente gostam perturbá-las-ia mais do que todos os comentários juntos. Momento que dificilmente aparecerá, pois a sua forma de estar não proporciona que a levem a sério. Antes um soldado valente só, do que muitos em debandada. Ou neste caso, à distância segura de quem vê um estafermo numa montra, pensando "faz vista, mas não me serve".

E até na cultura isto se vê: há quem adore mostrar que sabe de tudo, pôr colherada em tudo, opinar sobre tudo, tocar quantos pianos há, sem se dedicar realmente a nada, sem aprofundar nada. Ter cultura geral e ser multifacetado é muito bonito e recomendável, mas há que evitar ser um diletante, um espalha brasas, um chico esperto que fala de tudo sem ter conhecimento de causa no que quer que seja. Voltamos ao feno e à palha...

Em toda as coisas, menos pode ser mais. E é-o quase sempre...



de que vale ter feno em abundância, quando se poderia ter pedras preciosas? O montante não consiste na soma dos números, mas no valor comprovado. Elias foi um: mas o mundo todo não valia tanto quanto ele. (…) Que necessidade tenho eu de uma multidão? Ela é (apenas) mais alimento para o fogo. (…)
Isso também se pode ver na guerra: melhor são dez homens bem treinados e valentes, do que dez mil sem nenhuma experiência. Estes últimos, além de não trabalharem, atrapalham os que trabalham. O mesmo também se pode ver no caso de um navio: melhor são dois marinheiros experientes, do que grande número de inábeis, pois estes afundarão o navio.
- See more at: http://ocatequista.com.br/archives/16945#sthash.mQHfUHDb.dpuf
de que vale ter feno em abundância, quando se poderia ter pedras preciosas? O montante não consiste na soma dos números, mas no valor comprovado. Elias foi um: mas o mundo todo não valia tanto quanto ele. (…) Que necessidade tenho eu de uma multidão? Ela é (apenas) mais alimento para o fogo. (…)
Isso também se pode ver na guerra: melhor são dez homens bem treinados e valentes, do que dez mil sem nenhuma experiência. Estes últimos, além de não trabalharem, atrapalham os que trabalham. O mesmo também se pode ver no caso de um navio: melhor são dois marinheiros experientes, do que grande número de inábeis, pois estes afundarão o navio.
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de que vale ter feno em abundância, quando se poderia ter pedras preciosas? O montante não consiste na soma dos números, mas no valor comprovado. Elias foi um: mas o mundo todo não valia tanto quanto ele. (…) Que necessidade tenho eu de uma multidão? Ela é (apenas) mais alimento para o fogo. (…)
Isso também se pode ver na guerra: melhor são dez homens bem treinados e valentes, do que dez mil sem nenhuma experiência. Estes últimos, além de não trabalharem, atrapalham os que trabalham. O mesmo também se pode ver no caso de um navio: melhor são dois marinheiros experientes, do que grande número de inábeis, pois estes afundarão o navio.
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Wednesday, February 3, 2016

Com idade para ter juízo


Há uma frase do livro Memórias de uma Gueixa que sempre me ficou: "as ilusões são como os adornos de cabelo: as raparigas gostam de usar muitos ao mesmo tempo; as mulheres mais velhas parecem tontas usando apenas um".

Isto porque até as coloridas gueixas passavam a usar trajes e enfeites mais sóbrios depois da maioridade.

Quer isto dizer que uma vez passada a adolescência, se deva prescindir da capacidade de sonhar? De todo. Quem o faz, morre para a vida. Mas sempre me disseram que há coisas que é indesculpável tolerar ou fazer depois dos 25 anos.

 E creio bem que uma delas é iludir-se com promessas vazias, com intenções fátuas, alimentando situações que não levam a lugar algum ou acreditando em pessoas que já provaram e voltaram a provar que nunca realizarão nada do que dão a entender. Na primeira juventude ou quando a situação é inteiramente nova, vá que não vá.


 Passa, como passam os pecados de estilo que toda a gente comete quando ainda não encontrou ao certo o que lhe fica bem. Mas num adulto é tão pateta deixar-se iludir como continuar a usar roupas, acessórios e penteados de adolescente. Não bate certo, parece estranho, fica datado e não é produtivo. Isto aplica-se a várias coisas: das pessoas que continuam pateticamente a perseguir sonhos de menino enquanto deixam as contas por pagar às mulheres que se deixam enganar por um homem que claramente não sabe o que quer para ele, quanto mais para os outros. Há que pensar "que figura faria eu se vestisse agora o que usava aos quinze anos?" - indo buscar retratos antigos se preciso for, para ter a ideia bem presente - e fazer a comparação. E se o resultado não for bonito, se parecer ridículo, mudar rapidamente.  A ingenuidade tem prazo de validade, e o wishful thinking também. 


