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Thursday, October 12, 2017

Divisão de tarefas: as mulheres e a "carga mental"




Por norma e por princípio, costumo estar no mais completo e assumido desacordo com os exageros feministas. Por vários motivos lógicos ( este texto excelente que encontrei explica tudo) mas sobretudo porque quem engole essa cassete se dedica a debater histericamente problemas imaginários em vez de incidir nas questões que realmente afligem as mulheres por esse mundo fora.



Porém, no meio de tanta tinta desperdiçada em artigos patetas sobre "papéis de género" há um assunto que tenho vindo a encontrar mencionado aqui e ali, e que importa assumir que existe: a sobrecarga mental que cai sobre as mulheres no que toca à gestão da casa.





Isto porque não é que os homens não ajudem (vamos partir do princípio que ajudam e já voltamos a isso mais adiante).

 É que há uma diferença entre "ajudar" e "fazer a sua parte" ou entre "cooperar" e ser pró-activo. Esse ângulo subtil tem aparecido nos média aqui e ali: esta crónica de Paulo Farinha relata um exemplo disso em primeira mão e até mesmo publicações Católicas se têm debruçado sobre ele


"O fenómeno da carga mental consiste em pensar sem parar nas coisas que há para fazer, antes mesmo de delegá-las. É pensar em todo o trabalho quase  invisível que faz um ambiente doméstico funcionar, como a preocupação porque logo vai acabar o papel higiénico e é preciso colocá-lo na lista de compras, o medo de se esquecer de marcar consulta médica, lembrar-se de comprar as passagens para as férias…
Para poder dedicar-se a estas coisas, ou inclusive para delegá-las, primeiro é preciso pensar nelas (...) geralmente é só a mulher que tem que pensar em tudo, já que o marido se coloca em atitude passiva e é preciso pedir-lhe para fazer as coisas”.



É certo partir do princípio que, nos dias que correm, um casal em que marido e mulher tenham carreiras fora de casa se vê obrigado a dividir tarefas. E que muitos homens, tendo vivido sozinhos, são óptimos cozinheiros e "donos de casa".

Depois, eu não serei a típica dona de casa de primeira viagem, desorientada com as alegrias domésticas: dificilmente encontrarão alguém mais antiquada do que eu no toca à imagem da mulher que cozinha bem (e que tira alegria disso) que faz por ter a casa organizada e confortável e que adora mimar a cara metade.

Recebi desde muito nova esses valores: não importa o quanto um homem ajude, não importa se a esposa tem governanta e mulher a dias: supervisionar e orientar é um trabalho minucioso que precisa de jeitinho feminino. Os homens adoram ser apaparicados e as mulheres (as do meu tempo e do meio em que cresci e me movi, pelo menos) gostam de apaparicar. Nada de errado nisso.  Igualmente, sou toda a favor da liberdade (ou mesmo do cenário ideal) de a mulher, se a família tiver meios para se dar a esse luxo, ficar em casa a cuidar dos filhos, ou trabalhar apenas em part time. Principalmente se tiver algum rendimento próprio, porque nunca se sabe o futuro e em todo o caso, é sempre melhor contar com autonomia nos gastos quotidianos.


No entanto, ser tradicional não significa ignorar a tal sobrecarga psicológica que está associada aos afazeres domésticos!




Assim como um homem saber cozinhar e limpar não implica, necessariamente, que o fará ao ritmo necessário para uma vida a dois e/ou com filhos.

 A dinâmica de um casal é diferente de viver em casa dos pais, ou para si mesmo (a) e exige uma adaptação que nem sempre é suave.






 Cenários à parte (independentemente do perfil social, com mais desafogo ou menos, com ou sem pessoal doméstico para ajudar e com mais ou menos apoio da família alargada ) a realidade para a maioria dos casais entre os 20 e muitos e os 40 e poucos é ambos trabalharem fora e (hipoteticamente) dividirem as tarefas em casa.

A palavra corrente é que ainda há muito a evoluir nesse sentido. Para mim, partilhar tarefas é uma conclusão meramente lógica. Se nos anos 1950 a mulher ficava em casa o dia todo enquanto o marido trabalhava para pagar as contas, o justo é que cuidasse do lar e dos filhos. Se hoje os dois têm iguais responsabilidades fora de casa, o justo é que dividam as responsabilidades domésticas como adultos conscientes.







Porém , ainda admitindo que isto acontece - que o marido dá a papinha ao bebé, que aspira a casa, que vai às compras, que sabe cozinhar e faz tudo como manda o figurino sem achar que está a fazer um favor em limpar o que sujou- a verdade é que os homens tendem a um certo comodismo. 

Ou seja, até ajudam...mas esperam que lhes digam o que fazer. E às vezes ficam muito admirados por a mulher refilar que isto ou aquilo não está feito.








"Mas então - resmungam eles- custa alguma coisa
 pedir-me para lavar a  louça/ pôr o lixo fora/ levar o cão à rua?".

Ou ainda "mas está aborrecida porquê? Se ela não me disse para fazer isto ou aquilo!"

E não esqueçamos a mania de fazer as coisas, sim senhor, mas apenas ao seu próprio ritmo, quando bem lhes parece, e não quando a necessidade surge, vulgo: "eu já disse que aspirava/limpava e trato disso daqui a bocado/amanhã de manhã".

Ou seja, mesmo no nosso mundo supostamente igualitário, a biologia ataca e o homem tende a ataques de criancice, querendo ser mimado como se a mulher estivesse em casa a tempo inteiro ou, pelo menos, esperando ser orientado naquilo que é preciso. O pior é que planear, decidir, escolher, representa metade do esforço que é preciso para realizar as ditas tarefas. Estabelecer a lista das coisas para fazer, lembrar a cara metade de as levar a cabo e verificar se foram feitas é um trabalho em si mesmo - e um trabalho exaustivo, que faz a mente feminina funcionar como um ábaco o dia todo. Supostamente, eles tendem "a deixar-se levar a partir do momento em que começam uma vida a dois




O que a longo prazo acaba por se tornar opressivo, deixar a  mulher à beira de um ataque de nervos/fanico/esgotamento e na melhor das hipóteses, fazer com que ela caia na tentação de ralhar e murmurar. Muitas mulheres anseiam - por exemplo- pela hora de regressar ao trabalho a full time depois da licença de parto, porque já não podem ver roupa e louça à frente!


O remédio para tal "mini flagelo" reside na comunicação diária, verbal e não verbal; mas também em as mulheres adoptarem uma atitude mais relaxada, não querendo tudo na perfeição e deixando que as consequências/ actos falem mais alto do que muito palavreado. 


Ou seja, primeiro há que chegar a acordo quanto a  quem faz o quê, mesmo que seja em modo "fake it ´till you make it" - assumindo que o acordo poderá não resultar na perfeição ao início.



Segundo, abandonando a atitude "nunca peças a um homem para fazer o trabalho de uma mulher". Se o marido não desempenha as tarefas tão bem como se gostaria, ou na ordem/ritmo que seria de desejar, paciência; é melhor do que nada e só a prática leva à perfeição. 

 Terceiro, é preciso encarar a questão com bom humor. Rir dos desastres é o melhor remédio!  Há dias, regressava eu com o meu mais que tudo do supermercado e dei-lhe à escolha: ou ele tratava da louça e eu arrumava as compras, ou vice versa. Ele, que detesta vivamente a louça mas gosta ainda menos de andar no tétris com o frigorífico e os armários, (apesar de ser muito mais alto e de ter muitíssimo mais jeito do que eu para isso, diga-se de passagem) lá se conformou com o pior dos dois males e pôs-se a lavar os pratos, não deixando de atirar um chiste à bonita forma como as mercearias iam ficar organizadas... devolvi-lhe a graçola e lá continuámos. Mas como desde que o mundo é mundo os homens não sabem fazer nada sozinhos, sempre me ia pedindo que lhe chegasse isto ou aquilo ou tirasse mais aqueloutro da frente.




É claro que eu, impaciente e cheia de sono depois de um dia  caótico, resmunguei se quando eu lavava a louça, por acaso lhe pedia que limpasse o espaço para eu poder trabalhar...e disse que se desembaraçasse porque eu ainda nem tinha descalçado as botas!

Pois não se ficou e desatou a imitar-me, nos seguintes termos:

"Olhem para mim, pobre de mim, sou uma infeliz, sou uma desgraçada...ai de mim, que vou morrer calçada!".


É óbvio que desatámos a rir e acabou ali a má disposição.





 E por fim, em quarto, é vital saber realmente delegar e confiar; por muito que doa deixar a casa menos impecável! Ausentar-se  quando necessário sem preparar tudo, ou deixar por fazer aquilo que de todo não pôde ser acabado, sem sentir culpa, tem mais poder do que muito sermão. Bem dizem os ingleses: aquilo que não pôde ser feito, não era tão importante como isso.






Afinal, como prega o povo, ou há moralidade ou preguiçam todos. Não ter peúgas enroladinhas na gaveta 
 uma vez por festa (e ter de as ir "pescar" ao cesto da roupa lavada pela manhã) ou encontrar a casa num rodilho quando chega, em vez do cenário aconchegante a que se habituou, não mata ninguém - mas terá decerto mais efeito num homem do que pedidos, censuras e ameaças. 

Por vezes é preciso combater uma atitude desfasada dos tempos com outra atitude à moda antiga: ou seja, aplicando o remédio da minha santa avozinha... dar-lhes o desconto que se dá às criancinhas e mostrar, como se mostra às mesmas criancinhas, que as atitudes mandrionas têm por consequência o desconforto.

Saturday, May 28, 2016

Ghostbusters só com mulheres- será boa ideia?


Já o tenho dito, Hollywood e os média em geral andam apostados em me escangalhar a infância com remakes e versões modernaças de filmes, personagens e séries bem amados pela minha geração. 

Não sei se será o caso de Ghostbusters, mas o que temos visto até aqui não me deixa nada descansada. Raramente fazem justiça ao original, quanto mais inventar para melhor, isto quando não se põem com paranóias da inclusão e da igualdade. Agora há uma orfãzinha Annie afro-americana (nada contra, até estou curiosa para ver o filme, mas ser ruiva era o cartão de visita da personagem. É o equivalente a fazer A Cor Púrpura com mulheres louras de olhos azuis: até pode ser feito, mas não fica a mesma coisa). 

E se eu adorava os Caça-Fantasmas! Que serões com os primos à espera de nos assustarmos benevolamente com as assombrações! O meu preferido era o taxista-múmia que se virava de repente, no meio do caos armado em Nova Iorque. E a Estátua da Liberdade a caminhar? E o Titanic a chegar ao porto? E a música, que ainda ouço às vezes?

Duvido que seja a mesma coisa; que com os novos efeitos especiais por computador se consiga o mesmo impacto. Agora, que o elenco se componha exclusivamente de mulheres, não me agrada nem me desagrada. Só me aborrece por ser a visão imposta pela ditadura do politicamente correcto. 