Sunday, January 31, 2016

S.João Bosco: a ignorância é a mestra da admiração




Conta-se que S.João Bosco, que se homenageia hoje - canonizado em 1934 e aclamado por S.João Paulo II como "pai e mestre da juventude" - tinha um lado muito brincalhão. Como ficou órfão muito novo e não dispunha de grandes recursos, quando tinha por volta de dezassete anos trabalhou como criado de mesa num café em Chieri, no norte de Itália. E para se entreter, dedicava-se a fazer truques de magia que espantavam o patrão e a clientela.

 Na verdade, o seu repertório era de tal modo impressionante - de fazer aparecer um frango vivo no prato onde havia um frango assado a transformar dinheiro em lata ou água em vinho - que a dada altura o signor Cumino, dono do café, deixou de achar graça e foi a correr chamar um Padre , queixando-se de que tinha um mago em casa. Quem fazia tais coisas, só podia ser por artes demoníacas. 



O Padre tomou o caso a sério e chamou por sua vez o Cónego e Arcipreste, que não foi de modas e mandou vir o rapaz para o interrogar sobre a Fé. João respondeu a todas as questões com muito acerto, contendo o riso, e finalmente contou ao Cónego que tudo não passava de ilusionismo, demonstrando mesmo como fazia alguns truques. O bom do Inquisidor, que estivera quase para o denunciar ou - palavras suas- "com vontade de lhe dar uma sova" desatou então a rir-se da esperteza do rapaz e mandou-o embora com um presente, recomendando-lhe "vai, João, vai em paz e diz lá a todos que a ignorância é a mestra da admiração".

E não será mesmo? Se é verdade que para bem viver, para manter o entusiasmo na existência, é preciso nunca perder um certo espírito infantil de nos maravilharmos com o que é belo (e de encontrar beleza nas coisas mais simples) também não deixa de ser verdade que só os papalvos se admiram com tudo e pasmam para qualquer coisa. Sem espírito crítico, é-se refém de tudo e todos; quem não é um bocadinho mundano, um bocadinho céptico, passa por pateta, social e espiritualmente falando...



E isto verifica-se nos mais variados sectores: as pessoas que aderem a todas as modinhas e modismos, como se nunca tivessem visto nada, ou que ficam de joelhos perante qualquer figurão, fazem de labregas ou de pouco sofisticadas, no mínimo. Conhecem por acaso uma semi-celebridade da televisão? Ei-las a postar  bela da selfie, como quem encontrou um bicho raro. Há novidade?
Adoptam-na como se fosse a Pedra Filosofal e advogam em público a causa, com a devida mudança no retrato do perfil só para não ficarem atrás da carneirada toda.



 Uma personalidade visita a parvónia? Vai de convidá-la lá para casa no maior servilismo, não sem avisar  antes "a nossa casinha é muito simples". É o espírito das fangirls, groupies e fanboys, que seguem para toda  parte qualquer ídolo do momento. E em certas pessoas, esse espírito de teenager dura toda  vida. Falta-lhes sobriedade e noção do apropriado: afinal, quem teve acesso a muita coisa, quem já viu muita coisa e conheceu muita gente, não se deixa impressionar sem mais aquelas.



E o mesmo acontece quando se trata de questões de fé ou de remédios. Uma mixórdia fica na moda, toca a tomá-la. Uma terapia espiritual mais recente que muito whisky de supermercado anda na berra, toca a acreditar piamente no guru, só porque ele lhe disse com ar entendido "você teve problemas em pequenino" ou "uma tia que lhe morreu tem uns recados do Além para si" como se toda a gente não tivesse todo problemas em pequeno (de pais que não se entendiam a varicela e papeira) ou tias que bateram as botas.

Isto sem falar nas almas que - já com boa idade para ter juízo- mal entram numa relação, vai de jurar amor eterno em público e de partilhar intimidades que só aos envolvidos deviam dizer respeito, sem ao menos avaliarem se o caso tem pernas para andar.



 O espírito infantil de quem nunca viu nada é o mal de muita gente.  É mesmo um mandamento da elegância ser um pouco blasé e conter a admiração, por mais legítima que seja. Bem diziam Baudelaire e La Fontaine:  "há que  surpreender os outros sem que nós mesmos jamais o sejamos" e "aqueles que do mundo não têm nenhuma experiência deixam-se surpreender por coisas sem qualquer importância" .

O cinismo é como tudo na vida: tal como o ciúme e as especiarias, em excesso é mau, mas em pequenas doses traça a linha entre o saber estar e o pasmar para as coisas. Por muito ingénuo ou ávido de emoções que se seja, é possível ao menos fingir alguma indiferença para não passar por tolo. No mínimo, até se ter a certeza de que a "grande novidade" não é passageira, nem um verbo de encher ou um engodo de marca maior...






Thursday, December 3, 2015

As coisas que eu ouço: a linguagem universal das lágrimas


O meu grande amigo Paulo Ilharco, poeta a sério (que nisto de poesia eu sou um pouco embirrenta) e um formosíssimo talento daqueles que não nascem nas árvores, teve esta semana o emocionante lançamento do seu livro, "Raio X à Alma", num dos espaços mais emblemáticos de Coimbra, com luzida assistência e melhor música.