Fazia mais sentido ser misto - haver entre os rapazes uma rapariga gira e uma senhora mais velha de língua afiada, daquelas que não aturam tretas, a mostrar que uma mulher é tão capaz de caçar almas penadas como um homem em vez de se limitar a ser a donzela em apuros ou a secretária namoradeira. Mas não. Tinham de fazer uma equipa exclusivamente feminina because you know, feminism. Soa forçado e é uma seca que nem a diversão mais inocente seja livre de cassete política. É o que temos e sou capaz de ver só para tirar teimas, embora sob protesto e a pensar que há aqui discriminação contra os homens e misandria, em modo " agora vingamo-nos, aqui menino não entra". Ah, grow up already.

Wednesday, May 18, 2016

Dos protestos contra os saltos altos (e do bom senso)



Há dias comentei no facebook que acho um disparate a birra contra o uso de saltos em Cannes. Pelos motivos que detalhei aqui no ano passado e sobretudo, porque as celebridades cabeças-ocas em causa perdem a razão quando atiram com o argumento "não me podem exigir algo que não exijam a um homem; eles não têm de usar saltos" (também era o que faltava, os cavalheiros aparecerem lá como este; then again, já andámos mais longe). Ora, por amor de Deus! Também não se vai lembrar às senhoras que venham barbeadas e usem gravata, pois não? Não faria sentido.



Uma passadeira encarnada é uma coisa: quem não quer cumprir o dress code entra pela porta dos fundos e caso arrumado, se bem que não faltam saltos razoáveis e confortáveis que cumprem o figurino sem matar os pés. E para o resto, há rasos festivos. Não fica tão bem, mas não é impossível caso se tenha um entorse ou assim. Sem mencionar o velho truque de levar umas bailarinas escondidas para calçar nas pausas sem ninguém ver (fiz isso dezenas de vezes e recomendo imenso o truque para casórios e outros eventos). Ou que os sapatos realmente bons ( a que desculpem lá, as celebridades têm franco acesso) não magoam quase nada. Qualquer pessoa que já tenha calçado uns Jimmy Choos ou equivalente sabe que não têm comparação em conforto com uns saltos baratinhos. Hipocrisia much?

Esta "caridadezinha para inglês ver" torna-se mais disparatada ainda quando se trata de comparar ir calçada com Casadei ou Gucci para um par de horas num evento glamouroso onde quem quer pode sentar-se,  com uma jornada de trabalho em saltos altos de qualidade duvidosa - situação a que as estrelas de cinema pretendem igualar-se andando de pés nus.

Algumas das actrizes que assim "protestaram" deram a entender que foram descalças em solidariedade com a empregada de mesa canadiana que feriu muito os pés por ser obrigada a usar scarpins um dia inteiro (a imagem é chocante e não sei se me arrepiam mais os pés magoados ou o sapato que parece mesmo sintético, rijo e desconfortável; pobre pequena). Oh, b*** please: já me doeram os pés em festas do croquete, mas todos sabemos que não tem paralelo possível com estar 8 horas em cima de tacões.


O que me leva ao essencial: quem me lê sabe que não defendo saltos disparatados no dia a dia. Stilettos e afins, só em ocasiões especiais -até porque é de mau gosto andar por aí em preparos demasiado festivos. No quotidiano, costumo  cingir-me a saltos largos de 5 cm, mais ou menos.

Mas algumas organizações (e muitas dirigidas por homens que não agem tanto por "machismo" mas por faltinha de noção, quanto mais não seja noção de estilo) precisavam de contratar stylists para não fazerem disparates com as suas funcionárias. Certa vez, estava a representar a empresa onde trabalhava numa convenção (ia de sheath dress e com uns scarpins de salto médio italianos fofinhos e muito macios, já a contar com umas valentes horas de um lado para o outro a falar com pessoas). E do nada, deparo-me com duas raparigas muito novas que vinham em nome de uma start up. Coitadas, nem queria creditar quando me disseram que não eram hospedeiras contratadas para promover um produto maluco qualquer, mas marketeers. Imaginem: vinham com uns vestidos curtos que pareciam saídos do Star Trek e de sandálias (nota bene: sapato aberto num evento de negócios) brancas, altíssimas, compensadas, com tiras nos tornozelos, enfim...calçado de stripper.



Fiquei abismada e cheia de pena por me confirmarem que estavam aflitas dos pés e que tinham vindo assim calçadas (já não falo do resto) por ideia do chefe. Say what??? Sem me querer contradizer - e sabem como sou avessa a ver sexismo em todo o lado - mas aquilo foi muito chauvinista, além de pindérico e de mau gosto. No melhor modo "mandamos para lá estas duas bonecas de feira que tanto faz terem um diploma na área como não; assim como assim só lhes vão olhar para as pernas". Duvido que tenham feito alguma apresentação de jeito, doridas como estavam. Ou que alguém lhes desse ouvidos.

Lá está, tudo tem o seu lugar. Ir descalça para Cannes ou qualquer festa formal é inapropriado, desnecessário e ridículo. Usar saltos assassinos no dia a dia  é inapropriado, desnecessário e ridículo, além de doloroso. Mas anunciar "o fim desse tipo de sapato" por ser uma agressão às mulheres é o fim do mundo. Não prescindo deles nem que chovam canivetes, mas como qualquer arma, é preciso sacar deles só em momentos-chave. Custa assim tanto distinguir esta nuances?




Tuesday, May 17, 2016

Jennifer Lopez tem uma certa razão!




Ando um bocadinho viciada no novo single de Jennifer Lopez, Ain´t your Mama.



É que, fora a mensagem feminista mais fanada que os as barbas de D. Fuas Roupinho no início do videoclip ( estou cheia de pena da J-Lo magnata e cheia de sucesso a exigir "equal pay"; olhem para mim comiseradíssima) e pondo que uma mulher não morre por mimar um pouco os homens lá de casa (fazer uma sanduíche ao pai, irmão ou marido é uma gentileza, não um gesto de criada para todo o serviço) a menina tem um bocadinho de razão.




Afinal, quase todas já se cruzaram com/ têm uma amiga que apanhou, um bebezão imaturo deste género, um preguiçoso que não é homem que sirva para coisa nenhuma e ainda toma a cara-metade por garantida. Isto para não falar de casos piores, dos  marmanjos para quem a "igualdade" veio dar muito jeito porque a dignidade masculina não lhes assiste; são daqueles que deixam a mulher carregar os sacos e se lhes derem asas, nem se ralam nada de serem sustentados por ela, e ainda muito obrigada por cima! *arrepio de repugnância*. E de resto, a cantiguinha cai como uma luva a qualquer homem que se acomoda com a mulher de quem gosta a sério e que acaba em modo Lambada (com ou sem estalo) "chorando se foi/ao lembrar de um amor/quem um dia não soube cuidaaaaaaaaaaaar".



Then again, estará Ms. Lopez a falar por experiência própria, já que arranjou um boy toy namorado muitíssimo mais novo que ela, aproveitador e malcriado como tudo, sem fortuna nem predicados que o recomendem (e que aqui entre nós que ninguém nos ouve, ainda por cima não deve nada à beleza) e que tem mesmo cara de fazer o que ela canta, ou seja, de passar o dia sentado no dito cujo a jogar videogames?

Oh Jennifer, a menina é too good for that, too good for that!


Não quero soar preconceituosa: Jennifer Lopez fez-se uma mulher lindíssima (aquela cinturinha! Aquelas maçãs do rosto! Tudo cinzeladinho e modeladinho, a provar que no pain, no gain). Não envelhece nem por nada. 





Quando começou a aparecer eu achava-a uma morenita igual a tantas latinas cheiinhas mas desabrochou, sofisticou e mais retoque menos retoque, está uma beldade. Se não fosse o penúltimo hit escabroso em que tentou competir com as novas "rainhas do derrièrre" teria a maior admiração por ela. Quanto mais não fosse por gratidão pelas vezes em que dancei ao som disto e pasmava para o vídeo, que era um encanto:




Voltemos a 2016 (fico sempre tonta com estes flashbacks) e à Jennifer: qualquer homem seria um sortudo por estar ao seu lado, mais velho ou mais novo. Mas a estatística não recomenda tais namoros porque "eles" já são, por natureza, mais imaturos e ainda por cima acham (repito: acham) que têm a natureza do lado deles, como se não existissem calvície, andropausa e essas maleitas masculinas todas. Ainda há dias tivemos um caso por cá, e caso bem disparatado...cada uma sabe de si, cada situação é uma situação, há pessoas decentes e há crápulas em todas as idades, mas é de desconfiar.



 E quando uma mulher é bonita e rica e o namorado-fedelho nem por isso, há que desconfiar o triplo das suas boas intenções. Jennifer tem um filho para criar, não precisa de outro. Esperta era se arranjasse um homem à séria que tomasse conta dela, não que Lopez precise mas sabe sempre bem. Simbólica e emocionalmente, pelo menos. Lá diz o ditado "uma mulher a sério basta-se a si mesma, mas um homem a sério não a deixa fazer tudo sozinha".  Não vejo onde está o charme dos imberbes... to each their own, fazer o quê.



Em todo o caso, a canção é bem orelhuda e o vídeo cheio de referências vintage é muito engraçado (e bom para ouvir enquanto se faz exercício, fica a dica). Já me pôs a cantar e a dançar I ain´t your mamma cá por casa, que pelo andar da carruagem ainda pensam que me passei para o lado negro da força e internam-me porque no dia em que desatar a queimar soutiens, é sinal que pirei de vez. Mas nunca fiando: como diz a Jenny from the block, nunca convém deixar que o "inimigo" fique demasiado confortável. Uma coisa é ser tradicional e feminina, outra é ser tapete. Não se confundam.

Thursday, April 21, 2016

Bela, recatada e do lar...porque não, hein? Ou o lugar da mulher não é onde ela quiser?



Por terras de Vera Cruz - e a reboque da crise política - vai um grande burburinho que pôs as feministas de plantão de cabelos em pé (há quem fale em histeria colectiva) e que convida a pensar.

Antes de mais, deixem-me explicar o motivo de ultimamente eu andar atenta ao que se passa quer no país irmão, quer nos Estados Unidos no que respeita à condição feminina e, por conseguinte, de isso ter um certo protagonismo aqui no blog: é que todos os exageros, todas as bizarrias e todos os disparates de uma certa agenda à esquerda, liberal, ou o que queiram chamar-lhe, vêm ultimamente das Américas, mas acabam inevitavelmente por se reflectir aqui (vide o caso do Happy Meal ou mais recentemente, o do Cartão de Cidadão). Temos tido alguma sorte por, no velho continente, as ideias mais extremistas andarem pela Suécia ou pelos países de Leste, mas não nos fiemos.