E, comovidíssimo, desculpou-se citando uma frase que eu já tinha ouvido, mas não recordava onde, nem o autor: "só os corações de pedra não entendem a linguagem das lágrimas". Cá me ficou, porque falámos nisso recentemente, a propósito daqueles instantes em que se descobre que há pessoas que se podem amar, até se descobrir, ipsis verbis, que não são boas pessoas.

Fui ver e as bonitas palavras são do autor espanhol Severo Catalina: a linguagem das lágrimas não pode ser entendida pelos corações de pedra. 




Veritas est...nas relações pode haver diferentes formas de comunicar e de sentir; uns são mais emocionais e expressivos, outros menos; cada pessoa é um universo e às vezes, mesmo a cara metade com quem se partilha tudo pode não entender o que o outro sente, ou reagir com naturalidade a coisas que deixam o outro em parafuso. Até as almas gémeas (se é que existem, que eu acho o conceito um pouco piegas, com pouco de romântico e nada desafiante) têm os seus diferendos.

Mas lágrimas? Poupem-me.Transcendem diferenças, nuances, línguas e culturas. E olhem que eu não defendo a lagriminha fácil. Mas quem chora é porque sente. É porque está dorido. Quem não entende isso, quem não se comove ao ver o outro que parece um chafariz, destroçado, é um coração de pedra sim senhor, indiscutivelmente. 


Daqueles que não merecem que se fungue por eles, quanto mais choraminguices, soluços e desperdiçar de lenços de papel (perfumados e extra fofinhos, ainda por cima). Ná.

Wednesday, December 2, 2015

Ven. Fulton Sheen dixit (2): How deep is your love?


Uma mulher poderá dizer ao homem que a corteja: "dizes que me amas, mas como saberei se é verdade, quando há outras 458.623 jovens nesta cidade para escolher?"


Se ele souber responder, dirá:

"Pelo simples fato de te amar, eu rejeito-as. O mesmo amor que me fez escolher-te, faz-me desprezá-las".

                         
                                       Ven. Fulton Sheen



Recomendo muito as obras - ou pelo menos, as citações- do Venerável Fulton Sheen (1895-1979) aos que procuram injectar uma dose de bom senso na sua interacção com os outros.

Bispo, Arcebispo, professor universitário, autor mas também uma popular personalidade de rádio e televisão, o muito reverendo Fulton Sheen (que está a caminho da Beatificação) era um homem da Igreja que sabia estar e comunicar no mundo, com um acentuado sentido de humor e a capacidade de  falar directamente aos problemas dos homens e mulheres comuns. É  conhecida uma peripécia que contava, com grande humildade e fazendo pouco caso de si mesmo: certa vez, indo dar uma conferência em Filadélfia, perguntou a uns rapazitos que andavam a brincar na rua se lhe podiam indicar o caminho para a Câmara Municipal.

Um mais atrevido aproximou-se e perguntou o que ia lá fazer.

- "Vou dar uma conferência sobre como ir para o Céu. Queres assistir?"

E o pequenito, sem cerimónia, respondeu:

- "Se não sabe o caminho para a Câmara Municipal, como pode saber como se vai para o Céu?".

Mas a sua sabedoria estendia-se a um bom número de ideias válidas sobre o amor conjugal, o namoro e o casamento. É certo que muita gente acha que homens de batina não têm voto em tal matéria, mas volto a dizer: os médicos também usam bata, e nunca se ouviu dizer que, por exemplo, um médico não possa ser obstetra só porque sendo homem, não compreende os sintomas das senhoras. Acredito que com os médicos da alma acontece exactamente a mesma coisa.

 E o texto acima citado é mais uma das pérolas deste bem-amado autor.



"Pelo simples fato de te amar, eu rejeito-as. O mesmo amor que me fez escolher-te, faz-me desprezá-las".

 Muitas mulheres toleram, às vezes meses e anos a fio, disparates a homens que não sabem o que querem. A homens que têm muitas "amizades" femininas, ou simplesmente amizades que os levam pelo mau caminho, a homens que não sabem escolher, que não crescem, que não têm prioridades ou que - embora não façam nada de "grave", não as fazem sentir como um bom namorado ou noivo deveria.

 Não as colocam em primeiro lugar, como é suposto. Não as tratam com a devida consideração. Não as defendem, como cabe à cara metade fazer. Não eliminam coisas insignificantes que as incomodam nem dão a devida distância a pessoas metediças que tentam causar estragos. Não concedem à mulher de quem dizem gostar o lugar que merece. Em menor ou maior grau, dizem que gostam delas, até o demonstram lá a seu modo, mas fazem-nas interrogar-se a toda a hora, andar angustiadas por causa deles, esforçar-se por causa de coisas mesquinhas, sofrer por causas desnecessárias.


São, em suma, o tipo de homem que leva uma mulher a desabafar constantemente com as amigas a seu respeito, com as famosas frases do género "sei que ele me ama, mas..." e "se ao menos ele...". 