Esclarecido isto, vamos à polémicazinha: a revista Veja! dedicou uma elogiosa reportagem à mulher do actual vice-Presidente do Brasil, com o título "bela, recatada e do lar" que foi imediatamente classificada como parecendo um artigo "dos anos 50" (qual é o mal?).


Caiu o Carmo e a Trindade, simplesmente por a postura tradicional da visada ser - aos olhos de quem leu - elogiada como "ideal". E claro, as mulheres "emancipadas" reagiram com memes mostrando que não querem ser "do lar". Querem antes ser assim, bêbedas, malcriadas e "endiabradas" (Vade Retro, Satana):


Vamos por partes, para que não restem dúvidas: Marcela Temer (ex Miss, formada em Direito depois de casada) é um pouco um estereótipo ambulante daquilo que as pessoas adoram apontar como (detesto o mau uso da palavra) dondoca. Totalmente dedicada à casa, ao filho, ao lazer e esposa de um homem muitos anos mais velho, o que levanta sempre suposições mordazes.  Porém, ainda que seja uma "dondoca" bem casada com quem escolheu, novo ou velho, casamento de amor ou de razão...onde é que isso é pior do que coleccionar casos de uma noite e ficar a chorar na manhã seguinte porque ninguém quer casar com doidivanas, como tantas que há para aí e ainda se defendem com o feminismo? M-E-N-O-S.


Mas ponhamos isso de lado: recordo-me de, na adolescência, ficar muito espantada por ouvir a avó dizer que nunca tinha sonhado com outra coisa senão ser esposa e mãe. Com o mundo inteiro diante de mim, imensas possibilidades e - admito-o, que remédio - cheia da cassete que nos impingiram que nh nha nha, uma mulher não pode ser "só isso" achei extraordinário que afinal, ela tivesse deixado de ser outra coisa qualquer não por a terem proibido, mas por vontade própria. Foi assim uma epifania.


Por outro lado, mais cedo ainda algo me dizia que tão mau era uma mulher querer ser outra coisa que não dona de casa e não a deixarem, como era mau querer ficar em casa com os filhos (como se fosse fácil!) e ser censurada por isso. Para já, porque invejei poucas coisas na vida, mas uma delas eram os meus colegas cujas mães estavam em casa. Depois, porque quando lia as tiras da Mafalda, me parecia estranho que a Mafalda fosse pintada como a rapariga ideal (cheia de ambições intelectuais e stressada com preocupações políticas) enquanto a Suzaninha era retratada como uma bisbilhoteira ignorante, só por ser mais feminina e querer ter muitos filhinhos.

Não que houvesse mal nos sonhos da Mafalda ou nos sonhos da Susaninha: mas no seu extremismo, ambas eram chatas e limitadas, cada uma a seu modo. Não via porque é que a Suzaninha tinha de ser pior.


Depois, sejamos realistas: ou bem que as conquistas dos últimos cem anos deram às mulheres liberdade para serem o que quiserem (cientistas, militares,artistas e sim, donas de casa) ou bem que não deram. Ou há moralidade (ou neste caso, liberdade...) ou... o resto. Até porque já se sabe, you´re damned if you do and you´re damned if you don´t: as mesmas almas que pregam que temos mas é de estudar e trabalhar chega-se a uma certa fase da vida e começam a perguntar "e quando é que casas? E quando é que os teus pais têm netos?". Haja paciência e metei-vos na vossa vidinha, sim?


Por isso, pessoalmente fico-me por um saudável meio termo: que uma mulher estude, que se prepare, que conquiste a sua  independência e mais tarde se quiser abrir mão de uma carreira, se puder e o casal tiver meios para isso muito bem; esteja em casa. 

Seja a rainha do lar, que é uma nobilíssima e muito trabalhosa ocupação, seja o lar simples que precisa de cuidados diários bem cansativos ou a casa grande com pessoal doméstico que exige uma gestão complicadíssima. Fique se quiser, senhora do seu direito, de preferência se tiver meios seus (herdados ou conquistados a pulso, não importa) e/ou alguma actividade a partir de casa ou em part time, não só por uma questão de realização pessoal mas porque, como já discutimos, não acho boa ideia depender totalmente de ninguém: não sou a favor do divórcio mas como diz o povo, hoje estamos bem mas amanhã vai-se a ver.


Mas o que sela o assunto foi a forma como o mulherio sempre pronto a ver machismo e opressão até num ovo retaliou  incendiando a internet (e este texto explica-o lindamente). As mulheres "moderninhas" sentiram-se "oprimidas" pela reportagem, só porque implicitamente ela diz "Marcela não é como vocês: não anda para aí seminua, não protesta a favor do aborto, não é promíscua; porta-se bem e é a típica mulher para casar". Já se sabe que por trás de cada afirmação do tipo "só Deus pode julgar-me" há um fortíssimo "deixem-me pecar em paz". Alguns memes tinham a sua piada, como estes históricos que satirizaram o assunto pintando Leonor de Aquitânia , Catarina de Medici ou Isabel I como "mulheres do lar".


A diferença é que Leonor, Isabel ou Madame Curie não só fizeram o que tinham a fazer sem precisarem de "feminismos", como sempre souberam estar. Uma mulher pode escolher não ser "do lar", mas bela e recatada convém que seja.  Se ser uma mulher "moderna" é ser uma taradinha canta monos, uma histérica, uma devassa, uma desleixada, antes ser  mulher do lar, mil vezes. Lá dizia a Dorothy, there´s no place like home.









Monday, April 18, 2016

Quando uma deusa bate o pé, os céus estremecem...mas há que saber bater o pé.