Ora, Fulton Sheen sabia o óbvio - como qualquer pessoa sensata sabe, desde que não tenha as talas do amor à frente dos olhos.

Se um homem dá demasiado trabalho, se é motivo para lágrimas a a torto e a direito, se obriga uma mulher a analisá-lo muito, a tomar chás de camomila e pior por sua causa, a rezar demasiado para que ele "tome juízo" (se é religiosa)  ou (se é dada a misticismos) a consultar uma cartomante ou o facebook (se gosta de armar em detective) para ver o que se passa, enfim, se essa pessoa provoca ralações cada dia que Deus deita ao mundo, não é a pessoa certa. E muito dificilmente mudará para se transformar em tal.

Um homem a sério, um homem sério que ama a sério (e convém ter esses três requisitos de seriedade para valer a pena) não hesita em desprezar tudo o resto, todas as outras, tudo aquilo que possa ser um impeditivo para estar com a pessoa que ama. Isso é pura e simplesmente automático. Se não é, não ama o suficiente. Ou até pode amar, porque há almas com formas de gostar e amar muito esquisitas e distorcidas, em modo "com amigos destes, quem precisa de inimigos?". Mas às vezes o "amor" não basta. 

 E se é "amor" desse, aplica-se a velha frase que dizia o outro: "o teu amor não presta. Não preciso dele".



Monday, November 30, 2015

Ch-ch-chaaaanges, lá dizia o David Bowie.


O mundo pula e avança e é feito de mudança, etc, lá diziam as cantigas. Quem não muda, fica mono. Não evolui, não cresce, vive preso aos sonhos do passado, aos objectivos que já caducaram, e não há nada mais deprimente. É certo que nem toda a mudança é boa. Digo-o de todo o coração, eu que sou careta e avessa tanto à surpresa como à mudança. O mundo vai mal muito por culpa de quem acha que para corrigir o que está errado, basta agir de maneira exactamente oposta e deitar abaixo tudo o que sempre lá esteve para trocar por muito pior. Há muita tradição, costume, valor e hábito que importa conservar. Não raro, convém que a mudança seja subtil; que tudo mude para que tudo fique igual, como cantava Sérgio Godinho.

Depois, há as mudanças realmente estúpidas- é o caso das mulheres que tanto quiseram que os homens fossem como elas (sensíveis, fofinhos e a pôr tudo em causa) que agora dizem que não há homens como Deus manda. Ou o caso daqueles homens que se apaixonam por uma mulher forte, vibrante, cheia de garra, que os desafiava...mas depois, na sua possessividade e insegurança, não descansam enquanto não a transformam num ser frágil, inseguro, que podem manipular a bel-talante. E nessa altura deixam de lhe achar tanta graça, ou de a tomar a sério.

 Mas muitas mudanças são simplesmente inevitáveis. Não se decide fazê-las porque estava na hora, por capricho, porque se quis mudar, porque se proporcionou ou foi preciso fazer esse esforço. Mesmo quando parecem súbitas, radicais, inesperadas ou totalmente fora do estilo de quem as sofre ou as leva a cabo, algumas dessas alterações que têm o efeito de um terramoto, que parecem impossíveis, deram-se porque não houve outro remédio. O destino depois lá trata de conjugar outros factores, a que qualquer pessoa sensata responde em modo Virtú e Fortuna. E em casos assim, não se escolhem os dados. É mesmo alea jacta est e tratar de seguir a corrente. O mundo não entrou em guerra por apetite, mas porque Hitler não deixou escolha. Não havia que reclamar com os Aliados.

E no entanto, muita gente, face à mudança alheia, reclama com os "Aliados"...em vez de se queixar do "Hitler". Em modo "pelo bem que lhe quer, até os olhos lhe tira". A amiga que decide separar-se do marido abusivo, o filho que mudou de curso porque se sentia infeliz, a prima que decide ir fazer voluntariado para África... aos olhos de quem não aguenta que nada mude, todos perderam o juízo ou estão a  desperdiçar a sua vida.

Quem é assim deseja tanto viver no mundo perfeito que criou lá na sua imaginação que ataca quem mudou, em vez de deitar as culpas aos factores que convidaram à mudança. Faz birrinha contra o que mudou e que não está na sua mão fazer voltar ao que era. Esquecendo que qualquer mudança, para ser levada a cabo com bom senso e dar resultados benéficos, precisa de tempo, de calma, de espaço, de respirar, como os bons vinhos.

Há que sair da frente e deixar a vida passar. Nem que seja sob protesto, mas protesto silencioso. Até o Velho do Restelo falou uma vez mas lá se calou para deixar andar as caravelas...



Saturday, November 28, 2015

"Decisões têm consequências. Indecisões, mais ainda"

Imagens via
O senhor meu mano anda cansado de me dizer que eu tenho de ver House of Cards, que vou adorar, que a série (apesar de aparentemente um pouco "cinzentona") é a minha cara porque está cheia de ideias tiradas de pensadores da minha eleição, como Maquiavel, Mazarin e Oscar Wilde  ("everything is about sex, except for sex; sex is about power"- houve fãs que julgaram mesmo que esta era obra dos guionistas) e que também devo gostar porque as personagens femininas são todas janotas.