Oxum, a Vénus negra e senhora das águas doces, é uma das divindades mais interessantes das mitologias de origem africana, comum a religiões como a umbanda, a santeria ou o voodoo. Os seus atributos são muito semelhantes ao da Afrodite grega - ou seja, tem poder sobre o amor, a beleza, o luxo e a fertilidade- mas também lembra um pouco a Juno dos romanos, já que é capaz de influenciar  a riqueza e fazer casamentos.

Quando penso nela imagino sempre uma Beyoncé, mas com uma presença mais aristocrática e menos agressiva.

No entanto, embora Oxum não seja normalmente pintada como a espalha brasas entre os orixás (deuses)- ao contrário de Iansã, Deusa das tempestades - também tinha os seus dias não. E esta história mostra que, como todas as mulheres meigas e femininas, ela também tinha o seu ponto de ruptura, ou os seus momentos "sou muito doce e prefiro levar os assuntos com subtileza, mas não façam de mim tonta".


Ora, todos os dias Oxum, mulher trabalhadora e zelosa do seu trabalho, tinha uma canseira: era garantir a fertilidade da terra, das mortais  e dos animais; era alimentar com o seu poder as fontes, rios e nascentes, tornando a terra produtiva...enfim, ela não fazia o tipo da beldade ociosa, sentada todo o dia frente ao espelho. Por isso achou, já que dava um contributo tão importante, que seria mais que justo assistir às deliberações dos deuses. Não estava certo simplesmente destinarem-lhe tarefas sem que ela pudesse ajudar a delinear estratégias no seu próprio campo de actuação. Ciosa das suas razões, foi pedir-lhes  que a deixassem participar nessas reuniões...mas responderam-lhe "menina não entra".


Que fez Oxum? Não berrou contra a opressão dos homens, não convocou protestos, não arrancou as roupas nem fez figuras tristes. Sorriu e calou-se bem caladinha, voltando para os seus aposentos. E decidiu castigá-los, mostrar-lhes o seu poder e a sua importância para lhes provar que estavam enganados a seu respeito. Então agiu exactamente como Deméter na mitologia grega: retirou a sua protecção à Terra. As fontes secaram, os casais pararam de ter filhos, o gado não se reproduzia, os campos ficaram estéreis. Os outros orixás não tardaram a andar desesperados pois, por mais que usassem os seus próprios poderes para corrigir estas calamidades, nada funcionava.



Aflitos, foram ter com Olorun, o Ser Supremo, para que lhes acudisse. E ele perguntou de imediato se por acaso não se teriam "esquecido" de convocar Oxum para as reuniões pois, sem a sua influência sobre a fecundidade, nada podia resultar. Então os orixás masculinos viram como tinham sido insensatos, indo a correr convidar Oxum, que se fez de novas e só aceitou os seus pedidos após muita insistência. Depois de os fazer virar-se do avesso, lá tomou um assento entre os deuses e passou a ver a sua opinião respeitada. E assim a meiga Oxum bateu, com a sua astúcia feminina, a teimosia dos brutamontes que julgavam saber tudo...


Lá volto a Margaret Thatcher: ser poderosa é como ser uma senhora. Quem o é, demonstra-o sem ter necessidade de o afirmar. As mulheres têm muito mais a ganhar fazendo o que têm a fazer e mostrando o quanto são necessárias do que ralhando e lamentando-se. Até porque nunca houve um homem que percebesse ou respeitasse guinchos, tagarelices e muito palavreado...se queremos a admiração deles, há que lhes falar na linguagem que eles percebem: acção.

Thursday, March 24, 2016

Quando hippies chegam ao Parlamento, é o que temos.



Ora vamos lá ver uma coisa. Eu que sou careta assumida, que refilo para aqui com as doideiras das feministas de não se depilarem e gritarem que há opressão em todo o lado, não tenho nada a ver - nem quero- com o que se passa debaixo das saias alheias. 

Por estranho que pareça, até me dou bem com algumas hippies. Evito visitá-las nas aldeias idílicas de pedra onde moram porque tentam por força impingir-me tofu com todos (o chutney, em contrapartida, é uma delícia) e porque têm ideias esquisitas quanto ao impacto ambiental da descarga da casinha. Not my cup of tea, portanto. E é claro que - por muito que compreenda a necessidade de privacidade durante o parto - deito as mãos à cabeça com as doulas ou, pelo contrário, as barbaridades associadas ao parto "natural" ou à amamentação em público sem os devidos cuidados (se se voltarem discretamente para a parede, já não é nada comigo). Também acho uma contradição que, querendo tudo muito como manda a natureza, se entupam das hormonas-que-engordam que vieram com o movimento do amor livre; no entanto, cada uma sabe de si

 Ainda há dias uma conhecida-de-uma-conhecida se pôs como veio ao mundo nas redes sociais com a desculpa de "mostrar a barriga de oito meses", mas expondo tudo o resto (imagem publicada pelo marido macho-beta e super liberal sem noção do apropriado, nota bene) e eu só me persignei, mas mais nada.

E se nos "dias sensíveis" cada uma opta por tampax, modess, ou um copinho reciclável que pessoalmente acho repugnante e me lembra as ideias da bruxaria diânica em versão sinistra, também não tenho nada a ver com isso.


Desde que usem alguma coisa e não façam como certas feminazis que andam com manifestos de dar náuseas acerca disso, ou a fazer arte e a regar alfaces com...bom, blhec,  nem como aquele rapazinho que distribuía Evaxs pela escola, tudo bem. Usem lá o que bem entenderem discretamente para andarem limpas, livres e à vontade como nos anúncios. A ideia do tal recipiente arrepia-me até à alma, mas jura quem usa que é confortável e como diz o senhor pai, com o mal dos outros posso eu bem. Ou das outras, neste caso.