Depois, algumas páginas que acompanho com atenção também estão sempre a citar Mr. Underwood, bad for the greater good (Machiavelli, I hear you).

Moral da história: House of Cards está na minha lista de séries a ver (junto com Eu, Cláudio, que passou em Portugal ainda eu não era ninguém). Só estou à espera que termine, se não demorar temporadas e temporadas, porque gostava de a levar a eito. Preferia que, se é para politiquice e intriga palaciana, a acção se desenrolasse na Roma Antiga ou no Renascimento italiano e não na Casa Branca, mas pronto. A luta pelo poder há-de ter sempre as mesmas piruetas (basta olhar para o nosso país nos últimos dias) e realpolitik sempre houve e sempre haverá.

Mas falando no que me trouxe aqui, estava a passear nas tais páginas que veneram a série e dei-me com a frase acima, que acho que dá pano para mangas e é outra que muitas almas deviam trazer sempre ao alcance da vista:

"Decisões têm consequências. Indecisões, mais ainda" .

 Esta parece-me ser mesmo obra dos guionistas; pelo menos textualmente, porque a ideia é velha: o desprezo pela hesitação é repetido ad nauseam por Maquiavel, que considerava a indecisão um sinal de fraqueza e dizia "nunca vi demora que fosse prudente"; por Kautilya, que avisava contra as deliberações demasiado longas; por Mazarin, Sun Tzu e tantos outros estrategas e filósofos.

E embora possa soar estranho a mentes mais idealistas colocar no mesmo prato Maquiavel, Mazarin, realpolitik e conceitos como honra e hombridade, a verdade é que podem caminhar lado a lado. Sem capacidade de decisão, não há honra possível. Sem tomar partidos, é impossível agir honesta e limpamente.



É certo que os efeitos de uma decisão não se podem prever rigorosamente; os acontecimentos são desencadeados, como uma pedra atirada que forma círculos cada vez mais amplos na superfície de um lago. 

Nos assuntos profissionais, políticos, diplomáticos, pessoais ou afectivos, decidir algo e abraçar essa opção é sempre um risco. É comprometer-se consigo mesmo e com os envolvidos e defender essa escolha contra ventos e marés.  Dar a palavra ou a cara, tomar um partido, escolher, avançar, comprometer-se - qualquer decisão clara, anunciada inequivocamente e levada a cabo -  abre uma porta e o que surge em consequência disso pode ser benéfico ou não. Os grandes líderes chamam a si tanto os possíveis louros como as hipotéticas derrotas. E o mesmo acontece nas pequenas coisas, nas microcósmicas decisões que afectam cada comum dos mortais. 

  Mas colher a vitória ou a derrota, correr bem ou mal, quer dizer que ao menos se procedeu com coragem; com a valentia de assumir varonil e honradamente, no matter what, o que se sentia, pensava ou aquilo em que se acreditava. Implica que se assumiu um risco por si e pelos outros. Que se valorizava o suficiente o que se tinha em mãos para dar o peito às balas. Isso exige força e carácter.



Não escolher nada, não decidir nada, não dar a cara por ninguém nem por coisa nenhuma, esperando cobardemente por trás do pano o momento mais vantajoso (ou menos perigoso) para virar a casaca, não só é pouco lisonjeiro como não acarreta necessariamente benefícios. Se as decisões podem atrair uma queda em desgraça, as indecisões não são melhores. Se uma decisão abre uma porta que não se sabe o que deixará entrar, a indecisão constante, prolongada, teimosa, é como manter uma barragem fechada por mais que as águas se avolumem e façam força contra ela. Mais cedo ou mais tarde, porque nada é estanque, as paredes vão abaixo e o estrago é muito pior, mais assustador e de consequências mais difíceis de manter sob controlo. 

Uma decisão -e as suas consequências - depende de quem tem coragem de a tomar. Uma indecisão - e o que advém dela - deixa quem não decide coisa nenhuma à mercê dos outros... ou da sorte, que nem sempre é madrinha. 

Uma  decisão pode ou não magoar-nos. Mas as indecisões apanham-nos sempre, e nem ao menos se pode dizer "escolhi em sã consciência, por minha livre vontade, o rumo dos acontecimentos". 





Sunday, November 22, 2015

"Se pode facilitar, não complique"


Muita gente devia dizer isto como uma mantra. Melhor ainda: colar, fixar ou escrever esta regra simplicíssima no frigorífico, para a absorver ao pequeno almoço; no espelho da casinha ou no tecto do quarto, para olhar para ela assim que acorda, quando a mente ainda está fresca e impressionável (uma explicadora de Matemática jurou-me que resultava para fixar as fórmulas). Ou tatuar isto num local bem visível, eu sei lá.