Agora que um partido - representado por um homem, de resto - venha impor uma redução no preço dos ditos copinhos horrorosos a ver se as mulheres se acostumam, já é muita modernice junta. É muita intromissão num assunto íntimo, é querer por força que as mulheres virem hippies malucas com muita consciência ambiental e que lutam contra o fim do "tabu" da menstruação, ou que gostam de chocar falando nisso. (Não é tabu nenhum: é só uma função natural com a qual ninguém tem nada a ver).

 É surpreendente: mal a esquerdice chega ao poder, dá nisto. De criminalizar piropos a baixar o preço a objectos íntimos de senhora (then again, não sejamos injustos: o Partido Comunista votou contra; nem o proletariado tem pachorra para ideias tão fúteis!) temos um laboratório de ideias avançadas. Tudo, menos pugnar por aquilo que de facto ajuda as mulheres. Eu sei lá, criar empregos, ou apoios à família como em França, por exemplo. 

Se não faltar nada às mulheres, elas próprias decidem que utensílios higiénicos são mais convenientes. Não é preciso ir para o Parlamento discutir o que se passa sob a roupa de cada uma. Podiam ter-se ficado pela bela ideia de as despesas veterinárias contribuírem para baixar o que se paga às finanças, que isso sim foi bem pensado e justo, já que são um Partido pelos animaizinhos. 

Agora o bicho mulher, esse sabe cuidar de si próprio, se o deixarem. 

Entre esta e a obrigação de declarar as galinhas poedeiras como "efectivos" para cobrarem impostos pelos ovitos que as pessoas têm em casa, não sei o que é pior.







Friday, March 18, 2016

Felizes as mulheres do Mundo Antigo




A condição da mulher nas diferentes sociedades de há mais de 2000 anos atrás tinha muito que se lhe dissesse. Aliás, foi um pouco assim sempre - com os direitos e deveres a variar para melhor e para pior, evoluindo e regredindo, de época para época e lugar para lugar, não necessariamente em crescendo. Por exemplo, ao contrário do que se convencionou nos bancos de escola, as mulheres na Idade Média (ou pelo menos, um número apreciável delas) gozavam de maior protagonismo e prestígio na vida pública do que em certos países/meios europeus durante o século XIX e mais além - isto se não quisermos entrar em comparações com a situação feminina actual em determinadas sociedades islâmicas. 

A própria Bíblia está cheia de regras e princípios - alguns aparentemente contraditórios entre si - acerca do comportamento feminino e das normas conjugais. E apesar do papel aparentemente submisso da mulher (ou mesmo por causa disso) era-lhe dada muitíssima atenção. Para o bem e para o mal, vá...



Uma série que vale a pena seguir no Canal História - e que a cada episódio analisa versículos bíblicos para tentar perceber o que eles nos dizem da vida quotidiana desse tempo, com base em dados não só do povo hebreu, mas das outras culturas com quem contactava - chamou a atenção para esta lei curiosa:

Quando um homem se tiver casado recentemente, não irá à guerra e não se lhe imporá cargo algum. Durante um ano estará livremente no lar para tornar feliz a mulher que ele desposou.(Dt 24,5)


É certo que os historiadores e especialistas convidados atribuíram - e com razão - tal medida à necessidade de as famílias crescerem rapidamente, dados os altos índices de mortalidade daquela altura. Escapar à infância era uma sorte e mesmo quem chegava à idade adulta estava sujeito a bater as botas devido a uma peste ou outra macacoa qualquer, isto quando a guerra ou diferentes formas de violência não tratavam de dizimar boa parte da população. 


Porém, atente-se na expressão utilizada: não é "estará livremente no lar para garantir descendência" ou outro termo mais categórico.

A Bíblia fala especificamente em tornar a mulher feliz. Num período de Lua-de-Mel ou numa grande licença de casamento para que marido e mulher se acostumassem um ao outro. Um ano inteirinho a cultivar o romance. Isto é muito sofisticado *e bonito*.

 Reparem que o nosso código do trabalho mega civilizado e democrático só diz, super friamente "são consideradas justificadas as faltas dadas por 15 dias seguidos por altura do casamento". Coisa mais chocha e sem coração. Hoje fala-se muito na "igualdade de direitos da mulher"...mas vejam lá se alguém se rala com a "felicidade da mulher"!


Depois, é curioso como vivendo numa cultura judaico-cristã, não se frisa actualmente o modelo defendido pela religião dos antepassados: quando uma pessoa se casa, não é para "ser feliz"- é com o dever de tornar o outro feliz. Se ambos trabalharem nesse sentido, focando-se mais nas suas obrigações para com a cara metade do que na própria felicidade, pela lógica ambos serão felizes. É o mesmo que toda a gente ser bem educada, dar prioridade a quem deve, não incomodar os outros, tratar bem o próximo: se todos cumprissem era uma alegria...


Mas não. Cada um casa com o desejo egoísta de "ser feliz" e descasa com o dobro da velocidade logo que, muito superficialmente, lhe parece " já não sou feliz!". Sem atentar que a felicidade não é assim uma coisa em linha recta, inalterável, adquirida; "ser feliz" não é andar por aí todos os dias como quem tomou um batido de Prozac ao pequeno almoço. A felicidade é feita também de pequenos alívios, de muitos confortos insignificantes. Um marido que faz por emendar as suas pequenas faltas e procura poupar à mulher toda as arrelias que pode, que a protege o melhor que sabe, que é carinhoso nas banalidades quotidianas... vale mais do que outro que se esmera nos grandes gestos, mas no dia a dia só faz o que lhe apetece como se vivesse sozinho, sem considerar os sentimentos "dela".