Isto porque a  vida já tem tantas contrariedades e aborrecimentos a fugir da nossa mão, que não dependem do nosso controlo...chega a ser estúpido inventar outras, criar tempestades em copo de água, procurar piolhos num ovo ou bater no ceguinho por detalhes. Seja em casa, num relacionamento ou no campo profissional, não entendo esta mania de criar dificuldades onde elas não existem, ou complicar ao infinito o que só precisa de um jeitinho.



Quase se passa mais tempo no "daqui me perguntaram, daqui me responderam..." do que a tratar da questão em si. E quando de facto se trata da questão, já se vai descabelado, enxofrado, doente dos nervos, provadinho pelo fogo. 


Um  Santo dos nossos tempos disse que devemos dar graças quando nos tiram do sério, porque tudo isso contribui para a nossa purificação e aperfeiçoamento (no melhor modo paciência de Job) mas tenho para mim que há-de haver meios menos stressantes de nos tornarmos pessoas melhores...

Saturday, November 14, 2015

A cura para os males do passado: não fazer como Orfeu


A cura para os males do passado- sejam os traumas, os ciúmes do que lá vai (e que se ressucitaram por abrir a Caixa de Pandora) as más memórias, os maus reflexos que impedem cada um de avançar e evoluir- é só uma.

 E bem simples: trata-se de ter paciência, aceitar que o que passou (seja grave ou menos relevante, mas incómodo) não pode ser mudado. Porém, a boa notícia é que pode ser substituído: basta ir criando memórias novas

Cada alegria apaga uma tristeza; cada instante de realização e segurança destrói uma má recordação; a cada êxito, desaparecem os reflexos do fracasso; cada momento em que um casal se aproxima e cimenta a sua relação passa uma borracha sobre os erros idos, ou sobre os fantasmas que todos carregam. 

Sobre este aspecto, há que reconhecer que infelizmente, por muito jeito que isso desse, não se pode exilar toda a gente que passou pela vida de cada um para a divertida, deserta, remota e incomunicável "ilha dos ex-amores" - perdida algures no Triângulo das Bermudas - onde os "defuntos" se poderiam infernizar alegremente entre si, lá todos juntos sem aborrecer os vivos... logo há que lidar com isso como adultos. E deixar de olhar para trás, porque isso já na  Antiguidade Clássica dava problemas.

Camões não cantou a ilha dos ex amores, mas lá que era útil...

Nos mitos gregos, o genial poeta Orfeu quis descer ao Inferno para ressuscitar a sua amada Eurídice. Hades, Senhor do Outro Mundo, concedeu-lhe a mercê de levar a mulher consigo para a terra dos vivos, com a condição de nunca olhar para trás. Mas Orfeu, tentado e duvidando da sua boa sorte, no último momento não resistiu...deu uma espreitadela fatal - "because when we are in love it´s our hearts that guide us, and betray us everytime".

E zás, Eurídice ficou para sempre no Submundo (podem recordar a história aqui:). 




Não se pode fazer como ele: seja para reconstruir alicerces, para devolver as coisas ao seu lugar de direito ou para erguer algo de inteiramente novo e maravilhoso, o caminho é para diante, sempre para diante, fechando os olhos e correndo mais depressa em direcção à luz se for preciso...




E por estranho que pareça,  as coisas encantadoras que se vão encontrando a cada légua começam a ocupar, aos poucos, cada vez mais espaço - tanto, que a dada altura não há lugar para mais nada. Nada de mau. Nada que não esteja vivo e pulsante, a ter utilidade e função real na existência de quem caminha. Como um balde de água suja que é lentamente purificado à medida que se goteja água límpida lá para dentro, até que toda seja pura e transparente. Practice makes perfect. Nem que ao início seja em modo "fake it ´till you make it" - não vão os espectros e as almas penadas deitar a mão e arrastar os Orfeus e as Eurídices para o abismo...

Wednesday, November 11, 2015

Caixa de Pandora, cada um tem a sua (e há que deixá-la em paz)


Nos mitos gregos da criação, Pandora - tal como Eva- é levada pela eterna curiosidade feminina a abrir uma caixa  que devia manter-se fechada a sete chaves. (Noutra versão trata-se de um jarro, mas o recipiente não faz diferença).

A bela Pandora tinha sido pensada por Zeus para agradar ao Homem, esculpida pelas mãos do artífice do Olimpo, Hefesto, como uma estátua preciosa e sido brindada pelos deuses com muitos dons além da formosura: inteligência, as prendas de mãos, paciência, subtileza, persuasão, movimentos graciosos...o seu nome significava mesmo "a que possui tudo, a que dá tudo"...ou a que tudo tira. E como que para a testar, os senhores do Céu deram-lhe também a tal caixa. Um encanto de caixa, de metal trabalhado e cravejada a pedrarias. 

 Pandora tentou dominar-se, mas tal como a mulher do Barba Azul, não resistiu a dar uma espreitadela..e de lá de dentro saíram todos os males da Humanidade. Ela ainda se esforçou por fechar a tampa, mas a peste, a fome, a guerra, a discórdia saltavam do interior em labaredas amaldiçoadas. Quando no seu desespero conseguiu cerrar o cofre, no interior só restava a Esperança, para consolar as gerações vindouras.