 Por vezes os antigos sabiam mais do que nós. Ou tinham outra atenção ao que realmente importa...






Tuesday, March 15, 2016

As mulheres e o mito de "tens de viver a vida"


Tive finalmente ocasião de ver An Education, filme que me despertava curiosidade há algum tempo e que - ou por ser um pouco too close to home ou por falta de tempo, me tinha escapado. O enredo é velho: rapariga com ambições académicas/de carreira apaixona-se por homem poderoso que põe o mundo aos seus pés. Ora, a certa altura vê-se confrontada com uma escolha: a professora que ela admira diz-lhe "és bonita, és inteligente, podes ser o que quiseres. Vai para Oxford". E a jovem responde "a professora é bonita, inteligente, podia ser o que quisesse, foi para Cambridge...e aqui está a corrigir redacções".

O enredo -apesar de a acção se desenrolar nos anos 50/60, época em que as mulheres começaram a ver-se de forma mais evidente perante este conflito-  resume aquele velho dilema ou falácia que ideias feministas e demasiado idealistas nos arranjaram: podes ser o que quiseres. Podes ter tudo. E às tantas até é possível, mas é necessário um sentido sobre-humano de timing e de oportunidade, muita elasticidade, muiiito sangue frio e um bocadinho de sorte. Sem isso, o tanas é que podes.



Em nome de uma independência (que é importante, sem dúvida) de estudar, viajar, alargar as vistas, construir uma carreira (um processo que é  arriscado tornar discutível, mas que se prolonga demasiado para o bem da maioria) é incutido às mulheres que adiem ad aeternum casamento e filhos. Mas - já vimos isto - eis que dali a um par de anos o "ainda é muito cedo" começa a transformar-se no desagradável "olha que se faz tarde". 


Uma rapariga é desencorajada de casar com o seu primeiro amor - ou mesmo de aceitar um compromisso sério com o apaixonado de liceu - porque ambos têm de viver as suas vidas. O problema é que muito provavelmente, não se sabe bem que vida vem a ser essa. E a rapariga acaba por se afastar do Afonso, que vai-se a ver não seria pior (pelo contrário) do que o Manuel ou o João ou o Miguel que conhece mais tarde e que se calhar, só se calhar, não seriam tão relevantes como o Afonso, que mal ou bem lhe queria com a maravilha e ingenuidade da primeira juventude, capaz de tornar tudo possível. Algumas das mulheres mais felizes que conheço não foram nessa pandeireta do "tens é de viver a vida" e mantiveram-se ao lado do seu high school sweetheart até hoje. Com muito "é melhor o diabo que se conhece do que aquele que não se conhece" e muita paciência, o namoro lá sobreviveu a faculdade, início de carreira, ventos e marés, até atarem o nó. Se calhar sem terem logo ao início as condições ideais, mas em modo "tudo se faz, tudo se cria, amanhã Deus dará". Raro na nossa geração - e se calhar, não fizeram senão bem.

Mas voltemos às que vão na tal pandeireta e largam o Afonso:  mais tarde, se conhecerem o tal homem poderoso e quiserem seguir o caminho dele, serem esposas no sentido tradicional, dedicar-se à família, o mais certo é ouvirem "estás a desperdiçar a tua vida". A vida, sempre a vida...

Para muita gente, uma vida só é vida se se assemelhar a uma conduta estilo Sexo e a Cidade ou Anatomia de Grey: carreira, amizades e imensos casos amorosos.

 Mas por outro lado, há o risco de um homem desse género - dominador, bem sucedido, com presença na sociedade-  não ser o que parece. Como no filme, nem tudo o que reluz é ouro. E a rapariga pode ver-se numa gaiola dourada, sem opção, sem alternativa, presa a uma relação disfuncional e com grande disparidade de poder. Encurralada.

Nisso o filme está certíssimo: aliás, é baseado num caso real e o testemunho da escritora que o inspirou dá que pensar. Dizia ela "antes de conhecer este homem estava sedenta de sofisticação. Depois de ele sair da minha vida, só queria estar com gente terra a terra e rapazes simples da minha idade".



A educação de uma mulher também é moldada pelos cavalheiros que conheceu. E há alguns que ensinam mais que mestrados, da melhor ou pior maneira.

É curioso como nos são dadas todas as escolhas, e no entanto elas continuam a não ser fáceis.Tem de se encontrar algures para as mulheres - e realçar para as gerações futuras - um ponto de equilíbrio entre o ainda é muito cedo e o olha que se faz tarde. Entre independência e amor. Entre espírito prático e felicidade. Entre o podes ser o que quiseres e o escolhe aquilo que é realmente importante.  Algures no meio disso tudo, há-de haver uma fórmula balanceada, do estilo "constrói alguma independência e não a percas mas quando o amor aparecer, agarra-o".

Suponho que tal pedra filosofal se encontre perdida entre o viver a vida e não desperdiçar a vida- que não é assim uma coisa distante, vaga, obrigatoriamente localizada num grande mundo onde todas têm de ser aventureiras, mas algo que acontece todos os dias. Na ânsia de viver, de viver não se sabe bem o quê, nunca se vive realmente.





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