Desde então, chama-se às as situações que são fáceis de desencadear, mas difíceis de controlar, "abrir a caixa de Pandora".  Mas nem sempre a Pandora é uma mulher - a curiosidade ou vontade de brincar com o que devia ser deixado quieto não conhece sexos.


Um mexerico que envolve muita gente, por exemplo, pode ser uma caixa de Pandora. Ou um segredo de Estado assim escandaloso, daqueles tão intrincados e com tantas pontas atadas que fazem cair governos. E também se diz isso dos segredos pessoais, ou informações delicadas, de tricazinhas e detalhes que é melhor não esmiuçar, que mais vale deixar a dormir para sempre porque não se sabe que rumo tomam uma vez acordando e andando à solta por aí. Muitas vezes há coisas que é melhor não perguntar, porque apesar de não terem poder em si mesmas, de não possuírem força alguma e de até ali não terem feito qualquer diferença no rumo dos acontecimentos, uma vez expostas à luz crua do dia, a impressão fantasmagórica que deixam pode assombrar de tal modo que nada volta a ficar como estava. 

 Uma delas são os espectros e esqueletos no armário de cada um. Mesmo nas relações mais estreitas, francas, saudáveis, maduras, próximas e desempoeiradas, em que se conhece relativamente bem o percurso da outra parte (e importa sempre saber o essencial, porque ninguém gosta de conviver com estranhos, nem isso é seguro) há aspectos, incidentes, erros ou pormenores que convém serem guardados, que cada um cosa consigo  para não mais verem o sol. É como desenterrar um cadáver sem motivo- não serve de nada, mas aflige.


Porque uma coisa é a realidade, ou o que foi a realidade...e outra é a forma como cada um a sente. À semelhança de um filme que perturba, nenhum espectador o percepciona da mesma maneira, ou tem as mesmas impressões. Quem abre a caixa, não sabe como vai reagir; quem a deixa abrir, não sabe como os outros olhos verão o que está lá dentro. Ainda que quem abre tenha também a sua própria caixa, que é muito tentador abrir também, no melhor espírito quid pro quo, "show you mine, show me yours" levando ao caos. E o caos dá-se sempre;  por muito vazias que as caixinhas estejam...há sempre algo que era preferível ignorar. 

Os Maias, a romântica e destrambelhada Maria Monforte dizia que o passado é cheio de coisas do outro mundo, e como o vinho - nunca deve ser agitado nem remexido. E o termo coisas do outro mundo é muito certo: bom ou mau, o que passou - os antes e os seus  pormenores que parecem sempre grandes filmes a quem não esteve lá- aconteceram noutro mundo, com outra perspectiva, noutra realidade, com almas que já nem fazem parte desta dimensão, motivados sabe-se lá porquê. Mas ainda assim ferem como dardos. Se a água passada não alterou o essencial, se não levanta nenhum sine qua non, então é escusado dissecá-la.

 Na Caixa de Pandora nunca houve nada de bom, por mais apelativo que parecesse dar só uma espreitadela, nem que fosse só com a intenção de compreender melhor o mistério. O universo do outro é sempre um mistério; o outro é sempre misterioso, e não o compreender totalmente faz parte do seu encanto. A verdade é muito importante; as cores e as facetazinhas cruas dessa verdade, que não dizem respeito senão a cada um, not so much. Conhecimento é poder, mas o excesso de informação - de informação inútil ou irrelevante, bem entendido -  nunca fez bem a ninguém.


Monday, November 9, 2015

Os "Inglorious bastards" da vida (ou o momento de os reconhecer)


Recentemente, partilharam-se aqui os conselhos preciosos de um Padre para identificar a pessoa a quem não se deve entregar a mão e a vida.

Um deles era importantíssimo: nunca amar ninguém que seja capaz de ser cruel.  Na verdade, parece  uma regra  simples...mas não é. A crueldade pode ser muito subtil; ser exercida aos bocadinhos, mostrar-se quotidianamente em pequenas coisas, e como  tal vai-se instalando e passando quase despercebida.   

Mas entre começar a abrir os olhos e acordar de vez, há aquele momento em que se percebe "espera lá, mas ele (a) é má pessoa.  Não, pior: ele (a) é um (a) valente sacana".



Esse momento de iluminação pode ser imediato (toda a gente já teve instantes "eureka" que fizeram com que nunca mais se olhasse para alguém da mesma maneira) ou ao retardador, meses depois, quando se encara as situações com outra lucidez e outra frieza.



  E o tal momento click, a tal epifania, pode ser o acto ou a recordação daquela afronta , aquela desfeita pior que as outras, que o outro fez no firme propósito de ferir; daquela discussão em que se disseram coisas dolorosas que nunca mais se apagaram; de todas as vezes que se voltou a casa, ou se adormeceu, com lágrimas nos olhos e a sentir o coração a afundar-se depois de tentar e tentar que as coisas mudassem, para ficar tudo na mesma (e o "sempre na mesma" é uma doença fatal). 

Das infinitas vezes em que provocar o choro ou sofrimento não fez com que a sacanice parasse, nem por um instante só. Porque maldades de cabeça quente qualquer um pode fazer, mas para não se comover é preciso ser sacaninha. Ou até daquela atitude que nem dizia directamente respeito - foi com o empregado de mesa, foi com o animal de estimação ou a propósito de um amigo, etc- momento em que se viu claramente, porque afinal já não se fazia cerimónia, aquilo de que a pessoa era capaz.

Ninguém é perfeito, nem há relações perfeitas. Mas crueldade, patifaria e sacanice não têm cura. O diagnóstico dos "inglorious bastards" - que passam pela vida de cada um com barulho, mas sem glória - é que pode demorar...







Saturday, November 7, 2015

"See me, feel me, touch me, heal me".


Ter pais apaixonados por música e que decidiram apresentar aos filhos os filmes e discos da sua juventude o mais cedo possível, dá nisto:  a "trindade" Tommy, Jesus Christ Superstar e Hair acompanhou a minha infância quase toda, e eu e o meu irmão não tardámos a contagiar primos e amigos. Aos sete ou oito anos, Tommy, a rock opera dos The Who, a delirante versão de Ken Russel, era um dos meus filmes preferidos e continua a sê-lo hoje (a par com os outros dois da trindade...). 

Revi Tommy ontem, de fio a pavio (arreliada comigo própria por não andar a ouvir tanta música como de costume, de não saber do CD do Tommy de e ultimamente desprezar o piano, que qualquer dia embrulham-se-me os dedos). E continua a emocionar-me como sempre emocionou, com o seu simbolismo louco a levantar sempre novas questões. É um filme que nos faz pensar de forma diferente consoante o estado em que o vemos.



Para quem não conhece (recomendo que o vejam de mente, mas sobretudo, ouvidos abertos) o menino Tommy perde, após um trauma, o uso da visão, da audição e da fala. Aparentemente, pelo menos - vive fechado em si próprio, no seu mundo interior (o que desespera a sua mãe que se sente horrivelmente culpada do sucedido) até se libertar e alcançar a iluminação ou coisa que o valha (uma ideia muito em voga na época) . Com isso torna-se uma espécie de figura messiânica em versão rock & roll, cheia de paralelismos com Jesus Cristo que qualquer pessoa baptizada percebe.

 Além dos elementos dos The Who, de um figurino e cenografia icónicos, o filme está cheio de celebridades nos principais papéis, como Tina Turner, Eric Clapton, Elton John e um jovem (e muito atraente) Jack Nicholson que pasme-se, canta realmente bem!


   Ora, voltemos à realidade: já se sabe que um choque pode fazer com que se perca o uso dos sentidos ou de outras faculdades - ou simplesmente, que se desligue sentimentalmente. Mas nem sempre isso acontece de forma tão literal como sucede com o Tommy. 

É muito fácil alguém fechar-se sobre si próprio depois de um desgosto, experiência de medo intensa ou por qualquer convulsão interior, perdendo a capacidade de se expressar ou de deixar que lhe toquem, emocionalmente falando. Vemos isso em muitas mulheres que querem ser amadas, mas não conseguem libertar-se das feridas do passado e por isso congelam ou sabotam sempre tudo- é matéria que enche consultórios. Em jovens inadaptados, que acumulam depressões e desajustes aparentemente sem causa, para desespero da família. 



Vê-mo-lo em homens incapazes de se explicar e em inúmeros casais que criam autênticas cortinas de ferro que os separam. Por vezes, torna-se impossível chegar a certas pessoas- e certas pessoas nem a si mesmas conseguem chegar. De um momento para o outro há um Muro de Berlim emocional que inviabiliza o toque, a comunicação. A alma fechada vê, ouve, sente, tem boca para falar, mas é como se fosse teimosa e voluntariamente cega, surda e muda. No filme, há este apelo constante e aflitivo: see me, feel me, touch me, heal me. Sem sucesso, até se dar o clique ou um momento que inexplicavelmente varre tudo isso. No caso do Tommy, que só conseguia 
manifestar-se de alguma forma perante os espelhos, trancado consigo, essa  libertação acontece quando o espelho se estilhaça. Para muita gente, tal como ele, pode ser preciso esse empurrão, que alguém quebre o vidro em mil pedacinhos. Mas quem se calafetou a sete chaves e deseja sair da prisão interior que criou sem querer, também tem de fazer a sua parte: ouvir, deixar-se guiar, seguir. Só assim é possível sentir o outro, ver a glória reflectida nele, abandonar a cela gelada em que se entrou, encontrar calor humano, compreender, amar, situar as emoções, entender a história, partilhar a glória dos pequenos momentos que tornam a vida plena. Porque é impossível fazer música sozinho, sendo cego, surdo e mudo, ou ser livre atrás de grades.






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